10.31.2003

Lista de autores e obras propostas para a sessão da Comunidade de Leitores, do dia 10 de Dezembro de 2003:
Clarice Lispector - A Hora da Estrela;
José Saramago - Levantado do Chão;
José Cardoso Pires - A Balada da Praia dos Cães, Alexandra Alpha e Dinossauro Excelentíssimo;
Milan Kundera - A Insustentável Leveza do Ser;
Marguerite Duras - A Dor;
Fred Ulman - Reencontro;
Toni Morrison - Amada;
Fernando Savater - O Jardim das Dúvidas;
Jorge Semprun - A Escrita ou a Vida;
Steven Lukes - O Curioso Iluminismo do prof. Caritat;
José Rodrigues Miguéis – O Milagre Segundo Salomé;
António Lobo Antunes - Manual dos Inquisidores e Os Cus de Judas;
Denis Diderot - A Religiosa;
Batista Bastos – Tecido de Outono;
Boris Vian – A Espuma dos Dias;
Stendhal - O Vermelho e o Negro;
Franz Kafka - O Processo;
Virginia Wolf - Um Quarto Que Seja Seu;
Graciliano Ramos - Vidas Secas;
John Steinbeck - As Vinhas da Ira;
Anne Frank - Diário;
Oscar Wilde - De Profundis;
Robert A. Heinlein – Um Estranho Numa Terra Estranha;
Vandam Chalamov - Os Contos de Kolimá;
Primo Levi - Se Isto é um Homem;
Marguerite Yourcenar - A Obra ao Negro.
Aceitam-se propostas, mas convinha que fôssemos apurando a nossa escolha até ao dia 22 de Novembro, para não perdermos demasiado tempo a discutir qual a eleita.
Obrigado
Saudações
JCastanho

Fernando Mano propõe “Levantado do Chão”, de José Saramago, e “Se Isto é um Homem”, de Primo Levi.
José Mourato propõe “Um Estranho Numa Terra Estranha”, de Robert A. Heinlein.
Filipa Ribeiro propõe além de "A Maravilhosa Viagem de Nils Holgersson Através da Suécia", de Selma Lagerlof, e "Um Estranho Numa Terra Estranha", de Robert A. Heinlein, para novas sessões, também, e para esta, "A Dor", de Marguerite Duras, "O Jardim das Dúvidas", de Fernando Savater, "A Escrita ou a Vida", de Jorge Semprun, "O Processo", de Franz Kafka, e "Um Quarto Que Seja Meu", de Virginia Wolf.
Haja mais sugestões!... O mail oficial é o grokare@hotmail.com
Usem-no.

10.30.2003

As histórias repetem-se em trinta exemplos e os porquês continuam por esclarecer

“Quando vemos a carrinha aproximar-se, dispersamos”


