4.29.2013


APONTAMENTOS À MARGEM PARA DESMARGINAR

Eis a primeira sequência de APONTAMENTOS À MARGEM PARA DESMARGINAR nascidos em Alínea R) evolução verde ( http://www.facebook.com/evolui.verde ) como editorial de página, mas traduzindo o evoluir teórico de uma orientação que se pretende simbiótica entre a ideia de sustentabilidade e a preparação do futuro, com relevante ênfase nos Direitos Humanos, na Ética da Terra, no progresso e desenvolvimento.



VI –  ESPECISMO E MULTICULTURALIDADE

Embora a espécie humana tenha sido aquela que melhor se emancipou na (e da) natureza, deixando de estar sujeita às suas contingências, o que é certo, é que cada forma de vida é idiossincrática, rara, única e inimitável, singularidade pela qual se devem observar atenciosos cuidados em consideração e respeito pelas condições do seu florescimento, bem como pelo equilíbrio do habitat que a integra. As capacidades do ser humano, o seu empenho, arte, engenho e espírito gregário-expansionista, permitiram-lhe ultrapassar quase todos os constrangimentos naturais, contudo devemos reconhecer que há limites e fronteiras decorrentes das leis da natureza que não podemos violar, e que põem em risco a nossa hegemonia terrena. (Qualquer vírus ou bactéria nociva tem mais possibilidades de nos dizimar do que nós a ela…) E um deles é o das monoculturas e eleição de espécies no povoamento de largas parcelas do território, por motivos económicos ou de facilitação instrumental dos ecossistemas, selecionando e incentivando a proliferação de muito poucas espécies em detrimento das restantes (especismo), diminuindo a sua resiliência face aos elementos, à desertificação e falência, atingindo consequentemente a comunidade humana aí hospedada.

Ou seja, para contrariar as dificuldades naturais de expansão e sobrevivência praticámos a manipulação do meio ambiente, durante milénios, através do especismo, estratégia essa que foi globalmente tida por sensata; todavia, sabe-se atualmente, que ela pode acarretar-nos dissabores e danos irreparáveis, tanto no ecossistema como na economia das regiões, tanto na ecosfera como nas condições de vida do indivíduo, porquanto o atrofiamento da sua sustentabilidade é bem maior do que os benefícios auferidos, uma vez que as monoculturas são mais atreitas aos efeitos das catástrofes naturais e das alterações climáticas. Porque fazer depender a sobrevivência de uma população de um só produto, é fazer perigar esta à menor fragilidade da sua (re)produção.  

Por conseguinte, chegou a altura de inverter o curso das decisões e rejeitar todas e quaisquer práticas culturais que ponham em causa a integridade da fauna e da flora de um lugar, ou as suas particularidades geográficas e territoriais, não só quando provocam elevada mortalidade e extinção de espécies, como é o caso de inúmeros rituais e tradições, sacrifícios e eleição de símbolos emblemáticos para marketing, ou de tomar medidas radicais de desinfestação, por pesticidas e herbicidas de efeito durador nos solos e/ou atmosfera, e ainda a promoção de eventos de diversão com animais (touradas, circos, lutas, exposições não-científicas) e comercialização de espécimenes selvagens ou exóticos, e enveredar definitivamente por uma opção generalizada de atitudes e comportamentos que difundam e disseminem a diversidade (multiculturalidade) específica e cultural, de raças e credos, pois os ambientes (e nações) mais ricos, fecundos e sustentáveis, não são os que se resumem e fecham sobre si, mas os que se cambiam e multiplicam contemplando a biodiversidade e o maior número possível de janelas de oportunidade, mobilizando todos os seus recursos endógenos para promover a cooperação e o desenvolvimento autónomo, assim como a segurança e bem-estar das suas populações (humanas e não-humanas).


VII – ÉTICA E INSTINTO

A principal preocupação de uma cidadania responsável, consciente, crítica e participativa, é garantir o direito de todos e de todas a um ambiente sustentável, sadio e ecologicamente equilibrado, com vista a, consequentemente, promover e instituir a qualidade de vida de cada um, como da generalidade. Até há bem pouco tempo as relações humanas com a terra, além dos usuais bairrismos patriótico-territoriais, foram estritamente económicas, o que implicava, na prática, constatar de muitos privilégios e nenhumas obrigações. Proprietários, rendeiros, empresários, turistas, trabalhadores e residentes, cada qual a seu modo, instrumentalizaram-na exaustivamente, tornando-a apêndice de rendimentos e mais-valias, alheando-se dela e esquecendo que a ética é inequivocamente uma espécie de instinto comunitário em evolução similar ao instinto de defesa.

