Convite para partilhar caminhos de leitura e uma abertura para os mundos virtuais e virtuososos da escrita sem rede nem receios de censura. Ah, e não esquecer que os e-mails de serviço são osverdes.ptg@gmail.com ou castanhoster@gmail.com FORÇA!!! Digam de vossa justiça!
3.01.2017
A CEVADA E O TRIGO
TRIGO É TRIGO, CEVADA É CEVADA
Aquilo que fazes ou fizeres
Sem dizer porque o fizeste
Não significa o que quiseres
Sequer tem significado algum,
Além daquele que lhe deste:
Ou seja, absolutamente nenhum!
Num dia dão-te caixas prò vinho…
No outro "bonita" música te dão…
Mas como isso não foi explicado
Por que motivos, por que razão
Tudo se terá perdido plo caminho,
Tudo perdeu "o tal" significado
Pelo qual terá sido inventado…
Só quem é bobinho lhe liga,
Só quem tem mente celerada
Dá à palha o valor de espiga,
Julga o trigo como cevada.
Joaquim Maria Castanho
2.27.2017
A LENDA DO VASSALO CATIVO
A LENDA DO VASSALO CATIVO
No reino das cidades maravilhosas
Entre escarpas, entre montes
Havia um canteiro de rosas
Que abarcava três horizontes.
O primeiro, tocava as frondes
Da grande árvore das janelas
Que é onde estão todas as vezes de Era Uma Vez
E demais coisas puras e belas
Nascidas dos beijos trocados entre Pedro e Inês.
O segundo – quase tenho medo de contar… –
Dava para uma ilha de pérolas feita
Das mais apuradas que já houve no mar,
Que é aonde o sonho espreita
Quando encontra a vida a sonhar.
E o terceiro, tinha todos os filhos do primeiro,
Todas as netas do segundo
E ainda mais o resto do mundo,
Pelo que era um horizonte todo e inteiro
Com nuvens, visões, intermitências
Credos, artes, ambientes e ciências,
Com gavetas, prateleiras e estantes
Onde se arrumavam as histórias de até hoje e muito antes,
Assim como as que ainda faltam contar.
É nesse reino que eu vivo…
É ele o meu país.
E onde exerço o cargo de vassalo cativo
Súbdito do que o teu olhar me diz.
Joaquim Maria Castanho
2.26.2017
E FEZ-SE LUZ!
RAIO ILUMINADOR
Virou-se-me a vida do avesso
– Mancheia de gatas num balaio! –
Que dias há em que não só tropeço
Como, mal dou por mim, também caio.
E fico sem saber onde pertenço
Nas músicas de se entro ou saio
Quando, entrançado, estremeço
Suspenso por esse divino raio…
Luz que A Deus jorra e aplica
À razão dos que quer fortalecer,
Que onde Ela se mete não s'explica
Nem nenhum soneto o saberá dizer:
Assim, como eu, mudei prò Benfica
E não foi só por cansaço de perder!
Joaquim Maria Castanho
2.25.2017
BUSCA GLOBAL
BUSCA GLOBAL
Procuro, entre as cabeças, e vaivém
Dessas pessoas do agrupamento
Do momento que me são ninguém,
Teus olhos de mel de rosmaninho,
O teu rosto de flor contemplativa…
E faço-o numa continuidade tal,
Tão empenhado, tão insistente,
Numa maneira assaz superlativa
Que já me não basta este Portugal
E nem sequer qualquer continente!
Joaquim Maria Castanho
2.24.2017
ESSÊNCIA QUALITATIVA
ESSÊNCIA QUALITATIVA
Escreves poemas em mim
Onde os versos a brotar
São do veludo e cetim
Que só existem no olhar,
Com as sílabas de mel,
Com as letras de sol puro,
Que escolheram o papel
De me empenhar sem juro
E a pronto pagamento,
Estrela, voz no escuro
– Corpo, alma, alimento
Sem conter a veleidade
Doutro desconto incerto,
Além dessa qualidade
Que é nobreza e afeto.
