12.28.2016

AS PESSOAS CONSOMEM-SE

  


AS PESSOAS CONSOMEM-SE
Adultas, infiéis, na espera
Do impossível, da idolatração
Como se pudessem apagar-se
Por cada novo dia, outra noite
Outra maneira de usar-se
De comunicar com a própria fera
A sua alma maldita, a razão
Perdida numa esperança que se afoite
Que se retempere em cada ilusão
De força de alerta, grito de dar-se
Permitir-se, e igualmente libertar-se
A soletrar promessas incumpridas...
De quem se esmera.

J Maria Castanho

12.24.2016

SORTEIO DE NATAL




SORTEIO DE NATAL 

Estimado cliente: 
Após repasto conveniente
E um grão na asa, 
Apraz-nos informá-lo
De que este ano, o galo…

Saiu à casa! 


O presidente do Conselho Executivo
Joaquim Maria Castanho

O presidente da Assembleia-Geral 
Joaquim Castanho

O presidente do Conselho Fiscal 
J. Maria Castanho 

12.20.2016

TRÊS HAIKUS SOBRE URUBUS




TRÊS HAIKUS COM URUBUS
  
1. 
E urubus avançam sobre a carniça
Mas, na derriça, 
Não a alcançam. 

2. 
Há urubus insanas
Que urubusam
Pela liça, como manas. 

3. 
Mais se diz sobre urubus
Só com um verso
Do que com três haikus!  

Joaquim Maria Castanho 

(Nota: 
HAIKU – género de poesia japonesa que emprega, geralmente, alusões e comparações. O haiku é formado por três versos sob um número total fixo de sílabas: dezassete ou dezanove.)

12.19.2016

PLAUSIBILIDADE




VERSÃO PLAUSÍVEL 

Sob as pálpebras
O poema perfeito, 
A sílaba divina; 
E, do mesmo jeito, 
Entre álgebras
O céu azul ensina
À nuvem o caminho, 
O vento peregrino… 

A cruzada é ímpar… 
Viés imperecível, 
Esquina ao destino 
– Mas concreto só o olhar
Entre tudo o mais: 
Versões especiais 
Do que é plausível. 

Joaquim Maria Castanho


GRATIDÃO





OBRIGADO 

Mereces cada sílaba deste poema
De reconhecimento, e de gratidão, 
Pela maneira aprazível e amena, 
Pelo jeitinho de fada, cujo condão
Faz magia, faz poesia pura, serena, 
Tão natural ou dentro da ocasião
Que o sonho plural nasce na dimensão 
Duma realidade que vale a pena… 
É esse mistério, pérola do segredo, 
Capaz de sepultar algum cemitério
Habitado pelos urubus do medo, 
Que tentam implantar o preconceito
E a segregação como razão social; 
Que fazem da ignorância um pleito
Para a estuporice do bem e do mal. 

Joaquim Maria Castanho

12.17.2016

O SEGREDO DO OCASO




O SEGREDO DO OCASO

A Deus Sol, no seu carro de luz
Venceu todas as nuvens que havia
E dourou o céu com seus raios, 
Magma de eternidade e poesia. 
Estacionou com calma e perfeição, 
Cruzou o espaço, gizou o destino
E ecoou no mais profundo de mim; 
Ditou mágicos encantos ao dia, 
Disse a vida sem princípio nem fim
Como plas notas dum salmo ou hino… 

– E deixei de ser meu como soía! 