A crise que atravessamos tem agravado esse relacionamento fazendo recuos consideráveis, em diversos setores de interceção do ambiente com os interesses económicos e as tradições culturais que espelhavam já alguma melhoria na qualidade, natureza e intensidade/intencionalidade dessa instrumentalização. O território português, antes ressequido está agora alagado, sobretudo nas áreas de cultivo de víveres de produção/consumo sazonal, pondo em risco a variedade e volume da produção nacional de bens que o défice e a balança importações/exportações aconselham acuidada ponderação.   

Portanto, repensar o uso do solo arável, estabelecer prioridades e otimização da escolha nas sementes, segurar e acautelar as sementeiras dos locais passíveis de derrocadas, enxurradas ou incêndios, promover a investigação agrícola e pecuária, proteger e preferir as espécies autóctones, bem como reimplantar a conduta dos “três erres” (Reduzir, Reutilizar e Reciclar), apresenta-se não só como uma necessidade económica e existencial, ou de prevenção do caos territorial, mas igualmente como um imperativo ético, uma forma de orientação equivalente ao mais explícito e contundente dos Dez Mandamentos: não matarás. Porque se não for feito está-se a defraudar o instinto de sobrevivência dum povo e duma nação, está-se a matar diretamente ou em diferido a (esperança de) vida de muitos, senão quase todos, os portugueses e portuguesas menos abonados e dependentes do orçamento do estado. 


VIII – POLÍTICA AMBIENTAL E DESENVOLVIMENTO

São erros de palmatória, em ambientalismo e democracia, a exploração do homem pelo homem, a mitigação dos direitos, liberdades e garantias, o produtivismo salvagem e empreendedor não esclarecido, a exploração irracional dos recursos naturais, a institucionalização das dependências, a conservação inadequada do perecível e o insistir num planeamento de curto prazo, sobretudo quando este é imposto pela subordinação da vontade política aos interesses económicos ou a fundamentalismos ideológicos. Esses erros têm sido continuamente repetidos pelos detentores do aparelho de estado, quase consecutivamente, não fossem algumas frechas de descuido, desde meados do século passado, pelo menos, mas de forma requintada e com subtilezas de malvadez para contornar os ditames de Quioto, a sustentabilidade e o apaziguamento dos conflitos (bélicos ou não) e as clivagens político-partidárias das sociedades, sobretudo nas afetas ao universo da portugalidade, onde o maquiavelismo do «dividir para reinar» tem feito escola em todas as juventudes partidárias dos últimos 30 anos. Principalmente nas dos dois maiores partidos (PS e PSD) que têm assim, não só mas também, conseguido alternar-se no poder e declaradamente contra quem governam (ou em nome de quem dizem governar), e são quem mais sofre os efeitos desse falso designo: os portugueses e portuguesas sem outros rendimentos senão os resultantes do aluguer da sua força/capacidade de trabalho.

Porém, e ainda que se reconheça que o ecossistema circunscrito ao território nacional seja um sistema finito, notoriamente perecível à continuada exploração, pela reduzida dimensão e elevada antiguidade histórica, a ação depauperativa intensificada, iniciada nos anos sessenta com a implementação das sociedades de produção e consumo, filhas da Revolução Industrial, incentivada pelas políticas ambientais que insistem em cultivar a tese de que o desenvolvimento sustentável é sinónimo de empreendedorismo selvagem e crescimento económico a todo o custo, onde os fins justificam os meios, em vez de associar este a uma melhoria da qualidade de vida humana enquadrada nos serviços prestados em prol do ambiente e do equilíbrio dos ecossistemas, de forma não só conservar os recursos como a aumentar-lhes a resiliência e sustentabilidade, providenciando o desmantelamento das atividades económicas que fomentam a exploração dos habitats, das espécies e dos recursos humanos, ou combatendo o comércio ilegal de bens, espécies e pessoas, comércio esse que reitera a tendência esclavagista medieval para objetivar o lucro e desenvolvimento económico pondo, insistentemente, em risco, o florescimento das demais espécies sem ser, em exclusivo, para assegurar a satisfação das necessidades básicas duma população, está a tornar-se um handicap multigeracional.   