Joaquim Maria Castanho
2.23.2017
TARDAR É TENTAR O NUNCA
NUNCA É TARDE
É… as horas resignam-se devagarinho
Minuto a minuto em cliques cinzentos,
Espalhando a tarde à toa plo caminho
Para não perder sementes nem alentos;
Sequer desentorpecidas aspirações,
Que quem rega as rosas rega espinhos
Pelos caminhos das tardes e dos serões…
Que o prazer é aquilo que se vai fazendo
Nas costas dos pecados e das confissões,
Minutos que subindo se veem descendo
Se a tarde se alheia de tardias opiniões.
Joaquim Maria Castanho
2.22.2017
HÁ OU NÃO JUSTIÇA DIVINA?
JUSTIÇA DIVINA: HÁ OU NÃO?
O meu poema tem os teus olhos,
Mas não és tu.
O meu poema tem o teu rosto,
Mas não és tu.
O meu poema tem o teu rabo-de-cavalo,
Mas não és tu.
O meu poema é meu, mas tu não.
Porém, se houvesse justiça divina,
Ainda que fosse infimamente pequenina,
Deus já tinha corrigido esta contradição!
Joaquim Maria Castanho
2.21.2017
TUDO SÓ POR BEM
TUDO [SÓ] POR BEM…
(BEM MENOS, BEM MAIS)
Vacina para dar o passo em frente,
É também essa legítima... herança
De quantos herdaram só o ser gente,
Ou que nasceram já amaldiçoados
Condenados a nada haverem de seu,
Na família onde não eram esperados
– Quer na vida que ninguém lhes concedeu.
Tudo conquistaram; até os dias tidos.
E, nos lugares que neles frequentaram,
Somente foram escutados e servidos
Porque para isso e de pronto pagaram,
Às vezes bem mais que a coisa comprada
Mesmo se ela valia bem menos que nada!
Joaquim Maria Castanho
2.20.2017
INSPIRAÇÕES!
INSPIRAÇÕES!
Porém esqueço-as; e só teu sorriso
Me lembra. Porque nestas gramáticas
Apenas cabe quem é útil e preciso.
Ou possui essa essência natural
De nos ser, além do mais, essencial.
Queria pensar na beleza das flores
Pelos campos amenos e verdejantes;
No arco-íris, e todas as suas cores
Lindas borboletas, joias, diamantes…
Todavia, sempre esse oásis me falha
E a poesia só por ti emana e calha.
Queria… queria… queria… queria… Mas… – Zás:
Que uma coisa é querer, e outra, ser capaz!
Joaquim Maria Castanho
2.19.2017
MEMÓRIA
MEMÓRIA
Se nada se perde também
Nada se tem para sempre,
Que ser é contínuo vaivém
Entre os céus e o ventre
Da Terra, essa mulher-mãe
D'humanos, filhos diletos
Nos dois géneros completos.
E fraternos igualmente
(Irmanados em igualdade),
Mesmo que a insana gente
Creia omitir a verdade…
Porque nada se perderá
Nem sequer o que já não há!
Joaquim Maria Castanho
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2.18.2017
DOR DE COTOVELO
DOR DE COTOVELO
Ora anda aqui gente que anda
Numa fona, e de sarabanda,
A trabalhar prà concorrência.
Gente esperta, coisa sabida,
Doutorada em maledicência,
A pecar com língua comprida,
Por desconhecer a diferença
Entre a realidade e a ficção.
Olho comprido, língua afiada
De quem quer tudo sem fazer nada…
Às vezes bate-lhe a demência;
Outras, a ardência… da confusão!
Joaquim Maria Castanho
2.17.2017
BRISA REMANESCENTE
BRISA REMANESCENTE
De manso o romance chegou
E do remanso se levanta
A romancear nos conta
Em palavras aspira ao voo
Rompe nuvens, brilha, tenta
Dá nós com que nos inventa
O remansear nessas idas
E vindas plo prado das vidas.
