3.31.2011

HUMILDADE

José Alencar (JA) morreu esta semana



Ex-Vice Presidente da República do Brasil



"A humildade não está na pobreza, não está na indigência, na penúria, na necessidade, na nudez e nem na fome".



Na semana passada, o vice-presidente da República, José Alencar, de 77 anos deu início a mais uma batalha contra o câncer. É o 11º tratamento ao qual se submete.



*Desde quando o senhor sabe que, do ponto de vista médico, sua doença é incurável?



JA - Os médicos chegaram a essa conclusão há uns dois anos e logo me contaram. E não poderia ser diferente, pois sempre pedi para estar plenamente informado. A informação me tranquiliza. Ela me dá armas para lutar. Sinto a obrigação de ser absolutamente transparente quando me refiro à doença em público. Ninguém tem nada a ver com o câncer do José Alencar, mas com o câncer do vice-presidente, sim. Um homem público com cargo eletivo não se pertence.



*O senhor costuma usar o futebol como metáfora para explicar a sua luta contra a doença. Certa vez, disse que estava ganhando de 1 a 0. De outra, que estava empatado. E, agora, qual é o placar?



JA - Olha, depois de todas as cirurgias pelas quais passei nos últimos anos, agora me sinto debilitado para viver o momento mais prazeroso de uma partida: vibrar quando faço um gol. Não tenho mais forças para subir no alambrado e festejar.



*Como a doença alterou a sua rotina?



JA - Mineiro costuma avaliar uma determinada situação dizendo que "o trem está bom ou ruim". O trem está ficando feio para o meu lado. Minha vida começou a mudar nos últimos meses. Ando cansado. O tratamento que eu fiz nos Estados Unidos me deu essa canseira. Ando um pouco e já me canso. Outro fato que mudou drasticamente minha rotina foi a colostomia (desvio do intestino para uma saída aberta na lateral da barriga, onde são colocadas bolsas plásticas), herança da última cirurgia, em julho. Faço o máximo de esforço para trabalhar normalmente. O trabalho me dá a sensação de cumprir com meu dever. Mas, às vezes, preciso de ajuda. Tenho a minha mulher, Mariza e a Jaciara (enfermeira da Presidência) para me auxiliarem com a colostomia. Quando, por algum motivo, elas não podem me acompanhar, recorro a outros dois enfermeiros, o Márcio e o Dirceu. Sou atendido por eles no próprio gabinete. Se estou em uma reunião, por exemplo, digo que vou ao banheiro, chamo um deles e o que tem de ser feito é feito e pronto.Sem drama nenhum.



*O senhor não passa por momentos de angústia?



JA - Você deveria me perguntar se eu sei o que é angústia. Eu lhe responderia o seguinte: desconheço esse sentimento. Nunca tive isso. Desde pequeno sou assim, e não é a doença que vai mudar isso.



*O agravamento da doença lhe trouxe algum tipo de reflexão?



JA - A doença me ensinou a ser mais humilde. Especialmente, depois da colostomia. A todo momento, peço a Deus para me conceder a graça da humildade. E Ele tem sido generoso comigo. Eu precisava disso em minha vida. Sempre fui um atrevido. Se não o fosse, não teria construído o que construí e não teria entrado na política.



*É penoso para o senhor praticar a humildade?



JA - Não, porque a humildade se desenvolve naturalmente no sofrimento. Sou obrigado a me adaptar a uma realidade em que dependo de outras pessoas para executar tarefas básicas. Pouco adianta eu ficar nervoso com determinadas limitações. Uma das lições da humildade foi perceber que existem pessoas muito mais elevadas do que eu, como os profissionais de saúde que cuidam de mim. Isso vale tanto para os médicos Paulo Hoff, Roberto Kalil, Raul Cutait e Miguel S-rougi quanto para os enfermeiros e auxiliares de enfermagem anônimos que me assistem. Cheguei à conclusão de que o que eu faço profissionalmente tem menos importância do que o que eles fazem. Isso porque meu trabalho quase não tem efeito direto sobre o próximo. Pensando bem, o sofrimento é enriquecedor.



*Essa sua consideração não seria uma forma de se preparar para a morte?



JA - Provavelmente, sim. Quando eu era menino, tinha uma professora que repetia a seguinte oração: "Livrai-nos da morte repentina". O que significa isso? Significa que a morte consciente é melhor do que a repentina. Ela nos dá a oportunidade de refletir.



*O senhor tem medo da morte?



JA - Estou preparado para a morte como nunca estive nos últimos tempos. A morte para mim hoje seria um prêmio. Tornei-me uma pessoa muito melhor. Isso não significa que tenha desistido de lutar pela vida. A luta é um princípio cristão, inclusive. Vivo dia após dia de forma plena. Até porque nem o melhor médico do mundo é capaz de prever o dia da morte de seu paciente. Isso cabe a Deus, exclusivamente.



*Se recebesse a notícia de que foi curado, o que faria primeiro?



JA -Abraçaria minha esposa, Mariza e diria: "Muito obrigado por ter cuidado tão bem de mim".



(* Repórter desconhecido, via e-mail Ivana Bussab – Suíça)

V EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS



Quarteira, Praça do Mar, 13 a 15 de Maio de 2011


De 13 a 15 de Maio de 2011 a Cidade de Quarteira vai receber pelo quinto ano consecutivo a EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS, numa organização conjunta da Junta de Freguesia de Quarteira, e do site de voluntariado ambiental http://www.algarverenovavel.com/ , com o apoio da Câmara Municipal de Loulé.