E isso pode-nos sair muito caro, particularmente aos que não querem, ou não podem, emigrar, porquanto as necessidades são crescentes mas os recursos, ao invés, decrescentes. Explorar o mar, explorar o solo, explorar o ar, explorar as espécies autóctones, explorar a paisagem, explorar as sinergias regionais, explorar os areais, explorar as florestas, explorar os aquíferos, explorar os minerais, explorar o património natural ou histórico, explorar tudo e mais alguma coisa, quando devia ser antes melhorar o mar, melhorar o solo, melhorar a paisagem, melhorar o ar, melhorar as dunas e areais, melhorar os rios, melhorar as florestas, etc., é certamente o caminho mais rápido e eficiente para piorar as condições de vida dum povo, atingir o limite dos recursos nacionais, aumentar o desemprego, diminuir o PIB, rumando à depauperização generalizada e tornar-nos o dia-a-dia como causa de uma insustentável infelicidade e receio do futuro, mal-estar social e legalizada corrida para a opressão. Tudo coisas que devemos evitar enquanto ainda o podemos fazer, cujo prazo para agir em conformidade vai diminuindo gradualmente, e em acelerado contínuo, à medida que cada orçamento de estado vai sendo aprovado e posto em exercício, promovendo em catadupa o sucesso de muito poucos em prejuízo de todos, enfim, promovendo o insucesso da maioria dos governados. Aliás, explorar para conservar ou conservar para explorar, como argumenta o establishment, é uma panaceia falaciosa e mal-intencionada, de má-fé, para fugir à responsabilidade, consciência social e cidadania, pois num mundo em constante mudança, conservar inalterável seja o que for é violentar a sua natureza. E todos sabemos que, em termos ambientais, desde os anos 60, só se pode conservar aquilo que se melhora, ou nada feito.

IX – ECONOMIA E SOCIEDADE

O desenvolvimento económico é o garante e o “provedor” direto da satisfação das vontades, desejo e necessidades de uma população ou comunidade; mas não é o único. Essa satisfação exige a interferência humana na integridade dos ecossistemas, o que leva a que aqueles que mais dependem da biodiversidade para salvaguardar o seu equilíbrio, sejam também os mais propícios a molestá-la e defraudá-la. O bem-estar de uma espécie é quase sempre feito com sacrifício das demais, e a humanidade não foge – nem tem como fugir… – ao veredicto. Porém, o desenvolvimento sustentável é um dos grandes passos das sociedades modernizadas, dados no sentido de conciliar a instrumentalização do meio ambiente, os seus recursos limitados e finitos, bem como salvaguardar a integridade ecológica do nosso habitat, sem prejudicar ou pôr em causa o crescimento da economia, alinhando planos e orçamentos sob os auspícios duma consecutiva otimização de resultados.   

O modelo de sociedade que assenta no gigantismo centralizador, cujas estruturas socioeconómicas, altamente complexas e burocratizadas, impede a observância da sustentabilidade, toda e qualquer, nomeadamente a económica, porque facilita o desperdício de energias e a concentração de poderes, o controlo hegemónico dos processos de produção e consumo, apagando a participação consciente e responsabilizadora do cidadão vulgar das tomadas de decisão sobre a sua própria vida, logo, e irremediavelmente, impedindo-o de optar por um relacionamento harmónico e simbiótico com o ecossistema em que está inserido. Por conseguinte, devemos pugnar cada vez mais por uma sociedade de dinâmica social renovadora, descentralizada, democrata, participativa, organizada de baixo para cima, onde cada pessoa possa e seja ouvida nas tomadas de decisão que dizem respeito às suas condições e qualidade de vida, possa estar presente em todos os aspetos da existência em sociedade e quotidiano social, e que funcione como um todo ajustado/adaptado/assimilado ao ecossistema, proporcionando que o impacto ambiental (e pegada ecológica) seja amortecido, ou amenizado, por uma constante preocupação com a melhoria dos recursos naturais disponíveis, assim como as condições elementares da prossecução das espécies, que não lhe, nem nos, defraude a esperança de um equilíbrio suficiente e duradouro para a perseguição da eternidade possível. Enfim, uma sociedade que seja simultaneamente policêntrica e plural, que se construa e reconstrua continuamente a partir dos princípios da diversificação.