Os velhos sóis invoca.
Das doces vozes é chama.
É luz que paira e canta
Se nos encanta ou toca
A dolência de quem ama…
Então, das páginas lidas
Nascem vidas, entre as idas
E vindas plas linhas da trama.
Joaquim Maria Castanho
Imagem: Mulher Lendo no Jardim, da pintora polaca Barbara Jaskiewicz
2.16.2017
CANTO DO MOMENTO MÁGICO
CANTO DO MOMENTO MÁGICO
Já aconteci alma ansiosa
Sob tuas pálpebras descidas,
Perdidas em linhas de prosa
Poesia nas faces floridas
(Derme de cetim nacarado)
Onde sentir se sente ledo
Perfeito, belo, cuidado
Sempre se demasiado cedo
Tão natural se tarde mais,
Que o presente é um segredo
Entre tempos, entre umbrais
Entre colunas de Salomão,
Tão fraternas e tão iguais
Que são a sublime perfeição,
Conforme cantam os jograis…
Joaquim Maria Castanho
2.15.2017
2.14.2017
FIRME NÓ
NÓ FIRME
Ato meus olhos aos teus
Com um nó tão bem seguro,
Que até o próprio Deus
Diz nada haver mais puro…
Tal como urgente, digo eu
Numa pertinaz ousadia,
Já que o tear que os teceu
Só usa as linhas da poesia.
Fio de seda a ouro brocado
Quase em cabelos tão assim,
Que me nasceu por cuidado
Continuar meu olhar atado
Ao teu, sem ficar lado a lado
Mas antes tendo-o frente a mim
Com nó firme, tão bem dado
Que nunca veja chegado fim.
Joaquim Maria Castanho
2.12.2017
O SEGREDO DAS CORRENTES PROFUNDAS
O SEGREDO DAS CORRENTES PROFUNDAS
Sob águas cristalinas me dissolvo
No diluído tempo, sublime instante
Sentindo o sentido com que absolvo
O sonho de perder o sentir diletante.
E ficar imerso nesse pulsar novo
Da profundidade pura e constante,
Com que eu mesmo em mim me absorvo
Perante ti, tal se de mim fosse ante…
Então, toda máscara cai; e esse ator
Cujas personagens pueris já vesti
Naufragam, afundam-se tão-só ante ti
Para, transparentes e sem nenhum favor
Serem afãs vassalas do único amor –
Que unicamente elas sabem que senti!
Joaquim Maria Castanho
GUARDO ESSE SEGUNDO, GUARDO ESSE PÃO
GUARDO ESSE SEGUNDO, ESSE PÃO
Ponho a alma inteira nesse instante
Ínfimo no contato, mas de superior
Significado, onde me sonho infante
Dum reino teu, também por ti tutelado;
Nado de tuas mãos, onde predomina
Tudo e o que mais ninguém imagina:
Verbos com o significado duma flor –
Pétala que a nosso pão ensina… o amor!
Ponho a alma inteira nesse momento
Tão pequeno, semente numa transação,
Pulsar que é onda, enorme movimento
De todo o sentido na mesma direção,
Onde até o próprio zunir do ar e vento
São ditados e cuidados por teu condão.
Joaquim Maria Castanho
SEM TEUS OLHOS NÃO HÁ POESIA
SEM TEUS OLHOS NÃO HÁ POESIA
Sem teus olhos não há borboletas.
Sem os teus gestos não tenho asas.
Sem teu jeito fenecem os planetas
E nenhum sol aquece nossas casas.
Sem tua luz me apago, e os cometas
Caem ao largo, com caudas esparsas
Quase carvão, como se fossem setas
Feitas da sombra das finitas brasas.
Sem teu nome sou órfão segregado.
As palavras morrem-me na garganta.