Joaquim Maria Castanho 

12.13.2016

12.12.2016

HOJE ENTREI EM ÓRBITA






HOJE ENTREI EM ÓRBITA 

Vou, ao arrepio do tempo 
(Cultivador de maturidade), 
Enquanto as folhas e vento 
Semeiam outonos na cidade, 
E pintam a amarelo-torrado
Esses outros rodapés plo chão 
Que esperam no Natal gelado
De caramelo cremado a nevão, 
Percorrendo passo após passo
Erguido acerca do que faço
(Botaréus e socalcos de ilusão, 
A espécie de véu e melaço
Que é a goma dos simples dias
Em que reverdecem as poesias, 
Senão todas, mas principalmente 
As que nascidas por encontrar-te 
Descendo a rua com tua amiga/
/Colega, são essência da arte
Presença e parte suficiente, 
Além de precisa), grão e espiga
Desse cereal, único âmbar 
Sentidos e sentimentos, unidos
Num só, sem o juízo, sem julgar
Que os tornaria empedernidos, 
Contrafeitos ou presumidos, 
Antes do ser na alma os acatar… 

Vou, dizia, passo após passo 
Sem pensar em que pensar, e então 
De repente ali, na minha frente, 
És traço, e és ponto, e és traço
De um morse que só o coração 
Ouve – e fico a girar no espaço. 

Joaquim Maria Castanho

12.11.2016

SINETE DE INANNA - II


O AMOR É UM SUPOR






O AMOR É UM SUPOR 

Respiro devagarinho
Para não quebrar o encanto
Que me apraz sentir, tanto, 
E desde que há pouquinho
Estive contigo a falar. 

Nenhum pensamento ousa
Diluir-te desta mente, 
Que tem por melhor coisa
Que já lhe aconteceu,
Este sentir que só sente 
Quem pressente já não ser seu
O sentir que o agora tem. 

Que se o bem vem ao pensar
O coração encontra calhar
Mal pense em bater por quem
Nos ficou no pensamento, 
Já que procurámos alguém
Até ao encontro causar,
Como se nesse momento
Só quiséssemos encontrar
Essa pessoa e mais ninguém. 

Que a procura é o ato
Cujo avesso tem as linhas
Que tateio como minhas
E me mostram se constato 
T’encontrar onde suponho: 
Bem juntinho nesta alma
Que nem supor arrumado
Por ti, com afeto, com calma
Onde perto, lado a lado
Ficam teus olhos e o sonho. 

Joaquim Maria Castanho

12.10.2016

SINETE DE INANNA




SINETE DE INANNA 

Tenho uma rosa formosa 
Cravada nos espinhos do dia, 
Em cujas pétalas a prosa
Traz aromas de poesia
Pelo gentil e meigo traço
Em tons de nácar e carmim,
Que os poemas que lhe faço
Vou guardá-los só pra mim.  

Joaquim Maria Castanho 

12.08.2016

NO DIA DE INANNA




NO DIA DE INANNA 

Como por magia surgiste
(Saíste do carro familiar), 
E o que era um dia triste
Virou sorte que não desiste
De surgir em qualquer lugar… 

O acaso tece e entretece
Nos pleitos configurações, 
Que o peito quase merece 
O proveito das ocasiões: 
Essência nascida dum nada 
– Duma ínfima centelha só –, 
Estrela a indicar estrada 
Que nos coloca na peugada
Da Grande Mãe, chamada avó. 
Da conceção também sabida
Na realeza dos pergaminhos, 
Pela natureza da vida 
Que é mãe de tod’os destinos. 

Joaquim Maria Castanho

12.07.2016

EM SI MESMO, NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM




NENHUM PRINCÍPIO É UM FIM EM SI MESMO

Aos princípios se reservam enfins
Derradeiras razões, últimos apelos, 
Axiomas sem as asas dos querubins 
Mas que de Sansão herdaram os cabelos. 
São suma força dos mais destemidos. 
São poder oculto que ao milagre convém. 
São cunho pra moeda a câmbios idos. 
São segredos escondidos de ninguém. 
Todavia, contudo, porém, se adversos 
São um salvoconduto prà injustiça
Do pensar mágico em novos universos…
Qualquer coisa que somente atiça 
O autoconvencimento fundamental 
Ao serviço dos velhíssimos bem e mal.  