Mais uma vez a Praça do Mar, em Quarteira ficará composta de tudo aquilo que de melhor existe em Portugal em matéria de energias renováveis, veículos amigos do ambiente e tecnologias amigas do ambiente. Trata-se de uma exposição de entrada inteiramente livre, com diversas actividades de Educação Ambiental para as escolas, com várias demonstrações de tecnologias amigas do ambiente nomeadamente dos curiosos Fornos Solares, Cine ma de Educação Ambiental, e um Seminário. No decorrer da exposição, vários concertos animarão a Praça do Mar, e no Domingo, último dia, para além de uma acção de limpeza com voluntariado (para o qual todos estão convidados, seguido de almoço para os participantes), realizar-se-á o tradicional desfile de veículos ecológicos.


A V EXPO AMBIENTE E ENERGIAS RENOVÁVEIS é uma das mais interessantes feiras de energias renováveis e de ambiente, eminentemente prática, de entrada livre que dedica uma especial atenção à sustentabilidade ambiental e aos veículos não poluentes, constituindo um espaço de excelência para o estabelecimento de contactos, e divulgação de conhecimentos na presença daquilo que de melhor existe à venda em Portugal. Porque esta iniciativa é interessante, convidamos a vossa empresa a expor nesta exposição de Energias Renováveis , de veículos amigos do ambiente e de tecnologias de protecção ambiental. Assim, solicitamos que nos informem do interesse da presença da vossa empresa nesta exposição. Seria muito importante que se apresentassem soluções em funcionamento, tal como tem acontecido em anos anteriores.

O horário da Exposição será das 12 h às 23h e a montagem dos Stands pelos Expositores será no dia 12 de Maio de 2011.

As inscrições dos expositores para este evento deverão ser efectuadas mediante o envio da ficha de inscrição que se junta em anexo para a Junta de Freguesia de Quarteira até ao próximo dia 29 de Abril de 2011, informando o espaço e os recursos que necessitarão para a instalação dos vossos equipamentos. Sendo o espaço limitado a 18 Stands que rapidamente se esgotam(sobretudo as melhores localizações), aconselhamos a que se inscrevam com a maior brevidade.


Contamos convosco!

Pela Comissão Organizadora

António Brito

964144312



Para informações adicionais e inscrições aconselha-se que contacte directamente a Junta de Freguesia de Quarteira, para escolha dos Stands, pois as melhores opções e localizações depressa se esgotam, pois o espaço é limitado, sendo montados apenas 18 Stands:


Rua Vasco da Gama, nº 85 - r/c 8125-256

QUARTEIRA

Telf: 289 315 235 Fax: 289 314 957

No intuito de promover as boas práticas ambientais das empresas e dos organismos públicos, a AMI tem procurado disponibilizar instrumentos de recolha e tratamento de resíduos, que lhe permitem, adicionalmente e sem custo acrescido para os participantes, angariar fundos para o financiamento das suas actividades humanitárias médicas, sociais e ambientais.


Pretendemos, no seguimento de anteriores contactos, apresentar-vos uma proposta para os Resíduos de Equipamentos Eléctricos e Electrónicos de que pretendam desfazer-se.


Para conhecerem esta proposta em pormenor, contactem-nos através do e-mail reciclagem@ami.org.pt ou do número de telefone 218 362 100.


Agradecemos a disponibilidade e aguardamos o vosso contacto.
A Escola de cães-guia para cegos de Mortágua precisa de amigos para a sua manutenção.

A Escola de Hotelaria e Turismo de Coimbra é amiga e vai fazer, no dia 8 de Abril, um jantar de angariação de fundos para os nossos cachorros.


Gostaríamos muito de contar com a tua presença.

Podes fazer a inscrição para os seguintes nºs: 917761274 - Ana Mafalda e 966807915 - Ana Guerra. Vai haver música e muita animação.


Aparece e trás amigos!

Caso não possas aparecer, podes sempre contribuir fazendo um donativo em http://www.caesguia.org/ajudar.html

Obrigado

Júlio Damas Paiva

3.28.2011

Este ano, na sua declaração de IRS ajude a AMI sem gastar nada e exerça um acto de cidadania activa.


Basta escrever o número de contribuinte 502 744 910 no campo 9 do anexo H. Ao fazê-lo estará de imediato a ajudar a AMI com 0,5% do seu imposto já liquidado.


No último ano apurado, o valor atribuído à AMI pelos contribuintes superou os 700 mil euros. Esta verba equivale à manutenção, durante um ano, de 3 dos 11 equipamentos sociais que a AMI tem em funcionamento em Portugal. Ajude-nos a alcançar ainda mais.


Envie esta possibilidade para todos os seus amigos, colegas e familiares e peça para também eles darem o seu contributo.

Mais informações em http://www.ami.org.pt/.

A Coragem do Erro

Par de Tango/a prà Dança do à Rasca

“Quem lava uma coisa lavada

Ou é burro, ou anda com ela fisgada!”