Ando com grilhetas de condenado
E arrasto um verbo que já não canta…
Porque sem teus olhos não há poesia
E apenas o breu se alberga no dia!
Joaquim Maria Castanho
2.10.2017
ORA SIM, ORA NÃO
ORA SIM, ORA NÃO
Pelo copiar da porta
Vejo-te cirandar na cozinha…
Apareces, desapareces, apareces
(És "viva" silhueta no instante)
Desapareces; e ficas "morta".
Mas essa morte é só minha.
É um sucumbir circunstante,
Quase omitir do eu total
E dessa parte tão importante
Que nos edifica pelo plural
– Ou gestos de elucidar a voz
No fluir do rio dos rios de nós,
Se somos no azul a claridade –
Ouro na cinza que à luz exorta
Como se plo copiar da porta
Te visse a cirandar na cozinha
Aparecendo, desaparecendo,
Ser e não-ser, ora sim, ora não,
Tal e qual qualquer estrelinha
Sendo e não sendo, cintilando
Lá em cima – bem-bem no fundo
Do cor... que... ora sim, ora não!
Joaquim Maria Castanho
2.09.2017
O ENGRAÇADO E AS GRACINHAS
ESTATUTO DE PAPEL VEGETAL
(O ENGRAÇADO E AS GRACINHAS)
Incluindo tu,
Porque vês adultério
Num corpo (apenas) nu?
A peste que em ti grassa,
A que te agarras com'um bem,
Não passa da ignóbil desgraça
De só te veres (e projetares)
Ao olhares para alguém…
E se miserável, vives em vão,
Assombração com ordenado,
Só tens o que mereces, do pão
Que come qualquer condenado.
Que do prazer só tira castigo
E da beleza, apenas inveja;
Ou da moral insano abrigo
Feito do lixo que traz consigo –
Da peste quem em si despeja
– Se a consciência lhe pesa!
Se lhe custa o entendimento
Do que é simples e natural,
E ri pra não verem o jumento
Que há sob seu traje social.
Joaquim Maria Castanho
2.08.2017
MISTÉRIO DE ARINA
O MISTÉRIO DE ARINA
Tal-qual unha felina
O amor, por ser retrátil,
Traz o mistério de Arina
Ao ser vivo – ao ser fértil.
Alinha dum mesmo jeito
A quantos da perfeição,
Ganharam já o defeito
D'ouvir o que têm no peito,
Só plo tum-tum do coração.
Que a vida pra ser lida
Não carece d'alfabeto:
É unhada repetida,
Noite em dia convertida,
Num parágrafo completo.
Joaquim Maria Castanho
2.07.2017
DEPOIS DO BREU, ARINA ILUMINA O CÉU
APÓS O BREU, ARINA ILUMINA O CÉU
Triste, alucinado, confuso
Naufrago pela antimatéria;
Contudo, nem por isso acuso
Minha Deus por tão fraca féria.
Pois confio em suas intenções,
Entraves, silêncios, omissões
Regras, técnicas, estratagemas;
Que nada separa os corações
Que foram unidos por poemas.
E o horizonte também o sabe…
Também ele se aloira e t'espera.
Também ele escreve na tarde
As cores e luz de por quem arde,
Quem respeita, adora e venera!
Joaquim Maria Castanho
2.06.2017
BURACOS NEGROS
BURACOS NEGROS
A tua ausência vinca e marca
Como um órgão que me falta;
E nos lugares onde não estás
A essência é fugaz – e parca…
Por visitá-los, sou torturado
E decepado de parte de mim,
Eco dum pesadelo acordado,
Visão de delírio e febre ruim.
Fico objeto, e ser inanimado,
Atrofiado numa dor sem fim.
Que os lugares onde não estás
Gritam e rasgam-me os sentidos;
E abrem crateras, ácidas e más
Onde os sonhos são consumidos.