Porque a economia pode promover a sociedade, e esta deve reforçar a unidade ontológica entre o ser humano e o ambiente que o cerca, em direção a uma simbiose perfeita, exemplo inequívoco no qual se baseia a maximização das possibilidades de bem-estar, realização pessoal, social e profissional de cada um, em liberdade e entre gente livre, que mais não é do que essa “liberdade livre” onde cabem todas as liberdades que não lesam os próximos nem terceiros, e onde não há lugar para a mínima hipótese de exclusão, indiferença e ostracismo sobre seja quem for. Sobretudo porque também é essa a heurística da sustentabilidade: a de proporcionar sempre mais consolidada e efetiva sustentabilidade – ou sustentabilidades.

X – ESTÉTICA E CULTURA

“Nós abusamos da terra porque a vemos como um bem que nos pertence. Quando virmos a terra como uma comunidade à qual pertencemos, então poderemos começar a usá-la com amor e respeito. Não há outro caminho para que a terra sobreviva ao impacto do homem mecanizado, e para que dela possamos retirar a colheita estética com que pode contribuir a cultura, ao abrigo da ciência”, como salientou ALDO LEOPOLDO (Madison, Wisconsi, 04.03.1948), a propósito da apresentação/lançamento do seu livro. Ética, cultura e ecologia (como uma ciência entre a panóplia de muitas outras), não são conceitos separáveis nos dias atuais, como já não eram nos finais da primeira metade do século passado, ainda que naquela época, pudessem ser apenas fundidos por uma opção sensata e preocupada, e hoje o sejam porque não temos outro remédio, pois se a cultura não propiciar um melhor entendimento do meio circundante afasta-nos dele, desenraíza-nos, isola-nos, torna-nos patológicos ou doentios, por tê-la e cultivá-la como inútil, desnecessária e incompreensível, pseudolegível e inópia, isto é, que produzirá apenas artefactos e ideias defeituosas, que promovem tão-só a penúria, a míngua, a indigência, a falta de nobreza e a carência de identidade.

Porque a cultura enquanto realidade social é a síntese de toda a criatividade humana, numa dinâmica individual como coletiva, que visa mobilizar e favorecer as relações entre as pessoas, entre estas e a região onde vivem, e da região que habitam com as restantes regiões do globo, próximas ou menos próximas, cuja identidade seja constatável, no plano nacional como no internacional. Não é uma expressão da tecnocracia sob os postulados do economicismo, incompatíveis com autonomia, com a independência, com a emancipação, com a consciencialização, com a descentralização, mas sim a expressão dos díspares modos de viver, das práticas e valores simbólicos que deles eclodiram, emergiram, nasceram ou se deixaram influenciar, que ganharam importância estética e afetiva para as pessoas ou grupos delas, consubstancializando as suas formas de estar, de pensar, de ser, de agir, de organizar o espaço e o tempo, possibilitando que superiormente os determinemos do que eles a nós, e à maneira como nos olhamos e vemos em convivência (agressiva, sublimada, racionalizada ou não) terrena. Suscetível de inviabilizar, complicar ou adulterar, como também de simplificar, de tornar natural e de aprazível satisfação.

Consequentemente, preservar e melhorar o património cultural, natural, atmosférico, reanimá-lo e dignificá-lo com sentidos renovados e abertos a semânticas persecutórias, pode ser uma tarefa difícil de executar e implementar, com dificuldade na motivação de intelectuais, artistas, cientistas, publicistas e comuns usufruidores, porém é um desafio e um designo moral a que ninguém pode, cobardemente, virar as costas, uma vez que o desperdício de tempo, meios, recursos, aprendizagens, ideias, entrosamento sócio-espacial, de níveis de identidade e diversidade daí resultantes, nos poriam em séria incompatibilidade com a existência humana e planetária, atirando para o lixo da eternidade um contributo de elevada precisão e valor, degradando continuamente a comunicação e entendimento entre humanos, ou entre estes e os não humanos, mas também o de molestar dos ecossistemas com modelos e formas irreversíveis que podem tornar-nos a vida insuportável, desprezível, desajustada, atrofiada e de moribunda humanidade. Aliás, entender a cultura como uma estratégia para humanizar o planeta, não é uma prosopopeia retórica e medieval, de cavalaria e evidente quixotismo, mas um ato indecoroso, aberrante e suicidário, como igualmente um handicap espiritual que traduz a nossa incompetência para entender a realidade e as multifacetadas perspetivas que a compõem, que pode originar raros rasgos de génio mas abundantes gestos e exemplos de depredação necrófaga, e de exalada decomposição das condições, conceitos e teorias da vida na terra. E isso é imoral, inestético e abjeto. 

