5.31.2015

AMPLEXO LUMINOSO





AMPLEXO LUMINOSO

É vazio o eco de uma floresta sem pássaros,
Ainda que restolho gretado sob o sol acutilante
Suplique esquisso no horizonte violeta e rosa,
Cheio do silêncio gritante dos sobreiros solitários,
Sob outro estendal de panos templários (da prosa).

E mais que isso, na penumbra do rés-do-chão
A linha de teus gestos que se desprendem
Pouco a pouco, tudo-nada, cabelos desalinhados
Estendidos como um sonho do olhar recorrente
Que, de visto, nos deixa quase embriagados,
Com os braços esticados na procura cega do ser
Elástico, elegante, ágil, felino de ter-te urgente
Verbo preso na caixa da boca, pronto a dizer
Pelos socalcos das sílabas o crescente desejo,
A tua liquidez desmaiada no ocaso; acutilante
Da estrela da alma prestes a rebentar em luz,
Lá no alto onde apenas se chega por ânsia de jus,
Esmagamento absoluto de perpetuar-te em mim
– AaaSSSSSiiiiiiMMMM!!!! – até as veias rebentarem,
Gretarem a frase pelos complementos diretos
Direitos ao verbo eclodir pra esgarrar a casca,
Pô-la porta aberta a soltar brados, sons insurretos
Despertos pelo teu ledo grito a estilhaçar o medo!


J Maria Castanho

OLHAR, de António Nobre





OLHAR
(Fragmento)

Ó grandes olhos outonais, cheios de Azul!
Como nasceste vós neste país do Sul?
Quem vos pintou? Quem foi esse pintor estranho?
Que génio excecional! Que talento tamanho!
Alguém me disse que viu todos os museus,
Mas o que lá não viu foi olhos como os teus…
Nunca vi nada, assim, em toda a natureza.
O pincel que vos criou foi, com toda a certeza,
O mesmo que pintou os raros azulejos;
Vós sois um céu azul cheio de astros e beijos!

ANTÓNIO NOBRE

5.29.2015

O QUE NÓS QUEREMOS




O QUE NÓS QUEREMOS

(…) (…) (…)

“Viver, ser ditosos, ser livres… «eis aqui o que nós queremos».

Gozar o bem-estar físico, assegurado por uma alimentação sã e abundante, boa roupa e uma habitação confortável.

Cultivar a nossa inteligência, desenvolver os nossos conhecimentos, enriquecer o nosso cérebro com novas verdades, regozijar os nossos olhos na contemplação das grandes obras da Arte e da Natureza, deliciar os nossos ouvidos com o encanto das puras harmonias, estudar com espírito independente os problemas da vida, passear livremente a nossa curiosidade através do mundo das realidades e das observações, pensar o que nos inspira a nossa razão ilustrada e confiar à nossa intrépida língua a expressão sincera do pensamento.

«Eis aqui o que nós queremos.»

E queremos também o mais breve possível um meio social favorável ao desenvolvimento integral da personalidade humana, pelo livre exercício das suas forças que em nós se agitam e das paixões que nos movem, pelo desenvolvimento moral das nossas afinidades, pela nobre irradiação das nossas simpatias.

É necessário pedir à vida todas as alegrias que ela contém.”


Excerto do Manifesto editado pela Biblioteca Luz do Povo, no início do século passado, e da autoria de SEBASTIÃO FAURE

5.28.2015

ESTAS MURALHAS TE PERTENCEM




ESTAS MURALHAS TE PERTENCEM


Não posso dar-te as chaves da minha cidade
Porque é livre e de portas abertas, sem idade...
Mas de tanto nomeá-las, a todas as suas ruas
Se tornaram minhas – e que agora, são tuas!


Tuas, por direito e alegria de um Portus Alacer;
Que aos portos só podem chamar-se da alegria
Se forem igualmente pertença daquela, que mulher
Foi também rainha e luz diamantina, no dia-a-dia.


Portanto, se quanto esta terra teve egrégios avós
É meritória do romance que o teu nome encerra,
Das muralhas de D. Dinis os Pedros somos nós
Pedras de afeto seguro que só por ti se esmera,
E cresce dando-lhe o peito como lho dá a Serra.


Que os montes das oliveiras, penhascos e sobreiros
Onde pascem os sonhos floridos das Maias este mês
Sabes, sem dúvida o fazem para serem os primeiros
A cantar-te em saudade, com baladas a Dona Inês!



Joaquim Castanho

5.27.2015

A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL


 
A MÃO AO ASSINAR ESTE PAPEL
 

 

A mão ao assinar este papel arrasou uma cidade;

cinco dedos soberanos lançaram a sua taxa sobre a respiração;

duplicaram o globo dos mortos e reduziram a metade um país;

estes cinco reis levaram a morte a um rei. 

 

A mão soberana chega até um ombro descaído

e as articulações dos dedos ficaram imobilizadas pelo gesso;

uma pena de ganso serviu para pôr fim à morte

que pôs fim às palavras.

 

A mão ao assinar o tratado fez nascer a febre,

e cresceu a fome, e todas as pragas vieram;

maior se torna a mão que estende o seu domínio

sobre o homem por ter escrito um nome.

 

Os cinco reis contam os mortos mas não acalmam

a ferida que está cicatrizada, nem acariciam a fronte;

há mãos que governam a piedade como outras o céu;

mas nenhuma delas tem lágrimas para derramar.

