4.21.2017

OLHANDO O MAR, SOB O AZUL




SOB O AZUL, OLHANDO O MAR

        (Paisagem com rosto, ou alucinação sobre a água
                                             fulgente de um pôr-do-sol de Foz domingueira...) 

Olha as gaivotas, ali linhas de voo
O seu corte pontiagudo no diamantino céu
E cristal também plácido espelho
Das águas chispando (a)deuses. 

Podes pedir-lhe a calma da tarde
Que não te recusarão o destino,
Porquanto é o corpo quem parte
Mas ficando nelas o olhar-menino
Deste silêncio, líquido definido
Mascando ênfase no sonho corrompido
Pelo coração em sobressalto, desatino
Com a vida e seus incontáveis reveses, 
Que nos concedem sempre o que às vezes
Apenas acidente supomos ser no puro linho.

Não apetece ainda o escurecer:
Há caminhamantes na marginal…
Mas o soslaio do sol fisga a Pousada
E põe na grama verde a linha escalada
De romper as frestas ao molhe triste
Nos olhos dos olhos se o Douro viste.  

                           Pousada da Juventude, Porto
                           .../.../...– 16:30 horas 

Joaquim Maria Castanho

RAIOS DIGITAIS




RAIOS DIGITAIS 


São os ires e voltares de Arina na areia em raios X quem ilumina
E há no tempo altares de abrires a íris ante os milagres que vires
Relógios biológicos dos noves redondos às novidades da gravidez
Porque a dança dos números na cadeia da existência exige tua tez
Neles há elos que entrelaçam a urgência alfanumérica na sensatez
Se despem dos caprichos sulcando nichos de fluorescência e canto
Verdes ramos de silene nas frinchas do manto em retalhos multicor
Esculpidos nas escarpas do ser ainda investido da perfeição divina
Falésias fustigadas pelas marés do amor que a si mesmo se ensina
Quanto só se ama amando na vereda feita por quem muito caminha
Autoestradas a uma outra Roma sem César nem o incendiário Nero
Novo calendário onde os setembros são noves e o nove apenas zero
Recinto aberto dos deuses que duros não fogem e muros esfarelam
Quando as humanidades às vezes fiéis a seus poderes divinos apelam
Mulheres e homens tão-só sem os absolutos corcéis da exigida voz
Idades médias da refrega em laços redutos de refúgio e pura entrega
Socalcos na arena onde perante o temor o último reduto somos nós
A sós feitos nós da rede as mãos damos nas Íris conforme vamos
Assim a noite ensombre o dia e a sombra do mar na terra maresia
Que todo o ph está apenas no fósforo em Pi rico desta filosophi@
Dita nas Ágoras invisíveis e fóruns de ouro dos sentimentos vivos
Como seguro SOS da liberdade nos W que vítreos vencem os e-crãs
Transparentes almas à solta e triplo salto do sonho em solfejo digital
De esgar em esgar repartido sem instante nem o requerer consumido
Das exigências típicas ao profanar da liberdade e dessas liberdades
Pequenas de cada qual que tornam grande e valorosa a que é essencial
E única e múltipla e fecunda e transparente como o meu olhar em ti 
Às vezes insistente, às vezes inquieto, mas sempre forma de chamar-te
Pra mais perto, pra requerer-te como quem quer teu ser de mulher.

Joaquim Maria castanho

UM MENINO VESGO




UM MENINO VESGO 

Há pessoas que se deixam arrastar pela desventura, 
Outras que se deixam seduzir pela beleza. 
Alguns arriscam o destino trágico dos seres 
Que se tornam definitivamente adultos!... 
Mas em cada assisado 
Há sempre uma criança adormecida. 

Também tu, meu amigo, 
Foste um menino mau como os outros. 
Reconcilia-te com esse menino! 
Fala ao teu filho com o teu coração de menino... 
Mas, lembra-te que: 
Falar não é arremessar palavras, 
Não é cuspir frases. 
Falar é deixar que os silêncios falem. 
Tu falas às crianças 
Como se tivesses um velho livro na cabeça 
E um polícia no coração. 
Vês o teu filho sem o olhar; 
Vês só a imagem que dele inventaste, 
Misturada com a ideia da criança que eras. 

E assim, 
O teu filho não sabe rir, 
Gagueja quando o interrogas, 
Não sabe estender-te os braços, 
Não sabe olhar para ti, 
É vesgo. 

Deixa de ser um menino mau, meu amigo, 
Estende os braços ao teu filho, 
Faz gazeta por um dia e vagueia com ele por aí.

JOÃO DOS SANTOS
Poema escrito durante o Primeiro Colóquio Português de Estrabologia, em Sintra, no dia 21.IV.1968.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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