10.28.2004

AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (1)

"As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêem fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão:
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão
."
(Luís Vaz e Camões, in OS LUSÍADAS)

É cada vez mais notória a influência que os políticos tiveram na ideia de instrumentalização dos órgãos de comunicação: popularizou-se em termos perniciosos e geniais. Agora, toda a gente pensa que é legítimo servir-se desta sempre que precisa dela para mostrar a sua argumentação contra as injustiças, embora ninguém se deixe ver quando está em causa. Foi assim em Coimbra, quando os estudantes estavam a levar solha da polícia, que os envolvidos chamaram a atenção das televisões para os factos, mas depois tentaram tapar as câmaras com jornais e mãos na altura da libertação do estudante preso e/ou agredido. Seguiu-se o mesmo, mas de forma inversa, em que o sargento da GNR nunca se manifestou até à altura em que foi sentenciado, após o que, intencional e propositadamente, se dirigiu às televisões presentes para passar o recado da sua inocência aos pais. Idem no caso do 1º ministro quando quis falar à nação acerca de tudo e nada, e principalmente demonstrar o seu incómodo perante o caso Marcelo Rebelo de Sousa, de que se manifestou vítima absoluta, comentador que a usou quanto achou por bem, e todavia alimentou tabu desde a sua demissão da TVI até ontem, quarta-feira expectante, a gozar em pleno as cinzentas cinzas duma tempestade anunciada.
Não se sabe ao certo onde se chegará, com a relativa apetência pelos mass media, mas é de supor que não voltaremos a descobrir o caminho marítimo (e de progresso tecnológico) para as Índias, ou sociedade do conhecimento, porquanto de há muito outros valores se "alevantaram". Até porque prevista no roteiro está a dimensão europeia, com o seu tratado constitutivo e moderato modus vivendi social, apetrechado por todos os compromissos de convergência e legislação que a suporta. Algo anda realmente mal no reino das comarcas, e muito dificilmente se passará esponja conciliadora sobre o pó da memória de suas recentes intervenções, decisões e (in)consequências. Além do que suas majestades, os políticos do status quo vigente, agarrados que estão ao baronato, se não apercebem que estão debaixo da mirada dos eleitores, que não andam assim tão distraídos como aparentam e que se não se manifestam é somente porque reconhecem a enorme fragilidade do poder, dando-lhe corda para se enforcar, sobretudo a classe média arrolada como principal pagadora das crises, e que mantém em pena suspensa os últimos desmandos governamentais: taxas moderadoras, lei das rendas, colocação de professores, distribuição arbitrária da verba orçamental, que lesa substancialmente os sectores da educação, saúde, trabalho e segurança social, atirando para o saco sem fundo do desperdício algumas reformas em curso sem terem chegado ao fim, e, por conseguinte, não colmataram ou resolveram os problemas que as geraram.
Hoje, quando me levantei, ainda os cães da madrugada ladravam. Indistintos os reflexos da aurora, ditavam, pouco a pouco, que a pressão censória dos grupos económicos, dos partidos políticos e dos corpos colegiais de algumas instituições do Estado, é indesmentivelmente eficaz sobre os fazedores de opinião, e que esta é um obstáculo (facilmente removível, ao que parece) para a consolidação de estratégias de promiscuidade entre os governos, entidades financeiras e as administrações da maioria dos órgãos de comunicação portugueses. Que o presidente da nossa república sabia o que se estava a passar, mas preferiu honrar o compromisso de sigilo duma conversa que tivera em privado, e fechar-se em copas, preferindo assistir de camarote ao desenrolar dos acontecimentos, ou a garantir que uma instituição de Abril, a Liberdade de Expressão, se mantivesse intacta. Que o Parlamento pode ser instrumentalizado por grupos económicos exteriores consoante as suas necessidades de financiamento, e que as cabalas involuntárias são uma ficção paranóide susceptível de activar a capacidade e precisão afirmativa do criancismo ministerial. Que Santana Lopes não acertou à primeira, e que se prepara para recuar, fazendo uma remodelação do governo, mas agora tarde, a más horas e à semelhança do que o seu antecessor (Durão Barroso) terá feito em Estrasburgo, embora que por motivos diversos, pois que enquanto o presidente político da Europa o faz para evitar dissabores, o primeiro ministro será para remediar e limpar o serviço que fez. Que as pessoas, principalmente os gestores e presidentes administrativos, deixam de o ser logo que não estejam nas instalações das empresas e institutos que gerem, mesmo que estejam a jantar com amigos num hotel qualquer e durante essa refeição não falem de outra coisa senão da actividade da empresa, dos seus negócios, estratégias, dificuldades, fundamentos e objectivos. Que tudo aquilo que é pode ser e não ser ao mesmo tempo, segundo a nova lógica da sociedade de comunicação. E que se os jornalistas se andaram a formar para fazer bem o seu serviço, parvos foram eles, visto que a única regra deontológica que rege a sua actividade é a visão que o proprietário tem de órgão de comunicação, assim como das suas estratégias administrativas pontuais.
Ou seja: não é de admirar que qualquer borra-botas popular se ache no direito de determinar o que é ou não é noticiável, exigir das câmaras e dos jornalistas que lhe sirvam os argumentos, interesses, propaganda, jocosidade lamechas, receios e recados, visto que toda a gente com responsabilidades políticas, económicas, religiosas, empresariais, financeiras, de reitorias, associações de estudantes, dirigentes de clubes de futebol, da coisa e da ordem pública, criminalidade e quejandos, instalados nos meandros do poder de decisão, considera que é para isso mesmo (e só isso) que eles servem: para os convocarem e acorrerem lestos, sorridentes e prazenteiros, sempre que algum deles está com o rabiosque às bufas! Para os aliviar nas exigentes tarefas da hegemonia e ajudar a construir o seu imperiosinho napoleóptico! Enfim, para ouvir as preces, de quem até já a Fátima foi, e não obteve milagre... Principalmente porque sabem, que se lhe acenarem com parangonas e chavões, eles caem, e aos saltinhos eles vão; pois como diziam Camões, entre ovelhas, santos, santinhos e madonas, é grande fraqueza ser-se leão!

AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (2)