4.12.2013


No âmbito do ciclo 360º Ciência Descoberta, terá lugar no dia 17 de Abril p.f., no auditório 2 da Fundação Calouste Gulbenkian, às 18h00, a conferência Matéria médica: invenções ibéricas em redor da flora e da fauna exóticas, que será proferida pelo Prof. Doutor José Pardo-Tomás, da Institución Milá y Fontanals, CSIC, Espanha. A conferência terá tradução simultânea.
Para mais informações, poderá sempre recorrer  a  (+) 351 21 782 35 25 ou  conf360@gulbenkian.pt
ehttp://www.facebook.com/servicodecienciafundacaocaloustegulbenkian. Para visionamento simultâneo esta estará disponível por Videodifusão em www.livestream.com/fcglive


A ideia principal é oferecer uma interpretação da contribuição ibérica para o conhecimento da flora e da fauna de origem não europeia, colocando sobretudo o acento na sua utilidade médica, daí o uso da expressão “matéria médica” nos tratados científicos daquela época.

Neste sentido, vamos rever as obras dos tratadistas portugueses e espanhóis de história natural e matéria médica das Índias (tanto ocidentais como orientais) no século XVI. Mas o nosso interesse não vai concentrar-se apenas nas suas obras e na circulação europeia das mesmas, mas também nas práticas culturais e científicas desses autores e dos seus leitores.

Veremos igualmente como esse conhecimento e essas práticas circularam tanto nas colónias como no eixo metropolitano formado pelo triângulo Lisboa-Sevilha-Madrid, espaços de circulação desse novo conhecimento à volta dos usos medicinais das plantas e dos animais de origem exótica.

JOSÉ PARDO-TOMÁS is Doctor in History (Universitat de València, Spain). Since 1994, he is Scientific Researcher at the Department of History of Science in the “Milà i Fontanals” Institute (CSIC, Barcelona, Spain). Visiting scholar in the universities of Padua (Italy), Humboldt (Berlin, Germany), Bordeaux (France) and UNAM (México), he works on social and cultural history of medicine, natural history, and scientific books in Early Modern period. In a joint venture with María Luz López-Terrada, he published Las primeras noticias sobre plantas americanas (1993), and with José M. López-Piñero, Nuevos materiales y noticias sobre la Historia natural de Nueva España (1994) and La influencia de Francisco Hernández (1996). He is author of Ciencia y censura (1991), El tesoro natural de América (2002), El médico en la palestra (2004) and Un lugar para la ciencia (2006), among others books. 

4.09.2013


APONTAMENTOS À MARGEM PARA DESMARGINAR

Eis a primeira sequência de APONTAMENTOS À MARGEM PARA DESMARGINAR nascidos em Alínea R) evolução verde ( http://www.facebook.com/evolui.verde ) como editorial de página, mas traduzindo o evoluir teórico de uma orientação que se pretende simbiótica entre a ideia de sustentabilidade e a preparação do futuro, com relevante ênfase nos Direitos Humanos, na Ética da Terra, no progresso e desenvolvimento.

I - O TRIGO E O JOIO

A biodiversidade é a conjugação da fraternidade e da igualdade estendida a todos os seres do planeta, incluindo-o; porém, a Terra não está só no universo, sendo apenas mais um dos centros de vida entre as infinitas possibilidades que lhe assistem, e a miríade de variedades e hipóteses que dela há na nossa e demais galáxias. “A política e a economia são simbioses avançadas nas quais a competição original de todos contra todos foi substituída, em parte, por mecanismos cooperativos dotados de conteúdo ético”, como referiu Aldo Leopoldo na Ética da Terra. Assim deve continuar a sê-lo, ou mais propriamente, começar a sê-lo, uma vez que temos desprezado tanto as duas (fraternidade e igualdade) que omitimos a biodiversidade enquanto valor intrínseco a toda a atividade humana civilizada. Sobretudo, porque sem ela, a liberdade é uma ironia e a maneira mais eficaz de manietar os povos, obrigando-os a hipotecar o futuro em seu nome. Temos um exemplo, de incontornáveis consequências dessa hipoteca, desse iceberg cuja parte visível se chama Troika.

Se vamos agir e tomar consciência de nossas responsabilidades de cidadania, ou continuar a entreter-nos com o fogo-de-artifício brejeiro político-partidário, é uma questão que importa definir.