Joaquim Maria Castanho 

12.06.2016

DO SUBLIME BATALHÃO




DO SUBLIME BATALHÃO 

Prolongo teu olhar plo verso adentro
E deslizo o meu nos encaracolados, 
Pendentes cachos, enquanto enfrento
A saudade de ti; e os contristados 
Momentos transformados, como magia!, 
Ganham asas, quais cavalos alados 
À desfilada pla planície da poesia…  
És a inspiração total, Musa eleita
Magnânime Senhora, dona e Prefeita
Deste reino ond’as sílabas soldados 
São, e esgrimem rimas em seus combates. 
E elevam sentimentos por estandartes. 
Marcham a compasso e bater do coração. 

E nunca mentem. Nem cometem traição! 

Joaquim Maria Castanho

12.05.2016

MANOBRAS PERIGOSAS




MANOBRAS PERIGOSAS 

Se às vezes o canto se degrada
E o verso corrompe a medida, 
É por a poesia, se celebrada, 
Se desviar da própria estrada
Que determinou pra ser cumprida; 
E que por ser desvio, se desvia
Até das estabelecidas regras, 
Correndo nos caminhos que havia
Bem no meio dessas milhentas pedras
Que juntou, pra fazer os castelos
Onde sequer as nuvens alcançam 
Com palavras vis, defeitos tão belos, 
Imagens – operários sem martelos
Que em vez de martelar rimas, dançam! 

Joaquim Maria Castanho

12.04.2016

A FONTE DO SENTIR




A FONTE DO SENTIR 

Tão breve como se um microssegundo…
Tão imediato como só um repente… 
Tão valioso como todo o ouro do mundo…  
Tão intenso como um metal fulgente
Foi, e é esse instante contigo perto
Que, por certo, viveria assaz contente
Ainda que fosse num cruel deserto
Entre agruras mil, e sob mil tormentos… 
Que a felicidade nasce do sentir
Começado quando te vejo, assim 
Real, gesto e palavra, em ser, em devir
Como se o tempo nunca tivesse fim, 
E fosse unicamente esses momentos
Contigo, fonte de todos os sentimentos! 

Joaquim Maria Castanho 

12.03.2016

ÍNTIMO PREVENIR






ÍNTIMO PREVENIR 

Guardo os teus cabelos, teu olhar
Teu jeitinho mágico de ser e estar, 
No mais íntimo, e secreto, de mim, 
Pra recordar nos dias em que te não vir, 
Onde, por sentir tantas saudades tuas, 
Chego até a ter vontade de morrer
Só para me pararem de doer… 

Guardo egoísta, em segredo, enfim 
Teu rosto de flor, de pérola, de luas
Que escrevem a prata, a nácar e marfim
Hinos de sonho n’alma, pra não esquecer
Teus gestos, doce e sereno encanto, 
Pròs dias em que te não vir, e queira morrer
Só para pararem de doer, 
Parar esse doer que doi tanto
De que o pranto
É o único modo de o dizer. 

Guardo cada segundo de ti em mim, 
Como valesse mais que a vida toda,
Para quando te não vir, possa assim
Ter uma recordação, quase bênção,  
Que me salve do naufrágio, alta tensão
Da ânsia que me põe a cabeça à roda.  

Joaquim Maria Castanho

12.01.2016

LETRA Z




LETRA Z

Zoom desde os A B C D’s
Alcança o zénite, aqui
Onde os comos e os porquês 
Falam apenas do falar de si; 
Das quadras e oitavas rimas, 
Do desconserto do soneto, 
Dos afetos e pintar de climas
Que dos poemas são esqueleto. 
Do círculo redondo rosto
Pérola linda, nacar puro
Que ensina a rima e o gosto
Quando o sentir é seguro; 
Que o carinho é flor singela…
– Ninho que à família perla! 

Joaquim Maria Castanho

11.30.2016

LETRA Y




LETRA Y 

Yollanda caiu de banda, Ya-
Ya sabe que os cravos murcham
À lareira secam ao frio; 
Já não ordenam “EMPREGO JÁ!
Se desfolham quando marcham
Saltam das lapelas no estio
Entre havanos e mariscadas; 
E atravessam os oceanos
Pra ter as havaianas molhadas.
Nem swingam Yé-Yé no popó
(Caixa de fósforos andante), 
Porque ainda só querem, tão-só
Ser yuppies mais adiante… 


– Depois das Festas do Avante!   