 

In DYLAN THOMAS

A Mão ao Assinar Este Papel

Trad. De Fernando Guimarães

O ESTILO SOMOS NÓS

 

 

O ESTILO SOMOS NÓS

 
Incontáveis copos de vinho
e Li Bai compõe cem poemas.
Dorme numa taberna, no mercado de Chang’an,
quando o imperador solicita a sua presença.
O poeta recusa a barca do Filho do Céu e diz:
“Que Sua Majestade saiba,
este seu humilde servidor
é o rei dos Bêbedos.”

LI BAI

 


“No Verão de 742, de novo na província de Shandong, Li Bai cumpre o ritual de ir ver o nascer do sol no alto da montanha, exatamente sobre a Taishan, a mais sagrada de todas as montanhas da China. Lá encontra meninas de jade que lhe oferecem de beber em taças de nuvens. Mil duzentos e trinta e nove anos depois, em Outubro de 1981, no mesmo lugar, um português, aos tombos pela China, cumpriria, rigorosamente igual ritual” – afirma António Graça de Abreu, no Prefácio a Poemas de Li Bai, editado pelo Instituto Cultural de Macau, em 1996. Omar Kayyam, outro poeta da nossa intencionalidade, astrónomo e matemático persa, muçulmano, e que viveu entre os anos 1040 e 1122, celebra os prazeres etílicos, em termos quase religiosos, não obstante a proibição do uso de bebidas alcoólicas estipulada no Alcorão, proibição essa a que se deve a descoberta do café, que então foi considerado como substituto do vinho. E fá-lo em termos tais, que esse misticismo ultrapassa o purgatório, como no Rubayyat «um jardim, uma jovem ondulante, a ânfora cheia de vinho, / meu desejo e minha amargura: eis o meu Paraíso e o meu Inferno. / Mas quem percorreu o Céu e o Inferno?», ou naquele outro em que confessa que «jamais desejei o manto do engano. / Mas roubaria por um copo de vinho. / Tenho setenta anos: o meu cabelo é de neve. / Hoje quero ser feliz: amanhã será tarde», onde as noções de tempo e propriedade, de ética e de sociedade, são minimizadas face à impetuosidade da bebida. Inúmeros artistas plásticos, não só andaram aos bordos, como esculpiram ou pintaram sob a inspiração de Baco, onde figuram os nomes de Miguel Angelo, mas igualmente Rubens, Velázquez, Murillo, Le Nain, Jordaens, os mestres flamengos e a quase totalidade dos surrealistas da modernidade. Xenefonte, Tácito, os versos de Homero, Anacreonte, Horácio, Rabelais, Baudelaire e Carducci, ou ainda os escritos geórgicos de Plínio, Columelle e Catão, são inegáveis testemunhas da importância do vinho na História (e nas estórias). Exemplos mais recentes nas literaturas nacionais e universal, como o foram Jack London, Blaise Cendras, Fernando Pessoa, Hemingway, Manuel da Fonseca, Cardoso Pires, que não negaram nunca o valor da bebida como auxiliar de criatividade. Da Antiguidade aos nossos dias, o vinho tem estado sempre na linha da frente das relações sociais e artísticas, impondo-se sobremaneira, senão pelo recurso económico e comercial que é, pelo menos nos efeitos que propicia.

Ao longo dos tempos, dispersando-se por diversas tonalidades, perfis, sabores, graus, divinizado ou satanizado, socializado ou marginalizado, o vinho veio no entanto ganhando foros de imprescindível na caracterização das celebrações (de vitórias desportivas, de colheitas, de negócios, de matrimónios e batizados, de inaugurações e de liturgias), da sabedoria (no reconhecimento da palavra e da honra, da família e da amizade, da integridade dos contratos, da reconciliação entre opositores), do amor (na antecipação e preparação do prazer, na resistência às paixões impulsivas e momentâneas, no afogar das mágoas passionais), do ritual (religioso, guerreiro e de iniciação à maturidade), do tempo que passa (iludindo a solidão, esquecendo as limitações ou eliminação do vazio existencial), de todos os dias (às refeições, aos encontros e nas esperas), da saúde (como analgésico, desinfetante e condimento substancial das mesinhas caseiras) e da morte (para “chorar” ou beber o defunto, esquecer os entes perdidos e comemorar ou homenagear datas épicas e heróis); mas foi sobretudo na sua capacidade de transfigurar o tempo e os modos, que o vinho veio a realizar a maior proeza histórica, que até hoje nos foi concedida: a da igualdade. Aquilo que sempre foi impossível pelas medidas de coesão, pelas políticas e reformas sociais, pelas legislações e Cartas de Direitos, pela luta de classes ou pelas atividades missionárias e evangélicas, conseguiu-o somente a tendência alcoólica dos povos, pondo na mesma mesa ou valeta, tanto os ricos e afortunados, os clérigos e os tropas, os políticos e os vagabundos, os doutores e os analfabetos, os condutores e os peões, os valentes e os fracos, os feios e os lindinhos, como os atléticos e os enfezados: de gatas e, às vezes, na mesma morgue.