“Sou um toxicodependente assumido. Estou aqui também por causa disso”, diz João Miguel, arrumador de carros na área do Bom Sucesso, no Porto, para quem arrumar carros é claramente uma opção que aceitou na sua vida, como sendo a única resposta que obteve sem fazer qualquer questão.
João Miguel, arrumador há dois anos, reconhece que a zona onde normalmente arruma carros tem sido muito policiada, o que dificulta o seu trabalho mas não o impede. “Temos de estar sempre alerta. Quando vemos a carrinha a aproximar-se ou eles [os agentes da polícia municipal] a passearem por aí, dispersamos para que eles não nos levem.” É que já o levaram algumas vezes para a sede da polícia municipal (PM), onde teve de ficar retido durante algumas horas. Mas o pior mesmo, segundo disse foi quando o levaram para os Carvalhos. “Meteram-me na carrinha e levaram-me para os Carvalhos, para perto de um largo onde fazem a feira. Deixaram-me lá só para voltar a pé para aqui. Isso não está certo”, conta. “E ainda me bateram porque eu não queria entrar na carrinha. Só se fosse parvo é que ia querer. Não estou a roubar nem a fazer mal a ninguém. Para que é que me chateiam?”, acrescenta. João Miguel é daqueles casos que não quer nem ouvir falar no programa Porto Feliz, promovido pela Câmara Municipal do Porto (CMP), pois, nas suas próprias palavras, “aquilo é como estar preso”.
Entretanto, aproxima-se Vítor, de 35 anos e arrumador há 12, sempre no Bom Sucesso que está inserido no programa Porto Feliz, tendo já iniciado o tratamento com metadona. “Preciso de dinheiro na mesma. Não tenho emprego e se o peço, só me dizem para esperar. Tenho de esperar para tudo e até lá tenho de comer. Nós já consumimos [droga] há muitos anos e se não for isto também não arranjamos nada”, reconhece. Para piorar a sua situação, diz que as pessoas “influenciadas pela publicidade da CMP, já não dão tanto como antes”. Por dia, soma entre cinco a dez euros por arrumar carros. “Tudo o que queria era ter um emprego, um sítio para dormir e comer todos os dias”, desabafa.
Nuno Nogueira é arrumador há 11 anos. Há cerca de três meses, foi levado duas vezes seguidas pela polícia com “fitas verdes nos bonés que mais parecem azulejos de casa de banho, como o estádio do Sporting”. É assim que descreve os agentes que operam na PM. “Fiquei duas horas lá na Pasteleira e depois tive de voltar a pé. Numa das vezes, recusei-me a ir e eles ameaçaram-me e chamaram-me nomes”, reclama. “É claro que acho mal que nos levem porque eles só querem é falar sem nos ouvirem em altura nenhuma. Além disso, não nos ajudam. Esta mentalidade portuguesa é muito hipócrita”. Apesar disso, vai dizendo que os polícias andam mais “tranquilos”, pois “também eles já estão contra o Rio”.
A lista de testemunhos continua. Flávio, arrumador de carros há quatro anos na Ribeira do Porto, foi levado para a sede da PM, na Pasteleira, pela última vez fazem agora duas semanas. Se foi maltratado? “Nunca somos muito bem tratados, eles estão sempre a dizer “bocas”, mas fisicamente não fui agredido nas duas vezes que tive de ir”. Para Flávio, a CMP “não tinha nada que se meter com os arrumadores”. Manuel Oliveira arruma carros sobretudo na Praça da Liberdade. Nunca foi levado pela PM, segundo ele, porque está em tratamento no CAT- Centro de apoio aos toxicodependentes. “Pois, mas o CAT não nos dá comida nem trabalho. Aliás, soube que alguns colegas meus conseguiram um emprego lá com o programa do “Porto Feliz” e já perguntei o que preciso de fazer e responderam-me que andasse na rua a arrumar carros que eles acabariam por me levar”.