Provérbio popular casalparadense

Nestas (an)danças, estou convencido que havemos de fazer uma boa parelha, tu e eu, pois assim poderemos arremeter contra as intempéries e agruras do quotidiano como se de uma empresa fizéssemos parte. E como sócios maioritários. De responsabilidade ilimitada, embora que na medida das possibilidades de cada um. Mas não esquecendo nunca que a alma humana não tem fronteiras nem determinações absolutas. É uma unidade coletiva dentro do ramo do para o que-der-e-vier, com atividade (con)centrada na felicidade de lutar, ou cujo essencial motivo reside em proporcionarmos o máximo da felicidade imaginável, uma ao outro, e a outra a um, porque só assim é possível alcançar o maior número de vitórias, êxitos nos empreendimentos, sucessos nas demandas. Todavia, convenhamos, esse objetivo encontrará diversas resistências num ambiente cultural que se caracteriza sobretudo pela ordem inversa da lógica e racional, enfim numa sociedade onde os que têm habilitações para o desempenho das funções inerentes à sua profissão fazem os serviços menores, carregam mobílias e caixotes, fazem biscates de consertos vários, são caixas de hipermercado ou serventes de obras, ou seja, fazem o trabalho indiferenciado, e os que não sabem fazer absolutamente nada ficam a ver e a mandar, são coordenadores ou encarregados disto e daquilo, ou ficam sentados em secretárias, durante o horário de expediente, como se fossem doutores, quadros superiores, mestres e engenheiros. Creio que é necessário errar para avançar seja no que for, mas nada de abusos: insistir na mediocridade atribuindo aos inúteis a valia que cabe aos competentes e eficazes, sob o pretexto da humanidade igualitária, pode trazer enormes dissabores e desmandos, que nos agravarão a crise nas partes (Hui!), instituição a instituição, como no todo, diminuindo a eficiência e eficácia das políticas e planos de estabilidade e crescimento – os célebres QREN’s e PEC’s dos nossos pecados. Num país em que os melhores são os pior tratados, a falência e a banca rota são apenas, como perspectiva, a única possibilidade previsível com larga prioridade nos resultados.

Por outro lado, devemos reconhecer, que o país, a nação, a nossa pátria, não são os outros, nem algo que nos é alheio, nas condições e diagnósticos como nas estratégias e programas: somos nós. Cada qual é um órgão elementar e inalienável desse todo que se quer coeso e histórico. Por isso, seria aconselhável deixar para trás a abdicação e o laxismo. Porque ele, ou ela, a pátria, é a imagem perfeita do povo que a contém. Se somos corruptos, é ela corrupta também. Se somos surrealistas na administração do Estado, então o caos social não nasceu por ordem e graça do espírito santo, fomos nós que o criámos. Mas não por erro, que esse ainda é o único caminho possível para o êxito e desenvolvimento (: só crescemos e nos desenvolvemos por engano, como sucedeu com a descoberta do Brasil e, depois, com a sua independência). Por burrice e corporativismo, que o mesmo é dizer, por comodismo desinteligente e criminoso, sob o explícito fim de trambicar e burlar o próximo.

Quando era pequeno – embora nunca tenham sido grande, uma vez que 1,60 m não garante a nenhum adulto chegar à prateleira de cima de qualquer hipermercado ou mijar nos urinóis (públicos) dos homens sem se pôr em bicos dos pés – explicaram-me que estávamos a dirigir-nos para a Utopia, e que isso era mau, era péssimo, pois se lá chegássemos só nos restariam duas formas radicais de tédio: A Cidade do Sol, ou A Ilha da Sociedade Socialista, SS, que por sinal, foi exatamente a sigla da polícia secreta e especial de Hitler, demonstrando bem como os extremos se tocam neste género de definições. E empreendimentos.

A sociedade do futuro não agoirava nada de bom, principalmente se tivermos em conta que os melhores projetos, encabeçados pelos Admirável Mundo Novo (Huxley) e 1984 (Orwell), deixavam muito a desejar, no capítulo das garantias, direitos e liberdades, como no do bem-estar, qualidade de vida e sustentabilidade planetária. E Portugal estava enraizado em ambas, pela rota da agonia sistemática, entre a ditadura e a democracia do assim-assim. Vegetávamos na praia do não-me-comprometas a ver o que dava, e eis no que deu!

Porém, lá rumámos à Europa, ao sabor dos Fundos de coesão e convergência, plantando alcatrão e espalhando CO2 por todos os baldios e charnecas, a que chamávamos crescimento e progresso. Semeámos também algumas catedrais do conhecimento enciclopédico no intuito de criar massa crítica, contudo apenas frutificou em novas oportunidades azedas e muita parra preta nas arruadas da copofonia. Empestámos os lençóis freáticos, os campos e rios com pesticidas, inseticidas e herbicidas, e as praias com lixeiras de garrafas, plásticos, beatas e latas de conserva ou refrigerantes. E as piscinas, e arrozais com buracos de golfe ou estádios para campeonatos de desportos moribundos – e mundiais que não passaram de projetos a concurso.

Então, de acordo com as circunstâncias, e atendendo que é preciso ter coragem para errar, podemos dizer que somos todos uns valentes. Autênticos e olímpicos na manobra do esconder com perícia e da metáfora: para nós nunca nada foi o que pareceu – pois quanto aparentou foi sempre outra coisa, e essa jamais se fundamentou no que era mas no que queríamos ou quiseram que fosse. Progresso foi metáfora de desenvolvimento, mas apenas gerou estagnação surripiadora de fundos e subsídios, visto que em Casal Parado ficou tudo na mesma, e quando falhámos foi só em não conseguirmos fazer ainda pior do que já estava, que é precisamente esse o significado de insustentabilidade. E até na verdade fizemos dumping(1), tendo uma lá para fora e outra cá para dentro, vendendo por depreciação o que se enaltecera anteriormente, umas vezes, ou apresentando como dados estatísticos aquilo que não passava de resultados de estimativas ou sondagens encomendadas, outras.