Sem dúvida estaremos a construir a nossa desgraça, com a benfazeja acomodação às agendas capitais, oriundas do parlamento, governo, presidência e tribunais, e a embarcar no mesmo jogo alienatório que sustentou a vida à filha do grã-vizir que, não obstante saber do juramento do sultão em se não deitar mais do que uma noite com a mesma mulher, para lhe tirar a vida no dia seguinte, preferiu usufruir as honras do seu leito, arriscando a existência por um capricho da esperança e elevado crédito nas qualidades da narrativa. No entanto, é sobejamente conhecido, que o risco é uma profissão segura para quem supõe que o presente não passa de um futuro a fazer-se ontem, com os sobressaltos correspondentes, as arrelias concomitantes e os desaforos que o tempo (relógio) biológico nos tem de há muito reservados. Por isso, em pleito do tem que ser, adiantemos mais um capítulo, antes que o capitular se nos imponha.
E por diversas razões, mas sobretudo por uma. Porque de igual modo nos pode acontecer o que ao Orlando Cardoso (OC), de Pombal, sucedeu; que o apagaram do mapa on line, o despediram do emprego, e lhe queimaram a reputação, a fim de que mais ninguém o admita ao seu serviço, com receio de quantas sevícias lhe reservem pela ousadia. Ali, no coração de Portugal, à beirinha do pinhal de Leiria!
Segundo reza o mail que o próprio emitiu, na sequência do caso Marcelo, tinha OC um blog, que administrava com perícia e desenvoltura tamanha que nos dois meses de existência abichara 6 700 visitas, além da entrada na ordem do dia em conversas e comentários pé de esquina, o que o tornara incómodo para a edilidade local. Ora, tendo a empresa em que o bloguista trabalhava negócios com a autarquia, o edil visado não esteve com meias medidas e pressionou o empresário a despedir o energúmeno, o terrorista, o franco-atirador, o escolho, o Cheguevara do Litoral, o ferrabrás, o agitador, que lhe empecilhava os mandos municipais, denunciando-os como desmandos. É claro que o facto deste ter dois filhos para criar e cuidar, mulher desempregada, e letras para pagar, o não demoveu de caciquismos obsoletos e antidemocráticos, mas antes, pelo contrário, o inspirou tamanha fragilidade do incauto comunicador, para fazer-se valer da sua posição de autarca e político do partido da governação, logo de peso e apoiado parlamentarmente, e assim remover o obstáculo que lhe obstruía as vias narcísicas à sua napoleidade. O que considera legítimo e praticável, porquanto vê como enorme injustiça o ser-se ameaçado um imperador no seu próprio império, agravada ainda esta com a possibilidade de lho altercarem e subtraírem... Até porque segundo a engenharia maquiavélica da sua mente possessa, não pode haver imperador sem império, nem trono sem chibata!(Aliás, ideia comungada pela maioria dos (pseudo) empresários da comunicação, ao considerar os comentadores, analistas, opinion makers, simples e insignificantes assalariados ao seu dispor, mão-de-obra barata para faltas, quedas nos rankings e quebras de audiência, testas-de-ferro para intimidar políticos, críticos e concorrência, cabos de guerra com título de "amigos", carne para canhão e propriedade sua, utensílios de arremesso para as demandas pessoais, estratégicas e de tráfico e influências. Que sustenta que um órgão é um órgão do seu corpo capital, e não qualquer instância de caridade de onde a prática do bem, das boas maneiras, falas e intenções, lá por ter já gerado um primeiro ministro e um secretário geral do principal partido da oposição, não quer com isso dizer que se arrisque na repetição da manobra, assim de borla e ingenuamente, em produzir também um presidente da república - ainda que dos bananas!... Porque dono é dono, mesmo que só do feijão preto que lhe meteram no cu, para aprender a andar sem deixar cair tudo quanto tem e seu - pelo menos consoante o que diz o povo, clarificando sabiamente que "se dermos dez tostões a um pobre, criaremos um soberbo" -, e os donos da comunicação social, directores, proprietários e editores, acham absolutamente normal puxar as orelhas aos comentadores, chamar-lhes a atenção para o que dizem, como o fazem e sobre quem, ou despedi-los desde que suspeitem estarem a ameaçar-lhes os negócios e/ou prestígio.)
Agora, o curioso da questão, é que este caso, além de inscrito na linha de crimes contra a Liberdade de Expressão no nosso país, leva-nos para um outro campo, que é o da credibilidade do suporte electrónico e da validade legal dos documentos emitidos ou recebidos por esta via. Ou seja: nenhum político, empresário, legalista, gestor, reconhece como válidas as comunicações (electrónicas) de natureza digital, equiparadas nos efeitos com aquilo que se atribui a uma carta registada ou fax, de notificação, rescisão de contratos, prova factual, mas é passível de validade e reconhecida eficácia na divulgação de conhecimentos científicos e didácticos, de publicidade e negócio, de propaganda e promoção divina, territorial e cultural.

(CONTINUA...)

10.25.2004

OS RATOS
De: António Moncada Sousa Mendes.
Encenação: José Mascarenhas.
Cenografia e figurinos: Sónia Tavares.
Interpretação: Adriano Bailadeira, Rui Ferreira e Verónica Barata.
Luminotécnica: Armando Mafra.
Sonoplastia: Hélio Pereia.
Vozes off: Susana Teixeira e José Mascarenhas.
Em exibição na Igreja de S. Francisco, em Portalegre, nos dias úteis às 21:30 horas, e matinée aos domingos, até finais de Novembro.

A propósito desta peça, é legítimo sublinhar três aspectos primordiais (encenação, modernidade do discurso e trabalho dos actores), que lhe emprestam notória mais-valia.
PRIMEIRO - Num ambiente de cave, underground, tipo bunker do blitz, atelier de Jô, pintor neo-expressionista e obscuro das particularidades da angústia e desesperança universais, e Bill, autor diletante e multitalentoso, formam os ângulos base do triângulo (quase amoroso) cujo vértice é Maria, uma emigrante polaca, tão desejável quão desprotegida, órfã, ou tão despudorada quanto ingénua, casadoira, com problemas de Visto à perna e solução conjugal em vista, como recurso previsto para permanecer nos EUA, a democracia dos seus encantamentos. É um mundo fechado, calafetado, comprometido com o individualismo solitário da criação plástica, ensimesmado nos afazeres e preocupações de um artista que desacreditou nas grandes causas, desiludido com os sistemas e as políticas, com os valores humanos, mas extraordinariamente dependente, quer dos produtos alienatórios, como droga, álcool, aparelhos de comunicação, como dos afectos, tanto, que até os quadros que pinta, e que evidenciam a angústia primária da incomunicabilidade, são normalmente retocados por Bill, estimulados pelas considerações deste, onde a guerra dos mundos, não obstante a actualidade do momento, continua a chegar via rádio, embora que também transformado em despertador, à semelhança do que Orson Wells terá feito, através do contacto comercial com a mercearia ou bar da esquina, ou pelo morse sapateado de uma figura do leste, que vive no piso acima e lhe acende as expectativas de romance, ou lhe anuncia a perestróika, a solidariedade e o fim da guerra fria, e a quem ele deixa bilhetinhos à porta.
SEGUNDO - Neto de Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que à revelia do Estado Novo facultou a fuga da Europa a milhares de judeus durante a II Guerra, autor de outras peças já representadas pela CTP/Companhia de Teatro de Portalegre ("OS DEGRAUS DA FORCA", em 2001, "EMIGRANTES", em 1997, e "ARISTIDES, O CÔNSUL QUE DESOBEDECEU", em 1996), António envereda pela reposição de um diálogo urbano onde a realidade é reflexo da emergência globalista, reproduzindo na súmula os principais momentos que marcaram a história da humanidade no último quartel do século XX.

(continua...)

CONTE COMIGO
De António Torrado
Encenação de Victor Pires
Cenografia e figurinos de Sónia Tavares
Luminotécnica de Armando Mafra
Sonoplastia de Hélio Pereira
Elenco: Adriano Bailadeira (Lourenço), Rui Ferreira (Carlos), Susana Teixeira (Laura), Verónica Barata (Maquilhadora), Armando Mafra (Realizador), Hélio Pereira (Câmara Man)e Maria Ricardo (Voz Off).