Portanto, independentemente daquilo que aconteceu no passado ou do que venha a resultar no futuro, importa hoje escamotear, exorcizar, pensar, as motivações e efeitos dum bem, que se mal usado nos pode desgraçar. Esclarecer as relações de amor/ódio com um produto de tão grande poder sobre nós e os outros, é um passo importante para ganharmos patamares de defesa, como de usufruto do prazer, que nos podem auxiliar no relacionamento com uma substância que tanto nos pode pôr a par dos imperadores, à semelhança do que sucedeu com Li Bai, ao ser solicitado à presença de Sua Majestade, como dos velhos ladrões de Omar. Nos pode emprestar o génio de um premiado com o Nobel, como nos pode atirar para uma cadeira de rodas o resto da vida, entornando-nos o cálice da eternidade no asfalto do sofrimento e dependência. Como nos pode facilitar o dia-a-dia ou torná-lo numa dolorosa ressaca, mais ou menos interrompida conforme a carteira ou disponibilidade temporária.

Porém, sendo uma espécie de corda bamba entre bebedores e abstémios, o equilibrista nem sempre mantém a postura da vara, faça ele o que fizer, porquanto se esgueira demais para os lados da imaculada perfeição que é abdicar de si mesmo em favor da sua teoria de vida. E hoje, superiormente às circunstâncias que estipulam o consumo ou não de bebidas alcoólicas, o que está sobretudo em causa é como cultivar a nossa atitude perante este ou aquele produto, que nos pode ser benéfico e igualmente nocivo, e assim definitivamente possamos aprender a conviver com “alguém” de que nunca seremos capazes de nos separar, embora nos comprometa ou nos teste os limites por dá cá aquela pinga. Principalmente porque, como Li Bai, também nos é possível afirmar das bebidas, sem mágoa, que são essa «água faiscando como seda prateada / [que] transforma a terra num céu sempre igual» e nos permite «agarrar esta noite de luar, / vogar na barca do vinho e procurar as flores.” Essencialmente  porque tudo é possível, se acreditarmos que sim. E o vinho e o tempo, é, pelo modo como se usam (consomem, bebem, fazem, gastam, aproveitam, testemunham, apuram, editam) que ganham a diferença – e a qualidade... Enfim, o seu estilo. E esse, somos sempre nós.

 

Joaquim Castanho      

5.25.2015

KENNEDY... A sua vida oculta.



“O presidente e seu irmão desenvolveram um método durante a crise de Berlim em meados de 1961, que seria essencial para as negociações entre as superpotências nos dezoito meses seguintes – falar duro em público e fazer acordos em privado para evitar a guerra.”

In SEYMOUR M. HERSH
A Face Oculta de Kennedy
Trad.  Clarisse Tavares
Livros do Brasil – Coleção Vida e Aventura
(Pág. 265)






“As mentiras de Jack Kennedy acerca da sua vida pessoal e a corrupção da eleição presidencial de 1960 perdem importância ao lado do falso legado que ele e seu irmão fabricaram nos dias e semanas que se seguiram à crise dos mísseis. Kennedy colocou o mundo à beira da guerra nuclear para alcançar uma vitória política: humilhar um adversário que o havia humilhado antes.”

In SEYMOUR M. HERSH
A Face Oculta de Kennedy
Trad.  Clarisse Tavares
Livros do Brasil – Coleção Vida e Aventura
(Pág. 357)


UMA APOSTA PELA MUDANÇA, UMA MUDANÇA PELO FUTURO




UMA APOSTA PELA MUDANÇA, UMA MUDANÇA PELO FUTURO


A autonomia e consciência cívica, responsabilidade pessoal e coletiva, a democracia direta e participada, a cidadania plena e irrevogável, o empenho e conhecimento social ou individual sobre a qualidade de vida, a biodiversidade e sustentabilidade ambiental, são as raízes fundamentais duma sociedade equilibrada e justa, emancipada e fraterna, humanizada e livre, que favoreça o são relacionamento entre nós mesmos, bem como entre nós e as outras espécies, entre a nossa e as restantes sociedades e as suas respetivas culturas. Ao invés do que alguns setores egoístas da presente conjuntura sociopolítica pretendem afirmar (no discurso) e confirmar (na prática), o ser humano não vive para a exclusiva satisfação das suas necessidades, nem para o fixado intento de ser feliz (olhando ou não a meios), embora também precise de os conseguir, quer a felicidade como os meios, em termos e patamares plausíveis e positivos, mas antes para a vida, que quer ser omnipresente e eterna, e nos tem a nós, homens e mulheres, apenas como mais uma estratégia, entre milhões de outras conhecidas, para o realizar. Portanto, devemos animar o nosso cotodiano quotidianamente num movimento presente e constante acerca dele, mas igualmente sob os auspícios do futuro e sua providência, a fim de salvaguardarmos a harmonia social, o equilíbrio dos ecossistemas, a unidade do indivíduo e as suas capacidade de empatia, de forma a que se mantenha livre, lúcido, objetivo, livre e autoconfiante face a todas as problemáticas que nos impeçam ou bloqueiem, a cada qual como às comunidades onde está inserido, de responder positivamente às expetativas que a vida nos reservou ou atenções que nos despensa e exige. O ecocentrismo é, assim, a resposta imediata e a atitude consentânea com esta perspetiva existencial, assente em três grande linhas de força ou pilares (integração simbiótica do ser humano na natureza e combate de todos os dualismos que a sonegam – condicionamento da atividade económica e opções tecnológicas que ponham em causa a sustentabilidade e a biodiversidade essenciais – prossecução funcional da natureza de modo a facilitar um contínuo de harmonia planetária), com vista a prosseguir as bases de concórdia interpessoal e internacional num sistema operacional da plataforma ambiental que é a atividade sociopolítica regional, nacional, europeia e global.