E se fomos campeões em alguma coisa, não resta agora a mínima dúvida, terá sido unicamente em desperdiçar, edificando prédios sem racionalização energética nem acesso universal, cidades inaptas para pedestres, transportes públicos altamente poluentes e exclusivamente dependentes de combustíveis importados, com promontórios de subida e descida que obstaculizam o acesso a deficientes e idosos, desertificámos o interior e sobrepovoámos os litorais, criando megazonas metropolitanas, contribuindo para o aquecimento global e alterações climáticas valentemente.

Porém, estivemos sempre prontos a crucificar os demais se trabalhassem ou criassem algo, difamando-os em prol da defesa da nossa corporação, clube ou partido, diminuindo quanto fizessem, e sobretudo, com afinco e militância permanente, apelidámo-los de excêntricos e iluminados se não subscreveram ou elogiaram a mediocridade geral, como de exibicionistas ostensivos e se calaram perante o que mostrámos,quanto fizéramos ou pensáramos. Até que finalmente o conseguimos e presentemente estamos todos na merda, corajosamente entranhados nela e heroicamente convictos que a culpa foi da crise. Qual crise? Excelsa e exclusivamente essa: a da nossa identidade. Ou que a culpa foi da oposição, que se negou a colaborar corajosamente no erro até ao colapso final. Ah, valentes! Sim senhora, dignos de um hino que vista com ouros e brocados as armas e brasões [barões?] assinalados que da ocidental praia lusitana foram por défices nunca antes alcançados. Isso. E valentemente! Que agora cá estamos eu e tu, para dançarmos numa roda-viva tentando sobreviver entre a desonra de sermos portugueses e a indignidade sermos vistos pela Europa como incapazes de nos governarmos sem a caridade dos fundos comunitários.

Ou pequenos mas infantis!... Que quem derruba um governo que já não governa, quer é esmolas, papas e taberna.

(1)Dumping – (economia) Venda de produtos no estrangeiro a preços mais baixos do que os praticados no mercado interno com o objetivo de dominar o mercado e afastar a concorrência.

3.25.2011


DEIXEM DE IR A "JARDINS ZOOLÓGICOS"



Quando as pessoas são hipócritas entre si, o problema é delas e lá saberão o que fazer. Agora quando são hipócritas entre si e com isso prejudicam outras espécies, o caso muda de figura.
Já vou tendo pouca paciência para intelectuais que gozam e criticam reality shows ou a programação das nossas televisões, mas depois masturbam-se "intelectual" e "socialmente" em facebooks, blogs e outros que tais, participando em reality-shows auto-(re)criados até à exaustão.

Tudo bem, aceito que os que reclamam de tudo isto não desliguem a televisão, não vão a manifestações porque não acordaram a tempo ou se distraíram com qualquer afazer pessoal, aceito que não possa já ir ao cinema sem ser em gaiolas gigantes a que deram o nome de centros comerciais ou shoppings, aceito que essas gaiolas ensurdecedoras sejam o limite da criatividade de centenas de pessoas que se repetem semanalmente nos mesmos rituais atávicos; aceito que não possa ir à praia junto a minha casa a partir de março, pois o que deveria ser um lugar "saudável" se transforma num parque de estacionamento e de trânsito caótico porque as pessoas não se lembram que um das funções dos seus membros inferiores é andar (e podem fazê-lo com várias ajudas desde bicicletas, patins em linha, trotinetes, skates,e tc), enfim a lista continuava.

Agora, o que não aceito é que à custa de formas de entretenimento mórbido outras espécies morram. Não falo das corridas de galgos ou de pitbulls, não falo da pesca, ou da caça. Falo do Knut, um pobre urso polar que foi transformado em mercadoria de marketing de um jardim zoológico de uma das cidades supostamente mais evoluídas da Europa, Berlim ( http://www.publico.pt/Sociedade/morreu-knut-o-urso-mais-famoso-do-mundo_1485835 ). Não aceito que pessoas que se chamam a si mesmos pais levem os seus filhos, que dizem estar a educar para o futuro, a prisões onde a diversidade da vida é transformada em produto de entretenimento barato e sem sentido. Atiram-se moedinhas aos elefantes, umas sardinhas aos ursos e diz-se "ai que giro" ou "ai que medo" conforme a sensibilidade, mas depois vão todos para casa felizes por terem visto bichinhos giros, tirado umas fotos de circunstância e cumprido o sagrado dever de passar uma tarde em família. Mas, claro, essas famílias vão para casa de carro, mesmo que morem a 30 mins de distância, pois o giro é ver o ursinho polar ali ao pé de nós atrás de umas grades. Que importa que os outros, ainda na vida selvagem, vejam os seus habitats cada vez mais destruídos pelo aquecimento global, pesca excessiva, e outras coisas mais directamente relacionadas com a actividade humana?

De notar que zoológico significa "estudo relativo a animais". E nesses antros faz-se tudo menos estudos e nem as desculpas, que alguns utilizam dizendo que têm projectos de recuperação de espécies, servem para amenizar a brutalidade desses sítios, pois esses estudos devem ser feitos em locais mais recatados. Tal como aconteceu com o Knut, muitas dessas espécies acabam por desenvolver doenças terríveis devido a alterações comportamentais derivadas da exposição permanente aos guinchos, risos e demais ruídos dos humanos que os vão "ver".