Suficientemente conhecido e reconhecido dos meios intelectuais, artísticos e académicos para demais referências biográficas, António Torrado narra nesta peça, caracteristicamente uma comédia de enganos, numa ambiência de talk-show telivisivo, "as fronteiras resvaladiças entre amizades e amores, alguns fantasmas sexuais e as desprogramações do comportamento afectivo dos 30 para os 40 anos", num encadeado jogo de equívocos, onde "a aparência de verdade se esconde sob a aparência de mentira" e vice-versa, demonstrando quanto as imagens virtuais são passíveis de despenhar-se "no chão da realidade", cujos estilhaços atingem inicialmente as vedetas mediáticas, como a enunciada no apresentador Lourenço, tão seguro e sedutor mas igualmente frágil e desamparado, e posteriormente todos os personagens, desde os técnicos do programa e estação televisiva, até aos ausentes, como no caso da esposa do apresentador, que nunca entra em cena mas que é uma das principais agentes do processo narrativo.
No imbricado universo de cenário dum mass media que pretende iluminar com luz fulcral e irónica as sombras e bastidores da nossa actualidade, esta peça em dois actos, em que o directo serve quase de separador entre ambos, relata os escaparates da traição conjugal, infundada mas fundamentada, confessada pela vítima (Laura, esposa de Carlos) ao suposto motivador dela (Lourenço, marido de Sofia),alvitrando para uma relação homossexual entre os dois amigos de longa data, desvendando assim um dos seus mais profundos receios, ou do marido a haver trocado por outrem, e logo um homem!, terrível infâmia, que de certo modo lhe obstruem a visão da realidade, quedando-se por desconfiar do absurdo para esconder o óbvio: que o Carlos tinha uma paixão, sim, mas com outra mulher. E que mulher!...
Por ser turno, Lourenço, o imaculado e brilhante apresentador de TV, a braços com a urgência profissional de pôr no ar mais uma das suas pérolas criativas, que lhe começa a correr pessimamente, fica trancado nos estúdios, a sua redoma de defesa, logo totalmente à mercê da inesperada revelação da mulher do seu melhor amigo (e admirador), sucumbe às suas ancestrais dúvidas sobre o carácter da sua masculinidade, vacila, claudica, entra em ruptura de personalidade, revelando o lado obscuro do seu brilhantismo, põe a nu a mácula não revelada pela sua face pública, associa condições e situações inassociáveis, enreda-se nas desconfianças de Laura, perde a áurea de espectacular apresentador, e, quando no final do programa recebe a anunciada visita de Carlos, que lhe vem confessar "algo igualmente inconfessável", é defrontado, além de com uma nova ordem de arrumação de conceitos existenciais, também com a constatação de que entre amizades antigas um engano nuca vem só, e que se é verdade que a traição de Carlos a Laura tem algo a ver com ele, é simplesmente porque ela é praticada desde longa data com a sua mulher, que ele pressupunha fiel, apagada e submissa esposa, mas que brilha numa outra esfera, sem ribaltas nem destaques, que é a de transformar tendências recalcadas em presentes assumidos e consumados. Enfim, uma peça que trabalha a percepção do espectador por socalcos de significação, ou níveis de compreensão, cuja acção principal acontece fora de cena, mas nem por isso diminui a hilaridade duma comédia que nos leva essencialmente a desacreditar nas aparências. Sobretudo, nas de semântica. E no (encadeado) jogo de réplicas que remontam a um quotidiano que nos é (invulgarmente) familiar, porquanto nos entra portas adentro sempre que a TV é ligada e compramos alguma revista dela, sobre ela, de diz-que-disse nela, que reflicta o mundo do espectáculo e da telenovela.
(NOTA: Esta peça estará em cena, em Elvas, no Cineteatro, dia 7 de Novembro, às 16 horas)

10.19.2004

OS RATOS
Companhia de Teatro de Portalegre
Igreja de S. Francisco
22.10.2004 – 21:30 horas

"- Não vou conseguir pensar. Não vou conseguir trabalhar.
- Nada vai interferir no teu trabalho mais do que o suicídio. "

Anda-me a cabeça à roda com o silêncio ruidoso do Marcelo (MRS), mas continuo a não permitir que alguém, seja quem for e por motivos mais bem intencionados que tenha, me pergunte a idade. Sobretudo porque não interessa, porque não quero saber dela, nem conta absolutamente para nada. Porque é simplesmente a suficiente e necessária para viver, porquanto já nasci e ainda não me chegou aos ouvidos a notícia da minha morte. Daí que no dia 22 deste mês, sexta-feira, vá ao teatro, à estreia de OS RATOS, peça inédita de António Moncada de Sousa Mendes – sim, exactamente esse, o familiar do português que salvou de morte certa milhares de judeus durante o reinado nazi –, encenada por José Mascarenhas, representada por Verónica Barata, Rui Ferreira e Adriano Bailadeira, com cenografia de Sónia Tavares, luminotécnica de Armando Mafra e sonoplastia de Hélio Pereira.
E porquê? Porque prefiro os dramas urbanos que debatem a actualidade, a representação dos triângulos amorosos de disputa por uma fémea, a questionação da guerra, dos interesses petrolíferos e fecais da alta finança, a deixar-me apodrecer de tédio na fumaça punheteira dos bares, encharcando-me de shots rodeado de putéfias baratas, escanzeladas que dão a greta ou fazem broche por um charro e 20 paus, ou conviver mesas meias com artistas esquizofrénicos fumadores de haxixe, cuja afectada criatividade advém e depende exclusivamente da quantidade de droga aspirada.
Bem como também não perderei, igualmente, o monólogo de Sarah Kane, intitulado "4:48 PSICOSE - Ou talvez não seja assim...", dito por Rui Ferreira, no dia 4 de Novembro, provavelmente na sala polivalente 1, da Biblioteca Municipal, profunda e maquiavelicamente underground, urbano, mas que reflecte a outra parte (estragada) da história da humanidade, aquela das pessoas perdidas no caos do universo, alimentadas pelo fogo e febre do medo e ansiedade, capazes de se autodestruírem, e que preferem atirar-se de encontro à morte a arderem no quotidiano da vida, que lhes é tão terrivelmente surpreendente que nunca se sentem estar preparados para a consolidarem em si. Porque essa personagem que se quer matar artisticamente pelas três maneiras possíveis e mais eficazes de se fazer (envenenamento, corte de pulsos e enforcamento), todas ao mesmo tempo, como quem usa três chaves e três fechaduras para se fechar por dentro da mesma porta, é o espelho desses alguéns anónimos, insignificantes e descartáveis, pessoas que têm tanto medo do que se passa lá fora que se previnem e garantem que jamais isso as venha a penetrar, lhes entre em casa por descuido ou permissão, preferindo morrer intoxicadas de solidão e abandono, a correr semelhantes riscos de contágio do outro. Peça que é uma sinfonia a solo
às 4:48
hora feliz
quando a claridade visita
a escuridão quente
que alaga os olhos
de uma dramaturga inglesa que se suicidou em Londres, sua cidade natal (03.02.1971), a 20 de Fevereiro de 1999, talvez traçando a saga precoce do futuro da humanidade a braços com a descaracterização genética da espécie, com a redução do seu quociente de deslumbramento, e para quem a vida não é mais aquele palco onde se representa a suprema loucura de nela acreditar, propõe o lúdico do ilúdico na aspereza
de quem às 4:48
quando o desespero a visitar
se enforcará
ao som da respiração do seu amante.
Um momento a que quer fugir mas já não quer fugir. Porque algumas pessoas se supõem terem nascido sem soluções para contrariar as contrariedades, e se entregam por inteiro aos seus fados, e se imolam na febre dos seus temores, ou se arrepiam ao sabor dos inversos, Sarah Kane a primeira autora maldita do século XXI, profaniza o silêncio dos sem-voz, dos que desconseguiram a fome, o afecto, o sono, o apetite sexual, a vontade de comunicar, e em desespero reconstroem cada etapa da sua vida à semelhança da rejeição activa e falta de educação democrática de que foram alvo na infância, atirando-os para a experiência rebelde, agressiva, provocadora, quezilenta, afectivamente instável, da qual foram obrigados a socorrer-se para não perecer prematuramente, mas a que sucumbem finalmente num acto "trágico" como estes últimos momentos duma existência reflectem, na imbricada elaboração da mente psicótica, em exercício de futurologia do que pouco mais tarde veio a suceder com a autora.
Principalmente porque quando se tem medo da solidão, ou do mal que se pode fazer a si próprio quando se está definitivamente sozinho, também se procura ensaiá-la até aos seus derradeiros limites, no desespero duma aposta de tudo ou nada, mas com a certeza de que algo chega "finalmente" ao fim, sobretudo esse doer crónico sem causa aparente que é a moléstia da alma, alicerçada na canga química e farmacológica em que se sobrevive, e onde o ser nunca é, posto que subjugado à alucinação contínua, eis que 4:48 se consolida como o magnânimo instante de uma epopeia atribulada, circunscrita numa vida intensa mas desordenada, sem rumo explícito e indubitavelmente vincada pela falha consciência dos projectos de sustentação, dependente do imediatismo consumista da felicidade, quiçá a todo o custo.
Marcadamente artaudiano, mas com referências de Brecht, Beckett, Pinter, esta psicose com hora certa à precisão do minuto, é a consumação de uma forma de estar na arte como na vida, que nunca se podem desligar uma da outra nem interpenetrar-se mutuamente, que não se limita ao figurativo em obra, ou no faz-de-conta dramático, e antes insiste em arrastar para as vozes representantes o que se passará directamente na mente da autora, dos seus estádios emocionais e escores de acuidade, das suas relações com a doença e as terapias consequentes, nomeadamente com a enumeração dos fármacos que estão adjacentes (Setralina, Zoplicone, Melleril, Citalopram, Fluoxefina, Thorazine, Venlafaxine, etc.), incluindo as reacções e discurso dos psicoterapeutas, a cru, sem concessões estético-metafóricas, impondo a cadência desgarrada, solta, anacrónica, caótica, de quem já não pretende nem finge querer seduzir, querer agradar a um público ou colectividade, e opta por sinalizar apenas a nebulosa em que habita, sublinhando simplesmente algumas poeiras mais concentráveis, esporadicamente agrupando-as em cintilações de esperança e compreensão possíveis, podendo até configurar-se em óbvias constelações, rematando a criação completa (as anteriores são RUÍNAS, O AMOR DE FEDRA, PURIFICADOS E FALTA, não havendo registo de qualquer outra depois de PSICOSE) duma dramaturga que teve a eleição de encenadores do gabarito de Peter Zadek, Bernard Sobel, Jean-Marie P., Barbara Naviti, Thomas Ostermeier, Vicky Featherstone, João Fiadeiro, Jorge de Silva Melo, Nelson de Sá, entre muitos outros por esse mundo fora.