António Fontes, de 36 anos, também já foi levado três vezes pela PM, a última foi há, aproximadamente, um mês. “Como sou de Famalicão não sou levado tantas vezes. Na última vez que fui, perguntei-lhes se queriam que fosse roubar e responderam-me com pontapés. E ainda tive de estar lá na “seca” de duas horas e voltar, depois, a pé”. Já Júlio, nome fictício, diz não ter queixas da polícia municipal, o mesmo já não se passando com a PSP. “Andam aí dois que estão marcadinhos. Estou só à espera que hajam partilhas lá em casa para ter um carrinho e me pôr atrás deles. Olhe, isto é graças a eles”, comenta mostrando a mão inchada e uma perna com alguns hematomas. De acordo com Júlio, os agentes da PSP já o levaram várias vezes, tendo a última ocorrido há oito dias. “Ficam-nos com o dinheiro e ainda gozam connosco. Só meus já lá ficaram com cerca de 100 euros. Põem o dinheiro num envelope para nos taparem os olhos, mas vão é gastá-lo em bares”.
Paulo Fernandes, arrumador de carros há cinco anos, é frequentemente levado por agentes da PSP, pois na zona onde trabalha existe uma esquadra daquela força policial. “Vá lá, desde a passada quinta-feira que não me levam. Até já são eles que me dizem para ir para outro lado porque ali ao fundo moram familiares do Rui Rio. É que assim ele pensa que acaba connosco”, ironiza.
“Acho mal levarem-nos para a Pasteleira porque é muito longe daqui (Santa Catarina), não se preocupam connosco. Sabem que não temos dinheiro para táxi nem para autocarro”, refere João Carlos, de 32 anos. Para este arrumador o programa Porto Feliz não resolve todos os seus problemas nem lhes dá dinheiro para sobreviverem. “Não tenho razões de queixa da PM, já fui levado duas vezes, mas nunca me trataram mal, embora perceba que isso é uma questão de sorte, até porque só lá estive duas horas de castigo”, explica. Um castigo que não percebe por que acontece.
Henrique Ribeiro é toxicodependente há 29 anos e arrumador de carros na Ribeira do Porto, onde vive com a mulher, a filha e duas netas, durante quase outros tantos anos. “Nunca estive preso e a polícia não me incomoda, já me conhecem e sabem que já faço “parte da mobília” aqui da zona”, explica. Henrique soube desta nova metodologia da PM através de Nuno Cardoso, ex-presidente da CMP, que lhe veio perguntar se já tinha sido levado pelos agentes. “Eu nunca fui, mas sei de muitos que já foram. Uma coisa é certa, 90% dos arrumadores roubam e isso baixou com a polícia, a qual agora anda aqui muito. Mas o que o Rio gasta em cartazes com mensagens para as pessoas não darem moedas, bem podia fazer de facto alguma coisa que nos ajudasse, como por exemplo, arranjar algumas casas como aquela em que vivo. É uma miséria”, critica. No passado dia 9 de Setembro, Henrique foi aceite no projecto “Porto Feliz”, mas não vai continuar, pois, segundo diz, “é como estar preso”. “Falta-me é apoio em casa, essa é que era a terapia que eu precisava”, considera.
É automático: uma carrinha da PSP passa e Humberto, nome fictício, afasta-se rapidamente da rotunda onde está a arrumar carros. Pouco depois, quando já não se vêem polícias, lá vem ele. “É melhor até para os polícias que eu fuja e que não os veja”, diz com visível agressividade. Já foi levado pela PM por três vezes, a última das quais aconteceu há quinze dia, em que, pelo que afirma, “foi puxado violentamente para dentro da carrinha da PM. “Eles agora estão tramados comigo, não pensem que me levam e que eu fico lá quieto no banquinho a vê-los tirarem-me o dinheiro e a gozarem com a minha cara”, ameaça. “Também tenho em casa uma coisa que faz buracos e perdido por cem, perdido por mil. É preciso é saber fazer as coisas”, continua, alegando que tem o direito de trabalhar para sustentar os seus vícios. “É claro que fico chateado quando não me dão nada, mas não posso obrigar as pessoas a fazê-lo. Agora, a CMP quer acabar connosco, mas o Rio devia era ter juízo e sair lá do seu luxo para ver como é a vida na cidade onde ele pensa que manda”.