Joaquim Maria Castanho

11.29.2016

LETRA X




LETRA X 

Xistos, ardósias, lousas, axiomas
Logística existencial pretérita
Que – oxalá! – deixem de ser sintomas
Da XPTO, cruel congénita 
Incógnita, variável fundamental 
Ampulheta, argila ou cromossoma
Da cultura e genética acidental… 

Porque sem fé crê a razão acreditar
Em Xara, de Xarazade, é tutora 
Excelsamente exímia e senhora 
Do narrar que ao conto soma pontos
Cruz, nas linhas cruzadas desse contar
Com a excelência pelos encontros
Onde o Xis ganha alma – e é lugar! 

Joaquim Maria Castanho  

11.28.2016

LETRA W




LETRA W

Watt iluminador deste mundo
Capaz de gerar 1 J por segundo
(Mesmo sem Andy Warhol publicista), 
Eis-se no pisca-pisca do instante 
– Flash que não melhora nossa vista, 
Nem sequer divulga o diletante –; 
É o pirilampo das noites sem lua… 

Não carece diesel, nem de alpista;
E não polui por qualquer combustão. 
Mas se o virmos a cintilar na rua
Reconhecemos logo qu’é artista, 
A bailar pela pista do negrume
Com tracejado digital de sim e não…   
– Mostrando a razão de ser vaga-lume! 

Joaquim Maria Castanho

11.27.2016

FUGA AO TEMPO PRÓPRIO




FUGA AO TEMPO PRÓPRIO 

Conserto desconcertado o ser 
Tentando converter a solidão 
Em palavras que queiram dizer 
Mais do que diz a ocasião. 
O ocaso além da pedra fria, 
Os sonhos que o sol consumiu
Nas cidades do dia a dia 
Onde a humanidade cria 
Tempo que ao tempo já fugiu! 

Joaquim Maria Castanho 

VERBO SEMPRE




VERBO SEMPRE

A felicidade é isso… 
Ver teus olhos todos dias, 
Observar o teu sorriso, 
Ouvir sublimes melodias
Dançar nas ondas dos cabelos
Onde o sonho se enleia
Entretece como em teia, 
Arrebata tão-só por vê-los… 

É uma queda que nos ergue
(Reparar sem que reparar!), 
Reparando qu’em Portalegre
Somos verbo sempre a conjugar. 

Joaquim Maria Castanho

11.26.2016

REVER-TE




Reencontrar-te é rever por escrito
As pétalas à esperança (sonhada), 
Presas plo nácar da tarde, flor perlada
Abrindo as portas do céu infinito
Onde as estrelas copiam teu nome,
Onde a feliz alegria me consome
Quando a vida regista a tua lei; 
Onde nasce tudo quanto sou e sei 
– O que há e não há, além do que acredito! 

Joaquim Maria Castanho 

11.25.2016

LETRA V




LETRA V 

Viver é ouvir o vaivém 
Nas veias, 
Sejam nossas, sejam alheias 
Viúvas, como sem vintém; 
Novas, velhas, vazias, cheias
Beatas, nobres, pobres, plebeias
Vitoriosas ou vadias
Vividas na vida dos dias, 
Como esvaídas e sem ninguém. 

É avivar a voz do vento
Com vitrais, uivos da vontade
Vorazes e virtuais, vidrados
Pelos vernizes da liberdade… 
– Varonis, vitais, condenados 
A virarem-se em movimento! 