(Mas não só. Até porque estão programadas para Novembro as representações de CONTE COMIGO, no dia 7, ERA UMA VEZ, dia 14, OLEANNA - de que se seguem abaixo mais algumas informações complementares -, dia 21 e OS RATOS, dia 28, em Elvas, no Cineteatro desta cidade, e sempre às 16 horas, bem como a reposição destas e doutras peças numa mostra que sucederá pelos finais deste ano, quando se reinstalar a CTP na Igreja de Santa Clara, actualmente quase reconstruída e reparada, deixando definitivamente as instalações provisórias em S. Francisco, onde ainda está.)

Oleanna – a peça de Mamet com uma contemporaneidade desgraçada

Entrevista com Adriano Bailadeira que a encena para o Teatro de Portalegre


David Mamet (n. em Chicago, a 30.11.1947), é um autor neo-realista norte-americano cujo estilo de linguagem marcadamente naturalista tem vindo a ser comparado com escritores da nomeada de um Ernest Hemingway, do irlandês Samuel Beckett, do inglês Harold Pinter ou do dramaturgo grego Aristophanes, galardoado com os prémios Village Voice Obie (1983, por Edmond), os Pulitzer Drama e Pulitzer da Crítica, em 1984, contemplando essencialmente Glengarry Glen Ross. Enquanto romancista, ensaísta, argumentista – faceta pela qual é mais conhecido em Portugal dada a sua assinatura em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, O Veredicto, Os Intocáveis, Jogo Fatal e As Coisas Mudam, por exemplo, posto que dos dois últimos filmes é também o director exclusivo –, realizador cinematográfico e dramaturgo, esteve durante a década de 70 associado ao movimento regional de teatro de Chicago, influências que jamais renunciou, e devem-se-lhe títulos como American Buffalo (1977), Praire du Chien (1978), Some Freaks (1989), Lakeboat (1980), The Village (1995), The Crytogram ou Dangerous Corner (1995), entre muitos outros, e de Oleanna, publicado em 1992 e adaptado a cinema em 1994, igualmente sob a sua direcção.
Oleanna é uma peça de teatro que se desenrola no gabinete claustrofóbico dum professor universitário, sumidade exemplar da máxima racionalidade, que vive num mundo preciso, previsível, regular, estabilizado, mas que é de súbito afectado pela presença duma aluna (Carol) que lhe está nos antípodas, pela sua fragilidade, insegurança, carência emocional e cognitiva, dependente do sucesso escolar, no que ambos se vêem enredados e compelidos para a intrincada trama do dogma, da lei e da teia de normas do sistema de ensino. Estreará entre nós em Fevereiro, através da Companhia de Teatro de Portalegre (CTP), ali à Igreja de S. Francisco, com representação ao cuidado de Victor Pires (professor) e Susana Teixeira (aluna). Mas a encenação é de Adriano Bailadeira, cursado em Turismo e Termalismo, na Escola Superior de Educação de Portalegre, em Teatro, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, em Técnica de Máscara, por Filipe Crawford, e actualmente a frequentar o curso de Estudos Teatrais na Universidade de Évora, que ainda antigo estagiário no CTP participou em Leonel (em 1994, uma adaptação dramática a partir do Príncipe com Orelhas de Burro, de Régio), O Jardim Público (de Jaime Salazar Sampaio, em 1995) e Ursos e Cisnes (de Tchecov, no mesmo ano), que integrou o elenco de séries televisivas como A Raia dos Medos (RTP, 1999), Uma Aventura (SIC, 2000) e Espírito da Lei (SIC, 2000), que participou na Real Caçada ao Sol (de Peter Shaffer, no Teatro Nacional D. Maria II, 2000) e Os Bons Malandros, adaptação e encenação de Paula Pedregal da Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal, em 2001), para finalmente regressar à CTP em 2001, onde participou no Meu Caso, de Régio, História Breve da Lua, de António Gedeão, O Marionetista de Lodz, de Gilles Segal, Visitação, Farelos e Índia, de Gil Vicente, O Leão Apaixonado, de Esopo e/ou La Fontaine, Os Degraus da Forca, de António Moncada Sousa Mendes, O Fidalgo Aprendiz e Outros Diálogos, de D. Francisco Manuel de Mello, Maré Alta, de João Pedro de Andrade, Júlia, a partir de texto de August Strindberg, e Esperança, de Jaime Salazar Sampaio, além de ter concebido em conjunto com outros actores o espectáculo de comemoração dos 25 anos do Grupo de Teatro Pedra- Mó, da Ilha Terceira, nos Açores, Um Urso e Um Pedido de Casamento. Por isso falou-se com ele, a fim de levantar aquela ponta do pano sob a qual se escondem as artimanhas do ofício do espectáculo, considerando que se havia alguém em posição de o fazer não podia ser outrem.

Apostar no pessoal da casa

Joaquim Castanho – Até aqui, ou até há muito pouco tempo, não era hábito da Companhia de Teatro de Portalegre (CTP) rodar as encenações por mais do que uma pessoa... Esta nova atitude, o facto de seres tu o encenador, vem reflectir-se de alguma forma como uma nova tomada de consciência da realidade daquilo que é o teatro em Portugal, e sobretudo em Portalegre, ou é também uma aposta na multidisclipinaridade das recém formações artísticas?

Adriano Bailadeira – Passa um pouco por isso tudo... De facto, em primeiro lugar, é uma aposta da Companhia abrir o leque dos encenadores que tem, apostando na prata da casa, por quanto é preferível apostar inicialmente no pessoal da casa e, depois, então, convidar outras pessoas de fora. E em segundo lugar, por uma questão de linguagem, já que cada pessoa é uma pessoa e tem a sua leitura ou forma de estar, diversa e enriquecedora, e é muito importante, a esse nível, que estas leituras sejam apresentadas. Até porque o teatro não é uma arte única e unificada, pronta e acabada... Não é do género “este teatro é o que existe”, é bom e é assim, e não existe mais nenhum! Há vários caminhos. Há diversos pontos de vista que devem ser dados a conhecer... Não só das diferentes peças, ou repertório, mas também do ponto de vista de quem as encena, de quem as prepara, de quem as analisa, para que o próprio público possa fruir dele, de uma leitura mais abrangente e de linguagens mais diversificadas.