II - A SOCIEDADES SOMOS todos NÓS

Família, trabalho e felicidade. Disponibilidade, objetividade e lucidez. Iniciativa, continuidade e avaliação. Cidadania, responsabilidade e emancipação. Amor, bem-estar e liberdade. Saber estar, saber ser e saber fazer. Afeto, motivação e conhecimento. Humanidade, sabedoria e progresso. Hipótese, verificação e conclusão. Eis as diferentes tomadas (de consciência, estádios ou valores) que desde sempre assistiram à demanda da cultura e civilização sobre a barbárie do abstrato, da mediocridade, da crendice, do conservadorismo traiçoeiro e desonesto, do desconhecido, da ignorância mal-intencionada, e da rigidez fundamental. Porém, os convencidos de suas certezas, continuam a vociferar contra o outro dizendo que está errado, em vez de provarem eles mesmos que estão certos. Só que isso não é política, não é economia, não é socialização: é criancismo.

Então, que fazer? Tudo pode ser reciclado, incluindo as bases essenciais da nossa identidade e cultura. Reciclar a criança que há em nós, enquanto indivíduos e enquanto povo, para passarmos ao estádio seguinte da evolução e do progresso, não é nenhuma utopia, ideologia, nem religião: é uma atitude. É uma nova atitude perante a vida, que nasce da observação, da reflexão e da prática de muitos grupos e pessoas, que em todo o mundo se aperceberam que atravessamos uma crise civilizacional grave, para a resolução da qual se torna necessário demolir velhos (pre)conceitos, valores e poderes, bem como definir caminhos alternativos que valorizem a criatividade individual e coletiva que respeite a vida, o ambiente, a natureza, o ecossistema, a atmosfera, a água e a condição humana. Porque a sociedade somos TODOS nós, e esse pronome tem o tamanho da Terra. (Por enquanto!)



III - EVOLUÇÃO É AÇÃO

É significativa a diferença entre agir e reagir: agir é participar; reagir, é sujeitar-se a. E, se cada qual é o sujeito das suas ações, deixa de o ser quando reage, porque nessa circunstância, está somente a (cor)responder às determinações de quem o manipulou. Só quem age é verdadeiramente ( r )evolucionário.

Servindo-nos do progresso científico e desenvolvimento humano, ganhámos uma nova compreensão do mundo e, através do sentido sensitivo, importámos valores e modelos tecnológicos ou comportamentais não-humanos, da natureza, enunciados e circunscritos pelos reinos animais, vegetais, minerais e elementar, passando a ter a polémica expressão NATURE KNOWS a merecer garantido crédito. De entre eles os comportamentos civilizacionais socialmente avançados como a preocupação de reciclar os resíduos sólidos urbanos, de aumentar a produtividade primária líquida, produzir organismos geneticamente modificados, introduzir substâncias químicas no meio ambiente, alimentar os animais selvagens além dos domésticos, de tutelar e promover operações de conservação e restauro de parcelas do território e ecossistemas, delimitámos parques e reservas naturais, reestruturámos o corpo curricular e programático educativo e universitário, reformámos a administração e o planeamento tecnológico, tendo em vista uma melhor integração/ocupação humana do território físico-natural.

Parar, desincentivar ou adormecer essas preocupações, sob o argumento da atual crise socioeconómica, é uma reação que obriga a atirar fora o desenvolvimento e progresso conseguido por milénios de estudo, esforço e atualização. Portanto, deixemos as águas tépidas e lodosas da acomodação e ajamos enquanto o podemos fazer, pois pode muito bem acontecer que quando o queiramos fazer seja já tarde demais.



IV - EQUILÍBRIO OU ETERNIDADE?

Até há poucas dezenas de anos a humanidade, na sua quase generalidade e graças ao concurso das diferentes ideologias, economias e religiões, entendia o ambiente numa perspetiva antropocêntrica, em que a natureza se apresentava apenas como um valor instrumental associado a um leque de potencialidades e benefícios, nomeadamente estético, histórico, científico e económico. Era fonte de estímulo para a criatividade e imaginação, bem como um contributo significativo para o desenvolvimento integral do ser humano.

