4.19.2015

OS MALAQUIAS, de Andréa del Fuego





“– Contei tudo, ele quer ver teu olho.
Maria falou de Nico para Dário, o pai. Ele adiantou os passos, vendo que a menina era peixe na rede. Com mais quatro filhas, era observador dos intervalos. Se houvesse ternura no olhar às seis da tarde, se o horizonte ultrapassasse a cerca do sítio, ele ia procurar a razão do feitiço. Maria contou de Nico num tom cerimonioso, não encontrou outro, e falando se ouviu entregue a uma união que nem mesmo havia nascido.”

In ANDRÉA DEL FUEGO
Os Malaquias
(pág. 39)

A COLÓNIA PENAL, de Franz Kafka


“– (…) O sistema deve poder funcionar doze horas seguidas; se surgirem algumas perturbações, serão mínimas e poderemos remediá-las imediatamente.
(pág. 11)
(…)
(…)
– Esta máquina, disse, segurando uma manivela à qual se encostou, esta máquina é uma invenção do nosso antigo comandante. Colaborei com ele logo desde os primeiros ensaios e participei em todos os seus trabalhos até ao fim. Mas o mérito da invenção só a ele pertence. Já ouviu falar do nosso antigo comandante? Não? Decerto que não exagero afirmando que toda a organização desta colónia é sua obra pessoal. Quando ele morreu, nós, os seus amigos, sabíamos já que era tão perfeita que o seu sucessor, mesmo que tivesse mil novos planos na cabeça, não poderia modificar-lhe nada, pelo menos nos tempos mais próximos. As nossas previsões verificaram-se, aliás; o novo comandante teve que inclinar-se perante os factos. É uma pena que não tenha conhecido o seu predecessor… mas, interrompeu-se, falo, falo, e a sua máquina está perante nós. Compõe-se, como vê, de três partes. Com o correr dos tempos elas receberam denominações, por assim dizer, populares; a parte de baixo, é a cama, a de cima, a desenhadora e a do meio, a que fica no ar, a grade de esterroar.
– A grade de esterroar? perguntou o viajante.
(pág. 11/12)
(…)
– (…) É à grade que cabe a verdadeira execução da sentença. “    
(pág. 15)

In FRANZ KAFKA
A Colónia Penal
Trad. Jorge de Lima Alves

apartado 44, 1982

4.15.2015

Perguntaram-me o que penso acerca das eleições? Ah! Então cá vai!



O LENHADOR E A MATA
Por JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA
(Imitadas de Esopo e La Fontaine)


Descuidando-se um dia, um lenhador quebrou o seu machado, e assim desarmado, deixou em sossego as árvores. Por fim, muito humilde e choroso, foi pedir-lhes que lhe emprestassem um galho, com que pudesse fazer um cabo para o seu machado, declarando que era o único recurso com que ganhava, suando e lidando, o parco alimento de sua numerosa família; dessem-lhe o precioso cabo e prometia não trabalhar mais nessa mata, e respeitar todas as suas árvores e arbustos; não lhe faltaria em que ocupar-se. Movidas de tanta dor e tanta súplica, confiadas em tão positiva promessa, até as árvores deram o pedido galho. E logo o lenhador pôs ao machado um cabo, novo e forte, e logo viçosos galhos, troncos robustos caíram ao afiado gume do machado, que pouco tempo deixou às árvores para chorarem arrependidas a sua crédula benignidade.


(MORALIDADE: Quantos se servem do benefício em dano imediato do benfeitor! Mas é de louco dar-lhe meios de continuar a fazer mal.)  

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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