JC – A partir do momento em que as linguagens são diversificadas é impossível não abranger outros públicos, não focar outras malhas da diversidade e multidisciplinaridade, novas direcções e alvos, atingir novas audiências e plateias. Para além deste “facto circunstancial” como é que é representar este outro papel, pela primeira vez, que é o da encenação, precisamente com colegas que giravam na mesma esfera de acção?

AB – Para já, é um desafio interessante! Nunca tinha feito uma encenação a solo, embora já tivesse naqueles projectos com colegas de escola, a nível académico, ou como workshop de férias, mas sozinho nunca, o que é mais complicado, pois sabemos que a opinião final é sempre a nossa... Tivemos o projecto das Palavras, espectáculos de leitura encenada, no entanto isto é um pouquinho diferente! Isto é um processo acabado que irá ter um produto final. E estar a trabalhar com os meus colegas não é mais do que ter o privilégio de também ir aprender com eles. A encenação nunca poderá ser um processo fechado.

JC – E então?...

AB – Então, neste momento, em termos de encenação, aceitei o desafio com este sentido: tornar-me a pessoa que toma as decisões finais, mas sobretudo aquela que ouve a opinião dos colegas para que, em conjunto, visto que o teatro é cada vez mais uma arte de equipa, de grupo, sendo eu o receptor da informação, a processa, filtra, até escolher o caminho mais correcto, segundo o nosso ponto de vista. Acho que passa um bocado por aí... Ainda não tenho sequer 30 anos ou uma carreira assim tão grande, mas abalançar-me na encenação cumpre completamente a minha noção de desafio, pois quem gosta muito de uma coisa e tem ambições próprias de querer fazer bem, não tem que ter medo de abraçar esse tipo de desafios!

JC – Já tinhas tido outros contactos com Mamet?

AB – Com Mamet, muito poucos... E mais cinéfilos, do que dramatúrgicos.

Há uma briga a dois níveis

JC – Nem com esta peça, precisamente?... Tinhas visto anteriormente alguma representação dela?

AB – Desta peça apenas vira um extracto a nível académico, na minha escola, de uma ou duas cenas, que colegas meus fizeram. E naquela altura chamou-me a atenção! Depois li o texto e fiquei com ele na cabeça, por achar que era um texto com uma força tremenda, com uma contemporaneidade desgraçada e que espelha uma situação com que era fácil identificarmo-nos. Qualquer pessoa que tenha passado por uma sala de aulas pode aperceber-se dos sintomas enunciados...

JC – Efectuar projecções e transferências?

AB – Completamente.

JC – Mas para além desta identificação, qual a mais-valia que defines como essencial e imprescindível para teres escolhido esta peça e não outra qualquer?

AB – Os pontos chaves dela – o que lhe dá reconhecimento, o que lhe dá valor... E posso dizer que nela há uma briga a dois níveis, no sentido de briga enquanto evidência de paradoxo entre dois ou três conceitos básicos. Em primeiro lugar a autoridade e o poder: quem é que de facto detém o poder? Numa forma pontual, no ensino... e numa forma mais vasta, que pode abranger toda a comunidade?... Quem é que determinou que essa pessoa devia ter o poder? Quem estipulou as normas? E o que é que acontece quando essas normas se quebram? Quando o próprio professor diz que devem quebrar-se as normas mas depois é a aluna quem as rompe?... E se o detentor da autoridade quebra as normas, que é que acontece se aquela que não tem autoridade nenhuma as quebra também?
Em segundo lugar, o pormenor mais gritante desta peça, que é a evidência do erro de comunicação. Temos um facto, um momento, um acontecimento, e temos duas verdades para ele. Mas qual delas é que é a mais importante? Haverá legitimidade para afirmar, só porque os estatutos do professor ou da aluna não são iguais, que uma é mais verdadeira do que a outra? Ora, isto é um bocado complicado, e sofre bastantes pressões mundanas!...
E por último, o plano da ambiguidade das acções, dos gestos, do jogo de exposição/retracção, do toque e foge latente, a que toda a ambiência obriga. E como se coabita num espaço tão pequeno que é quase impossível respirar sem invadir a intimidade do outro...

JC – E quanto ao elenco? O facto de conheceres a peça e a CTP, as pessoas que a integram, não te levaram a escolhê-lo por afinidade ou colagem entre as personagens e aquilo que já conheces da personalidade dos eus colegas?

AB – Eu, quando pensei propor e propus esta peça, ao pensar no elenco, fi-lo de acordo com as seguintes questões: visualmente – como é que eu via os personagens; e objectivamente – ou daquilo que os actores podem dar ou contribuir para a imagem final, e que eu tenho na cabeça como ideal para a peça. Apesar de Mamet ser um cinéfilo, e ao contrário do sistema cinematográfico, não acho que os actores tenham que corresponder exactamente à descrição física da personagem. Aliás, precisamente por isso, é que se faz uma coisa chamada trabalho de composição!... O que eu achei é que seria interessante, pegando nos dois actores que fazem a peça, desenvolver um esforço para desconstruir imagens anteriores, de personagens passadas, e dar-lhes uma roupagem nova, utilizando estas pessoas sim, mas com um registo diferente do que se tem feito até agora. E nesta perspectiva a peça pode encaixar-se em qualquer personalidade, pois existe uma tão grande veracidade literária nas personagens, que qualquer pessoa pode encaixar nelas. Estas duas pessoas naquele espaço são as que mais se aproximam e melhor combinam com a imagem que tenho na cabeça dos perfis físicos e psicológicos das personagens!

Enfim, do que além se soube se não dá conta, sobretudo porque se anseia pelo momento da estreia, para a qual desde já, aqui ficam os votos de muita m.... – piiiiii!.... Ou não fora o teatro também uma das artes que nos reinventa, sublinha e converte o nosso dia a dia de rotina em magia esforçadamente conseguida.