O knut morreu e independentemente do que venham a dizer os responsáveis do jardim sobre a sua morte, a causa mais imediata e inegável é o seu esgotamento por ter sido transformado em cabeça de cartaz de um espectáculo miserável. O irónico e absurdamente hipócrito é que os que causaram a sua morte, ou seja, todos os que o foram visitar naquele sítio, criam agora um livro de condolências e fazem-lhe homenagens. Quantos mais vão ter de morrer para que passemos a entender que a vida é para ser sentida, partilhada e, acima de tudo, respeitada em todas as suas dimensões e que as outras espécies não são objecto de uso do homem para seu bel-pazer? Os "jardins zoológicos" são extensões dos antigos circos romanos. Se os queremos de volta, coloquemos neles apenas homens, tal como acontecia na altura, façamos touradas só com homens e não com touros, façamos corridas de apostas só entre homens e não com cavalos, cães ou galos. Se querem ver animais em exposição, vão ao Red Light Distric em Amsterdão onde pelo menos 3000 prostitutas estão expostas em vitrinas (e agora até já vão pagar impostos). Façam o que quiserem entre humanos, pois estes ainda são dotados de livre-arbítrio e temos uma eternidade para pagar as nossas dívidas. Agora, pelo menos, no meio de toda a nossa cobardia, hipocrisia e atavismo, não sujeitemos outras espécies aos nossos vícios e à nossa pequenez.

Se não queremos o Big Brother, a solução é simples. Desliguemos a televisão.

Se não queremos ser assassinos de animais como o Knut, a solução também é simples: DEIXEM DE IR A "JARDINS ZOOLÓGICOS". Porque a ignorância já não é desculpa.


(Obrigada)
Filipa M. Ribeiro

3.21.2011

Uma Questão de Ética Não é Uma Falsa Questão


Quem ateia fogo à noite, de manhã come-lhe as cinzas. Pese embora haver basta gente que o desconheça, esta é mais uma daquelas realidades que não se incomodam nem debilitam pela ignorância dos que a sofrem, e sobre os quais recai, independentemente de a contemplarem e reconhecerem, ou não. Tal como as leis, ninguém se pode esquivar a cumpri-las argumentando o seu desconhecimento. Para uns pode ser o poder da ressaca, para outros a evidente valia da resiliência. Agora, do que dificilmente nos alhearemos, é que se fizermos alguma coisa de acalorado e exigente esforço num dia, ao outro sentimo-lhe os efeitos, mais ou menos nefastos, é claro, conforme o grau de intensidade e a nossa capacidade de encaixe, ou resistência, o determinarem. E nas relações interpessoais, isso está igualmente estabelecido e atuante.
Por outras palavras, os impulsos e repentes de exagerada visibilidade pagam-se. E não raras vezes, com um preço elevadíssimo e juros de mora.
Suponhamos que alguém que nos é estimado e nos estima, respeita e acarinha, ajuda e apoia, se confia e partilha, sabe de fonte fidedigna que a traímos contando a terceiros o que só a nós confiou, ou nos ama mas nós preterimos na hora de dar e recolher prazer, fazendo-o com outrem. Devemos depois esperar e exigir que essa pessoa continue a ser para nós o que antes era?
É sobrenatural quem o for, e desumano quem criou semelhante expectativa. A dignidade e a integridade, física ou moral, não são lixo que se possa varrer para debaixo do tapete descurando a hipótese de que alguém o levante ou puxe. E então, o sarilho dá-se. A coisa estoura. O vulcão entra em erupção. O incêndio deflagra. A tragédia eclode. E quem são os verdadeiros culpados? Nós que traímos, ou aqueles que confiaram?
Se um governante que nos tutela os destinos, que nós elegemos e em quem confiámos, vai para o estrangeiro contar pormenores da nossa actividade sócio-económica sem que ter consultado acerca dessa iniciativa, então não pode esperar depois que os governados estejam disponíveis para a concretização desses detalhes, sobretudo se eles mexerem directamente com o seu nível de vida e poder de compra.
José Sócrates, não obstante, cometeu exatamente essa afronta, tanto aos que nele votaram, como aos que se lhe opuseram. Tripudiou em cima de todos, sem excepção nem vergonha, tendo descaradamente de seguida exigido, por uma questão de interesse nacional, colaboração na execução prática – via PEC IV – dessas medidas de austeridade, que alardeia serem fundamentais para superar "a crise". Pois bem, estas coisas têm o seu preço. Vai esperar por eleições no final do mandato, ou gostaria de matar a curiosidade mais cedo? Ora, o que é certo, é que Passos Coelho seria capaz de fazer o mesmo se estivesse nas mesmas circunstâncias... Porque não é com chiliques e arroubos de líder tocado pela graça histriónica, na mira do poder, pela via das SCUT carreiristas, que ficamos convencidos que entre duas iguais uma é melhor que a outra. George Orwell já nos contou essa fábula no século passado, e todos a compreendemos, pese embora muitos vivessem na quinta sem nunca terem ido à escola.
Então!, ainda estão à espera de ver para crer? Entre os homens de bem, uma questão de ética foi sempre, e continuará a ser, uma verdadeira questão.
([Segunda]Fotografia de Sukha, autoria de Carlos Garrido)

3.17.2011

Uma escola para tolos?


Por João Ruivo



http://www.educare.pt/educare/Opiniao.Artigo.aspx?contentid=90393CD536DFF36DE0400A0AB8001D4D&opsel=2&channelid

Com o decorrer dos anos, os governantes, lá no alto do seu douto saber, entenderam que, já agora, os professores e a escola poderiam também cumprir uma imensidão de funções até então cometidas ao Estado, às famílias e à sociedade.