Mas as mentalidades, em consequência dos progressos no bem-estar e condições de vida, científicos e tecnológicos, evoluíram, e hoje a tendência global edita-se numa compreensão do meio ambiente sob duas perspetivas distintas, embora que simultâneas: o biocentrismo e o ecocentrismo. Isto é, considerando que é a vida ou o ecossistema quem tutelam a narrativa na interpretação essencial do valor atribuído à natureza, enquanto suporte principal do ambiente. Com Copérnico e Galileu a Terra deixou de ser o centro do universo; com o Relatório de Brundtland (1987) findou a era da supremacia humana na Terra. A mudança teve efeitos irreversíveis, e obrigou à reciclagem de todas as teorias de entendimento da casa (eco) de todos nós, de modo a que este não só se demonstrasse mais lúcido, objetivo, rigoroso, lógico, ético e funcional, mas também mais abrangente, de forma a reconhecer que sem a preservação da diversidade das espécies é impossível um equilíbrio sustentável do planeta.


Na perspetiva biocêntrica somos apenas mais uma das estratégias da vida para se tornar eterna. Na perspetiva ecocêntrica, somos tão-só membros de uma espécie que interage com as demais na tentativa de manter equilibrada a sobrevivência do ecossistema terreno. Na prática, as duas se completam e exigem-nos que observemos cuidadosamente a nossa conduta porquanto se fizermos perigar o equilíbrio perdemos o comboio da eternidade, porque na autoestrada da continuidade da vida somos o veículo que melhor a percorre, desde que o façamos com tino, segurança, equilíbrio e sustentabilidade. A escolha a cada qual pertence, mas o que é certo, é que aquela que cada um fizer vai ter consequências (irreversíveis) na vida dos demais.


V - BIODIVERSIDADE E EFEITO BORBOLETA


“Como é evidente, não é preciso dizer que a viabilidade económica limita a margem daquilo que pode ou não ser feito a favor da terra. Sempre foi e há de ser assim. A falácia que os deterministas económicos nos amarraram em volta do pescoço coletivo, e que necessitamos agora de eliminar, é a crença de que a economia determina TODO o uso da terra. Isso simplesmente não é verdade. Uma grande quantidade de ações e atitudes, incluindo talvez a maior parte de todas as relações com a terra, é determinada pelos gostos e predileções dos utilizadores mais do que pela sua bolsa. A maior parte de todas as relações com a terra depende de investimentos de tempo, previsão, capacidade e fé mais do que de investimentos em dinheiro. No que se refere à utilização da terra, somos o que pensamos.” (In ALDO LEOPOLDO, A Ética da Terra)

Havendo inegável valor intrínseco em cada uma das formas de vida conhecidas (biodiversidade), independentemente do interesse que possam ter para a espécie humana, a não instrumentalização das entidades holísticas como os ecossistemas e a ecosfera, cujo equilíbrio exige ponderação no balizar das atividades humanas, porque o que for feito, desfeito, neutralizado, ativado, implantado ou retirado de um local tem, diretas ou indiretas, consequências também noutros lugares (efeito borboleta) mais ou menos distintos do planeta, apresenta-se como a única atitude plausível para manter (e recuperar) a sustentabilidade global. Não só porque o respeito por cada indivíduo é extensivo e acarreta igual respeito pelo ecossistema em que se integra, mas igualmente porque ele é parte integrante de uma organização avançada sócio-biológica-económica (genes, espécimenes, espécies, ecossistemas), que fica inequivocamente alterada tanto com a sua presença, como com a sua ausência, e em (pro)porções similares.

Por conseguinte, pugnar por uma democracia direta, participativa e de base requer o acesso universal à informação e às novas tecnologias da comunicação, à tomada de consciência coletiva dos fatos e problemas de cada qual e de todos, bem como uma diferente responsabilização do cidadão pelo seu habitat, num díspar envolvimento na assunção individual e pública da cidadania, da igualdade de género e do respeito (legalizado) pelos animais, no âmbito de uma mentalidade que não abdica dos seus direitos nem do poder natural de quem é outorgado legítimo herdeiro e proprietário, parece ser a maneira mais racional e eficaz de contemplar (socialmente) a importância essencial pela biodiversidade e os efeitos sistémicos da ação humana. Por milhentas razões e argumentos, mas principalmente porque “somos o que pensamos” e, se é indesmentível que hospedamos um número infinito de seres vivos no nosso corpo, não o é menos que sempre que um deles é molestado, ou adoece, todo o nosso ser é inegavelmente afetado, nomeadamente pelo antídoto que nos for aplicado.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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