Neste sentido importa que nos sensibilizemos quanto à nossa maneira de estar e conviver, de forma a que neles contemplemos a tomada de consciência entre grandeza e grandiosidade –  posto que a primeira é sinónimo de excelência, magnificência, fortuna, honraria, dignidade, mas segunda nos sugere megalomania, sumptuosidade, dispendiosismo extravagante –, a fim de efetuar a mudança social e ideológica que faça confluir a qualidade de vida com níveis de bem-estar (material e espiritual) conformes às exigências dos ecossistemas que compõem o nosso habitat e dos quais também somos parte, e a mais interessada, por sinal, uma vez que cada vez se torna mais evidente, em termos de sobrevivência, que ou sobrevivemos todos e todas (incluindo as espécies) ou não sobrevive ninguém. Ou seja, nunca a escolha se nos deparou tão fácil. E imperiosa.  Ou mudamos, ou a natureza e a vida nos mudam.

Pelo que, e em conformidade com o status quo global  facilmente diagnosticável e à vista desarmada, devemos reconhecer que o florescimento da vida humana e não-humana tem valor em si mesmo, e não relativo aos objetivos e finalidades que lhe determinámos ter de acordo com os nossos interesses; que a nossa riqueza depende sobretudo da nossa diversidade e da diversidade dos seres vivos que compõem o nosso ecossistema; que não temos o direito de usurpar os direitos à vida das demais espécies a não ser para satisfazermos as nossas necessidades vitais; que o controlo da densidade populacional se deve fazer em termos de manutenção e preservação do nosso território e ambiente, e não por fundamentos e necessidades económicas e belicistas; que a interferência da espécie humana sobre as demais é excessiva e abusadora a maior parte das vezes; e que as nossas opções políticas, sendo a política......, devem ser democráticas e não autoritárias, quer em relação a nós mesmos e nós mesmas, quer em relação à ecosfera e espécies que têm igualmente por habitat. Será isso sobre-humano? Não creio. Principalmente para nós, portugueses e portuguesas, habituados que estamos a sair do quadradinho térreo das ideias quadradonas para abarcar a universalidade do ser e do habitar. E essa mudança nunca a fizemos apenas por nós, mas pelo nosso futuro... O mesmo futuro que ora nos convoca.

Joaquim Castanho     

       



ANTÓNIO BOTTO: REAL E IMAGINÁRIO




António Botto: Real e Imaginário
António Augusto Sales
256 Páginas

Canção Mutilada

A tarde cai amaciando a terra,
E enchendo-a de miragens tentadoras
Enquanto o sol,
Nos últimos alentos,
Se prende nos galhos de um arbusto
Que, ressequido, à beira de uma ermida,
Parece o próprio símbolo da Vida.

De enxada ao ombro, alguns trabalhadores,
Pisam o pó e as pedras dos caminhos
– Como bandeiras humanas
Movidas pelo infortúnio,
Sem alegria, sórdidos, curvados
Mas enormes no seu frémito de luta!

Ah!, nem a morte quer os homens
Quando eles são desgraçados!
As estrelas lá, no alto,
Riscam cintilantes brilhos.

E em bandos –
Os maltrapilhos,
Silenciosos e ateus,
Zombam do Amor
E até de Deus!
A miséria
Quando atola
O homem nos seus negros labirintos,
Dá-lhe, também, a loucura
Dos mais trágicos instintos...

Agora, neste momento,
A noite –
É  uma imensa realidade...

E eu julguei ver a Justiça
Afundar-se na penumbra
Da sua inútil realidade.
                                       (Poema de António Botto, que encerra o livro de contos Imagens do Alentejo, de Henriques Zarco, nº 2 da Colecção Amanhã, edição da Imprensa Artística, Lda., em 1936. )