Joaquim Gomes dos Santos, 37 anos, e já foi levado três vezes pela PM. “Por acaso não fui muito mal tratado, mas ‘tava doente e não me deixaram sair. Ainda por cima sou eu que trato da minha mãe, que está acamada e por volta das seis da tarde tenho de lhe ir dar os medicamentos”, conta Joaquim que, da última vez que lá esteve, há cerca de três semanas, ficou retido durante três horas. “Não fazemos mal a ninguém, ninguém nos apoia. Só, de vez em quando é que nos vêm aqui dar umas refeições. Mas o que precisava mesmo era de um emprego. Estava disposto a fazer qualquer coisa”. Para Joaquim, a CMP “não dá nada e agora as pessoas dão menos dinheiro por causa dele. Só consigo fazer cerca de dez euros por dia”. Assim, na opinião de Joaquim, o que a polícia devia fazer era “apanhar aqueles que vendem droga. Esses é que nos arruinam”, reconhece.
É num pequeno jardim junto ao Hospital Conde Ferreira que o JN vai encontra um grupo numeroso de arrumadores de carros, quase todos inseridos no programa “Porto Feliz”. Vítor é um deles. Já foi levado três vezes pela PM, a última vez foi há cerca de dois meses. “Se nos recusamos a ir, agridem-nos e não querem saber se somos doentes, se estamos de muletas, não lhes interessa coisa alguma sobre nós”, reclama. O Vítor caiu quando ia a entrar no autocarro e desde aí tem que usar muletas. O diálogo entre os arrumadores começa de imediato. “Dão-te casa, emprego, comida decente?”, pergunta Luís, que também está inserido no programa promovido pela CMP. Para este último, é “natural” que os polícias “percam a cabeça”. Afinal, diz, “são homens como nós”. Já Gonçalo, nome falso, não perdoa e revolta-se facilmente com as autoridades e explica porquê: “Dizem-nos que somos delinquentes, que nunca nos vamos curar, ainda nos batem por estarmos a tentar fazer algum dinheiro. Qual é o sentido de nos fecharem numa esquadra durante três horas e depois mandarem-nos embora? Quem é que querem enganar?”, questiona indignado. Mais não diz porque o tempo para almoçar no Hospital é pouco. Entretanto, chega a hora de Luís ir “fazer o tratamento”. Já na enfermaria, toma três comprimidos receitados pela sua psiquiatra. “É a medicação para malucos”, ironiza. Segue-se o teste dos limites, ou seja, verificar através da análise à urina que drogas foram consumidas. No caso do Luís, apenas deu positivo o teste do haxixe. À saída, diz “Que bom, ainda na 6ª feira consumi cocaína e não acusou”.
Outro caso especial é o de “Quicas”, nome por que é conhecido um outro arrumador de carros, na área do Bom Sucesso e da Praça da Galiza. “Não consegui fugir às minhas circunstâncias e não sei quem o conseguiria”, afirma. E estas foram as suas circunstâncias de vida, desde sempre. Quicas é toxicodependente assim como os seus irmãos, nasceu num dos bairros degradados do Porto, a mãe é doente, o pai suicidou-se já há alguns anos e, entretanto, contraiu o vírus da sida. Também já foi levado pela PM por duas vezes. “Acho que já todos fomos e todos continuamos na rua, só me chateia que fiquem com o nosso dinheiro. Não acho que seja justo. De resto, é só mais uma coisa entre tantas. Não nos vai ajudar em nada. O que nós fazemos, por vezes, é um serviço público”, opina. Isto porque “nos carros que arrumo, ninguém mexe. Iso é certo”, reitera. Para “Quicas”, a prova de que a CMP “não sabe o que anda a fazer é a história das licenças para arrumadores. Grande anedota que isso foi”. “Ainda diz que só existem quarenta arrumadores na cidade. Ele que saia ali de casa e comece a contá-los. É preciso é ter coragem para mentir”, refere.