10.12.2004

DESMANDOS & IMPROPÉRIOS DA NOSSA PRAÇA

Já ninguém lê jornais. Nas bibliotecas sobram intactos; nos cafés acumulam-se dobrados na prateleira das inutilidades. E aparte isto, só quem é mesmo obrigado a lê-los o faz: empresários das agências funerárias, jornalistas, anunciantes, famílias dos defuntos, autarcas e demais políticos envolvidos nos eventos democráticos (do poder). Enfim, a quadrilhice noticiosa passou do mórbido ao moribundo.
Causas? Infinitas e incontáveis. Mas sobretudo porque os tempos que correm não estão para tretas, ainda que de meias tintas sejam – ou em directo. O mundo pula e solavanca (e nós com ele, no pára-arranca), ditando-nos quanto de filosofal a pedra está mais que gasta.
É certo que alguns cafés resistentes, para desfastio da clientela, continuam a comprar este ou aquele título em cujas capas a cor melhor condiz com a decoração do estabelecimento, principalmente desportivos, a que se possam aproveitar além das boutades nos relatos, também os números antigos para limpar as vidraças. Esporadicamente são inclusive notícia, as ditas casas ou seus mui digníssimos frequentadores, alguns até célebres e destacáveis por isto e aquilo, colunáveis e informadores situacionistas, aliviando encargos às tribos aficionadas, mas daquilo sabendo muitos embora que disto já nem tantos, o que desvalorizam impreterivelmente se algum congénere concorrente teve honras radiofónicas ou televisivas. Porque aí sim, ficam abespinhados e ressentidos, sentem-se vítimas da descida de escalão, passando para a divisão local do preto e branco, onde nem federado se precisa de ser para se ficar com fama de Zé-ninguém. Então aferram-se à tradição e embirram com os progressismos, todos eles, mesmo os penteados coloridos ou as mini-saias, e passam a cultivar um inaudito desdém pelo mundo e ao que nele acontece, a que costumam chamar de “só desgraças” de enfeite aos fait divers políticos, reflectindo em teoria quanto a prática jornalística lhes fornece enlatado pela indústria noticiosa, agências obreiras de separar o interessante do incensurável politicamente correcto, joeirando dos factos os que o são mais e/ou nem tanto.
Ou opinião. Fantasias das mentes desocupadas onde a má fé se faz verbo, quase sempre de borla, maniqueísta, eivado de restrito esclarecimento e motivada percepção. Opinião irremediavelmente partidária ou anti-partidária, redundante, assertiva (asservada e graxista), pistoleira, bandeirolas, encharcada de clichés, requentada e eco dos debates televisivos, esvaziada de propostas semânticas construtivas ou de discursos cooptantes. Maçuda e altaneira. Recadeira ou paliativa. De manifesto esconde-esconde e agarra-agarra criancista. Fleumática e arruaceira. Arrivista e intencional, e que serve sobretudo de patamar promocional de carreiras. E políticos.
Ora o resultado desta inconsistência da imprensa (nacional, regional e local), desta abdicação conivente progressiva dos jornais dos projectos de desenvolvimento urbano sustentado, reflecte-se acentuadamente nas zonas interiores mais desfavorecidas, onde o vigor do tecido empresarial e do mercado é menor, e os rigores das crises superiormente se sentem. Como por exemplo, em Portalegre, onde em anos anteriores, já quase de remoto espectro, houve alguns festivais de impacto cultural, entre os quais o Internacional de Cinema, o de Ambiente, Som e Imagem ou Internacional de Teatro, mas que pereceram definitivamente, arrastando consigo todo o esforço financeiro despendido nas suas edições iniciais para a vala do desperdício, da qual jamais sairá para vergonha dos políticos que roubaram essa verba às bocas esfomeadas, sem saúde, educação, casa e cultura, contabilizadas em mais de um terço da nossa população. Investimentos indubitavelmente irrecuperáveis, excepção feita ao Festival Internacional de Teatro, que é o primeiro ano que falha desde que começou, por circunstâncias adversas múltiplas, que se circunscrevem nas dificuldades operativas ao nível das instalações e acessibilidades, em virtude das obras na Igreja de Santa Clara, sua residência fixa, como nas circundantes à Igreja de S. Francisco, espaço provisório onde se tem instalado ultimamente a Companhia de Teatro e Portalegre, organizadora e promotora do evento, como a nível financeiro, capítulo onde ainda não foram saldadas algumas dívidas contraídas nas anteriores edições, ou no corte dos complementos honorários aos subsídios requeridos pelos projectos que se apresentam, verba imprescindível para cobrir as despesas de deslocação, permanência e alojamento dos grupos de teatro nacionais e estrangeiros que nele, Festival Internacional de Teatro, actuem e participem.
Sobretudo porque esta imprensa salamelequeira se restringiu à cobertura política dos eventos, em vez de divulgar, criticar e analisar obras e autores, encenações e actuações, estimulando assim públicos e bilheteiras, patrocínios e mecenatos, que são a única forma de garantir a sustentabilidade das artes do espectáculo, qualquer que ele seja, promovendo receitas e não esmolas institucionais, também conhecidas por subsídios, e dos quais se insiste dependerem.
São a rejeição e indiferença as principais armas dos fracos, pobres de espírito e miseráveis. Mas quando estas são arremessadas sobre o desenvolvimento regional (e nacional), com a desculpa da actualidade e do interesse jornalístico, assumem uma perversão e malignidade inimagináveis, à semelhança do que vem sendo feito a propósito da novela marcelista no outono governamental laranja. Esquecidos estes filósofos da ejaculação precoce, arautos da maledicência e do esclavagismo comunicativo, impotentes para modificar o olhar perante as evidências moleculares do desenvolvimento sustentado, de que as funções específicas da imprensa regional (Decreto-Lei nº 106/88, de 31 de Março) são as de a) promover a informação respeitante às suas regiões, b) contribuir para o desenvolvimento da cultura e identificação regional através do conhecimento e compreensão do ambiente social, político e económico das regiões e localidades bem como promover as suas potencialidades, e d) contribuir para o enriquecimento cultural e informativo das comunidades regionais e locais, bem como para a ocupação dos seus tempos livres, aproveitam igualmente a embalagem para especular a-propósito dos agendamentos eleitorais, metendo a carreta à frente dos bois, preferindo adubar o suspense com os nomeáveis ao óscar presidencial, numa rotina de casa da sorte mas azar nosso e de quem a trabalhar promete enfileirar nas cortinas do futuro, é tributável e não abdica da cara que tem, mostrando-a sem qualquer vergonha a toda a gente, incluindo aos funcionários públicos que lhe consomem parasitariamente quanto descontam em IRS e IRC, a fazer render a pistoleirice do poder, cuja prática assenta no sempiterno "dispara primeiro e pergunta depois" dos cowboys bushianos, que tem sido a escola de boas maneiras democráticas dos nossos politiquinhos.
Com a retirada palaciana de Marcelo, eis que a manobra de diversão política forjada pelo PSD para iludir a vida pública portuguesa eclodiu de pleno, amenizando as tónicas da sustentabilidade e convergência, ao debate ou aprovação do Tratado Europeu e agravamento das assimetrias regionais, à falência e descalabro dos sistemas educativos, de saúde, segurança social, tributário e judicial, condicionando a actividade opositora do PS a permanecer num limbo de esperança bem-aventurosa, que o narcotiza e suspende, preferindo acoitar-se na perspectiva de que o governo cairá por si (de podre) e em consequência de um conflito interno no PSD, do que a fazer-lhe frente, e pagar para ver.
Por outro lado, ficou-se a saber (zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades, como diz povo) que a censura é uma prática comum em todos os órgãos de comunicação social, e até naqueles que se denominam de independentes, descoberta do tipo pólvora prò fósforo, visto que todos nós, os que de alguma forma colaborámos e trabalhámos nela, o sabíamos e sofremos, mas que quando o dizíamos era menosprezado e, segundo alguns, até merecido, considerando que "o quem paga manda e quem recebe obedece" da prostituição intelectual é uma lei tradicional muito arreigada ao espírito comezinho português. Principalmente porque essa censura encapotada, praticada avulso por directores, proprietários, redactores, paginadores, colegas jornalistas, igrejas, autarcas e anunciantes, é o pão-nosso-de-cada-dia de quantos fazem opinião nos jornais e rádios da nossa república. O sal da terra. O único desafio motivador para neles escrever, que é o de fintá-la, ludibriá-la, contorná-la pelo dizer metafórico e das entrelinhas, visto que outro não pode haver, já que ninguém os lê, ninguém lhes dá crédito, nem eles pagam a quem quer que seja, que presunção e água benta cada um toma a que lhe convém e conselho se fosse coisa boa não se dava, vendia-se.
A importância do medo do lobo na unidade do rebanho é sobejamente conhecida dos sapiens pastorinhos da nossa espécie. Ao sobrevalorizar-se a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS pròs mais pequeninos), alerta-se simultaneamente para o perigo que há num solitário à solta e de como ele pode, com o seu discurso e atitude de franco-atirador, estraçalhar a magnanimidade do rebanho PSD, quais cordeiros cavaquistas de santanas, a propósito dos quais o Oeste tem um mui digno ditado onde os ditos mais os santos e os santinhos não passam de uma cambada de sacanas. Jorge Sampaio, garante constitucional da nossa democracia, conhece-lhe efeito, como aliás toda a fauna cacarejante do paiol do rato, agora inquieta pelo calor (energia desconcentrada mas concertada) na aclamação em congresso da nova abelha-mestra, outro berlusconni dos pequeninos de consciente efeito na consciência da esquerda adormecida.
Todavia preferem calar-se uns e outros, ou dizendo o fazem por portas travessas com indirectas e tempo de antena governamental em horário nobre, a reboque do qual a oposição igualmente se pronuncia, demonstrando quanto tudo vai bem nos melhores dos reinos, não esclarecendo absolutamente ninguém acerca do que sabem do tabu MRS, pondo a render o peixe do silêncio ("tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei", como reza a lei fundamental do mundo do crime, apanágio da sã convivência entre mafiosos e trambiqueiros, qual código de honra do chico-espertismo nacional, ou tábua deontológica entre os filhos da mãe próspera e amarialvdo pai) cúmplice, essa faca traiçoeira de dois gumes, a pôr a coisa em pratos limpos e écrans asseados, e avisando a navegação interna que isto de ter bolinha ao centro é sinal e cautela, sobretudo depois que o povo reconheceu muito filosoficamente que "quem tem cu tem medo". De põe-te a pau,que anda prà'i muito comentador mal-intencionado.
Mas importa não esquecer que a censura mais praticada na nossa praça, é a da ditadura de estilo -- com ou sem cartilha (livro) dele. Normalmente começa por ser uma questão de espaço e de clareza ("escreva, escreva, mas não vá além dos 2000 caracteres e sem palavrões complicados", propõem-lhe benfazejos, sorridentes, e preocupados com as restrições e diminuta flexibilidade vocabulares dos seus leitores, alguns directores/redactores/editores dos pasquins da nossa predilecção), e acaba nos cortes de parágrafos e alterações para melhor se entender, ou simplesmente no excomungar do opinioso não lhe publicando os textos, tal como me sucedeu a mim num jornal afecto à igreja católica, após ter feito um artigo sobre o aborto em que não subscrevia a tomada de posição desta. À semelhança do que acontecia com as esposas dos senhores patriarcais, que não alcançando o orgasmo porque os seus maridos não lhos facilitavam em conseguir mas sim a satisfazer-se nelas, a aliviar-se, destruindo-lhes a auto-estima e amor próprio, convencendo-as até de que se não usufruíam prazer de uma relação sexual com eles, era porque seriam genitalmente disfuncionais, complicadas de cabeça, e o problema residia somente nelas, também os detentores de prelos, de estatutos editoriais ou proprietários, quando aquilo que o opinion maker escrevia não subscrevia as suas linhas de pensamento, ou doutorais de suas macrocefalias, se serviam de pormenores estilísticos (tamanho das frases, ritmo da linguagem, distribuição de palavras, repetição de termos, figuras de retórica e graus de subjectividade) para incutir no colunista o medo de ser corrido por não ser lido ou entendido, quando não satisfazia os propósitos feudais da cartilha (marialva). Castrando-lhe o estilo. Obrigando-o a abandonar ou submeter-se às regras pacóvias do catecismo editorial. Pondo-lhe as frases a ferros, entre clichés e lamechices, extorquindo-lhe toda e qualquer originalidade, possibilidade de êxito ou brilho que não lhe adviesse do privilégio de integrar a ficha técnica do órgão suserano.
O truque censório mais corrosivo, subtil e eficaz é o de nos convencerem que o defeito é nosso. Acima de tudo nosso e só nosso. Que se as audiências fracassam, se os projectos entram em falência, então a culpa é sempre dos operadores descartáveis, os menos imprescindíveis: os fazedores de opinião. Agora que Portugal inteiro ficou a saber que há censura entre nós, estou curiosíssimo para ver como é que os paus de galinheiro que durante os últimos 25 anos a praticaram, se vão desemerdar da realidade que criaram. Porque uma coisa é certa: quando um crime não é punido, e o transgressor ganha autoconfiança para repeti-lo, não só se está a instituir uma prática ilegal comum, como a aliciar os cumpridores da lei para o não fazerem, prometendo-lhe compensações futuras de hegemonia e fundamentalismos antidemocráticos, anti-republicanos e anticonstitucionais. Ou não?

