4.21.2017

UM MENINO VESGO




UM MENINO VESGO 

Há pessoas que se deixam arrastar pela desventura, 
Outras que se deixam seduzir pela beleza. 
Alguns arriscam o destino trágico dos seres 
Que se tornam definitivamente adultos!... 
Mas em cada assisado 
Há sempre uma criança adormecida. 

Também tu, meu amigo, 
Foste um menino mau como os outros. 
Reconcilia-te com esse menino! 
Fala ao teu filho com o teu coração de menino... 
Mas, lembra-te que: 
Falar não é arremessar palavras, 
Não é cuspir frases. 
Falar é deixar que os silêncios falem. 
Tu falas às crianças 
Como se tivesses um velho livro na cabeça 
E um polícia no coração. 
Vês o teu filho sem o olhar; 
Vês só a imagem que dele inventaste, 
Misturada com a ideia da criança que eras. 

E assim, 
O teu filho não sabe rir, 
Gagueja quando o interrogas, 
Não sabe estender-te os braços, 
Não sabe olhar para ti, 
É vesgo. 

Deixa de ser um menino mau, meu amigo, 
Estende os braços ao teu filho, 
Faz gazeta por um dia e vagueia com ele por aí.

JOÃO DOS SANTOS
Poema escrito durante o Primeiro Colóquio Português de Estrabologia, em Sintra, no dia 21.IV.1968.

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