António Botto era homossexual assumido, gay praticante e maricas confesso, não obstante ser casado com uma inteligente e linda senhora. Aliás, o primeiro de uma plêiade de "travestidos" sexuais que ainda hoje prolifera no universo das artes e letras nacionais, europeias ou mundiais, e em grande parte tem feito delas o ninho das tendências marginais. No entanto, é inegável que também era um genial poeta, um extraordinário fabulador e maravilhoso contista, um exemplar dramaturgo, um tradutor sofrível, um letrista respeitável, e um espetacular fadista, arrebatado declamador e convicto versejador, quer no dizer pausado, quer no improviso. Escritor de canções, colaborador dos jornais, boémio e dandy da Alfama bairrista da primeira metade do século passado, que se vangloriava de ser o primeiro pederasta lusitano com reconhecimento oficial, chegando mesmo a mandar imprimir cartões-de-visita com tal "classificação", foi por muitos considerado o Frederico García Lorca português, mas sem a morte, embora não menos trágica, nem iguais preocupações, na vertente sociopolítica, que as do celebérrimo granadino da Geração de 27. E nesta obra se tenta situar, definir, o espaço-quando por que o circunvagou, a que pertenceu, assim como especificar-lhe a faceta e perfil, os relacionamentos, as paixões, fraquezas, limitações e obra, sem cair nas vulgaridades e clichés que tantas vezes entorpecem o género biográfico.
Companheiro de tertúlia e protegido de Fernando Pessoa, conhecido de Régio e amigo de Vilarett e Beatriz Costa, "disse" poemas e declamou como mais ninguém (daquele tempo), aproveitando as nuanças da voz, o efeito das inflexões, a musicalidade do ritmo, num jeito próprio que fez escola, sem que jamais se sentisse incomodado pelo facto de, na Lisboa do seu dia-a-dia, as pessoas continuarem descalças, cultivando e conservando hábitos, tão socializados, educados e ribeirinhos, como o de estender a roupa encharcada à janela, gotejando torrencialmente sobre os transeuntes, ou de escarrar para a rua sem sequer averiguar se alguém vai a passar nesse ínterim. Espírito de irreverente quadrilheiro, pregoeiro de boatos e vingativo nos desamores, praticou o exercício da má-língua tão vorazmente que o batizaram de A Serpente, tal era argúcia e mordacidade de sua feminidade venenosa, consolidando o cosmopolitismo de Álvaro de Campos, e o que levou "alguns" a considerarem-no, de certo modo e justificadamente, também mais um, ou outro heterónimo do poeta da Mensagem, na medida em que Pessoa se reviu e realizou igualmente na poesia dele, além de na vida que a ela correspondeu. Enfim um contista que escreveu sonetos nos guardanapos das mesas de café, cantou o fado nas tascas severinas e marialvas, solitário frequentador do Martinho da Arcada, visitou diariamente as capelinhas livreiras do Chiado (Bertrand, Sá da Costa e Portugal), e que borboleteando vagueou entre as prostitutas e gigolôs, as bailarinas, pintores, escritores, jornalistas, atores e demais refugiados, na capital, do provincianismo e moral do seu tempo.

Joaquim Castanho


5.22.2015

A FACE OCULTA DE KENNEDY



A Face Oculta de Kennedy
Seymour M. Hersh
Trad. Clarisse Tavares
469 Páginas. 

Kennedy era sexista, mulherengo, vingativo, despótico, drogado, arrivista e (potencialmente) homicida. Fidel Castro, se JFK não tivesse sucumbido no atentado de Dallas, em 22 de Novembro de 1963, a mais negra sexta-feira americana, provavelmente ainda hoje estaria (por razões pessoais) sobre a mira dos “mafiosos” do presidente, que nunca lhe perdoou o fracasso da Baía dos Porcos/Operação Mangusto. E um homem que, a intervalos regulares de seis horas, dava a si mesmo injeções, mas que os mass media transformaram num mito, não só para os seus compatriotas, como também para uma das partes acinzentadas do mundo a preto e branco dos imperialismos: o mundo ocidental, tal como o reconhecemos hoje.

Oriundo de uma família bem instalado no establishment, cujo lema era NÃO SE IRRITEM – DESFORREM-SE, capazes de tudo para atingirem os seus objetivos, ou de optarem pelo errado desde que conveniente e lucrativo, viciados em sexo e poder, racistas, que passaram mais de metade da vida a fazer dinheiro e outro tanto dela a ocultá-lo (do fisco), inculcaram-lhe na formação e crescimento que, como ele mais tarde vai admitir, confirmar e executar, a única teoria política prática e eficaz é a da perseguição da vitória, e que para esta se alcançar apenas são precisas três coisas fundamentais: a primeira, é dinheiro; a segunda, dinheiro; e, a terceira, mais dinheiro – que devem temperar-se com a falta de escrúpulos, quer em consegui-lo, quer em desbaratá-lo, como sempre acrescentava o patriarca e patrono familiar se a oportunidade se lhe deparava. Pelo que “o mais duradouro legado de John Kennedy como trigésimo quinto presidente dos Estados Unidos não foi o mito de Camelot nem a trágica imagem de jovem e simpático líder, abatido no auge da sua carreira. Foi a guerra do Vietname, uma guerra que, na década após a sua morte, mataria muitos milhares de jovens que ele tinha inspirado, deixando ainda muito outros à beira da insurreição.”

Enfim, um livro que saiu 30 anos atrasado e nos deixa a pensar no poderíamos saber hoje das políticas e gestos governamentais de Bill Clinton e George W. Bush, se não tivéssemos que esperar outros tantos anos, até que os podres de ambos possam vir a lume, ser publicados e públicos, digamos, postos à disposição do processo histórico em curso, que é onde se avaliam, sem perceções motivadas nem simpatias corporativistas, as ações dos homens e dos povos sobre o seu tempo e de como eles contribuíram (ou não) para consolidar o futuro. 

Joaquim Castanho




“Não sou um homem vulgar e, por outro lado, já me contei tantas vezes nos meus contos que não sabia que mais dizer.”

In GIOVANNI PAPINI
Palavras e Sangue
Trad. Mário Quintana
(Pág. 188) 

PALAVRAS E SANGUE, de GIOVANNI PAPINI

      



“–  Perdoe – interrompi, com a minha costumada grosseria. – A senhora concede-me com demasiada facilidade elogios de que não faço caso, e ainda não me deu sequer a entender o que deseja de mim.

A desgraçada olhou-me de novo com olhos espantados.