Joaquim Maria Castanho  

11.24.2016

LETRA U




LETRA U 

Usura dura e única esta: 
Ultrapassar a tua ausência – 
Ustir último se já funesta 
Urdidura uiva urgência, 
Ultima lugar prà sepultura, 
Aquiesce em suma anuência, 
Aqueda em tumular cesura… 
Que quando é usual ustir
Sem amuar (cumprindo ajuste), 
Nem undíssono urde iludir 
Porque “quem quer uste, que lhe custe”,
Num muito sumário aprumo
De quem curte seu supremo rumo
Em nunca ocultar – nem desunir! 

Joaquim Maria Castanho 

11.23.2016

LETRA T




LETRA T 

Tenho teus olhos 
No coração… 
Teu rabo de cavalo… 
E hoje, pra fugir à traição,
Fui lá buscá-los… 
Fui lá buscá-lo! 

Que a vida tem em si
Todas as tutelas. 
E às portas fechadas, ali
Abre, na memória, aqui
Teus olhos… 
Cortinas aos folhos… 
Lindas janelas! 


Joaquim Maria Castanho

11.22.2016

LETRA S




LETRA S 

Senhora da penha
Da luz, da chegada, 
Se sinal, és senha
De rio alvorada, 
Nas hortas marcada
Plo pão com manteiga, plo galão quente
Das primeiras notícias do mundo
Da escola, da terra ou da gente,
Nesse nosso pertencer tão profundo. 
Tão no ser sentido
No querer forjado, 
Chutando o perigo
Para outro lado. 
Para outras bandas
Sem almas nem gado, 
Onde as desmandas
São por mel coado. 
Pelo grão na asa
Por tudo e por nada: 
Batizo em casa,
Velar de finada. 
Ou ida às “sortes”
Buscando canudo, 
Onde essas mortes 
Por tudo e por nada
São nadas do tudo. 

Joaquim Maria Castanho  

11.21.2016

LETRA R




LETRA R 

Regressar ao sorriso que nos resume
Pérola, redoma, reflexo de nácar, 
Fénix (renascida) das cinzas é lume
E ritual que repete sonho e luar; 
É ritmo renovado para quem rume
Atrás da réstia redonda de cabelos
Que nos aprisionam, só por querer vê-los
Sempre, sempre, sempre e repetidamente
Que o frémito surge, coração frecha
Ao sentir, urge sussurro extremado
Rumando estreme de brecha em brecha
No cabelo atado, como quem fecha
Círculo, regressa sorriso criado… 

Réstia reflexa no rimar nacarado! 

Joaquim Maria Castanho 

LANÇAMENTO DO LIVRO MOMENTOS DE POESIA no HOTEL JOSÉ RÉGIO, em PORTALEGRE








LANÇAMENTO DO LIVRO “MOMENTOS DE POESIA”, ontem, dia 20 de novembro de 2016, no HOTEL JOSÉ RÉGIO, em PORTALEGRE 

Eis três momentos de entre os muitos instantes que marcaram, de forma simples, atrativa e genuína, o lançamento do livro MOMENTOS DE POESIA, que é já o reportório de inúmeros Momentos de Poesia, iniciativa com a periodicidade mensal regular, durante dez anos, coordenada por Deolinda Milhanho, onde o encantamento e magia de poemas e atividades de poetas e poetisas, se terão destacado, nas mais diferentes formas e formatos, incluindo o da palavra dita, lida ou escrita, mas que nos sugerem como a poesia pode surgir sem recurso exclusivo a ela, essa palavra, instrumento de comunicação por excelência, embora que não o único para a sua concretização: no ballet, no fado e no canto polifónico (entoando o hino de Momentos de Poesia, sob a “batuta” de João Banheiro, um dos participantes ativos desta iniciativa). 

A sala do restaurante do Hotel José Régio seria pequena para tanta gente, não fora a temática principal, a poesia, ser já de si, e em si, um aproximamento efetivo, um incitamento ao estreitar de laços, aliciar de sentidos e afetos, recapitular profundidades que foram também, um dia, o à flor da pele desses mesmos dias. 