A CHAGA CONTINUA...

Quando os nossos jornalistas transformaram as embalagens dos produtos culturais em notícias e confundiram o marketing com factos, mais não fizeram do que adulterar os conceitos de cultura, de desenvolvimento e de jornalismo, mudando para ser tudo aquilo que simplesmente parecia. E em consequência o atraso que actualmente verificamos em matéria científica, cultural e cognitiva deve-se-lhe integralmente. Foram sobretudo os órgãos de comunicação social, em Portugal, quem não desempenhou as funções que lhe estavam estatuídas. Grande parte do desprezo que as populações votam aos conteúdos desta natureza deve-se à maneira falseada e desprezível com que foi tratada pelos mass media nos últimos 50 anos. Como foi preterida pelo assuntos de lana caprina politiqueiras, telenovelescas e futeboladas do nosso (des)contentamento.
Ao aplicarem o 5WH nos acontecimentos deram deles somente a imagem daquilo que eles pareciam ser, atribuindo o protagonismo não aos factos e conteúdos em si, mas sim a quem os promovia e financiava. Por eles se promovia e a eles se acoplava. Segunda geração dos doutrinários dos três FFF (Fado, Fátima e Futebol), seguidistas subservientes do autoritarismo corporativista, apologistas da “massificação das massas”, lambe-botas dos anunciantes, lobbys almoçarantes e grupos económicos diversos, estiveram na linha da frente do progresso nacional, mas em vez de o facultarem, usaram-no em seu proveito próprio e exclusivo benefício, fomentando o esvaziamento cognitivo e artístico da sociedade portuguesa, outorgando apenas a algumas franjas académicas ou especialistas (com apanágio) da coisa cultural, como se ela não fosse parcela integrante e própria da natureza humana, comum a qualquer um da nossa espécie desde remotas e cavernosas eras, mas simplesmente atributo peculiar dos génios de eleição, estimulando a invenção de uma mentira social geradora de diferença, pervertendo a essência básica e fundamental do conhecimento: esbater as assimetrias e implementar o desenvolvimento.
A cáustica recusa de MRS em contar o que deveras se passou, em pretender que o silêncio fale mais alto que as palavras, à semelhança do que se espalhou acerca da fotografia pelos jornalistas que não sabiam escrever ou eram demasiado preguiçosos para o fazer, para quem que valia por mil palavras, é uma caganeirice muar habitualmente praticada por afectados paranóicos, dos quais se diz que amuam, confirmativa de quanto a pistoleirice também usa e cultiva o bluff, ou artifício da pólvora seca. Se há algo para ser dito, que se diga, visto que estamos numa democracia onde vigora (ainda) a constituição e os direitos do homem. Se não há, então que tal se admita de uma vez por todas e se acabe com medo de reconhecer que o rei vai nu. Que o comentador está a armar em fino, a fazer negaças de donzela que quer ser doneada mas sem doer muito.


(Haverá nos próximos capítulos algum desfecho não ficcional? Teremos que fingir ouvir quantos discursos mais de fugir à seringa? Haverá um Portugal diferente para cada português? Isto e outro tanto no próximo capítulo: não perca.)

10.11.2004

HORA OS COPOS
(SIGNOS BASTANTE SIGNIFICATIVOS)

Os desafortunados/as que tiveram a ousadia de desembestar no mundo sob a influência deste zurríaco, terão vida fácil e duradoura mas com história de pouca monta, a não ser que se socorram de substâncias mais afrodisíacas. Hão-de soletrar-se nas primeiras instâncias da literatura e subirão ao inferno sem passar pelo purgatório. Contrairão surrealidade até ao fígado e terão os tutanos a desfazer-se de ironia. Mas obrarão com desenvoltura e nunca esquecerão o seu temor à cornite aguda e mau olhado. E deles há-de ser a fama e a má-língua da plebe!


Totinegra Arrependida
(Nascidos em temporão)

Os trogloditas residentes desta casa astrolábica zurriacal têm os azimutes em baixo e os alqueires mal medidos. São deveras dados/as ao estrefenefe, regabofe e rambóia, mas quando motivados e na expectativa de uma substancial e erecta cenoura não resistem ao pau. Amantes das artes como do desporto praticam assiduamente um com as outras e estas desportivamente ou sem grandes bagatelas éticas e formais. Gostam de tudo o que mexe, vibra ou palpita, e quando isso pára (ou se aquieta) mobilizam-se com afinco para que assim não fique durante muito tempo. No dia seguinte tomam a pílula pois são contra o aborto, a reforma agrária e a piscicultura.