Joaquim Maria Castanho
2.05.2017
CERTEZA AFIANÇADA
AFIANÇADA CERTEZA
Sim, já passaram tantos anos, sim
Foi naquele café ao cimo do jardim
Que eu te vi pela primeira vez;
Mas os olhos estão iguais
O cabelo de espiga madura
O mesmo rosto, a mesma tez
Que fez com que eu nunca mais
Conseguisse amar mais ninguém.
Sei que tenho andado por aí
De forma tonta e pouco segura
Às voltas com o teu sorriso,
E a alma à procura da candura
Qu'é preciso pra poder olhar pra ti;
Que me atropelo nos sentires,
Me aperalto e perfumo (demais),
Apenas pra quando me vires
Eu seja enfim, esteja à altura
Dessa certeza infinita e pura
E apaixonada que então senti.
Porém, jamais amei outrem
Além de ti, desde esse dia, sim
Em que te vi no café do jardim
Acompanhada por teus pais,
Que agora até penso ser tarde
– E vou dizê-lo sem drama, sem alarde! –
Para tentar amar alguém mais.
Tanto, que nunca irei cobrar-te nada…
Já me deste o melhor que a vida tem,
Que é esta certeza afiançada
De não conseguir amar mais ninguém.
Joaquim Maria Castanho
2.04.2017
PROPOSTA HONESTA
PROPOSTA HONESTA
Se és única árvore plantada
Aqui, em meu reino devastado,
Então, quero ser brisa orvalhada
Que, mansa, te acaricia a ramada,
Veste folhas de cetim nacarado.
Te afaga com a doçura das asas
Das borboletas multicoloridas
Nessa luz que ilumina as casas,
Mantém lareiras de acesas brasas,
Põe carinho e desejo nas vidas.
Quero ouvir teus olhos calados
Pelo silêncio urgente dos meus,
Quando, numa prece, abraçados
Pintam límpidos oceanos nos céus!
Joaquim Maria Castanho
2.03.2017
APELO ININTERRUPTO
APELO ININTERRUPTO
Começo o dia a pensar em ti
E nunca mudo de registo,
Que quando agora é aqui
Todo sonho nasce do visto
(Como do recordado, também,
Feito aparição que se quer,
Onde o rosto de mais ninguém
É tido e visto por de mulher…)
Começo que persegue o ontem
Pra repetir-se no futuro,
Aonde nem as nuvens notem
Meu olhar no teu, tenso e puro,
Requerendo-o plo infinito
Que há na urgência dum grito!
Joaquim Maria Castanho
2.02.2017
SUBLIME É A CORRENTE DOS SENTIRES
SUBLIME É A CORRENTE NO RIO DOS SENTIRES
Sentir-te real, presente
É onda avassaladora,
Tsunami dentro da gente
Grito n'alma sonhadora
A despertar da letargia,
Da falta de inspiração.
É aspergir de luz no dia
Num crepitar de cristais,
Cintilar febril no coração
De odes, hinos e madrigais…
É essa alegria infinita
Que só Arina nos atribui,
E pra quem em si acredita
Ser a beleza em que flui.
Joaquim Maria Castanho
2.01.2017
O TALÃO PREMIADO
TALÃO PREMIADO
Eu definhava, por saudade
E não sabia; pois, moribundo
Julgava entender o mundo
Nessas linhas que tão-só lia
No céu – traços sobre a cidade
A marcar, pla vida, passagem
Que nem fosse ela apenas viagem…
Todavia, e numa recaída,
Eis-me de volta dessa "morte"
Embriagado pela sorte
Neste bilhete, assim, tida
Por não ser ele só de ida!
Joaquim Maria Castanho
1.31.2017
O DITAME DA POESIA
O DITAME DA POESIA
Aconteces-me poema irrevogável
Já incontornada magia na jornada
Já Fénix de fogo na tarde plausível
Já continuum d'explosão celebrada.
Se em minhas veias ecos há, escuto
Latências que te chamam, e chama és
Flama de luz, verbo cadente no abruto
Cinzento sobre antenas e chaminés
Dum bairro suburbano mas pacato.