Filipa Ribeiro

10.29.2003

Conta-me um conto...

“Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, (...) O mundo
era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las,
era preciso apontar com o dedo.” – in CEM ANOS DE SOLIDÃO, de G.G. Márquez


Se para algumas pessoas ler é já de si uma actividade que implica tortura e sacrifício, para muitas de entre estas é ainda mais constrangedor fazê-lo em conjunto. São demasiadas as que sucumbiram ao prazer solitário e onanista da leitura (e até da criação literária). Nem sempre foi assim! Segundo rezam as crónicas, que não têm que ser verdade ou mentira, terá a escrita nascido da oralidade e na impossibilidade desta...
As Mil e uma noites, A Odisseia, O Amadis de Gaula, o D. Quixote, livros que remontam à nossa ancestralidade ficcional, eram contados aos serões por pessoas que anteriormente os tinham também ouvido contar, e assim semeavam entre os restantes os germes do sonho e da fantasia. Se o faziam profissionalmente ou por puro prazer não consta das relações tributárias, embora houvesse quem andasse de terra em terra espalhando o seu testemunho acerca dos casos fantásticos que vivera!
Mais tarde, e porque quem conta um conto acrescenta-lhe sempre um ponto, as estórias avolumaram-se, ganharam corpo e personalidade, e exigiram dos homens consenso, unificação e identidade. Ao cada um conta de maneira diferente implantaram o seu teor e puseram fim no regabofe fazendo com que alguém lhe traçasse escritura. Ao acto social da literatura acrescentou-se o não menos social acto do registo. Se este facto sucedeu há pouco menos de dois mil anos entre nós, visto constar que na China, Assíria, Egipto, etc., terá acontecido bastante antes, a oralidade e convívio à volta de um enredo remetem-nos ainda para o tempo das cavernas. Não sabemos ao certo quando é que um sacana qualquer para deslumbrar a sua amada ou meter macaquinhos na cabeça do chefe da tribo se pôs a papaguear pinderiquices que tanto assustam como arrebatam, mas o que é certo é que o fez, embora a TV e a rádio não tenham dado a devida cobertura ao acontecimento.
Ora, ainda este vício andava de gatas e já havia quem lhe pusesse asas no dorso como os que inventavam antídotos para lhe combater o mal e contágio nas massas... Uns tinham razão porque os outros a não tinham, como aos outros lhe assistia porque a uns lhe faltava! Se muitos foram obrigados a beber a cicuta, pagando com a dor e a morte, todo o prazer que as estórias e a palavra lhe concederam durante a vida, não menos quantos houve que lhe invejaram o dom e os mandaram para os trabalhos forçados, masmorras e degredos! No entanto, do que ninguém duvida, quase todos sabemos quem foi Sócrates mas ninguém se lembra do nome do presidente da Câmara da Lisboa de há 200 anos atrás, embora entre um e outro haja tantos milénios de distância quer no tempo como de quilómetros no espaço que habitaram...
Actualmente, numa sociedade circunscrita ao poder da imagem, acesso total à informação, vertiginoso ritmo de vida, expansão da cultura facilitista, solicitação e usufruto dos prazeres imediatos, que tende a dispensar os benefícios da leitura (criação de imagens, mobilidade, flexibilidade e enriquecimento vocabular, facilitação do processo de aprendizagem, contacto e apreensão de emoções exteriores, relacionamento de conhecimentos adquiridos com novos sentidos, construções sintácticas e significados, por exemplo), esse acto deveras social da leitura está a irradicar-se dos nossos hábitos, principalmente se não forem tomadas precauções adultas para contrariar o modus vivendi actual. Entre elas cabe a criação de comunidades de leitores, tal como vão surgindo um pouco por todo o país, na tentativa de reabilitar obras e autores que marcaram ou marcam os nossos tradicionais modos de ser e estar, enquanto cidadãos do e para o mundo.
A Comunidade de Leitores de Portalegre convida, portanto, nesta perspectiva, à leitura do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, com que iniciará a sua actividade em sessão a realizar no mês de Novembro, cuja data precisa será atempadamente divulgada, a fim de que também nós, portalegrenses, possamos ajudar a inventar o futuro reerguendo do passado uma modalidade sócio-cultural que contribuiu em grande parte na formação da cidade que nos acolhe ou em que vivemos.
Há diversas maneiras de contarmos contos uns aos outros e esta é outra entre tantas mais de inscrevermos os nossos passos na resenha da actualidade. A melhor forma de mudar o mundo é começarmos por modificar-nos a nós mesmos, tomando novas atitudes perante hábitos antigos, costumes e consciência participativa na evolução da democracia. A mais-valia de Gabriel García Márquez, quer como jornalista, quer como romancista galardoado pelo Nobel, é inegável e tem entre nós bastantes adeptos, leitores assíduos dos seus títulos, ou mesmo que lhe acompanharam o percurso profissional. Creio que foi uma boa escolha, que encorpará o nosso grupo de leitores com variadas visões deste romance, tal como da obra em geral, e que poderá pôr em contacto pessoas que de há muito têm um gosto comum, bem assim de suscitar naqueles que ainda o não conheçam apetência para o fazerem.
Por conseguinte, aqui fica a nota de boas-vindas e votos de que se divirtam com a saga mirabulante de Aureliano Buendía, que possui todos os ingredientes para guiar-nos através de uma aventura ao realismo fantástico do século passado... E com óptimo cicerone!
grokare@hotmail.com


A D U A S M Ã O S
Por Joaquim Castanho e Filipa Ribeiro

“O rei vai nu”, disse o rapazito


“A engenharia genética condensa, como nenhuma outra tecnologia,
tanto as nossas aspirações quanto as nossas desconfianças”
Margarida Silva