Desnecessário será afirmar o valor deste tipo de eventos, ou iniciativas, não só porque representam o regressar às origens da poesia, quer nos motivos, quer nos lugares e gentes que a inspiraram, devolvendo-a, assim, ao seu habitat natural, a cidade de Portalegre, seus habitantes e tradições, mas também porque recuperam a atualidade da arte das artes, tornando-a parte integrante do quotidiano, franjas de dia a dia dessa colcha de renda que é a praça pública, massificando-a e fazendo-a visível até para os “olhos” menos sensíveis das sociedades contemporâneas.  Porque são momentos como estes que nos ajudam a recuperar os instantes passados e a presentificar todos os futuros, incluindo os mais imprevisíveis.    
  
Joaquim Maria Castanho 

11.19.2016

LETRA Q




LETRA Q 

Quando queremos quase e enquanto
Aproximação ao querer que é querendo, 
Quota-parte do ser em qualquer sendo
Questionamos qualidade e encanto
Ao querido, desejado, mas nele tendo
Outro sentido, que não o querer puro,
Pois queremos que nos queira também... 
Tem seu quê relativo, pouco seguro
Em queda já, sem quaisquer votos de quem
Dá ao querer um não-sei-quê de futuro
Que toda esperança quando quer, tem. 

Que o possa ver, requer que mais alguém
Veja, que mais alguém o note e queira
Como querença – e de qualquer maneira! 

Joaquim Maria Castanho  

11.18.2016

LETRA P




LETRA P 

Produto de partilha, a poesia
Põe, dispõe ou reproduz, mas por parcelas
O que apenas suprema, ela poderia
Possuir de próprio, e por profundo… 
É a prata de quem pelo dizer porfia; 
É ponte, é projeto, é vento e velas; 
É o espelho do que pode ser o mundo
Nas suas alegrias, magias e mazelas. 
Porém, podendo ser tudo e muito mais, 
Quer seja poder, como pleito sentido, 
Presta-se também a ser para jograis
O que nem imaginaram sequer ter podido: 
Porta que lhes dá direito de perdura
Em toda parte – até em literatura! 

Joaquim Maria Castanho

11.17.2016

LETRA O




LETRA O 

Ouço o teu rosto redondo, em osmose, 
Como no sonho, e omisso me socorro
E me decoro, e oponho, ao sono, à pose
De oximoro, se afirmo e nego, se morro
E vivo, em contradição, apoteose
Que ocorre logo que oco recorro
A outro rosto, procuro hipótese 
Provável de substituí-lo (de novo), 
Génese e ovo dos modos que absorvo, 
Louvo, somente saudoso dele, de ti… 
Porque o amor, o universo, é isso
Só isso, o teu olhar, forma e esquisso
Que conforma rota ao meu, pondo-o aqui
A focá-lo, sem sufocar como te vi. 

Joaquim Maria Castanho 

11.16.2016

LETRA N




LETRA N 

Nos teus lábios, língua languescente
Se aninha, letra no meio de nós assim
Que não nega renascer no ocidente
Nem faz, ou nem afirma, tão-só porque sim. 
E se no início é naipe exigente
Linha anil ou nesga de sonho no marfim, 
Nácar de ninfa no nenúfar tremente
Ante a corrente cristalina e de cetim, 
No fim é destino, melodia divina… 
Encantamento num’alma peregrina
Sem promessas por pagar nem por receber; 
Mas acatando sempre se o olhar ensina – 
Porque no inaudito nasce bem-querer! 

Joaquim Maria Castanho  

11.15.2016

LETRA M




LETRA M 

Mais que mistério, mais que magia, 
Mais que momento, são os teus modos
De solucionar medíocre mediania 
E o sem poesia dos dias incómodos; 
Dos dias menos, tardios, serôdios 
Que mumificam as almas, se desfias
Missangas num rosário de Marias
Mudas pròs mundos – mundanos quase todos. 
E que é essa maneira que é só tua
De resumir hemisférios de humor, 
Multiplicando numa forma contínua 
O quadrar alegria pla redondez do amor; 
Pois muitos dias poderá ter um dia, 
Mas só se te vejo, neles, há poesia! 