Raspadinhas com Prémio
(Nascidos em serôdio)

Do zurríaco são o bom ou melhor partido, se ainda inteiros e inteiras, cheias e desparasitados. Normalmente apetrechados de canudo e viatura própria são muito prestáveis e saborosos/as, sobretudo nas noites de insónia, hiper-actividade hemorroidal, comichões várias e erupções cutâneas furunculares – de preferência com gelo e limão. Se de dia, devem tomar-se com cautela e moderação, exclusivamente com água da rede (net ou telemóvel, embora a fixa também sirva), pois fazem óptima companhia mas mordem se açulados ou lhe provocam ciúmes. Pedigree afiançado e oriundos de boas famílias, não são atreitos a moléstias, grandes pensamentos e matemáticas complicadas; todavia, fazem óptima figura e não envergonham ninguém se se mantiverem em silêncio. Digerem mal as recusas e perante elas entram em depressão, crise de identidade e esgotamento, mas perdoam depressa e esquecem facilmente. Na carteira, jogo, amor e copos vão até à última gota, e depois pagam com o corpinho as dívidas contraídas.


Pé-de-Cabra com Pieira
(Nascidos algures em hora indefinida)

No amor os signatários desta sina além do pé ganham também outras partes dos corpo, sobretudo a cabeça e sua segregação pensante, se engrinaldada prò culto, pois que tão amigos do alheio se fizeram que quase de imediato houve alguém a pagar-lhes na mesma moeda, abrindo-lhes conta-corrente e rego no diz-que-disse mundano, principalmente em tascas, esquinas, patins, balaustradas, barbearias, praças de taxis e supermercados, entre outros covis de paupérrima fama, que antigamente se diziam mercearias e onde tudo era pesado à mão, mas onde hoje já ninguém pesa e a língua é servida a palmo.


Salgados & Comprometidos
(Nascidos com pormenor de planta e segundo)

Varão que nasceu debaixo desta sina há-de ser vadio, guloso, brejeiro e manhoso. Se fêmea virará varina reboluda, vermelhusca e anafada, com muito de seu mai-lo de quem a ela o quiser dar, vender, gretar ou emp®enhar. Quando se metem na política só param no parlamento, que é onde se pode comer bem, beber melhor e berrar à fartazana, sendo principescamente pago para tal, mas sempre bem montado (no partido – diz-se, e à portas fechadas). Que também tem telhados de vidro, todavia como ninguém consegue subir tão alto na carreira, é versão de gran suspeita e carecida de demonstração empírica.


Chouriços Cacholeiros
(Nascidos aos quartos de hora)

Os mastronços/as deste signo são uma porcaria com’aos demais, mas como são brancos, moles e tomam viagra para ir ai fumeiro, usam pele bronzeada, frequentam ginásios e ginásias, para ver as pindricas e pindéricas linhas uns dos outros, aderem que nem goma às novas tecnologias e jamais passarão das 50 flexões na Net. Normalmente desabafam antes do tempo e quando carregam o carro chamam pelo Gregório à força toda. Politicamente são radicais, e ou estão doentes ou pertencem ao Movimento. Não adormecem com facilidade desde que não estejam no serviço, e quando se cansam (ou envergonham) de ver as mãos sem fazer nada, metem-nas nos bolsos. Raramente usam chapéu, excepto se for de dois ou três bicos.


Tira Picos e Fura Bolos
(Nascidos às horas certas)

Os cromanhonos e cromanhonas deste signo sempre foram bafejados pela canabis e OH2Porro, vulgo “água da moca”, líquido de virtudes infimamente medicinais, de forma bastante diversa. Contudo, alguns ficarão simplesmente tantarantantans, enquanto outros impotentes ou frígidas. É provável que caminhem aos bordos nas bordas da ressaca, portanto aconselha-se que mal isso lhes suceda, o aplicarem de imediato a regra do código postal, que indica que repetir a dose é meio caminho andado no alcançar da salvação e estado de graça. São apologista do "iiiiih, agora não dá!!..." e costumam rematar todos argumentos com "mais nadas" sentenciosos ou demais frases feitas da moda. São maus de cópia, piores de originalidade mas plagiam na perfeição.


Banana Podre
(Nascidos aos vinte pràs certas)

Os celtiberos atreitos a existências sub-reptícias que tiveram a feliz enfermidade de aparecer no deus-dará da desdita sob este signo, serão uns felizardos invictos e apostróficos, por quanto nunca casarão ou concubinarão com criatura vistosa, arrendada ou por conta própria, glarba ou desenxovalhada, dado o seu respirar contundente, com hálitos activos e inequívocos, derramar sobre o meio as cinzas do seu vulcão interior putrefacto, mas também jamais serão corneados enquanto o diabo tira o cisco do olho. Se instados a exercer o seu charme fazem-no com prontidão e desenvoltura, pelo que comummentemente contratados pelas grandes empresas para receber (afastar) credores, atender reclamações, contactar com clientes indesejáveis.


Vade Retro e Contracurvas
(Nascidos às meias horas)

Australopitecos muito desportistas e competitivos, sempre prontos para mais uma, gostam de criar boa impressão em qualquer tipo e formato, mas preferem instituir-se primeiro entre crianças e idosos, supondo que estes são os que melhor admirem e gabem, com desmesura e abastança, o seu coquetismo traiçoeiro e sedutor. Raramente se recusam ao prazer dos outros e são capazes de gatinhar incansavelmente até atingir os propósito$, que afiambram como brinde e testemunho do seu profissionalismo, ou defendem da gula alheia com magnum honor, vociferando lambuzados o “é meu, muito meu, todo meu, só meu e não o dou a ninguém” da tragédia popular em quatro cacos “Ora ponha aqui o seu geladinho”. Reagem mal às contrariedades do dia a dia, pelo que ficam normalmente indispostos e com ventas e penico.


Pavão Depenado
(Nascidos de um engano TMG)

Os figurões e figurinas desta moita são filhos dum pulo de cerca que se deveu acima de tudo ao hábito dos seus progenitores frequentarem os lugares errados a más horas. Peritos em não seis, não comento e não me comprometam, costumam apostar na carreira para evitar atrasos nas contas, períodos e tabelas, embora raramente o consigam. Normalmente enfarpelados nos rigores académicos e boémios, são moinantes de arribação e integram a vida moderna pela licenciosidade da formatura. Se são de cá vão para lá e se de lá vêm para cá, demonstrando que única constante da boa-vai-ela é a mudança, e no cumprimento do destino ao vaivém da vida. Todavia tendem a arrepender-se disso... – não obstante tarde e com sentidos pêsames, enquanto as famílias compungidas e enlutadas se demonstram estóicas e fadadas para o carregar a cruz (sem grande penha). Dançam bem, gostam de apertos e rebolam-se ao primeiro olhar.


Alhos Porros e Cepas Tortas
(Nascidos aos meios quartos de hora e/ou às certas e vinte)

Os energúmenos indígenas desta tribo zurrismal e que tiveram o despautério de nesta casa astral zurrar pela primeiríssima vez em vernáculo lagóia, hão-de ser bem sucedidos na arte de (en)cantar, catar e contar loas aos mais tansos que eles. Desde cedo assumirão o seu papel de líderes da trambiquice, no entanto de entre eles alguns recuperarão a inocência perdida, que aplicarão com criatividade em profissões de alto risco (para a fé e salvação) como design, manequins de alta costura, marketing e publicidade. Infelizmente os restantes devem enveredar pelas alas do “penso rápido e seco depressa” sucumbindo às maravilhas do exctasie. Salvo os que morrerem novos todos os outros falecerão apenas quando tiver quer ser ou não tiverem outro remédio. (Paz à sua alma e os nossos sentimentos às famílias contritas e circunspectas… A astrologia é uma ciência humanista, crente e abnegada!)

Gigélia Cheirosa
Cartomante encartada

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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