Vem este artigo a propósito do lançamento do livro “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, de Margarida Silva, professora de biotecnologia no Porto e vice-presidente da Quercus, da Universidade Católica Editora. Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos que adquirem, pelo uso de técnicas modernas de engenharia genética, características de um outro organismo, o qual, em algumas vezes, é bastante distante do ponto de vista evolutivo. Esta é, sumariamente, a sua definição técnica. Em termos de indústria agro-alimentar e da aplicação que fazem dos OGM, estes são, como disse e muito bem Luísa Schmidt, uma “coqueluche” que “é apresentada sedutoramente aos países pobres, a quem se acena com a quimera da abundância e do fim do problema da fome” (Expresso, Dezembro de 1999).
Com efeito, apesar de poucas, erguem-se já algumas vozes do interior da comunidade científica para alertar sobre as implicações dos OGM na saúde humana, sobre os riscos para o ambiente, para a agricultura e para a sociedade. E fazem-no porque, ao contrário do que se possa pensar, os OGM são uma realidade e todos estamos sujeitos a consumi-los sem sequer disso termos consciência. E é para essa tomada de consciência, esclarecida e rigorosa, que este último trabalho de Margarida Silva contribui, dado existirem várias leituras possíveis desta questão transgénica.
É aqui que a comunicação social é importante na tentativa que deve fazer para despertar nos cidadãos a atenção e posicionamento eficazes face a um dos problemas mais actuais para a qualidade de vida no nosso planeta. Infelizmente, isto é o que não se tem feito, porque simplesmente não é possível quando até os media se declaram, impunemente, indisponíveis para darem espaço nas páginas dos jornais, mediação televisiva integrada e não repetida, cobertura diversificada e personalizada na rádio, internet e afins. Porque as questões científicas e ambientais não podem ser atiradas para a geral condição de produto estratégico na imparável senda de mais e diferentes audiências, segundo a qual a comunicação de questões de grande interesse social relativas à saúde pública e ao ambiente sustentado se cinge ao ciclo hermético e/ou apanágio para fins político-económicos pouco sustentáveis pelos custos que comportam à vida do planeta.
Perante aquela que pode ser a mais radical experiência no mundo natural, temos de estar esclarecidos, posto que esse é um esforço mútuo para cientistas, industriais, políticos, empresas, legisladores e consumidores. É neste sentido, portanto, que surge este “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, o qual é desprovido de uma gíria demasiado técnica e que tenta, deliberadamente, abrir os olhos e o diálogo com o consumidor. E fá-lo dando conta da controvérsia em torno desta questão desde que surgiu a primeira planta transgénica, em 1983. Assim, a autora começa por enumerar as vantagens dos OGM apontadas por diversos grupos científicos, políticos e de cientistas, mas pelo tom usado percebe-se que as vai atacar, ou seja, que vai dissecar, recorrendo a uma análise cientificamente fundamentada, cada um dos argumentos que são discutidos neste prós e contras dos transgénicos.
Entre os benefícios para quem vende OGM, Margarida Silva indica os seguintes: o aumento da produtividade agrícola (maior resistência a pragas), redução nas aplicações de pesticidas (melhoria ambiental, inúmeras variações especializadas para agradar tanto a agricultor como consumidor e industrial, gestor e necessidades do 3º mundo. Dizem que ainda ninguém morreu por causa dos transgénicos e que os OGM são as plantas mais estudadas do mundo.
Ora, para começar, a nível mundial, apenas 4 países produzem 99% de todos os OGM: EUA (66%), Argentina (23%), Canadá (6%) e China (4%), o que não deixa de ser sintomático do aproveitamento económico e político que apenas visa lutar contra a morte por fome. Pois sim... Além disso, a agricultura insustentável é uma das características da nossa sociedade onde ainda predomina uma cultura alimentar que privilegia as farinhas, os óleos e a distribuição personalizada dos alimentos cuja proveniência e conteúdo são questionáveis. Por outro lado, a estrutura administrativa social fundamentada em representantes que beneficiam grupos económicos em detrimento de valores humanitários básicos, a isenção da responsabilidade pessoal para com a saúde e educação, delegando-a a profissionais formados em perspectiva mercantilista, eliminam o desejável empenho pessoal na vigilância da qualidade dos alimentos. Como é possível que esta esmagadora minoria interessada nos OGMA ignore a perda de equilíbrio ecológico de espaços selvagens e agrícolas, os riscos da introdução na cadeia alimentar animal e humana de substâncias que nunca dela fizeram parte, da contaminação generalizada dos alimentos não transgénicos, da manipulação abusiva e mecanicista da vida e, por fim, do domínio económico do planeta pelas grandes empresas mundiais. Como é possível, que tudo isto se resuma a patentear sementes que sempre foram e deviam continuar a ser um bem comum e de livre acesso? Sim porque a incorporação de um gene significa, que alguma parte do organismo receptor vá produzir uma nova proteína e o aparecimento de uma nova característica, a qula é transmitida de geração em geração? Estão todos cegos perante esta nova “bomba atómica para o mundo natural e humano? Provavelmente, tal como aconteceu com os resultados da bomba atómica de Nagasaki e Hiroshima, quando se perceber as reais consequências dos OGM, então, mais uma vez, será tarde demais e poderão não haver trancas para pôr na porta.
Torna-se, pois, claro que os OGM representam para políticos e cientistas uma solução fácil que consiste na interpretação errónea daquilo que a biotecnologia em particular e a ciência, em geral, podem fazer. A acrescentar a isto está o facto de ainda não existirem, até hoje, provas científicas demonstrativas da segurança dos transgénicos na alimentação humana e animal. Mais: porque a circulação comercial dos alimentos transgénicos só começou em 1996, ainda não decorreu o tempo necessário para aferir das consequências dos agrotóxicos nestes. Na altura em que se completam 50 anos desde a descoberta de Watson e Crick, urge analisar o potencial da genética, pois é notório que um simples gene, na sua complexidade, apresenta infindáveis extensões e, como explica Margarida Silva, “um gene fora do ecossistema molecular onde a evolução facilitou a adaptação mútua torna-se imprevisível e, ao ser inserido, num genoma estranho através de um evento fortuito, num local ao acaso, o seu comportamento pode ficar radicalmente alterado”.
grokare@hotmail.com
Para a sessão de 10 de Dezembro da CLP há uma lista enorme de sugestões... Vou fazê-la, para que se possa adiantar serviço, e não se perder tempo na sessão de 22 de Novembro.