Joaquim Maria Castanho

11.13.2016

LETRA L




LETRA L 

Lídima lealdade na leitura 
Das sílabas dos lugares e ligações, 
Legítimo salto-cavalo, moldura 
De lótus, de lis, de lírios e de leões 
Que limaram e sublimaram tradições, 
Deltas iluminados, luz ou figura; 
Sombras a deslumbrar plateias, ilusões 
Com realidades dentro se em nós dura
A nobreza leve, nobre sentimento. 
Cinquenta linhagens universais
De áspides e ninfas, cujo cruzamento 
Concedeu a humanos e comuns mortais
O dom da entrega e arrebatamento  
Em ser frontais, sem deixar de ser leais. 

Joaquim Maria Castanho

11.12.2016

CAPA do Livro MOMENTOS DE POESIA

Eis a capa do livro de celebração do décimo ano de Momentos de Poesia, a ser lançado no próximo dia 20, pelas 15:30 horas, no Hotel José Régio, em Portalegre, e que reúne a participação de 48 poetas e poetisas da nossa atualidade.
Este momento será constituído, além da apresentação da obra, também por alguns apontamentos musicais, corais e poéticos.

LETRA K





LETRA K 

Caderno trinta três na ordem suprema;
Tipografia avançada e em escala; 
Isolado, deitado, é nosso tema
Quando na língua, a escrita fala. 
Do cuneiforme ao digital emala
A bagagem – da humanidade a gema –, 
Que à ficção e fantasia dá “olá kala”
Mostrando as obras, mas não a arbitragem.
Só surgiu no mundo por necessidade
Mas imperou como a razão do meio, 
Oferecendo a Gutenberg a veleidade 
De ser do globo a esfera como o veio; 
Sucumbiu às catacumbas da idade
Pra fazer alegretes de bonito e feio!

Joaquim Maria Castanho 

11.10.2016

LETRA J




LETRA J 

Joias de Salomão justificadas
Em tesouros de justa preciosidade, 
Não teriam sido essas guardadas
Mas sim quem as guardou como verdade. 
Pilares da civilização, juradas 
Colunas na suma verticalidade… 
Portas do mundo. Cais pra sãs cruzadas, 
Que sustentaram nossa modernidade. 
Que muito mais que os bens guardados
São os sentidos valores aí propostos, 
Pois além de gerarem mil cuidados
São cuidado e aprumo de quem ‘tá a postos
Vigilante, determinado, de plantão; 
E à injúria faz negaça, trespassa 
A intrujice e à trapaça diz que não! 

Joaquim Maria Castanho 

11.09.2016

LETRA I




LETRA I 

Nove III, imperador do infinito
Condómino maior na escala decimal
Senhor do fim, do abismo e do esquisito
Faz saber que todo centro é marginal.
Todo o coletivo é individual. 
Todo o corpo é sempre um espírito.
Todo o silêncio é seu próprio grito.
E todo bem tem seu correspondente mal.

E mais que isso, se decreta agora, 
Que embora diga que és tudo e nada 
(Serviço de urgência, base, escora…), 
Não há prova que existas realmente: 
Só és ponto de partida e de chegada 
– Pintinha de sangue no olho desta gente! 

Joaquim Maria Castanho

11.08.2016

LETRA H




LETRA H 

Hasteada hipótese na humana 
Hipotenusa que já em Hipatia 
(Farol da “Eduba” de Alexandria)
Tinha hélice e elipse, mas a tirana
Hipocrisia emudece em heresia, 
Nem Hipócrates houvera de honrar 
Entre hermanos na deontologia 
E hediondos hospitais da sangria
Ethica e bosta pestilenta pra sarar, 
Ou a fé a fim de queimar e purificar
Quem temesse ou tivesse outro Hades, 
O que entendemos por Hoje foi mudo, 
Calado sob grilhetas ou hostis grades… 

Porém, pra nós, é só o maiúsculo tudo! 

Joaquim Maria Castanho 

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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