O teimoso prosseguimento da implementação das atuais medidas de política educativa anuncia uma clara mudança de paradigma: a transição do modelo sixty da "escola para todos", para o modelo pós-modernista da "escola para tolos"
A grande reforma educativa sorvida dos quentes e vibrantes anos do final da década de sessenta, consubstanciada nas filosofias do maio de 68, apontava para uma escola aberta, universal, inclusiva, interclassista, meritocrática, solidária, promotora da cidadania e, até, niveladora, no sentido que deveria esbater as desigualdades sociais detetadas à entrada do percurso escolar.
Os professores passavam a ser mediadores da aprendizagem, promotores da socialização e do trabalho partilhado. Os alunos metamorfoseavam-se em aprendentes ativos, participativos, concretizadores, colíderes da sala de aula e do rumo a dar às planificações. Os pais, descolarizados ou iletrados, por vergonhosa opção de quatro décadas de ditadura, entregavam os seus filhos naqueles centros de promoção do sucesso social. Era a escola aberta à comunidade, uma escola moderna, que se impunha à escola tradicional. Era, enfim, a escola para todos.
Com o decorrer dos anos, os governantes, lá no alto do seu douto saber, entenderam que, já agora, os professores e a escola poderiam também cumprir uma imensidão de funções até então cometidas ao Estado, às famílias e à sociedade. Mesmo que não tivessem tido preparação para isso, os professores tinham demonstrado que sabiam desenvencilhar-se e, sobretudo, que não sabiam dizer não.
E desde então, essas passaram também a ser tarefas e funções da escola e dos seus docentes. A partir desse momento singular, passámos a ter uma escola que, por acaso, também era um local de aprendizagem formal, mas que, sobretudo, se foi desenvolvendo como um espaço de aprendizagens sociais, informais, socializadoras. E foi assim que se baralhou e se desvirtuou uma escola que, altruisticamente, queria ser para todos, transformando-a numa escola onde tudo cabia. Era a escola para tudo.
Mais recentemente (reportando-nos ao baronato de Maria de Lurdes Rodrigues e ao principado de Isabel Alçada), entendeu-se que a escola gastava muito e os professores, numa indolência secular, pouco faziam. Logo, quem sabe? até poderiam ser substituídos uns pelos outros, à molhada, degradantemente. Ou até secundarizados por "skinnerianas" máquinas de ensinar, que apressadamente se viram batizadas de Magalhães, porque os governantes portugueses gostam que a História, tal como as telenovelas, se repita.

A Liga Árabe acabou de propor uma resolução formal ao Conselho de Segurança da ONU pela criação da zona de exclusão aérea sobre a Líbia. Depois de semanas de um impasse internacional, este é o momento da verdade, se nós não conseguirmos persuadir a ONU a agir agora, nós poderemos testemunhar na Líbia um dos maiores massacres deste novo século.

As forças do Kadafi estão esmagando os manifestantes cidade por cidade. Se eles retomarem o país, uma retaliação brutal aguarda os líbios que desafiaram o regime. Relatos de tortura e assassinato já estão vazando das áreas retomadas.

Cidadãos líbios comuns estão pedindo que o mundo não os abandone. A comunidade Avaaz está profundamente comprometida com a não-violência, mas a imposição de uma zona de exclusão aérea para manter os aviões de guerra do Kadafi no chão é um caso específico onde uma ação militar liderada pela ONU é realmente necessária. Um questionário enviado para a nossa comunidade mostra que 86% das pessoas apóiam a zona de exclusão aérea. Agora, no momento em que o voto da ONU se aproxima, chegou a hora de aumentar ainda mais a nossa pressão.

Nós torcemos quando o povo da Líbia saiu às ruas e agora não podemos, e não devemos, ignorar o seu pedido de ajuda neste momento tão difícil. Mesmo se você já participou, clique abaixo para enviar uma mensagem para o Conselho de Segurança da ONU:

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_3/?vl

A ONU está dividida, mas a situação está mudando rapidamente. A China, Rússia e Alemanha são contra enquanto a Liga Árabe, a Confederação Islâmica, o Reino Unido e a França são a favor. Os EUA e Índia estão em cima do muro. Este não é o velho debate Ocidente versus Oriente, nem, como alguns suspeitam, uma conspiração de interesses petrolíferos. O Conselho Nacional de Transição da Líbia, que a França reconheceu como o governo legítimo está desesperadamente pedindo uma zona de exclusão aérea e apóio internacional. Porém a cada dia que passa, o perigo aumenta de que qualquer ajuda chegará tarde demais.

Uma zona de exclusão aérea sozinha não é a solução final, ela deverá ser apoiada por sanções direcionadas e congelamento das contas do regime, a interrupção da transmissão das declarações do Kadafi incitando a violência, e mais países reconhecendo diplomaticamente o Conselho Nacional de Transição da Líbia. Mesmo tudo isso poderá não ser suficiente. Porém aqueles que opõe uma ação forte devem se perguntar se, com dezenas de milhares de vidas em jogo, eles estão dispostos a defender a passividade.

A lei internacional e o Conselho de Segurança da ONU deixaram claro que, quando crimes contra a humanidade são cometidos, a comunidade internacional tem a responsabilidade de proteger os povos destes crimes, mesmo que o agressor seja o seu próprio governo. Mesmo que ainda não conhecemos a total magnitude dos crimes do Kadafi, nós não podemos virar as costas neste momento. Clique para enviar uma mensagem urgente para os delegados do Conselho de Segurança da ONU:

http://www.avaaz.org/po/libya_no_fly_zone_3/?vl

Na melhor das hipóteses, o Kadafi irá reagir à resolução da ONU sobre a zona de exclusão aérea, parando os ataques aéreos. Porém se ele não parar, a imposição da zona de exclusão aérea terá que ser feita com ataques diretos aos caças que ele tentar usar e possivelmente ataques aéreos aos sistemas de mísseis antiaéreos. Há também a possibilidade de uma zona de exclusão aérea levar a um envolvimento militar mais profundo na Líbia.