– Tem razão – retorquiu. – Perdoe-me. Sou mulher e escritora. Veja, em poucas palavras, o que me sucede: como sabe, nada mais faço senão escrever e, em geral, os argumentos dos meus contos ocorrem-me espontaneamente, enquanto leio ou passeio, ou quando estou na cama sem dormir, à noite ou pela manhã. Mas, de algum tempo para cá, tenho notado que, entre tantos argumentos que trago em laboração no papel ou na minha cabeça, somente alguns são capazes de se desenvolver e, o que é mais estranho, esses argumentos têm algo em comum – principalmente o facto mais importante, isto é, referem-se todos a uma mulher e esta mulher, por mais que me esforce por modificá-la e desfigurá-la, parece-se precisamente comigo.

– Por favor! – exclamei num tom de menosprezo. – E que acha a senhora de estranho em tudo isso? A todos os escritores, inclusive os de talento shakespeariano, ocorre sempre o mesmo. A literatura é um espelho. Fazemos os personagens moverem-se, mas não conhecemos nem representamos mais que a nós mesmos. O estranho é que a senhora não tivesse notado isso antes.”

In GIOVANNI PAPINI
Palavras e Sangue
Trad. Mário Quintana
(Pág. 100)   
  

OS BONS MOMENTOS DAS MÁS COISAS

crónica da semana


OS BONS MOMENTOS DAS MÁS COISAS

"«Se uma nação conta ser ignorante e livre», disse Jefferson, «espera o que nunca foi e nunca será... As pessoas nunca podem estar em segurança sem informação. Onde a Imprensa é livre, e cada homem capaz de ler, tudo está salvo.»"

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(Pág. 78)

Portalegre, enquanto cidade e enquanto capital de distrito, não pode prescindir de um órgão de comunicação social confiável e de qualidade, e que traduza os seus anseios de desenvolvimento e aspirações de progresso, assim como promova e gere a discussão ou debate público acerca deles, uma vez que "ó rama, ó que linda rama" costumeiro dos atuais (e anteriores), pode fomentar o bailarico (das vaidades e narcisismos avulsos – é certo), ou divulgar as romarias das confrarias do pacóvio para entreter mentes doídas e com soletração custosa e esforçada, por algum tempo, mas não muito, pois, mais tarde ou mais cedo, estes e estas morrem, ou acordam, acabando por reconhecer como estavam a ser enganados e enganadas, pelas pílulas dos "sonhos felizes" que os obrigaram a engolir, manipulando-lhes o gosto com ninharias e bagatelas, que são, indubitavelmente, na sua matriz, outros palimpsestos de outras tantas nascidas, ainda na Idade Média, do obscurantismo inquisitorial que grassou nesta região, implementado na modalidade do troca-por-troca pelo foral com D. João III.  

Até porque ninguém já desconhece que um relógio parado também pode estar certo, ainda que só duas vezes ao dia, e, se o ocultarmos da vista, daqueles e daquelas a quem queremos convencer da sua exatidão, nas restantes, mostrando-lho apenas nas horas referidas dois ou três dias seguidos, fazem-nos o merecido manguito pela marosca, com o típico «pois sim» para nos calar, mas ficando a murmurar entre si, o não menos tradicional «vai lá, vai... escolhe outro!», como epílogo generalizado que concedem aos grandes e espectaculares dramas houdinianos, ou dos clássicos sobretudos azuis com forros de seda vermelha, que, por tão recentes e tão triste memória, ainda se espanejam vivazes no nosso (in)consciente coletivo.

Ou seja, acabaram-se finalmente os tempos da justificação dos meios pela bondade dos fins, tanto em política como na engenharia social, pelo que não será a convicção de precisarmos de órgãos de informação regional, que vamos engolir qualquer um que ande a monte dos princípios éticos, deontológicos e constitucionais, ou nos trate pela bitola do "pra quem é bacalhau basta", porquanto a diversidade de meios disponíveis (televisões, rádios, Internet) com que o poderemos vir a comparar é múltipla e variada, e a escolha de cada um e cada uma, por isso mesmo, se vai tornando também cada vez mais apurada e fundamentada, exigente e rigorosa, sustentada na exatidão do doa a quem doer, se é verdade tem que se dizer.   

O que nos obriga a concluir, parafraseando Thomas Jefferson (13.01.1743 – 04.07.1826, presidente norte-americano, natural da Virgínia e redator principal da Declaração de Independência dos EUA, em 04.07.1776), que se pretendem que uma cidade seja livre e emancipada dentro da atual conjuntura europeia e mundial, não podem esperar que ela seja ignorante e ignorada, porque isso é impossível, por mais que as forças do obscurantismo medievo o intente, porquanto quase todas e todos sabem ler suficientemente bem, fazendo-o com frequente galhardia e assertivamente, e já ninguém se entretém com os "bonecos polaroide" de atirar poeira para cima dos factos, com ou sem c atrás do T que, de santíssimo nada tem, nem serve de ferro para trindade nenhuma, a não ser a do atraso, miséria e desertificação (crescentes). Ser ignorante, malformado e perverso já não garante diploma de herói, nem nas tascas mais pícaras, quer dizer, típicas. Desculpar as más coisas por algum momento menos mau ou bom que (hipoteticamente) proporcionaram, enfim, já não cola... E ainda bem!

Joaquim Castanho  

5.21.2015

NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS

crónica da semana




NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS

Se defendemos um desenvolvimento que promova a afirmação das potencialidades criativas e intelectuais do ser humano, em declarada harmonia com o meio social e ambiente, então temos a obrigação de pugnar por um ensino que valorize as qualidades pessoais de cada um, e de cada uma, no sentido de lhes reforçar o equilíbrio físico, material e psíquico, bem como a autonomia, a responsabilidade, consciência cívica e emancipação basilares, e essenciais, ao desempenho dos seus direitos de cidadania e participação democrática.