Porém, estrela, porém; porém flor-de-lis
Que escreve nesta alma como um giz
As leis e demais ditames que acato
Por ver-te, em celebração do contrato
Que é ato, e também poema que nos diz.
Joaquim Maria Castanho
1.30.2017
EM RECATO
RECATO
Escondo teu nome em meu peito
Digo-lhe coisas que já por bem sabes,
Que já conheces de cor, neste jeito
De perdida imensidão onde cabes
Sem defeito nem juízo doutro valor,
Senão sentir de amigo que é amor…
E escondo-te para não me esconder,
Na timidez que compõe essa reserva
Que os olhos têm de serem vistos a ver
Se acaso alguém também nos observa;
Que a seiva é essência de toda a flor,
Mais essencial que a sua própria cor.
E neste esconder em que me mostro
Sou da essência superfície profunda,
Pomo de secreto sentir, e imo estro
Da vida que a ambos abraça… e inunda!
Joaquim Maria Castanho
1.29.2017
DA RECICLAGEM OU REUTILIZAÇÃO
RECICLAGENS E REUTILIZAÇÕES
Agonizam antigas atitudes
Condutas desatuais, maduras
Caem no desuso, perdem virtudes
Caminham vacilantes, inseguras
Temem vazios, se radicalizam
Entrincheiradas em ghettos e nichos,
E se justificam quando pecam
De recaída em recaída ficam e vão
Pedindo ao sonho e utopia seu pão
Sua dose dominical de bem e de mal…
Os jovens desconhecem-nas, os idosos
Largam-nas; contemporâneos, então
Como quem trata do cão, dão-lhe ossos
Nas pratas e papel das prendas de Natal.
Joaquim Maria Castanho
1.28.2017
DAS HORAS, A CHAVE
A CHAVE DAS HORAS
Procuro-te nos labirintos do dia
Entre os produtos, entre as estantes
Entre sonhos que não tinha, nem havia
Nos gestos que repetia, como soía antes…
Tens o nacarado lunar que me guia,
O jeito das estrelas caminhantes,
A luz que estilhaça as manhãs frias,
Pondo doçura nas suas cambiantes.
E se as sombras oprimem, tu libertas.
S'águas doem, tu lavas, purificas.
Mas, sobretudo, silente dignificas
Habitando horas que, antes, desertas
Me desabitavam, por dilacerantes.
Fechadas. E só, por carinho, abertas!
Joaquim Maria Castanho
1.27.2017
SENTIMENTO UNIVERSAL
SENTIMENTO UNIVERSAL
Como uma estátua, no pedestal
Minha Musa organiza no caos
Coisas que a humanidade usa
Pra fazer as limpezas das naus
Desta navegação infinita
Que é garimpar os sentimentos
Com que o sonho, pepita a pepita,
Edifica tesouros e momentos
Em que acredita e a faz plural,
E lhe dita o sentir universal…
E mais ainda, a silhueta linda
Duma fada pla luz absorvida,
Perante essa centelha infinda
Da amizade, que é sol da vida!
Joaquim Maria Castanho
1.26.2017
ESTRELA CA(N)DENTE
ESTRELA CADENTE
Esgueirou-se, a minha musa
Entre as colunas do templo,
Ágil, leda, lesta, difusa
Vestal beleza sem exemplo.
Por ela guerrearam titãs;
Em sua honra nascem os dias;
Estrelas congeminam amanhãs;
Amor é flor nas manhãs frias.
E não obstante seja reclusa
Do ganhar prà própria vida,
É bem mais de quem com(n)templo:
É da morte a pura recusa,
Luar que do sonho é guarida,
Luz que ao breu impõe saída!
Joaquim Maria Castanho
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- Escribalistas é órgão de comunicação oficial de Joaquim Maria Castanho, mentor do escribalismo português








