10.27.2003

A próxima sessão da Comunidade de Leitores está a receber aderências, sobretudo de pessoas que já leram o livro. Creio que isso não diminuirá o interesse nem o debate, pois não será pelo facto de o terem lido anteriormente que lhe perderam o enredo e arrebatamento. Gabriel García Márquez é um autor que aguenta bem duas leituras sem perder o interesse. Para o dia 10 de Dezembro, Dia Mundial da Cidadania, é provável que tenhamos nova sessão da CL à volta dessa temática... A cidadania!

10.25.2003

Consultem o gatomontez.no.sapo.pt, pois terão aí textos de virtude virtual e autorias insuspeitas. É uma aposta de futuro e, tal como a arte ou literatura em Portugal, não rende mesmo nada!

10.20.2003

Não obstante a fraca aderência à Comunidade de Leitores, esta irá continuar, conforme a vontade expressa pelos presentes. Nunca se esperou uma forte adesão à ideia, mas confesso que na data tive alguma expectativa. Considerando que o pessoal com quem falei me garantiu a sua ida, fiquei suspreendido quando não apareceu. Ler é um acto pouco aprazível e ler acompanhado, ou estar com pessoas que leram os mesmos livros que nós, ainda é mais constrangedor, sobretudo para aqueles que têm dificuldade na compreensão da ficção, e daqueles que têm muito pouco confiança em si, nos seus dotes literários e capacidade de compreensão dos mundos alheios. Para melhor informação sobre a sua continuidade, conferir artigo da Fonte Nova, na edição de sábado, 25 de Outubro.

10.18.2003

A sessão preliminar da Comunidade de Leitores foi pouco frequentada. Estiveram presentes cinco pessoas mas ficou aprazada nova sessão para o dia 22 de Novembro, sábado, sobre o livro "Cem anos de solidão", do Gabo. Vamos a ver se então resulta!
Para já ficamos com uma série de pessoas que estão interessadas na leitura da obra. Se não suceder o mesmo que sucedeu na sessão preliminar, em que o pessoal fez o manguito, depois de ter dito que ia, pode ser que venha a sair qualquer coisa de jeito...

10.16.2003

A partir de sábado, entra em actividade a Comunidade de Leitores de Portalegre, residente na Biblioteca Municipal desta cidade. A sessão preliminar terá lugar na Sala Polivalente 1, pelas 15 horas, e terá como ordem de trabalhos a apresentação sumária dos constituintes, elaborar o plano de actividades e agendamento. Desde já o nosso convite para aparecerem ou depositarem as vossas sugestões. Das conclusões e resultados, daremos notícia

10.13.2003

Quando estamos em presença das personagens de romances como "Um Estranho Numa Terra Estranha", a primeira senção é de que aquele algo irreal que acompanha qualquer obra de ficção científica estar deveras obliterado. Elas não são do futuro, do presente, nem do passado: são do tempo narrativo, mas mais precisamente daquele que o actualiza, que é o momento da sua leitura.
posted by jcastanho

10.09.2003

A melhor forma de dizer o que se pensa acerca de um livro é ir depositando as impressões que ele nos provoca, as ideias e sentimentos que levanta, enquanto o lemos... Ou seja, enquanto ele está vivo em nós. Enquanto as suas personagens e enredos nos habitam com a premência duma realidade ultra-real, ou que está para além da nossa realidade "aleanatória"... que nos ilude através das sombras quotidianas e das aparências com que deparamos diariamente. São raras as vezes que esquecemos o que é essencial de uma obra literária, desde que hajamos assim... Pelo menos, se entendermos que o devemos fazer para nosso bem e da significação ou descodificação do romance em causa.
Ao princípio somos nós que impomos a nossa vontade sobre o romance ou a motivação com que a ele nos dirigimos. Todavia, se houve entrega e entramos nele pelos nossos próprios pés, ou por aquilo que Albert Camus se referia quando afirmava que "ler é compreender e compreender é criar", deixamos de ter domínio pleno sobre as nossas emoções, ideias, construções imagéticas, e ficamos presos das circunstâncias enunciadas na obra. Foi assim que sucedeu comigo ao ler "Um Estranho Numa Terra Estranha", em que vivia de tal forma o que aí se passava, quer quanto ao narrador, quer em relação a V. M. Smith, que a minha atitude perante a leitura, o querer devorar cada vez mais romances, grocar mais autores, me atirou para um rodopiar constante entre diversas histórias, e... à semelhança do narrador, a guardar os meus escritos momentâneos pela razão, tal e qual como ele fazia, de poderem vir a servir depois para alguma estória que intentasse escrever! Ou seja: fiquei enredado pelo enredo. De onde nasceu este termo para denunciar a trama de uma obra?... Terá esta minha reacção alguma coisa a ver com a justificação e aparecimento de terminologia romanesca?...
posted by jcastanho

10.06.2003

Na leitura sumária de um romance de ficção científica a primeira sensação que se deve ter, para entrar no texto e usufrui-lo ao máximo, é a de que estamos em frente a algo tão real que o seu autor teve que expressá-lo de maneira a que ninguém tivesse dúvidas acerca da sua irrealidade... Ou seja: ele tem mais medo disto ser verdade do que nós, e por isso apenas concedeu publicar a sua fantasia de forma a que não se acreditasse nela. Serviu-se do futuro para relatar o "seu" presente, ou o mundo em que habita. Está a praticar um acto de mágica, mostrando-nos o que existe como se ainda não existisse. Depois... Bem, é apertar os cintos e levantar voo!
E, curiosamente, não nos custa muito, e até estamos desertos de o fazer!... Gostamos de o fazer. Estamos ansiosos por fazê-lo. A FC é a consequência directa do desejo de eternidade que o homem encerra no mais recôndito de si. É, no rodopiar incondicional da espiral existencial, a tentativa de abranger todo o cosmos e todo o tempo. Sem esta apetência, esta ansiedade, não teríamos vontade de futuro, quer idealizando-o, quer preparando-o, como influenciando-o a partir do presente!
posted by jcastanho

10.03.2003

Nas abordagens que cada um possa fazer das obras literárias há sempre um resultado que não se vê ou nota à vista desarmada: o de melhorarmos os nossos níveis de empatia, ainda que tenhamos sido contra as afirmações e enredos apresentados. Portanto, quando nos propomos a ler colectivamente uma obra, romance, ensaio ou poesia, além de melhorarmos as nossas capacidades empáticas como seria normal em qualquer leitura, aperfeiçoamos também a nossa empatia com o grupo através de um veículo comum, o livro, mesmo que estejamos em desarcordo entre nós. As posições de cada um face ao enredo, filosofia sustentatória, emblemática do autor e personagens, ao suscitarem diferenças marcantes e debate, ao contráro do que se pensa, em vez de separar os intervenientes, apenas os une interiormente mais!
Um dos "milagres" da leitura é o da reunião. Reunião entre escritor e leitor, entre significados e significantes, entre universos metafóricos e realidade concreta. Ao desencadearmos os processos de reunião para além do texto - por exemplo, o facto algumas pessoas se encontrarem a ler esta ou aquela obra com objectivos e orientações existenciais similares -, forma-se aquele espírito de assembleia que patrocinou as origens bíblicas... e do qual resultou o ritual religioso da leitura da sagrada escritura, núcleo à volta do qual ainda se orientam hoje quase todas as religiões, tenham elas por base o Corão como as pedras pré-históricas ou divindades aztecas.
posted by jcastanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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