Portanto, “laurear” os bons alunos e as boas alunas pelos excelentes resultados que obtiveram nas suas licenciaturas ou mestrados, não significa sancionar ou menosprezar os que não conseguiram alcançar semelhantes níveis, mas antes sugerir-lhes que não devem acomodar-se a eles, conformar-se com a mediania, pois é sempre possível atingir melhores resultados, aperfeiçoar as suas performances cognitivas, e práticas, tal como alguns e algumas fizeram, e lhes trouxe reconhecido mérito e correspondente bolsa com isso. Clarificar-lhes o acesso a mais cidadania e possibilidades de participação na (e da) sociedade. No ambiente. E na qualidade de vida.

Pelo que, embora com anos de atraso, importa registar a notável valia da iniciativa do IPP – Instituto Politécnico de Portalegre – em atribuir diploma e bolsa por mérito aos cinco melhores alunos de 2011/2012, no passado dia 06 (e a saber: Cristina Mira Luís – Educação Básica; Andreia Pereira – Produção Enológica; Anette Reintjes – Enfermagem Veterinária; João Löbe Guimarães – Jornalismo; e Joana Reis, de Higiene Oral), conforme noticia o semanário Alto Alentejo de 13.05.2015, pág. 5, e só lamentamos o facto de terem sido apenas cinco, e não vinte ou trinta como seria o ideal, porque tal significaria terem existido outros tantos alunos e alunas a preencher os critérios estipulados pelo ministério, em outros tantos cursos que o estabelecimento de ensino em causa ministraria com reconhecido sucesso e serventia social. Principalmente porque premiar os melhores é contribuir para melhorar a média dos demais, bem como apetrechar as comunidades onde estes alunos e estas alunas estão inseridos, e inseridas, com potencialidades/ferramentas significativas para o seu desenvolvimento social, humano, ambiental e económico. 

Sobretudo se lhe abrirem as portas para que ponham em prática (profissionalmente) o seu aprendizado, em vez de lhe invejarem o valor da bolsa que, por mais dois ou três tantos que fosse, nunca lhes pagariam o investimento em propinas e tempo, estudo e dedicação, que despenderam para consegui-las, ou de os exportarem para países estrangeiros como ultimamente tem acontecido, pois que esse sim seria um diploma de verdade e uma bolsa efetiva que lhes proporcionavam, e nos contemplaria também com uma autêntica valia favorecendo a intervenção ativa dos cidadãos e cidadãs, nas suas mais diversas formas de organização e autonomia, em prol do desenvolvimento, que tanta falta nos faz, numa capital de distrito a braços com a crescente desertificação, elevado envelhecimento populacional, fraca empregabilidade e incipiente tecido empresarial, baixo rendimento per capita e incaraterística contribuição para o PIB Regional. 

Porque essas é que devem ser as grandes preocupações das mesas de café e órgãos de comunicação do mesquinho burgo, onde o «que bom pra eles» vigora ainda sentenciando, porquanto são estas questões as que podem moldar o nosso presente e o nosso futuro, e que devem deixar o recatado remanso dos gabinetes da superficialidade do establishment político e administrativo, para vir a terreiro e em celebração de mais um Dia da Cidade onde se homenageia e elogia toda uma panóplia de inutilidades e insignificâncias como se fazia no tempo da outra senhora a quem "o botas" pôs a casa, e telefonia, para poder escutar os Serões Para Trabalhadores ou estanciar nos “equipamentos turísticos” da FNAT. Porque ainda não há ovo em pó que dê para fazer uma açorda de jeito, nem omelete comestível, por melhor que ele sirva qualquer doçaria… Ou há?!  



Joaquim Castanho        

5.11.2015

FUGIR AO TEMA



crónica da semana:

FUGIR AO TEMA


Confesso que o objetivo de hoje, por ser uma segunda-feira de rapapés, a que antigamente chamavam dia de sapateiro, logo atreito a muita martelada na sola, era o de escrever sobre cidadania. Mas meti baixa-ética, pelo que vou falar doutra coisa qualquer. O rendimento é subsuficiente, os amigos são uns batidos e o empreendedorismo, com as bases enunciadas, é pouco prometedor. Além do mais, os mecenas andam a treinar manguitos para estarem em forma nas próximas legislativas.

Porque há uma estrondosa diferença entre ser-se democrata e lutar-se pela democracia. E não é só conceptual: a segunda exclui a primeira, e esta não admite a segunda; ou seja, é totalmente adversa à imposição de algo superior sobre aquilo que é inferior. Aliás, quem lutar contra ou favor do quer que seja em termos e moldes democráticos, respeitando o adversário na sua dignidade e integridade, na sua diferença e nos seus direitos, liberdades e garantias, perde irremediavelmente e à partida, pois os adversários, que não são minimamente democratas, nem se sentem obrigados a respeitar as normas éticas da participação e da cidadania, vão utilizar essa vantagem competitiva a seu favor, deitando os democratas ao tapete por KO, e logo no primeiro round. Quero eu dizer, que ainda mal pusemos os butes no ringue eleitoral, e já malhámos com os costados no sobrado... Nas sondagens, no acesso aos órgãos de comunicação social, nas mesas de voto, onde só ficaremos representados quase por favor, e em muito diminuído número. 