Enquanto o mundo (e a Avaaz) criticaram fortemente a guerra do George W. Bush no Iraque, e defendemos soluções pacíficas para conflitos em muitos lugares, este não é o Iraque. Se não agirmos logo, a Líbia poderá se tornar Darfur, com graves crimes contra a humanidade cometidos contra comunidades inteiras. O regime do Kadafi tem um longo histórico de tortura, massacrando o seu próprio povo e financiando o terrorismo internacional. Mas o povo líbio está unido contra as tropas do Kadafi -- mesmo a sua própria tribo e cidade natal se distanciou das suas ações.

A situação da Líbia, e a reação internacional a ela, é complexa, com muitos atores e agendas, assim como o futuro de uma Líbia pós-Kadafi ainda é incerto. Esta complexidade deve guiar o cuidado que temos em nossas ações porém, pelas vidas de dezenas de milhares de líbios, nós não podemos ficar parados. Vamos tomar a melhor decisão que podemos e agir, agora.

Com esperança,

Stephanie, Ricken, Ben, Alice, Benjamin, Rewan e toda a equipe Avaaz

Leia mais:

Forças de Kadafi continuam avançando; aeroporto de Benghazi é bombardeado:
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,forcas-de-kadafi-continuam-avancando-aeroporto-de-benghazi-e-bombardeado,692670,0.htm

Resolução sobre zona de exclusão aérea na Líbia chega ao Conselho de Segurança:
http://www.jn.pt/PaginaInicial/Mundo/Interior.aspx?content_id=1806717

Aviões de Kadafi bombardeiam principal reduto rebelde em Benghazi:
http://noticias.terra.com.br/mundo/noticias/0,,OI4995259-EI17594,00-Avioes+de+Kadafi+bombardeiam+principal+reduto+rebelde+em+Benghazi.html

ONU não chega a consenso sobre a Líbia:
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2011/03/15/onu-nao-chega-consenso-sobre-libia-924013475.asp

Sarkozy pede que ONU adote zona de exclusão aérea sobre a Líbia:
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,sarkozy-pede-que-onu-adote-zona-de-exclusao-aerea-sobre-a-libia,692829,0.htm

3.04.2011


Há Pessoas Capazes de Tudo!

A minha casa tem sete portas
Todas abertas de par em par,
Aquelas em que o Sol não entra
É porque estão viradas prò Luar.

In Terceiro Passo, poema de Joaquim Castanho, incluído no livro Nova Razão: Velha Aliança.

Acordar é um ritual que se reflete no carácter de cada qual, havendo quem tome as medidas adequadas à circunstância, e escolha aquilo com que o despertar melhor lhe caia para se entrincheirar num novo dia, como se a segurança e confiança fossem o principal reflexo e espelho do amor-próprio, ou o seu sucesso (existencial, incluindo a identidade) dependesse absolutamente desse momento. Não sou diferente de ninguém, nesse capítulo – pelo menos (e até ver). Todavia, embora frio o dia me entrasse pela janela da sala, que ocupa toda a largura dela, envolvendo a casa numa saudação de inesgotável irradiação, não me antevia disposto a “partilhar”, termo que atualmente no jargão das TIC serve para quase tudo, com Shara a acontecência ou sucedância da véspera. Porém, depois de ingeridas aquelas tostas estaladiças acompanhadas com geleia de morango que recheiam qualquer estômago com a suculenta mistura do cereal nobre (trigo) com o fruto açucarado dos corações ao rubro, não pude evitar-me ao sabor requintado de um café Qharacter Delta Q, intenso, mesclado, de aroma sofisticado e sublime, o preferido de quem não se deixa adormecer (e enredar) pelos placebos de viver, procurando lá fora, entre as erectas (quase românticas senão góticas) ramadas dos ciprestes os pintassilgos que costumam fazer seus ninhos onde a vizinhança me é mais próxima, precisamente na ponta do nariz, a meia sílaba de um trinado de alma cristalina, dei comigo a considerar que não tinha cometido qualquer falta grave, e que seria mesmo divertido ver-lhe a cara de espanto, de incredulidade, que faria se lho contasse.
Reparei que os pintassilgos não estavam lá. Tinham-se levantado mais cedo. Ou eu sensivelmente tarde do que o habitual… – que era o mais certo! – dando-me a sensata perspetiva de uma outra maneira de alinhavar o tempo conforme o modo de vida, uma vez que eles se teriam deitado, como aliás é seu costume, muito mais cedo e aproveitado a longa manhã para esperar a Primavera, a distar não mais que quinze dias, que no calendário das aves deve ser ainda menos que um saltinho de pisco ou toutinegra. Creio que o fazia para evitar decidir-me, adiar o momento em que o pão-pão, queijo-queijo, me encostariam à parede do agora-ou-nunca, inspirando-me no voo da fuga através da vizinhança, num Ícaro pouco convincente, confesso, embora a meiose de saudável engenho traga o morse do dit dit da da da dit dit dit de um pedido de socorro, e dizer-lhe quanto me sucedera naquele ápice e entrementes da saída de tua casa até entrar na minha.
Contudo, eis que o meu raciocínio foi de pantanas e as hesitações bateram em retirada, porquanto uma chave girou na fechadura da porta, e esta se escancarou, jorrando-te como faria qualquer vulcão administrando lava pelas redondezas. E não vinhas só, pois trazias contigo toda a ironia metediça de quem acordara com a pirraça na mente, a traquinice a todo o pano, de um veleiro com vento forte – e a favor. «Bom djia!!...» trinaste ainda mal entraras, a saracoterar naquele sorriso de quem a traz fisgada e pretende levá-la até ao fim, só para ver no que dá. Pura curiosidade feminina, suponho. Maquiavélica, é certo, diabolicamente tentadora, não resta a mínima dúvida, mas infinitamente desarmante, e devastadora, se atendermos à tempestade de confuso e controverso efeito para onde nos atira, sempre e impreterivelmente sempre com inocente intenção, no sem-querer que tanto provoca como seduz, até magoar na demasia de preferir, envolver e viciar.
«Viva, viva» atalhei supérfluo a refazer-me na alvoraçada temperança, cuja derrocada, de latente, se anunciava prestes. «Já de pé!… Não estou atrasado, pois não?», redargui tentando recuperar o equilíbrio para lhe afincar o salto leonino que me devolvesse a confiança, mordendo-a de seguida com as palavras que a situação pedia. «Só combinámos que almoçaríamos juntos, e ainda tenho muito tempo para o fazer… Mudaste de planos?»
«NÃO, queridinho! E este não é válido para as duas perguntas: não estás atrasado, nem mudei de planos. Sonhei é que tinhas qualquer coisa importante para me contar, e não quis deixar-te a sofrer na espera. E da espera» me elucidou, como se necessária fosse tal precisão, considerando o aturado treino que ela desde sempre me impôs, quer dizer, a que tu me obrigaste continuamente. Já esqueceste?
«Como assim?! O que é que pode haver tão importante que não possa esperar até ao meio-dia e meia?»
«Tu é que sabes» replicou assertiva, seca e de imediato, quando quase ainda eu, nem sequer, terminara a pergunta. «Ou será, que estás a insinuar, que ando a sonhar coisas. Coisas!»
Empaquei. Fiquei com a resposta atravessada, a raspar o céu-da-boca, mas sem a mínima esperança de ouvi-la sair. Às vezes estas ninharias acontecem aos melhores comunicadores. São brancas que nos escurecem o ânimo, anunciam apocalipses e fomentam dilúvios de saliva que nos apressamos a engolir, para disfarçar, enquanto ginasticamos a glote em seco como um êmbolo de motor acelerado.
«Cheira aqui bem… Este cafezinho também me dava jeito» a mim, que me prontifiquei a tirar-lho, com superior mestria e requinte.
«Então, conta lá» sugeriu, garantindo-me quanto levara a sério as minhas desculpas, e recusas, sonegações e esquivas, acerca do assunto que a trouxera. Pronto, desembuchei: «Foi a vizinha ali da frente que me pediu um livro emprestado, ontem à noite, e eu dei-lhe aquele que fiz para ti. Não devia tê-lo feito? Podia ter-te perguntado antes… Mas» ela aplicou-me o «fizeste muito bem. Àquela hora não ias telefonar-me só para me perguntar isso. Ias?»
Nem tal me passara pela cabeça! Passei-lhe a chávena fumegante. A mão dela segurou na minha, enquanto a chávena transitava entre ambas, ao que, fixando-me incisiva sobre a ondulada espiral de fumo que se evolava, adiantou um «e?» que bateu na consciência como um aguilhão em fogo.
«E?», repetiu. «E?»
«E nada, foi tudo o que passou», refilei.
«Ok. Vou fingir que acredito. Logo ao almoço contas o resto.»
Pousou a chávena sobre o livro aberto que me preparava para ler. E… Saiu! Saiu pela mesma porta por que entrara, deixando as demais – seis – escancaradas para o ventinho da inquietação que me começava a corroer a alma. Apenas saiu. (E nem um beijinho de despedida… Há pessoas capazes de tudo!)

3.01.2011


Anfiteatro Nobre


9:30-10:30
Alexandra Serapicos (UCP)
Palestra Inaugural: “Utopia e Cinema. Algumas Notas e Derivas.”

10:45- 12:45
Miguel Santa & Vasco Pucarinho (UCP)
“Fragmentos de um Filme — Utópico”

Lídia Queirós (UCP)
“Sleeper: Inesperadas Possibilidades Cómicas da Distopia no Cinema”

Flávio Pires (UCP)
“Utopia vs. Identidade: a Sociedade e o Indivíduo em Farenheit 451”

Dep.º de Estudos Anglo-Americanos (2.º Piso, Torre A)

14:30 - 17:00
Filipa Paiva (FLUP)
“As Políticas de Normalização em V for Vendetta: Espacialidade, Deslocações e Organização Social”

Inês Botelho (FLUP)
"No Início e no Fim: da Utopia e da Distopia em Lord of the Flies"

Joana C.S. Caetano (FLUP)
“La Fin est proche: Visões Apocalípticas em Les Derniers Jours du Monde”

Miguel Ramalhete (FLUP)
"'Nunca Nada Acaba': O Fim de uma História Distópica em Watchmen

Dep.º de Estudos Anglo-Americanos (2.º Piso, Torre A)

17:30 - 19:30
Márcia Lemos (FLUP)
“Esse est percipi: Percepção, Dualidade e Angústia em Film, de Samuel Beckett”

Filipa M. Ribeiro (FLUP)
“Documentário e Comunicação de Ciência: Dialécticas e Sedutoras Utopias”

Hélia Saraiva (FLUP)
“A Utopia de um Professor Paraplégico: ‘A Convivência Pacífica entre Humanos e Mutantes’”

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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