Simplesmente, a democracia, é o conjunto de leis, instituições, regras de condutas e maneiras de estar democráticas, o que significa não-autoritárias, que um povo constituiu como desejáveis para se conduzir interna e externamente, quer no seu imo nacional como no relacionamento conjuntural e planetário sociopolítico. Ora, todos os partidos do espectro político e legislativo (com assento na Assembleia da República) português, são veteranos da luta pela democracia, exceto o Bloco de Esquerda, fundado há pouco tempo, e muito depois do 25 de Abril-MFA-Povo-Unido-Jamais-Será-Vencido, todavia empenhado intrinsecamente em seguir de perto o mais veterano deles todos, o PCP, cujas origens remontam à arqueologia da democracia portuguesa, ou aos primórdios da clandestinidade. Embrulhados que estamos no celofane europeu, não será fácil deteriorar-se nem ficar fora do prazo de validade, a democracia, tal e qual como a conhecemos, nas suas vertentes clássicas e de após II Grande Guerra. Pelo que, manter e querer usar a semiótica, discurso e estratégias de luta pela mesma, é autêntica manobra de diversão e de empata-progresso; no entanto, qualquer força política que pretenda confirmar-se legalmente democrática através de eleições, executando apenas as suas aptidões democráticas, sujeita-se a ser considerada intrusa e persona non grata nelas. O que é, suis generis, um handicap de notória significação para o efetivo esclarecimento dos resultados.

Enfim, essa ou essas forças (outsiders), vão ser uma espécie de povo judeu para os demais partidos do establishment, ainda hitlerianos, ainda autoritários, arreigados às lutas de barricada como de antimotim, que abdicarão de guerrear entre si e, ante a ameaça que vem de fora, as elegerão como inimigos número-um, e alvos abater, ou sob o desígnio (nacional) excomungáveis, nem que para isso tenham que fazer aumentar o abstencionismo. Como? Não cultivando a cidadania, a atitude democrática, a liberdade de expressão, o esclarecimento das bases, a participação ativa e consciente, a responsabilidade e emancipação populares. Bem como promovendo o ruído, o bairrismo fanático ou intensificando a toxicidade da propaganda. E, diga-se em abono da verdade, somos obrigados a reconhecer que estão a sair-se muitíssimo bem!

Chiça! Lá estou eu a fugir ao tema...   



Joaquim Castanho

5.10.2015

1984 na opinião de Aldous Huxley




“O 1984 de George Orwell constituía a projeção amplificada no futuro de um presente que continha o Estalinismo, e de um passado imediato que testemunhara a floração do nazismo. O Admirável Mundo Novo foi escrito antes da subida de Hitler ao poder supremo na Alemanha e quando o tirano russo ainda não compassara a sua marcha. Em 1931, o terrorismo sistemático ainda não era o fato obsessivo nosso contemporâneo que se havia tornado em 1948, e a ditadura futura do meu mundo imaginário era, em boa parte, menos brutal do que a futura ditadura tão brilhantemente descrita por Orwell. No contexto de 1948, 1984 parecia terrivelmente convincente. Mas, no fim de contas, os tiranos são mortais e as circunstâncias mudam. A recente evolução na Rússia, e avanços recentes no campo da ciência e da tecnologia retiraram ao livro de Orwell uma parte da sua horrenda verosimilhança. Uma guerra nuclear tiraria certamente todo o sentido às predições de qualquer pessoa. Mas, sustentando neste momento que as Grandes Potências podem abster-se algum tanto de nos destruírem, é lícito dizer que tudo se apresenta agora como se todas as vantagens pareçam mais a favor de algo como o Admirável Mundo Novo do que algo como 1984.

À luz do que apurámos recentemente acerca do comportamento animal, em geral, e sobre o comportamento humano, em particular, torna-se claro que o controlo do comportamento indesejável por intermédio do castigo é menos eficaz, no fim de contas, do que o controlo por meio do reforço do comportamento desejável mediante recompensas, e que o governo por meio do terror funciona, no conjunto, pior do que o governo  efetuado pela condução não-violenta do ambiente, das mulheres e das crianças, como indivíduos. A punição trava temporariamente o comportamento indesejável, mas não suprime definitivamente a tendência da vítima a sentir-se bem ao comportar-se desse modo. Além disso, os derivados psicofísicos do castigo podem ser justamente tão indesejáveis como os atos pelos quais um indivíduo foi castigado. A psicoterapia é largamente consagrada às consequências debilitantes ou antissociais das sanções sofridas no passado.

A sociedade descrita em 1984 é uma sociedade controlada quase exclusivamente pelo castigo. No mundo imaginário da minha própria fábula, o castigo não é frequente e é, de um modo geral, suave. O controlo quase perfeito exercido pelo governo é realizado pelo reforço sistemático de comportamento desejável, por numerosas espécies de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica, e pela estandardização genética. As crianças geradas em proveta e o controlo centralizado da reprodução não são talvez impossíveis; mas é perfeitamente claro que, durante muito tempo ainda, continuaremos a ser uma espécie vivípara que se reproduz ao acaso. A estandardização genética com fins práticos pode ser posta de lado. Continuará a haver nas sociedades o controlo pós-natal – pela repressão, como no passado, e, numa extensão cada vez maior, pelos métodos mais eficazes da recompensa e da manipulação científica.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(pág. 17/18/19)

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue