12.17.2004

A Folha

Leve e suspensa...
a folha nasce, cresce.
Torna-se madura, e
com a suave brisa matinal,
desprende-se... voa.

JR Costa

12.10.2004

Alexandre Carvalho Costa - um portalegrense das letras a quem a memória escondeu o nome

"Os como tu nunca morrem! E se o fizeram
Até à morte, distraídos, recitaram
Os poemas que a seus alunos, em vida, leram
."
Do poema "Saudade - Três Anos de Ausência",
In O DISTRITO DE PORTALEGRE, nº6131, de 17 de Julho de 1986

Porque nada de novo existirá debaixo do sol (nihil novi sub sole) e sabendo que raramente se é original em matéria cujo suporte é sobretudo a memória, baseada no conhecimento enciclopédico, o lema da obra de Alexandre Carvalho Costa, como ele próprio gostava de referir, era "non nova, sed nove", por quanto desde cedo reconheceu que o labor obreiro das coisas da cultura e da linguística é de contínua reciclagem idiomática, semântica, cognitiva, sustentando-se essencialmente não pela sua originalidade, posto que não serão coisas nóveis nem recentes ao povo que tradicionalmente as acolhe e resguarda, mas sim apresentadas em novo formato ou maneira, e aí propostas como factor ilustrativo de alguma mudança na forma de as ver, entender e assumir.
Dessa legitimidade resultou vasta obra que alguns dela entenderam vislumbrar três vectores classificativos ( v.g. José Martins dos Santos Conde, que o enuncia num artigo publicado no Jornal Fonte Nova, nº 9, de 19 de Dezembro de 1984), caracterizados conforme a especialidade que denotavam.
Assim num primeiro vector, onde cabem os 14 volumes dos "Entretenimentos Etnográficos e Folclóricos", os dois volumes de "Lendas, Historietas, Etimologias Populares e Outras Etimologias Respeitantes às Cidades, Vilas, Aldeias, e Lugares de Portugal Continental" e de "Reflexões Etimológicas", as suas "Nótulas Etnográficas e Linguísticas Apresentadas em Expressões Populares", (publicadas inicialmente no "Boletim de Língua Portuguesa" - 1954 e 1957), "Gente de Portugal - Sua Linguagem, Seus Costumes", 3 Volumes, ou "Notas de Divulgação Linguística" e "Filólogos Portugueses e Notas Bibliográficas Desde o século XIX", de publicação fasciculada em rodapé do Distrito de Portalegre a partir de 1946.
Em outro patamar a parte dos estudos acerca da toponímia e antroponímia, de onde fazem especial relevância os trabalhos ou brochuras relativas às origens dos nomes de todas as freguesias e concelhos do distrito de Portalegre, e nele podem classificar-se títulos do cariz de "Toponímia Alentejana", inicialmente publicada no jornal Voz de Portalegre, "Gentílicos e Prolóquios Toponímicos Transtaganos" (1956), "Apodos Tópicos Transtaganos" (1967), "Gentílicos e Apodos de Portugal Continental" (1973), "Antroponómios - Origens e Significação", "Como é a Sua Graça? - Origem e Significação de Antroponómios", que exemplificam o quanto de laborioso se concerne ao procurarmo-nos nas ancestralidades do verbo que nos nomeia e nos dá entrada no universo gregário, sem o qual seríamos simplesmente ninguém.

E numa terceira vertente, as obras adstritas à sua actividade docente, que versam principalmente o estudo da língua e da literatura portuguesa, como o exemplificam os títulos, "Apontamentos de Língua Portuguesa" (Editora Educação Nacional - Porto, 1904), "Ninharias Literárias - Resumo de Algumas Obras dos Nossos Escritores" (Editora Educação Nacional- Porto, 1941), os diversos volumes das "Questões Sobre História da Literatura Portuguesa", quer as das Edições ASA, na Enciclopédia de Estudo (Porto - 1971, Porto - 1972 e Porto - 1977), como as da Livraria Atlântida Editora - Coimbra, 1972, ou As Notas Básicas à Margem da Gramática Portuguesa, edição dos Livros Horizonte - Lisboa, em 1985, cujos conteúdos são inegavelmente de extrema importância para quem se queira (ou dedique) exímio nas manigâncias da comunicação entre as gentes da lusofonia, as ideias da lusatinidade e os reflexos da nossa cultura entre os demais povos, sempre pronta a tomar novas atitudes e qualidades denunciando como nem apenas o tempo é constante (de mudança), como o sublinha "algures" o Luís Vaz da nossa camoniedade, a quem também os contratempos e as sevícias do poder instituído aventuraram na eternidade, fazendo jus a mais uma das grandes notícias versadas na Eneida, de Vergílio, destroçando a pertinácia à vulgaridade medíocre, e, quiçá, denunciando já aquilo que em Carvalho Costa se veio a confirmar: apparent rari nantes in gurgite vasto - ou seja, aparecem raros os nadadores do vasto abismo.
Biografia:
Natural de Alagoa, concelho e distrito de Portalegre, nascido a 31 de Março de 1908,filho de Joaquim Costa e de Maria Antónia Bruno de Carvalho Costa, fez a instrução primária na escola da sua freguesia e exame de admissão ao Liceu de Portalegre, em 1920, em que cursou Letras, e de onde seguiu (em 1928) para a Secção de Filologia Clássica da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, licenciando-se aí a 24 de Julho de 1934.
Consequência das dificuldades sistemáticas e corporativistas que caracterizavam o ensino de então, só vem a ingressar no público depois de tarimbar no privado, tendo passado sucessivamente pelo Colégio Nisense (Nisa, 1934-36), Colégio Nuno Álvares (Tomar, 1937-39), Colégio Contestável (Nisa, 1939-42), Colégio Nossa Senhora de Fátima (Castelo Branco, 1949-54), e no Colégio Elvense (Elvas, 1955-56).
A par da actividade docente, cuja vínculo adquire ao ser nomeado professor de serviço eventual do 1º Grupo do Liceu Nacional de Portalegre, a funcionar antigamente nas actuais instalações da ESEP (Escola Superior de Educação de Portalegre), conforme enuncia uma Portaria de 26 de Setembro de 1926, e após primeiros contactos com o ensino oficial nos dito Liceus de Portalegre (1936), Santarém (1939), Castelo Branco (1943) e Évora (1943), foi também bibliotecário conservador do Museu Municipal de Elvas (1955-1962), bibliotecário da Câmara Municipal de Portalegre em(....???), bem como colaborador do Diário da Manhã, da Revista de Língua Portuguesa, do Boletim da Sociedade de Língua Portuguesa, d’O Distrito de Portalegre, Alentejo (Cabeço de Vide, 1933-34), Notícias de Vila Viçosa (1933), Castelovidense (Castelo de Vide), Brados do Alentejo (Estremoz, desde a sua fundação em 1931), Jornal de Elvas e Linhas de Elvas, e no Reconquista, de Castelo Branco.

Com pergaminhos e provas dadas na multidisciplinaridade, é todavia a filologia a sua grande paixão, conforme o atestam a grande maioria das obras de sua extensa bibliografia, mais ou menos 75 livros e brochuras, posto que haverá ainda três ou quatro por publicar (e todo o espólio por classificar e avaliar), e o explicitaram os seus pares, dos quais Reis Brasil (ou Dr. José Gomes Brás), Paulo Catarão Soromenho, Fernando Falcão Machado, Luís Chaves, Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca, entre outros. Faleceu em .............FALTA DATA!!!!!!!!
Por conseguinte, se, tal como afirmara o seu amigo Luís Chaves em jeito de prelúdio a "Gentílicos e Apodos Tópicos de Portugal Continental" (1973), "o espólio das idades e das suas culturas" é um "estudo cumulativo da história psicológica e linguística, até mesmo da literatura", então a bagagem formativa de Alexandre Carvalho Costa, a multidisciplinaridade e teoria da vida, quer a sua experiência pedagógica, como a do quotidiano convívio, foi sempre muito para além dos "saberes fazer" académicos com que se apetrechou, primeiro para desempenhar funções de amanuense do Governo civil de Castelo Branco, onde Carlos Garcia de Castro o vai contactar a primeira vez a fim de lhe solicitar os préstimos em explicações de Latim e Grego, e depois enquanto docente, articulista, bibliotecário, conservador museológico, filólogo e etnógrafo, amigo, crítico, etc.
Mas irremediavelmente vocacionado ao esquecimento público e institucional porque cometeu em vida o maior crime que os fundamentalistas supõem existir à face da terra (do céu e arredores), os apaniguados da sigla bíblica e defensores do "quem não é por mim é contra mim", que é o de, por lhe bastarem e preencher a existência os pormenores da sua gaia especialidade (a palavra e seus diferentes modos de uso), não se ter ilustrado na política nem ter angariado estatuto de vítima do regime ou de seu subscritor. Aliás hediondo crime este de ser gente a quem o humanismo não se equaciona na sua etiqueta partidária, pois lhe é apostrofada a dúvida rebelde, ou de opositor, mais depressa que a certeza acólita, criando-lhe voluntariosos adversários num lado e outro, demonstrando que isso de semear ventos para colher tempestades é já mentira grossa nos tempos que correm, pois que estar quietérrimo no seu canto ou no embalo das filólogas lides, pode muito bem trazer o mesmíssimo efeito. O que foi sobejamente confirmado por quantos com ele privaram, não só na tertúlia cavaqueira, como os Doutores Francisco Subtil, João Tavares, Manuel Ferreira, Luís Bacharel ou José Conde, mas igualmente os funcionários e alunos dos estabelecimentos de ensino onde exerceu o seu magistério, ou a este vosso apontador de casos, a quem nunca sonegou atenção, ajuda nos tratos do linguajar, nem polimento de etiqueta para as vestes gramaticais.

12.03.2004

In Consciência

Dissimulados, os homens
nus seus compridos capotes de teatrais dias
oblíquos passam pelo mundo e a passo
em deambulantes movimentos migratórios
a ausência-consciência
sacode-lhes a roupa interior.
Depois a sede, o fel, a morte
o desespero sentado
o Minotauro louco
absorto
embaraçado.
Dissimulados, os homens apressados
atravessam-se e em compasso
o mundo passa por eles.

Helder Faria

11.24.2004

NO GOLFINHAR DOS OCASOS

És igualmente dos que nasceram desconstruídos
E ergueram a tarefa dos dias no sol a sol da vida.
Tens o cérebro pejado de centopeias ovovíparas
Enroladas sobre si, os teleodentritos a dar passou-
Bens umas às outras, conversando animadas
Como quem discute barbaridades da vizinhança.
Desenrolas-te em sinapses de silêncio contrafeito
Mas é sempre a ronronar que vociferas escondido
Na sugestão de uma elipse entre os ramos da fala.
Dizes bom dia, portanto para lá de todas as indormidas
Concavidades repletas de absoluto e creme solipsista,
Ideais de ventres inchados pela fome das gentes gentias
Inseguras aos impérios, rebeldes na voz, fiéis ao mar
Ao grito fastidioso das ondas na rebentação do dizer
Estremunhadas, a afugentar os sonhos, enleados esses
Que nem centopeias a dar os pés numa roda de dança.

E adormecer silêncios escondidos nas esquinas do córtex
Sapateando sílabas soltas à beira ecolalia de escorreitos sados!


CANDEIA DE ÁGUA

Aberto estás no estuário do dia
Mas as portas do sol-pôr
Quase cerradas pela baía
Oscilam ainda nos gonzos do passado.

Coloca a luz a Ocidente
E aguarda simplesmente o dourar
A voz de cada espiga cerce o mar.

Setúbal, 20.11.04 – 18 horas

11.17.2004

Ali bem perto um monte de gente os aguardava,
Mas a semi-noite dificultava a sua identificação...
Silenciavam-se sem esforço, e voava o pensamento;
Esperavam integrar-se naquele grupo que olhava,
A Era negra de trabalho em contínua produção
Com que a experiência ensina aos novos velhos ensinamentos.

E... juntos, mal provavam algum pirão atrasado
Aos repelões uns aos outros se formigavam,
Percorrendo a penumbra ainda curta da manhã,
Furando o cacimbo no ar quente semeado,
Humedecendo os trapos que as costuras aguentavam,
Assim iam... numa entristecida procissão cristã!

A distância a percorrer ainda longa do local
Onde a agricultura, as sementes germinavam
Floridas, enfrutecidas os aguardavam...
Era percorrida, empurrada bem ou mal
Pelas plantas dos pés febris... calçavam
A miséria dos suores sugados que a nada pagavam.

“Ani xocá ku tátê”...a manhã acordavam...
“Mutima kundundum”... o carreiro humedeciam...
Eram enormes as cruzes que os vergavam,
Feitas de madeira negra de tanta saudade,
Pregada pelo bater dos corações que choravam
Matando a sede à esperança na liberdade...

...Se a regra laboral obrigava a comunhão da experiência
Mandava também a saudade que se ensinasse
O cântico aprendido por muito se dizer e repetir,
A poucas gargantas no início, com reticências
Empurrando outras mais, e o coro aumentasse,
O cântico que o tempo gravava sempre a sentir...

Que nem formiguinhas juntas no carreiro
Ia-se da vista, no horizonte percorrendo,
Entre a mata e o céu ainda enegrecido,
Cintilando sumindo o som do berreiro
Dos capatazes, bem perto vigiando,
Cutucando um ou outro ser desfalecido...

Aos berros, cutuques e tropeços, empurrados
Aos campos de trabalho se chegava...
Enorme e a perder de vista na distância...
Ali as energias do corpo se mortificava
Em cada cavadela e em cada suspiro em cadência...
Em cada chicotada nos lombos bem suados...


Distribuídos os sachos por cada um dos contratados,
Lado a lado se enfileiravam à distância do medo,
Facilitando a sua vigilância sempre redobrada,
Percorrida cadentemente pelos capatazes a dedo,
Por traz das suas costas, dos corpos dobrados
Sobre os ventres doloridos pela força aplicada.

Dos cânticos irmanavam o consentimento,
Cantando, gritava-se ao questionável Senhor,
Cantando, chorava-se a arredia ajuda...
E... quanto mais se aprendia outro lamento
Outro cântico de saudade, até mesmo amor
Concluía-se que a liberdade afinal era surda.

A palmo de ombro a distância media-se
O suspirar e o cântico dos companheiros
Beijando a terra a compasso da enxada...
O seu bafo aquecido cheirava-se, sentia-se...
Ensalivando com o suor os secos canteiros
Sulcados nas faces ardentemente cavados.

A vegetação ali semeada, plantada, bem tratada,
Em altura, era maior que os corpos dobrados...
Que a sonolência ou distracção dos capatazes
Permitia aos seres ali depenicando, à porrada,
Desaparecerem do horizonte, por ela abraçados
Aliviando-lhes o sol que queimava os rapazes...

Seu lamento cantando,... pelo céu sumindo
O chicote nos lombos a esquartejar
A gritos dos capatazes praguejando e rindo
Do seu cansaço aumentado sem lamentar
O que a nada o seu suor lhes pagavam
A sua mescla de dor... e ainda cantavam...

Os dias e dias os corpos iam consumindo
O sol em fogo os corpos ia queimando
O cacimbo na pele os corpos derretendo
As lágrimas a dor no corpo dissolvendo
À chuva salgada as almas baptizando
Gotejavam o pó da terra seca... gemendo...

Eram meses e anos em esperas... esperando
O que se sentia jamais neles a libertar...
A esperança a tempo tornava-se mais pesada
Por tantas esperas com tanto tempo engordando
Tanto que os corpos se negavam a suportar
Adoecendo ou aventurando-se à caminhada.


Sem esperança no salário que endividava
Pelo desmedido preço da reles refeição do dia
Acumulando-se em espirais de escravidão e dor
Que, quanto mais no trabalho se escravizava
Maior se tornava a dívida do que não se comia
Eternizando-a, empenhando o corpo ao senhor-

Ali, tornava-se impossível a liberdade
Ali, a fé no trabalho mais desgraçava...
Ali, qualquer comportamento amordaçava
Ali, os deuses desistiam da sua religiosidade
Ali, nem sequer humano algum se habitava
Ali, a terra engolia os corpos que matava...

Os que se recusavam a adoecer suportando...
À caminhada que parecia incerta iam-se aventurando
E enquanto no valor da terra iam depenicando
Escondidos pela vegetação, aos pares fugiam
Tanto... mas tanto,... que os corações batiam
Nas gargantas ardentes e secas enquanto corriam...

O Cansaço e o terror obrigava-os a pararem
Arfando tanto que o silêncio era ameaçado...
Apuravam mais ainda os ouvidos escutando
Os fantasmas das cabeças ali a soltarem...,
A sede enorme queimava o corpo cansado
Tremiam no medo incerto incomodando...

Corriam e fugiam... loucamente corriam...
Entre montes e vales, rios e ribeiros,
Lavando, lagrimavam as feridas ardentes
Dos pés, que por onde pisar mal escolhiam
Esmagavam-se nas rochas e nos espinhos
Assustando os animais da selva... descrentes.

Se o cansaço físico e o dos sentidos vencessem
Escondiam-se ambos em silêncio arfando
Por entre as moitas perigosas da floresta
Para que os seus medos adormecessem
Naquele deserto de segurança ausentando
Que à morte se agigantava de escura infesta...

Se o dia amedrontava os bichos perigosos,
Também ameaçava a caminhada segura...
Se a noite os animais selvagens aguçava
Também os afastava dos caminhos duvidosos,
Naquelas almas a certeza era insegura
Tudo desconheciam e tudo os ameaçava...


Daquele terror sentiam um medo só
Nem nos bichos selvagens pensavam
Nem dos fantasmas da noite escura
Daqueles terrores um único medo só
Do retorno ao inferno que os infernavam
Naqueles homens que os viviam em tortura...

Dormitando no mato incerto e desconhecido
A penumbra da noite ambos iam aguardando
Enfraquecendo o físico desnutrido e a paciência...
Afinal a noite escura perturbava o sentido
Os animais selvagens e ferozes iam acordando
Guardava-os unicamente o sentido da proveniência...

A lua que nas suas terras ajudava à brincadeira
Enquanto meninos ela esticava a luz do dia
Na fuga desprotegia-os da penumbra requerida
E entregava-os aos olhos do horizonte inteiro
Arriscando-os à prisão que nenhum merecia
Aumentando a espera na ansiedade contida...

Entre esperas, desesperos e adormecimentos,...
Enquanto os raios da lua as estrelas atropelavam
Percorrendo o horizonte escuro até se esconder,
Iam-se assustando com as correrias e movimentos
Dos animais selvagens... os berros... os urros...caçavam
Pelos gemidos... caçados... sentiam-se a morrer...

O tempo não lhes dera seu pedaço para sentirem
Aqueles silêncios do mato que ali respiravam...
O zumbido de asas dos insectos a zumbirem...
As aves feias que na noite se encorajavam e cantavam
O cheiro da erva seca... a terra nas narinas a cheirarem...
Ocupavam-se de susto em susto enquanto aguardavam.

Finalmente a noite que esperavam, surgia...
Enegrecia todo o universo o negro de escuridão
Ao ponto de não verem o que e onde calcavam...
Quando as solas dos pés em anestesia
Não incomodavam, parecia que não havia chão
De tão escuro enegrecido,... “até flutuavam”...

Obrigavam então o corpo dolorido à caminhada
Não falavam mas entendiam-se pelo respirar
Com os mesmos pensamentos sem rumo iam...
Com a atenção alerta requerida e redobrada...
Distâncias desconhecidas sempre a andar
Sem sequer se lembrarem do que comiam.


Assolapando-se aqui e acolá no escuro chão
Pelos ruídos que aquelas almas desconheciam
Pelos ruídos que aqueles corpos rejeitavam
Angustiando-lhes a liberdade ainda obscura
Iam até uma estrada mais próxima encontrarem...
E, como bússola a ela se apegavam...

À sorte mentalmente escolhiam um norte
Olhando de um lado e outro lado do asfalto
Quer a norte quer a sul sumia-se no escuro
Com movimento automóvel de pouco porte...
De faróis ao longe alumiando o céu bem alto
Quer a norte quer a sul sumia-se no escuro.

Voltar atrás... já era impossível tal acção...,
Não porque se aumentasse neles o arrependimento
Não porque se não sentisse neles os cansaços...
O arrependimento, o cansaço e a desorientação
Enormes, que seriam suficientes no momento
À derrota e destruição dos seus passos...

Desconhecidos, conhecendo-se se amigavam
Sem promessas, naquele universo se aumentando,
Ambos, a medo... rebuscando outros caminhos...
Que,... de mãos dadas a desnorte tacteavam...
Pelo aquecido asfalto as areias esquentando
Os furos dos desgastados “nonkhakos” os pezinhos.

Perfurando aqueles profundos escuros,
A compasso das solas carcomidas pelo chão
Preenchido a semibreves de silêncios
Que os pulmões espremiam na respiração
Regulando ao coração seus batimentos
Caminhavam na pauta do futuro inseguro...

Manuel Angelo

11.02.2004

AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (3)

Reza por reza, então, cá vai!...

Foi-nos garantido pela Comissão Europeia que, além de não cumprirmos três dos mais sonantes critérios do Pacto de Estabilidade (défice de 3%, dívida de 60% do PIB e descida do défice estrutural de meio ponto), bateremos o recorde dos países em march'atrás, porquanto o nosso nível de vida, embora o nível de vida médio europeu tenha sido recalibrado por baixo com o alargamento aos 25, sofrerá contínua descida até 2006, pelo menos, altura em que a relação PIB per capita descambará até aos 72,7 %, sendo de supor todavia que não se fique por aí nos anos consequentes, mas sim que mantenha a embalagem de queda, pois que o relatório mais não adianta nem vaticina, provavelmente com a explícita intenção de dar a Fátima os créditos por milagre nos quatro anos que faltam aos dez primeiros do III Milénio. E tanto faz reclamarmos como não, que os números são impávidos e não se deixam comover com rezas ou velas, ainda que os políticos tenham feito tanta cera que dê para fabricar uma do tamanho de Portugal, para oferecer à Senhora a fim de a influenciar no milagre da nossa recuperação, e que Cavaco acenderia com boa fé desde que pudesse chegar-lhe o facho presidencial ao pavio!... (O que se me assemelha a mais um milagre, se considerarmos que se não é eleito somente pelas sondagens Expresso-Sic mas sim por votos expressos em urna, e que não é lá pelo facto de a Direita ter já quatro candidatos ao cargo - Freitas do Amaral, Marcelo Rebelo de Sousa e Pinto Balsemão, ainda que este seja só para disfarçar, como os cabelinhos na anedota do ovo - "qual é a coisa, qual é ela, que cai no chão fica amarela e com três cabelinhos à volta", lembram-se?!... -, e a Esquerda nenhum que a primeira ganhará, visto que se a segunda apresentar alguém que reuna consenso, torna indubitavelmente verídico o ditado popular de que "caga mais um boi que mil mosquitos", batendo logo à primeira volta Cavaco ou qualquer outro!)
Portanto, seria de bom tom que se acabasse de vez com a pistoleirice política, aliás prática igualmente pronunciada com o pedido de ratificação referendária, em que os políticos já aceitaram o Tratado de Constituição Europeia, mas querem agora que em Maio lhe batamos com um "sim" na suã, para que se garanta a substancial entrada de fundos que eles continuarão a repartir entre si, estando-se bem lixando para qualidade de vida, vontade de cidadania, direitos e liberdades dos demais portugueses, sobretudo dos trabalhadores por conta de outrem e empresários, que além de condenados a verem desbaratar a receita dos impostos e contribuições, terão que continuar a assistir à ostensiva riqueza dos gestores públicos, autarcas, ministérios e dirigentes vários, quer nos chalés de luxo das arrábidas que constróem no nosso parque, quer nas frotas topo de gama em que se locomovem.
Porque se ao povo são ouvidas as preces e rezas, é bem provável que o marquês venha cá a baixo outra vez, e torne inoperantes as teorias prevalecentes da conspiração cabalística, do bode expiatório, do braço de ferro político, do princípio do contraditório, da profundidade utópica ou da recuperação medieval esclavagista, tudo numa assentada e só acto da peça denominada simplesmente pelo "DESPERTAR DOS MÁGICOS" - ou aqueles que acreditam ser possível mudar o status quo, e não se sentem vocacionados para eternas vítimas do sistema, ainda que democrático lhe chamem, à falta de melhor termo com que classificar a oligarquia político-económico-religiosa reinante.
Principalmente porque se nos mandam rezar a gente pode radicalizar, e pedir também nas preces que a Senhora nos liberte igualmente de políticos, e, ouvidos nos pedidos, Fátima nos contemple com o milagre, que é coisa assim parecida com as bruxas de Unamuno, que não se crêem existir mas que sem dúvida há! Pois.

10.28.2004

AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (1)

"As bombas vêm de fogo, e juntamente
As panelas sulfúreas, tão danosas;
Porém aos de Vulcano não consente
Que dêem fogo às bombardas temerosas;
Porque o generoso ânimo e valente,
Entre gentes tão poucas e medrosas,
Não mostra quanto pode; e com razão:
Que é fraqueza entre ovelhas ser leão
."
(Luís Vaz e Camões, in OS LUSÍADAS)

É cada vez mais notória a influência que os políticos tiveram na ideia de instrumentalização dos órgãos de comunicação: popularizou-se em termos perniciosos e geniais. Agora, toda a gente pensa que é legítimo servir-se desta sempre que precisa dela para mostrar a sua argumentação contra as injustiças, embora ninguém se deixe ver quando está em causa. Foi assim em Coimbra, quando os estudantes estavam a levar solha da polícia, que os envolvidos chamaram a atenção das televisões para os factos, mas depois tentaram tapar as câmaras com jornais e mãos na altura da libertação do estudante preso e/ou agredido. Seguiu-se o mesmo, mas de forma inversa, em que o sargento da GNR nunca se manifestou até à altura em que foi sentenciado, após o que, intencional e propositadamente, se dirigiu às televisões presentes para passar o recado da sua inocência aos pais. Idem no caso do 1º ministro quando quis falar à nação acerca de tudo e nada, e principalmente demonstrar o seu incómodo perante o caso Marcelo Rebelo de Sousa, de que se manifestou vítima absoluta, comentador que a usou quanto achou por bem, e todavia alimentou tabu desde a sua demissão da TVI até ontem, quarta-feira expectante, a gozar em pleno as cinzentas cinzas duma tempestade anunciada.
Não se sabe ao certo onde se chegará, com a relativa apetência pelos mass media, mas é de supor que não voltaremos a descobrir o caminho marítimo (e de progresso tecnológico) para as Índias, ou sociedade do conhecimento, porquanto de há muito outros valores se "alevantaram". Até porque prevista no roteiro está a dimensão europeia, com o seu tratado constitutivo e moderato modus vivendi social, apetrechado por todos os compromissos de convergência e legislação que a suporta. Algo anda realmente mal no reino das comarcas, e muito dificilmente se passará esponja conciliadora sobre o pó da memória de suas recentes intervenções, decisões e (in)consequências. Além do que suas majestades, os políticos do status quo vigente, agarrados que estão ao baronato, se não apercebem que estão debaixo da mirada dos eleitores, que não andam assim tão distraídos como aparentam e que se não se manifestam é somente porque reconhecem a enorme fragilidade do poder, dando-lhe corda para se enforcar, sobretudo a classe média arrolada como principal pagadora das crises, e que mantém em pena suspensa os últimos desmandos governamentais: taxas moderadoras, lei das rendas, colocação de professores, distribuição arbitrária da verba orçamental, que lesa substancialmente os sectores da educação, saúde, trabalho e segurança social, atirando para o saco sem fundo do desperdício algumas reformas em curso sem terem chegado ao fim, e, por conseguinte, não colmataram ou resolveram os problemas que as geraram.
Hoje, quando me levantei, ainda os cães da madrugada ladravam. Indistintos os reflexos da aurora, ditavam, pouco a pouco, que a pressão censória dos grupos económicos, dos partidos políticos e dos corpos colegiais de algumas instituições do Estado, é indesmentivelmente eficaz sobre os fazedores de opinião, e que esta é um obstáculo (facilmente removível, ao que parece) para a consolidação de estratégias de promiscuidade entre os governos, entidades financeiras e as administrações da maioria dos órgãos de comunicação portugueses. Que o presidente da nossa república sabia o que se estava a passar, mas preferiu honrar o compromisso de sigilo duma conversa que tivera em privado, e fechar-se em copas, preferindo assistir de camarote ao desenrolar dos acontecimentos, ou a garantir que uma instituição de Abril, a Liberdade de Expressão, se mantivesse intacta. Que o Parlamento pode ser instrumentalizado por grupos económicos exteriores consoante as suas necessidades de financiamento, e que as cabalas involuntárias são uma ficção paranóide susceptível de activar a capacidade e precisão afirmativa do criancismo ministerial. Que Santana Lopes não acertou à primeira, e que se prepara para recuar, fazendo uma remodelação do governo, mas agora tarde, a más horas e à semelhança do que o seu antecessor (Durão Barroso) terá feito em Estrasburgo, embora que por motivos diversos, pois que enquanto o presidente político da Europa o faz para evitar dissabores, o primeiro ministro será para remediar e limpar o serviço que fez. Que as pessoas, principalmente os gestores e presidentes administrativos, deixam de o ser logo que não estejam nas instalações das empresas e institutos que gerem, mesmo que estejam a jantar com amigos num hotel qualquer e durante essa refeição não falem de outra coisa senão da actividade da empresa, dos seus negócios, estratégias, dificuldades, fundamentos e objectivos. Que tudo aquilo que é pode ser e não ser ao mesmo tempo, segundo a nova lógica da sociedade de comunicação. E que se os jornalistas se andaram a formar para fazer bem o seu serviço, parvos foram eles, visto que a única regra deontológica que rege a sua actividade é a visão que o proprietário tem de órgão de comunicação, assim como das suas estratégias administrativas pontuais.
Ou seja: não é de admirar que qualquer borra-botas popular se ache no direito de determinar o que é ou não é noticiável, exigir das câmaras e dos jornalistas que lhe sirvam os argumentos, interesses, propaganda, jocosidade lamechas, receios e recados, visto que toda a gente com responsabilidades políticas, económicas, religiosas, empresariais, financeiras, de reitorias, associações de estudantes, dirigentes de clubes de futebol, da coisa e da ordem pública, criminalidade e quejandos, instalados nos meandros do poder de decisão, considera que é para isso mesmo (e só isso) que eles servem: para os convocarem e acorrerem lestos, sorridentes e prazenteiros, sempre que algum deles está com o rabiosque às bufas! Para os aliviar nas exigentes tarefas da hegemonia e ajudar a construir o seu imperiosinho napoleóptico! Enfim, para ouvir as preces, de quem até já a Fátima foi, e não obteve milagre... Principalmente porque sabem, que se lhe acenarem com parangonas e chavões, eles caem, e aos saltinhos eles vão; pois como diziam Camões, entre ovelhas, santos, santinhos e madonas, é grande fraqueza ser-se leão!

AS COGITAÇÕES DE XERAZADE (2)

Sem dúvida estaremos a construir a nossa desgraça, com a benfazeja acomodação às agendas capitais, oriundas do parlamento, governo, presidência e tribunais, e a embarcar no mesmo jogo alienatório que sustentou a vida à filha do grã-vizir que, não obstante saber do juramento do sultão em se não deitar mais do que uma noite com a mesma mulher, para lhe tirar a vida no dia seguinte, preferiu usufruir as honras do seu leito, arriscando a existência por um capricho da esperança e elevado crédito nas qualidades da narrativa. No entanto, é sobejamente conhecido, que o risco é uma profissão segura para quem supõe que o presente não passa de um futuro a fazer-se ontem, com os sobressaltos correspondentes, as arrelias concomitantes e os desaforos que o tempo (relógio) biológico nos tem de há muito reservados. Por isso, em pleito do tem que ser, adiantemos mais um capítulo, antes que o capitular se nos imponha.
E por diversas razões, mas sobretudo por uma. Porque de igual modo nos pode acontecer o que ao Orlando Cardoso (OC), de Pombal, sucedeu; que o apagaram do mapa on line, o despediram do emprego, e lhe queimaram a reputação, a fim de que mais ninguém o admita ao seu serviço, com receio de quantas sevícias lhe reservem pela ousadia. Ali, no coração de Portugal, à beirinha do pinhal de Leiria!
Segundo reza o mail que o próprio emitiu, na sequência do caso Marcelo, tinha OC um blog, que administrava com perícia e desenvoltura tamanha que nos dois meses de existência abichara 6 700 visitas, além da entrada na ordem do dia em conversas e comentários pé de esquina, o que o tornara incómodo para a edilidade local. Ora, tendo a empresa em que o bloguista trabalhava negócios com a autarquia, o edil visado não esteve com meias medidas e pressionou o empresário a despedir o energúmeno, o terrorista, o franco-atirador, o escolho, o Cheguevara do Litoral, o ferrabrás, o agitador, que lhe empecilhava os mandos municipais, denunciando-os como desmandos. É claro que o facto deste ter dois filhos para criar e cuidar, mulher desempregada, e letras para pagar, o não demoveu de caciquismos obsoletos e antidemocráticos, mas antes, pelo contrário, o inspirou tamanha fragilidade do incauto comunicador, para fazer-se valer da sua posição de autarca e político do partido da governação, logo de peso e apoiado parlamentarmente, e assim remover o obstáculo que lhe obstruía as vias narcísicas à sua napoleidade. O que considera legítimo e praticável, porquanto vê como enorme injustiça o ser-se ameaçado um imperador no seu próprio império, agravada ainda esta com a possibilidade de lho altercarem e subtraírem... Até porque segundo a engenharia maquiavélica da sua mente possessa, não pode haver imperador sem império, nem trono sem chibata!(Aliás, ideia comungada pela maioria dos (pseudo) empresários da comunicação, ao considerar os comentadores, analistas, opinion makers, simples e insignificantes assalariados ao seu dispor, mão-de-obra barata para faltas, quedas nos rankings e quebras de audiência, testas-de-ferro para intimidar políticos, críticos e concorrência, cabos de guerra com título de "amigos", carne para canhão e propriedade sua, utensílios de arremesso para as demandas pessoais, estratégicas e de tráfico e influências. Que sustenta que um órgão é um órgão do seu corpo capital, e não qualquer instância de caridade de onde a prática do bem, das boas maneiras, falas e intenções, lá por ter já gerado um primeiro ministro e um secretário geral do principal partido da oposição, não quer com isso dizer que se arrisque na repetição da manobra, assim de borla e ingenuamente, em produzir também um presidente da república - ainda que dos bananas!... Porque dono é dono, mesmo que só do feijão preto que lhe meteram no cu, para aprender a andar sem deixar cair tudo quanto tem e seu - pelo menos consoante o que diz o povo, clarificando sabiamente que "se dermos dez tostões a um pobre, criaremos um soberbo" -, e os donos da comunicação social, directores, proprietários e editores, acham absolutamente normal puxar as orelhas aos comentadores, chamar-lhes a atenção para o que dizem, como o fazem e sobre quem, ou despedi-los desde que suspeitem estarem a ameaçar-lhes os negócios e/ou prestígio.)
Agora, o curioso da questão, é que este caso, além de inscrito na linha de crimes contra a Liberdade de Expressão no nosso país, leva-nos para um outro campo, que é o da credibilidade do suporte electrónico e da validade legal dos documentos emitidos ou recebidos por esta via. Ou seja: nenhum político, empresário, legalista, gestor, reconhece como válidas as comunicações (electrónicas) de natureza digital, equiparadas nos efeitos com aquilo que se atribui a uma carta registada ou fax, de notificação, rescisão de contratos, prova factual, mas é passível de validade e reconhecida eficácia na divulgação de conhecimentos científicos e didácticos, de publicidade e negócio, de propaganda e promoção divina, territorial e cultural.

(CONTINUA...)

10.25.2004

OS RATOS
De: António Moncada Sousa Mendes.
Encenação: José Mascarenhas.
Cenografia e figurinos: Sónia Tavares.
Interpretação: Adriano Bailadeira, Rui Ferreira e Verónica Barata.
Luminotécnica: Armando Mafra.
Sonoplastia: Hélio Pereia.
Vozes off: Susana Teixeira e José Mascarenhas.
Em exibição na Igreja de S. Francisco, em Portalegre, nos dias úteis às 21:30 horas, e matinée aos domingos, até finais de Novembro.

A propósito desta peça, é legítimo sublinhar três aspectos primordiais (encenação, modernidade do discurso e trabalho dos actores), que lhe emprestam notória mais-valia.
PRIMEIRO - Num ambiente de cave, underground, tipo bunker do blitz, atelier de Jô, pintor neo-expressionista e obscuro das particularidades da angústia e desesperança universais, e Bill, autor diletante e multitalentoso, formam os ângulos base do triângulo (quase amoroso) cujo vértice é Maria, uma emigrante polaca, tão desejável quão desprotegida, órfã, ou tão despudorada quanto ingénua, casadoira, com problemas de Visto à perna e solução conjugal em vista, como recurso previsto para permanecer nos EUA, a democracia dos seus encantamentos. É um mundo fechado, calafetado, comprometido com o individualismo solitário da criação plástica, ensimesmado nos afazeres e preocupações de um artista que desacreditou nas grandes causas, desiludido com os sistemas e as políticas, com os valores humanos, mas extraordinariamente dependente, quer dos produtos alienatórios, como droga, álcool, aparelhos de comunicação, como dos afectos, tanto, que até os quadros que pinta, e que evidenciam a angústia primária da incomunicabilidade, são normalmente retocados por Bill, estimulados pelas considerações deste, onde a guerra dos mundos, não obstante a actualidade do momento, continua a chegar via rádio, embora que também transformado em despertador, à semelhança do que Orson Wells terá feito, através do contacto comercial com a mercearia ou bar da esquina, ou pelo morse sapateado de uma figura do leste, que vive no piso acima e lhe acende as expectativas de romance, ou lhe anuncia a perestróika, a solidariedade e o fim da guerra fria, e a quem ele deixa bilhetinhos à porta.
SEGUNDO - Neto de Aristides de Sousa Mendes, cônsul português que à revelia do Estado Novo facultou a fuga da Europa a milhares de judeus durante a II Guerra, autor de outras peças já representadas pela CTP/Companhia de Teatro de Portalegre ("OS DEGRAUS DA FORCA", em 2001, "EMIGRANTES", em 1997, e "ARISTIDES, O CÔNSUL QUE DESOBEDECEU", em 1996), António envereda pela reposição de um diálogo urbano onde a realidade é reflexo da emergência globalista, reproduzindo na súmula os principais momentos que marcaram a história da humanidade no último quartel do século XX.

(continua...)

CONTE COMIGO
De António Torrado
Encenação de Victor Pires
Cenografia e figurinos de Sónia Tavares
Luminotécnica de Armando Mafra
Sonoplastia de Hélio Pereira
Elenco: Adriano Bailadeira (Lourenço), Rui Ferreira (Carlos), Susana Teixeira (Laura), Verónica Barata (Maquilhadora), Armando Mafra (Realizador), Hélio Pereira (Câmara Man)e Maria Ricardo (Voz Off).

Suficientemente conhecido e reconhecido dos meios intelectuais, artísticos e académicos para demais referências biográficas, António Torrado narra nesta peça, caracteristicamente uma comédia de enganos, numa ambiência de talk-show telivisivo, "as fronteiras resvaladiças entre amizades e amores, alguns fantasmas sexuais e as desprogramações do comportamento afectivo dos 30 para os 40 anos", num encadeado jogo de equívocos, onde "a aparência de verdade se esconde sob a aparência de mentira" e vice-versa, demonstrando quanto as imagens virtuais são passíveis de despenhar-se "no chão da realidade", cujos estilhaços atingem inicialmente as vedetas mediáticas, como a enunciada no apresentador Lourenço, tão seguro e sedutor mas igualmente frágil e desamparado, e posteriormente todos os personagens, desde os técnicos do programa e estação televisiva, até aos ausentes, como no caso da esposa do apresentador, que nunca entra em cena mas que é uma das principais agentes do processo narrativo.
No imbricado universo de cenário dum mass media que pretende iluminar com luz fulcral e irónica as sombras e bastidores da nossa actualidade, esta peça em dois actos, em que o directo serve quase de separador entre ambos, relata os escaparates da traição conjugal, infundada mas fundamentada, confessada pela vítima (Laura, esposa de Carlos) ao suposto motivador dela (Lourenço, marido de Sofia),alvitrando para uma relação homossexual entre os dois amigos de longa data, desvendando assim um dos seus mais profundos receios, ou do marido a haver trocado por outrem, e logo um homem!, terrível infâmia, que de certo modo lhe obstruem a visão da realidade, quedando-se por desconfiar do absurdo para esconder o óbvio: que o Carlos tinha uma paixão, sim, mas com outra mulher. E que mulher!...
Por ser turno, Lourenço, o imaculado e brilhante apresentador de TV, a braços com a urgência profissional de pôr no ar mais uma das suas pérolas criativas, que lhe começa a correr pessimamente, fica trancado nos estúdios, a sua redoma de defesa, logo totalmente à mercê da inesperada revelação da mulher do seu melhor amigo (e admirador), sucumbe às suas ancestrais dúvidas sobre o carácter da sua masculinidade, vacila, claudica, entra em ruptura de personalidade, revelando o lado obscuro do seu brilhantismo, põe a nu a mácula não revelada pela sua face pública, associa condições e situações inassociáveis, enreda-se nas desconfianças de Laura, perde a áurea de espectacular apresentador, e, quando no final do programa recebe a anunciada visita de Carlos, que lhe vem confessar "algo igualmente inconfessável", é defrontado, além de com uma nova ordem de arrumação de conceitos existenciais, também com a constatação de que entre amizades antigas um engano nuca vem só, e que se é verdade que a traição de Carlos a Laura tem algo a ver com ele, é simplesmente porque ela é praticada desde longa data com a sua mulher, que ele pressupunha fiel, apagada e submissa esposa, mas que brilha numa outra esfera, sem ribaltas nem destaques, que é a de transformar tendências recalcadas em presentes assumidos e consumados. Enfim, uma peça que trabalha a percepção do espectador por socalcos de significação, ou níveis de compreensão, cuja acção principal acontece fora de cena, mas nem por isso diminui a hilaridade duma comédia que nos leva essencialmente a desacreditar nas aparências. Sobretudo, nas de semântica. E no (encadeado) jogo de réplicas que remontam a um quotidiano que nos é (invulgarmente) familiar, porquanto nos entra portas adentro sempre que a TV é ligada e compramos alguma revista dela, sobre ela, de diz-que-disse nela, que reflicta o mundo do espectáculo e da telenovela.
(NOTA: Esta peça estará em cena, em Elvas, no Cineteatro, dia 7 de Novembro, às 16 horas)

10.19.2004

OS RATOS
Companhia de Teatro de Portalegre
Igreja de S. Francisco
22.10.2004 – 21:30 horas

"- Não vou conseguir pensar. Não vou conseguir trabalhar.
- Nada vai interferir no teu trabalho mais do que o suicídio. "

Anda-me a cabeça à roda com o silêncio ruidoso do Marcelo (MRS), mas continuo a não permitir que alguém, seja quem for e por motivos mais bem intencionados que tenha, me pergunte a idade. Sobretudo porque não interessa, porque não quero saber dela, nem conta absolutamente para nada. Porque é simplesmente a suficiente e necessária para viver, porquanto já nasci e ainda não me chegou aos ouvidos a notícia da minha morte. Daí que no dia 22 deste mês, sexta-feira, vá ao teatro, à estreia de OS RATOS, peça inédita de António Moncada de Sousa Mendes – sim, exactamente esse, o familiar do português que salvou de morte certa milhares de judeus durante o reinado nazi –, encenada por José Mascarenhas, representada por Verónica Barata, Rui Ferreira e Adriano Bailadeira, com cenografia de Sónia Tavares, luminotécnica de Armando Mafra e sonoplastia de Hélio Pereira.
E porquê? Porque prefiro os dramas urbanos que debatem a actualidade, a representação dos triângulos amorosos de disputa por uma fémea, a questionação da guerra, dos interesses petrolíferos e fecais da alta finança, a deixar-me apodrecer de tédio na fumaça punheteira dos bares, encharcando-me de shots rodeado de putéfias baratas, escanzeladas que dão a greta ou fazem broche por um charro e 20 paus, ou conviver mesas meias com artistas esquizofrénicos fumadores de haxixe, cuja afectada criatividade advém e depende exclusivamente da quantidade de droga aspirada.
Bem como também não perderei, igualmente, o monólogo de Sarah Kane, intitulado "4:48 PSICOSE - Ou talvez não seja assim...", dito por Rui Ferreira, no dia 4 de Novembro, provavelmente na sala polivalente 1, da Biblioteca Municipal, profunda e maquiavelicamente underground, urbano, mas que reflecte a outra parte (estragada) da história da humanidade, aquela das pessoas perdidas no caos do universo, alimentadas pelo fogo e febre do medo e ansiedade, capazes de se autodestruírem, e que preferem atirar-se de encontro à morte a arderem no quotidiano da vida, que lhes é tão terrivelmente surpreendente que nunca se sentem estar preparados para a consolidarem em si. Porque essa personagem que se quer matar artisticamente pelas três maneiras possíveis e mais eficazes de se fazer (envenenamento, corte de pulsos e enforcamento), todas ao mesmo tempo, como quem usa três chaves e três fechaduras para se fechar por dentro da mesma porta, é o espelho desses alguéns anónimos, insignificantes e descartáveis, pessoas que têm tanto medo do que se passa lá fora que se previnem e garantem que jamais isso as venha a penetrar, lhes entre em casa por descuido ou permissão, preferindo morrer intoxicadas de solidão e abandono, a correr semelhantes riscos de contágio do outro. Peça que é uma sinfonia a solo
às 4:48
hora feliz
quando a claridade visita
a escuridão quente
que alaga os olhos
de uma dramaturga inglesa que se suicidou em Londres, sua cidade natal (03.02.1971), a 20 de Fevereiro de 1999, talvez traçando a saga precoce do futuro da humanidade a braços com a descaracterização genética da espécie, com a redução do seu quociente de deslumbramento, e para quem a vida não é mais aquele palco onde se representa a suprema loucura de nela acreditar, propõe o lúdico do ilúdico na aspereza
de quem às 4:48
quando o desespero a visitar
se enforcará
ao som da respiração do seu amante.
Um momento a que quer fugir mas já não quer fugir. Porque algumas pessoas se supõem terem nascido sem soluções para contrariar as contrariedades, e se entregam por inteiro aos seus fados, e se imolam na febre dos seus temores, ou se arrepiam ao sabor dos inversos, Sarah Kane a primeira autora maldita do século XXI, profaniza o silêncio dos sem-voz, dos que desconseguiram a fome, o afecto, o sono, o apetite sexual, a vontade de comunicar, e em desespero reconstroem cada etapa da sua vida à semelhança da rejeição activa e falta de educação democrática de que foram alvo na infância, atirando-os para a experiência rebelde, agressiva, provocadora, quezilenta, afectivamente instável, da qual foram obrigados a socorrer-se para não perecer prematuramente, mas a que sucumbem finalmente num acto "trágico" como estes últimos momentos duma existência reflectem, na imbricada elaboração da mente psicótica, em exercício de futurologia do que pouco mais tarde veio a suceder com a autora.
Principalmente porque quando se tem medo da solidão, ou do mal que se pode fazer a si próprio quando se está definitivamente sozinho, também se procura ensaiá-la até aos seus derradeiros limites, no desespero duma aposta de tudo ou nada, mas com a certeza de que algo chega "finalmente" ao fim, sobretudo esse doer crónico sem causa aparente que é a moléstia da alma, alicerçada na canga química e farmacológica em que se sobrevive, e onde o ser nunca é, posto que subjugado à alucinação contínua, eis que 4:48 se consolida como o magnânimo instante de uma epopeia atribulada, circunscrita numa vida intensa mas desordenada, sem rumo explícito e indubitavelmente vincada pela falha consciência dos projectos de sustentação, dependente do imediatismo consumista da felicidade, quiçá a todo o custo.
Marcadamente artaudiano, mas com referências de Brecht, Beckett, Pinter, esta psicose com hora certa à precisão do minuto, é a consumação de uma forma de estar na arte como na vida, que nunca se podem desligar uma da outra nem interpenetrar-se mutuamente, que não se limita ao figurativo em obra, ou no faz-de-conta dramático, e antes insiste em arrastar para as vozes representantes o que se passará directamente na mente da autora, dos seus estádios emocionais e escores de acuidade, das suas relações com a doença e as terapias consequentes, nomeadamente com a enumeração dos fármacos que estão adjacentes (Setralina, Zoplicone, Melleril, Citalopram, Fluoxefina, Thorazine, Venlafaxine, etc.), incluindo as reacções e discurso dos psicoterapeutas, a cru, sem concessões estético-metafóricas, impondo a cadência desgarrada, solta, anacrónica, caótica, de quem já não pretende nem finge querer seduzir, querer agradar a um público ou colectividade, e opta por sinalizar apenas a nebulosa em que habita, sublinhando simplesmente algumas poeiras mais concentráveis, esporadicamente agrupando-as em cintilações de esperança e compreensão possíveis, podendo até configurar-se em óbvias constelações, rematando a criação completa (as anteriores são RUÍNAS, O AMOR DE FEDRA, PURIFICADOS E FALTA, não havendo registo de qualquer outra depois de PSICOSE) duma dramaturga que teve a eleição de encenadores do gabarito de Peter Zadek, Bernard Sobel, Jean-Marie P., Barbara Naviti, Thomas Ostermeier, Vicky Featherstone, João Fiadeiro, Jorge de Silva Melo, Nelson de Sá, entre muitos outros por esse mundo fora.

(Mas não só. Até porque estão programadas para Novembro as representações de CONTE COMIGO, no dia 7, ERA UMA VEZ, dia 14, OLEANNA - de que se seguem abaixo mais algumas informações complementares -, dia 21 e OS RATOS, dia 28, em Elvas, no Cineteatro desta cidade, e sempre às 16 horas, bem como a reposição destas e doutras peças numa mostra que sucederá pelos finais deste ano, quando se reinstalar a CTP na Igreja de Santa Clara, actualmente quase reconstruída e reparada, deixando definitivamente as instalações provisórias em S. Francisco, onde ainda está.)

Oleanna – a peça de Mamet com uma contemporaneidade desgraçada

Entrevista com Adriano Bailadeira que a encena para o Teatro de Portalegre


David Mamet (n. em Chicago, a 30.11.1947), é um autor neo-realista norte-americano cujo estilo de linguagem marcadamente naturalista tem vindo a ser comparado com escritores da nomeada de um Ernest Hemingway, do irlandês Samuel Beckett, do inglês Harold Pinter ou do dramaturgo grego Aristophanes, galardoado com os prémios Village Voice Obie (1983, por Edmond), os Pulitzer Drama e Pulitzer da Crítica, em 1984, contemplando essencialmente Glengarry Glen Ross. Enquanto romancista, ensaísta, argumentista – faceta pela qual é mais conhecido em Portugal dada a sua assinatura em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, O Veredicto, Os Intocáveis, Jogo Fatal e As Coisas Mudam, por exemplo, posto que dos dois últimos filmes é também o director exclusivo –, realizador cinematográfico e dramaturgo, esteve durante a década de 70 associado ao movimento regional de teatro de Chicago, influências que jamais renunciou, e devem-se-lhe títulos como American Buffalo (1977), Praire du Chien (1978), Some Freaks (1989), Lakeboat (1980), The Village (1995), The Crytogram ou Dangerous Corner (1995), entre muitos outros, e de Oleanna, publicado em 1992 e adaptado a cinema em 1994, igualmente sob a sua direcção.
Oleanna é uma peça de teatro que se desenrola no gabinete claustrofóbico dum professor universitário, sumidade exemplar da máxima racionalidade, que vive num mundo preciso, previsível, regular, estabilizado, mas que é de súbito afectado pela presença duma aluna (Carol) que lhe está nos antípodas, pela sua fragilidade, insegurança, carência emocional e cognitiva, dependente do sucesso escolar, no que ambos se vêem enredados e compelidos para a intrincada trama do dogma, da lei e da teia de normas do sistema de ensino. Estreará entre nós em Fevereiro, através da Companhia de Teatro de Portalegre (CTP), ali à Igreja de S. Francisco, com representação ao cuidado de Victor Pires (professor) e Susana Teixeira (aluna). Mas a encenação é de Adriano Bailadeira, cursado em Turismo e Termalismo, na Escola Superior de Educação de Portalegre, em Teatro, pela Escola Superior de Teatro e Cinema de Lisboa, em Técnica de Máscara, por Filipe Crawford, e actualmente a frequentar o curso de Estudos Teatrais na Universidade de Évora, que ainda antigo estagiário no CTP participou em Leonel (em 1994, uma adaptação dramática a partir do Príncipe com Orelhas de Burro, de Régio), O Jardim Público (de Jaime Salazar Sampaio, em 1995) e Ursos e Cisnes (de Tchecov, no mesmo ano), que integrou o elenco de séries televisivas como A Raia dos Medos (RTP, 1999), Uma Aventura (SIC, 2000) e Espírito da Lei (SIC, 2000), que participou na Real Caçada ao Sol (de Peter Shaffer, no Teatro Nacional D. Maria II, 2000) e Os Bons Malandros, adaptação e encenação de Paula Pedregal da Crónica dos Bons Malandros, de Mário Zambujal, em 2001), para finalmente regressar à CTP em 2001, onde participou no Meu Caso, de Régio, História Breve da Lua, de António Gedeão, O Marionetista de Lodz, de Gilles Segal, Visitação, Farelos e Índia, de Gil Vicente, O Leão Apaixonado, de Esopo e/ou La Fontaine, Os Degraus da Forca, de António Moncada Sousa Mendes, O Fidalgo Aprendiz e Outros Diálogos, de D. Francisco Manuel de Mello, Maré Alta, de João Pedro de Andrade, Júlia, a partir de texto de August Strindberg, e Esperança, de Jaime Salazar Sampaio, além de ter concebido em conjunto com outros actores o espectáculo de comemoração dos 25 anos do Grupo de Teatro Pedra- Mó, da Ilha Terceira, nos Açores, Um Urso e Um Pedido de Casamento. Por isso falou-se com ele, a fim de levantar aquela ponta do pano sob a qual se escondem as artimanhas do ofício do espectáculo, considerando que se havia alguém em posição de o fazer não podia ser outrem.

Apostar no pessoal da casa

Joaquim Castanho – Até aqui, ou até há muito pouco tempo, não era hábito da Companhia de Teatro de Portalegre (CTP) rodar as encenações por mais do que uma pessoa... Esta nova atitude, o facto de seres tu o encenador, vem reflectir-se de alguma forma como uma nova tomada de consciência da realidade daquilo que é o teatro em Portugal, e sobretudo em Portalegre, ou é também uma aposta na multidisclipinaridade das recém formações artísticas?

Adriano Bailadeira – Passa um pouco por isso tudo... De facto, em primeiro lugar, é uma aposta da Companhia abrir o leque dos encenadores que tem, apostando na prata da casa, por quanto é preferível apostar inicialmente no pessoal da casa e, depois, então, convidar outras pessoas de fora. E em segundo lugar, por uma questão de linguagem, já que cada pessoa é uma pessoa e tem a sua leitura ou forma de estar, diversa e enriquecedora, e é muito importante, a esse nível, que estas leituras sejam apresentadas. Até porque o teatro não é uma arte única e unificada, pronta e acabada... Não é do género “este teatro é o que existe”, é bom e é assim, e não existe mais nenhum! Há vários caminhos. Há diversos pontos de vista que devem ser dados a conhecer... Não só das diferentes peças, ou repertório, mas também do ponto de vista de quem as encena, de quem as prepara, de quem as analisa, para que o próprio público possa fruir dele, de uma leitura mais abrangente e de linguagens mais diversificadas.

JC – A partir do momento em que as linguagens são diversificadas é impossível não abranger outros públicos, não focar outras malhas da diversidade e multidisciplinaridade, novas direcções e alvos, atingir novas audiências e plateias. Para além deste “facto circunstancial” como é que é representar este outro papel, pela primeira vez, que é o da encenação, precisamente com colegas que giravam na mesma esfera de acção?

AB – Para já, é um desafio interessante! Nunca tinha feito uma encenação a solo, embora já tivesse naqueles projectos com colegas de escola, a nível académico, ou como workshop de férias, mas sozinho nunca, o que é mais complicado, pois sabemos que a opinião final é sempre a nossa... Tivemos o projecto das Palavras, espectáculos de leitura encenada, no entanto isto é um pouquinho diferente! Isto é um processo acabado que irá ter um produto final. E estar a trabalhar com os meus colegas não é mais do que ter o privilégio de também ir aprender com eles. A encenação nunca poderá ser um processo fechado.

JC – E então?...

AB – Então, neste momento, em termos de encenação, aceitei o desafio com este sentido: tornar-me a pessoa que toma as decisões finais, mas sobretudo aquela que ouve a opinião dos colegas para que, em conjunto, visto que o teatro é cada vez mais uma arte de equipa, de grupo, sendo eu o receptor da informação, a processa, filtra, até escolher o caminho mais correcto, segundo o nosso ponto de vista. Acho que passa um bocado por aí... Ainda não tenho sequer 30 anos ou uma carreira assim tão grande, mas abalançar-me na encenação cumpre completamente a minha noção de desafio, pois quem gosta muito de uma coisa e tem ambições próprias de querer fazer bem, não tem que ter medo de abraçar esse tipo de desafios!

JC – Já tinhas tido outros contactos com Mamet?

AB – Com Mamet, muito poucos... E mais cinéfilos, do que dramatúrgicos.

Há uma briga a dois níveis

JC – Nem com esta peça, precisamente?... Tinhas visto anteriormente alguma representação dela?

AB – Desta peça apenas vira um extracto a nível académico, na minha escola, de uma ou duas cenas, que colegas meus fizeram. E naquela altura chamou-me a atenção! Depois li o texto e fiquei com ele na cabeça, por achar que era um texto com uma força tremenda, com uma contemporaneidade desgraçada e que espelha uma situação com que era fácil identificarmo-nos. Qualquer pessoa que tenha passado por uma sala de aulas pode aperceber-se dos sintomas enunciados...

JC – Efectuar projecções e transferências?

AB – Completamente.

JC – Mas para além desta identificação, qual a mais-valia que defines como essencial e imprescindível para teres escolhido esta peça e não outra qualquer?

AB – Os pontos chaves dela – o que lhe dá reconhecimento, o que lhe dá valor... E posso dizer que nela há uma briga a dois níveis, no sentido de briga enquanto evidência de paradoxo entre dois ou três conceitos básicos. Em primeiro lugar a autoridade e o poder: quem é que de facto detém o poder? Numa forma pontual, no ensino... e numa forma mais vasta, que pode abranger toda a comunidade?... Quem é que determinou que essa pessoa devia ter o poder? Quem estipulou as normas? E o que é que acontece quando essas normas se quebram? Quando o próprio professor diz que devem quebrar-se as normas mas depois é a aluna quem as rompe?... E se o detentor da autoridade quebra as normas, que é que acontece se aquela que não tem autoridade nenhuma as quebra também?
Em segundo lugar, o pormenor mais gritante desta peça, que é a evidência do erro de comunicação. Temos um facto, um momento, um acontecimento, e temos duas verdades para ele. Mas qual delas é que é a mais importante? Haverá legitimidade para afirmar, só porque os estatutos do professor ou da aluna não são iguais, que uma é mais verdadeira do que a outra? Ora, isto é um bocado complicado, e sofre bastantes pressões mundanas!...
E por último, o plano da ambiguidade das acções, dos gestos, do jogo de exposição/retracção, do toque e foge latente, a que toda a ambiência obriga. E como se coabita num espaço tão pequeno que é quase impossível respirar sem invadir a intimidade do outro...

JC – E quanto ao elenco? O facto de conheceres a peça e a CTP, as pessoas que a integram, não te levaram a escolhê-lo por afinidade ou colagem entre as personagens e aquilo que já conheces da personalidade dos eus colegas?

AB – Eu, quando pensei propor e propus esta peça, ao pensar no elenco, fi-lo de acordo com as seguintes questões: visualmente – como é que eu via os personagens; e objectivamente – ou daquilo que os actores podem dar ou contribuir para a imagem final, e que eu tenho na cabeça como ideal para a peça. Apesar de Mamet ser um cinéfilo, e ao contrário do sistema cinematográfico, não acho que os actores tenham que corresponder exactamente à descrição física da personagem. Aliás, precisamente por isso, é que se faz uma coisa chamada trabalho de composição!... O que eu achei é que seria interessante, pegando nos dois actores que fazem a peça, desenvolver um esforço para desconstruir imagens anteriores, de personagens passadas, e dar-lhes uma roupagem nova, utilizando estas pessoas sim, mas com um registo diferente do que se tem feito até agora. E nesta perspectiva a peça pode encaixar-se em qualquer personalidade, pois existe uma tão grande veracidade literária nas personagens, que qualquer pessoa pode encaixar nelas. Estas duas pessoas naquele espaço são as que mais se aproximam e melhor combinam com a imagem que tenho na cabeça dos perfis físicos e psicológicos das personagens!

Enfim, do que além se soube se não dá conta, sobretudo porque se anseia pelo momento da estreia, para a qual desde já, aqui ficam os votos de muita m.... – piiiiii!.... Ou não fora o teatro também uma das artes que nos reinventa, sublinha e converte o nosso dia a dia de rotina em magia esforçadamente conseguida.

10.12.2004

DESMANDOS & IMPROPÉRIOS DA NOSSA PRAÇA

Já ninguém lê jornais. Nas bibliotecas sobram intactos; nos cafés acumulam-se dobrados na prateleira das inutilidades. E aparte isto, só quem é mesmo obrigado a lê-los o faz: empresários das agências funerárias, jornalistas, anunciantes, famílias dos defuntos, autarcas e demais políticos envolvidos nos eventos democráticos (do poder). Enfim, a quadrilhice noticiosa passou do mórbido ao moribundo.
Causas? Infinitas e incontáveis. Mas sobretudo porque os tempos que correm não estão para tretas, ainda que de meias tintas sejam – ou em directo. O mundo pula e solavanca (e nós com ele, no pára-arranca), ditando-nos quanto de filosofal a pedra está mais que gasta.
É certo que alguns cafés resistentes, para desfastio da clientela, continuam a comprar este ou aquele título em cujas capas a cor melhor condiz com a decoração do estabelecimento, principalmente desportivos, a que se possam aproveitar além das boutades nos relatos, também os números antigos para limpar as vidraças. Esporadicamente são inclusive notícia, as ditas casas ou seus mui digníssimos frequentadores, alguns até célebres e destacáveis por isto e aquilo, colunáveis e informadores situacionistas, aliviando encargos às tribos aficionadas, mas daquilo sabendo muitos embora que disto já nem tantos, o que desvalorizam impreterivelmente se algum congénere concorrente teve honras radiofónicas ou televisivas. Porque aí sim, ficam abespinhados e ressentidos, sentem-se vítimas da descida de escalão, passando para a divisão local do preto e branco, onde nem federado se precisa de ser para se ficar com fama de Zé-ninguém. Então aferram-se à tradição e embirram com os progressismos, todos eles, mesmo os penteados coloridos ou as mini-saias, e passam a cultivar um inaudito desdém pelo mundo e ao que nele acontece, a que costumam chamar de “só desgraças” de enfeite aos fait divers políticos, reflectindo em teoria quanto a prática jornalística lhes fornece enlatado pela indústria noticiosa, agências obreiras de separar o interessante do incensurável politicamente correcto, joeirando dos factos os que o são mais e/ou nem tanto.
Ou opinião. Fantasias das mentes desocupadas onde a má fé se faz verbo, quase sempre de borla, maniqueísta, eivado de restrito esclarecimento e motivada percepção. Opinião irremediavelmente partidária ou anti-partidária, redundante, assertiva (asservada e graxista), pistoleira, bandeirolas, encharcada de clichés, requentada e eco dos debates televisivos, esvaziada de propostas semânticas construtivas ou de discursos cooptantes. Maçuda e altaneira. Recadeira ou paliativa. De manifesto esconde-esconde e agarra-agarra criancista. Fleumática e arruaceira. Arrivista e intencional, e que serve sobretudo de patamar promocional de carreiras. E políticos.
Ora o resultado desta inconsistência da imprensa (nacional, regional e local), desta abdicação conivente progressiva dos jornais dos projectos de desenvolvimento urbano sustentado, reflecte-se acentuadamente nas zonas interiores mais desfavorecidas, onde o vigor do tecido empresarial e do mercado é menor, e os rigores das crises superiormente se sentem. Como por exemplo, em Portalegre, onde em anos anteriores, já quase de remoto espectro, houve alguns festivais de impacto cultural, entre os quais o Internacional de Cinema, o de Ambiente, Som e Imagem ou Internacional de Teatro, mas que pereceram definitivamente, arrastando consigo todo o esforço financeiro despendido nas suas edições iniciais para a vala do desperdício, da qual jamais sairá para vergonha dos políticos que roubaram essa verba às bocas esfomeadas, sem saúde, educação, casa e cultura, contabilizadas em mais de um terço da nossa população. Investimentos indubitavelmente irrecuperáveis, excepção feita ao Festival Internacional de Teatro, que é o primeiro ano que falha desde que começou, por circunstâncias adversas múltiplas, que se circunscrevem nas dificuldades operativas ao nível das instalações e acessibilidades, em virtude das obras na Igreja de Santa Clara, sua residência fixa, como nas circundantes à Igreja de S. Francisco, espaço provisório onde se tem instalado ultimamente a Companhia de Teatro e Portalegre, organizadora e promotora do evento, como a nível financeiro, capítulo onde ainda não foram saldadas algumas dívidas contraídas nas anteriores edições, ou no corte dos complementos honorários aos subsídios requeridos pelos projectos que se apresentam, verba imprescindível para cobrir as despesas de deslocação, permanência e alojamento dos grupos de teatro nacionais e estrangeiros que nele, Festival Internacional de Teatro, actuem e participem.
Sobretudo porque esta imprensa salamelequeira se restringiu à cobertura política dos eventos, em vez de divulgar, criticar e analisar obras e autores, encenações e actuações, estimulando assim públicos e bilheteiras, patrocínios e mecenatos, que são a única forma de garantir a sustentabilidade das artes do espectáculo, qualquer que ele seja, promovendo receitas e não esmolas institucionais, também conhecidas por subsídios, e dos quais se insiste dependerem.
São a rejeição e indiferença as principais armas dos fracos, pobres de espírito e miseráveis. Mas quando estas são arremessadas sobre o desenvolvimento regional (e nacional), com a desculpa da actualidade e do interesse jornalístico, assumem uma perversão e malignidade inimagináveis, à semelhança do que vem sendo feito a propósito da novela marcelista no outono governamental laranja. Esquecidos estes filósofos da ejaculação precoce, arautos da maledicência e do esclavagismo comunicativo, impotentes para modificar o olhar perante as evidências moleculares do desenvolvimento sustentado, de que as funções específicas da imprensa regional (Decreto-Lei nº 106/88, de 31 de Março) são as de a) promover a informação respeitante às suas regiões, b) contribuir para o desenvolvimento da cultura e identificação regional através do conhecimento e compreensão do ambiente social, político e económico das regiões e localidades bem como promover as suas potencialidades, e d) contribuir para o enriquecimento cultural e informativo das comunidades regionais e locais, bem como para a ocupação dos seus tempos livres, aproveitam igualmente a embalagem para especular a-propósito dos agendamentos eleitorais, metendo a carreta à frente dos bois, preferindo adubar o suspense com os nomeáveis ao óscar presidencial, numa rotina de casa da sorte mas azar nosso e de quem a trabalhar promete enfileirar nas cortinas do futuro, é tributável e não abdica da cara que tem, mostrando-a sem qualquer vergonha a toda a gente, incluindo aos funcionários públicos que lhe consomem parasitariamente quanto descontam em IRS e IRC, a fazer render a pistoleirice do poder, cuja prática assenta no sempiterno "dispara primeiro e pergunta depois" dos cowboys bushianos, que tem sido a escola de boas maneiras democráticas dos nossos politiquinhos.
Com a retirada palaciana de Marcelo, eis que a manobra de diversão política forjada pelo PSD para iludir a vida pública portuguesa eclodiu de pleno, amenizando as tónicas da sustentabilidade e convergência, ao debate ou aprovação do Tratado Europeu e agravamento das assimetrias regionais, à falência e descalabro dos sistemas educativos, de saúde, segurança social, tributário e judicial, condicionando a actividade opositora do PS a permanecer num limbo de esperança bem-aventurosa, que o narcotiza e suspende, preferindo acoitar-se na perspectiva de que o governo cairá por si (de podre) e em consequência de um conflito interno no PSD, do que a fazer-lhe frente, e pagar para ver.
Por outro lado, ficou-se a saber (zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades, como diz povo) que a censura é uma prática comum em todos os órgãos de comunicação social, e até naqueles que se denominam de independentes, descoberta do tipo pólvora prò fósforo, visto que todos nós, os que de alguma forma colaborámos e trabalhámos nela, o sabíamos e sofremos, mas que quando o dizíamos era menosprezado e, segundo alguns, até merecido, considerando que "o quem paga manda e quem recebe obedece" da prostituição intelectual é uma lei tradicional muito arreigada ao espírito comezinho português. Principalmente porque essa censura encapotada, praticada avulso por directores, proprietários, redactores, paginadores, colegas jornalistas, igrejas, autarcas e anunciantes, é o pão-nosso-de-cada-dia de quantos fazem opinião nos jornais e rádios da nossa república. O sal da terra. O único desafio motivador para neles escrever, que é o de fintá-la, ludibriá-la, contorná-la pelo dizer metafórico e das entrelinhas, visto que outro não pode haver, já que ninguém os lê, ninguém lhes dá crédito, nem eles pagam a quem quer que seja, que presunção e água benta cada um toma a que lhe convém e conselho se fosse coisa boa não se dava, vendia-se.
A importância do medo do lobo na unidade do rebanho é sobejamente conhecida dos sapiens pastorinhos da nossa espécie. Ao sobrevalorizar-se a opinião de Marcelo Rebelo de Sousa (MRS pròs mais pequeninos), alerta-se simultaneamente para o perigo que há num solitário à solta e de como ele pode, com o seu discurso e atitude de franco-atirador, estraçalhar a magnanimidade do rebanho PSD, quais cordeiros cavaquistas de santanas, a propósito dos quais o Oeste tem um mui digno ditado onde os ditos mais os santos e os santinhos não passam de uma cambada de sacanas. Jorge Sampaio, garante constitucional da nossa democracia, conhece-lhe efeito, como aliás toda a fauna cacarejante do paiol do rato, agora inquieta pelo calor (energia desconcentrada mas concertada) na aclamação em congresso da nova abelha-mestra, outro berlusconni dos pequeninos de consciente efeito na consciência da esquerda adormecida.
Todavia preferem calar-se uns e outros, ou dizendo o fazem por portas travessas com indirectas e tempo de antena governamental em horário nobre, a reboque do qual a oposição igualmente se pronuncia, demonstrando quanto tudo vai bem nos melhores dos reinos, não esclarecendo absolutamente ninguém acerca do que sabem do tabu MRS, pondo a render o peixe do silêncio ("tu que sabes e eu que sei, cala-te tu, que eu me calarei", como reza a lei fundamental do mundo do crime, apanágio da sã convivência entre mafiosos e trambiqueiros, qual código de honra do chico-espertismo nacional, ou tábua deontológica entre os filhos da mãe próspera e amarialvdo pai) cúmplice, essa faca traiçoeira de dois gumes, a pôr a coisa em pratos limpos e écrans asseados, e avisando a navegação interna que isto de ter bolinha ao centro é sinal e cautela, sobretudo depois que o povo reconheceu muito filosoficamente que "quem tem cu tem medo". De põe-te a pau,que anda prà'i muito comentador mal-intencionado.
Mas importa não esquecer que a censura mais praticada na nossa praça, é a da ditadura de estilo -- com ou sem cartilha (livro) dele. Normalmente começa por ser uma questão de espaço e de clareza ("escreva, escreva, mas não vá além dos 2000 caracteres e sem palavrões complicados", propõem-lhe benfazejos, sorridentes, e preocupados com as restrições e diminuta flexibilidade vocabulares dos seus leitores, alguns directores/redactores/editores dos pasquins da nossa predilecção), e acaba nos cortes de parágrafos e alterações para melhor se entender, ou simplesmente no excomungar do opinioso não lhe publicando os textos, tal como me sucedeu a mim num jornal afecto à igreja católica, após ter feito um artigo sobre o aborto em que não subscrevia a tomada de posição desta. À semelhança do que acontecia com as esposas dos senhores patriarcais, que não alcançando o orgasmo porque os seus maridos não lhos facilitavam em conseguir mas sim a satisfazer-se nelas, a aliviar-se, destruindo-lhes a auto-estima e amor próprio, convencendo-as até de que se não usufruíam prazer de uma relação sexual com eles, era porque seriam genitalmente disfuncionais, complicadas de cabeça, e o problema residia somente nelas, também os detentores de prelos, de estatutos editoriais ou proprietários, quando aquilo que o opinion maker escrevia não subscrevia as suas linhas de pensamento, ou doutorais de suas macrocefalias, se serviam de pormenores estilísticos (tamanho das frases, ritmo da linguagem, distribuição de palavras, repetição de termos, figuras de retórica e graus de subjectividade) para incutir no colunista o medo de ser corrido por não ser lido ou entendido, quando não satisfazia os propósitos feudais da cartilha (marialva). Castrando-lhe o estilo. Obrigando-o a abandonar ou submeter-se às regras pacóvias do catecismo editorial. Pondo-lhe as frases a ferros, entre clichés e lamechices, extorquindo-lhe toda e qualquer originalidade, possibilidade de êxito ou brilho que não lhe adviesse do privilégio de integrar a ficha técnica do órgão suserano.
O truque censório mais corrosivo, subtil e eficaz é o de nos convencerem que o defeito é nosso. Acima de tudo nosso e só nosso. Que se as audiências fracassam, se os projectos entram em falência, então a culpa é sempre dos operadores descartáveis, os menos imprescindíveis: os fazedores de opinião. Agora que Portugal inteiro ficou a saber que há censura entre nós, estou curiosíssimo para ver como é que os paus de galinheiro que durante os últimos 25 anos a praticaram, se vão desemerdar da realidade que criaram. Porque uma coisa é certa: quando um crime não é punido, e o transgressor ganha autoconfiança para repeti-lo, não só se está a instituir uma prática ilegal comum, como a aliciar os cumpridores da lei para o não fazerem, prometendo-lhe compensações futuras de hegemonia e fundamentalismos antidemocráticos, anti-republicanos e anticonstitucionais. Ou não?

A CHAGA CONTINUA...

Quando os nossos jornalistas transformaram as embalagens dos produtos culturais em notícias e confundiram o marketing com factos, mais não fizeram do que adulterar os conceitos de cultura, de desenvolvimento e de jornalismo, mudando para ser tudo aquilo que simplesmente parecia. E em consequência o atraso que actualmente verificamos em matéria científica, cultural e cognitiva deve-se-lhe integralmente. Foram sobretudo os órgãos de comunicação social, em Portugal, quem não desempenhou as funções que lhe estavam estatuídas. Grande parte do desprezo que as populações votam aos conteúdos desta natureza deve-se à maneira falseada e desprezível com que foi tratada pelos mass media nos últimos 50 anos. Como foi preterida pelo assuntos de lana caprina politiqueiras, telenovelescas e futeboladas do nosso (des)contentamento.
Ao aplicarem o 5WH nos acontecimentos deram deles somente a imagem daquilo que eles pareciam ser, atribuindo o protagonismo não aos factos e conteúdos em si, mas sim a quem os promovia e financiava. Por eles se promovia e a eles se acoplava. Segunda geração dos doutrinários dos três FFF (Fado, Fátima e Futebol), seguidistas subservientes do autoritarismo corporativista, apologistas da “massificação das massas”, lambe-botas dos anunciantes, lobbys almoçarantes e grupos económicos diversos, estiveram na linha da frente do progresso nacional, mas em vez de o facultarem, usaram-no em seu proveito próprio e exclusivo benefício, fomentando o esvaziamento cognitivo e artístico da sociedade portuguesa, outorgando apenas a algumas franjas académicas ou especialistas (com apanágio) da coisa cultural, como se ela não fosse parcela integrante e própria da natureza humana, comum a qualquer um da nossa espécie desde remotas e cavernosas eras, mas simplesmente atributo peculiar dos génios de eleição, estimulando a invenção de uma mentira social geradora de diferença, pervertendo a essência básica e fundamental do conhecimento: esbater as assimetrias e implementar o desenvolvimento.
A cáustica recusa de MRS em contar o que deveras se passou, em pretender que o silêncio fale mais alto que as palavras, à semelhança do que se espalhou acerca da fotografia pelos jornalistas que não sabiam escrever ou eram demasiado preguiçosos para o fazer, para quem que valia por mil palavras, é uma caganeirice muar habitualmente praticada por afectados paranóicos, dos quais se diz que amuam, confirmativa de quanto a pistoleirice também usa e cultiva o bluff, ou artifício da pólvora seca. Se há algo para ser dito, que se diga, visto que estamos numa democracia onde vigora (ainda) a constituição e os direitos do homem. Se não há, então que tal se admita de uma vez por todas e se acabe com medo de reconhecer que o rei vai nu. Que o comentador está a armar em fino, a fazer negaças de donzela que quer ser doneada mas sem doer muito.


(Haverá nos próximos capítulos algum desfecho não ficcional? Teremos que fingir ouvir quantos discursos mais de fugir à seringa? Haverá um Portugal diferente para cada português? Isto e outro tanto no próximo capítulo: não perca.)

10.11.2004

HORA OS COPOS
(SIGNOS BASTANTE SIGNIFICATIVOS)

Os desafortunados/as que tiveram a ousadia de desembestar no mundo sob a influência deste zurríaco, terão vida fácil e duradoura mas com história de pouca monta, a não ser que se socorram de substâncias mais afrodisíacas. Hão-de soletrar-se nas primeiras instâncias da literatura e subirão ao inferno sem passar pelo purgatório. Contrairão surrealidade até ao fígado e terão os tutanos a desfazer-se de ironia. Mas obrarão com desenvoltura e nunca esquecerão o seu temor à cornite aguda e mau olhado. E deles há-de ser a fama e a má-língua da plebe!


Totinegra Arrependida
(Nascidos em temporão)

Os trogloditas residentes desta casa astrolábica zurriacal têm os azimutes em baixo e os alqueires mal medidos. São deveras dados/as ao estrefenefe, regabofe e rambóia, mas quando motivados e na expectativa de uma substancial e erecta cenoura não resistem ao pau. Amantes das artes como do desporto praticam assiduamente um com as outras e estas desportivamente ou sem grandes bagatelas éticas e formais. Gostam de tudo o que mexe, vibra ou palpita, e quando isso pára (ou se aquieta) mobilizam-se com afinco para que assim não fique durante muito tempo. No dia seguinte tomam a pílula pois são contra o aborto, a reforma agrária e a piscicultura.


Raspadinhas com Prémio
(Nascidos em serôdio)

Do zurríaco são o bom ou melhor partido, se ainda inteiros e inteiras, cheias e desparasitados. Normalmente apetrechados de canudo e viatura própria são muito prestáveis e saborosos/as, sobretudo nas noites de insónia, hiper-actividade hemorroidal, comichões várias e erupções cutâneas furunculares – de preferência com gelo e limão. Se de dia, devem tomar-se com cautela e moderação, exclusivamente com água da rede (net ou telemóvel, embora a fixa também sirva), pois fazem óptima companhia mas mordem se açulados ou lhe provocam ciúmes. Pedigree afiançado e oriundos de boas famílias, não são atreitos a moléstias, grandes pensamentos e matemáticas complicadas; todavia, fazem óptima figura e não envergonham ninguém se se mantiverem em silêncio. Digerem mal as recusas e perante elas entram em depressão, crise de identidade e esgotamento, mas perdoam depressa e esquecem facilmente. Na carteira, jogo, amor e copos vão até à última gota, e depois pagam com o corpinho as dívidas contraídas.


Pé-de-Cabra com Pieira
(Nascidos algures em hora indefinida)

No amor os signatários desta sina além do pé ganham também outras partes dos corpo, sobretudo a cabeça e sua segregação pensante, se engrinaldada prò culto, pois que tão amigos do alheio se fizeram que quase de imediato houve alguém a pagar-lhes na mesma moeda, abrindo-lhes conta-corrente e rego no diz-que-disse mundano, principalmente em tascas, esquinas, patins, balaustradas, barbearias, praças de taxis e supermercados, entre outros covis de paupérrima fama, que antigamente se diziam mercearias e onde tudo era pesado à mão, mas onde hoje já ninguém pesa e a língua é servida a palmo.


Salgados & Comprometidos
(Nascidos com pormenor de planta e segundo)

Varão que nasceu debaixo desta sina há-de ser vadio, guloso, brejeiro e manhoso. Se fêmea virará varina reboluda, vermelhusca e anafada, com muito de seu mai-lo de quem a ela o quiser dar, vender, gretar ou emp®enhar. Quando se metem na política só param no parlamento, que é onde se pode comer bem, beber melhor e berrar à fartazana, sendo principescamente pago para tal, mas sempre bem montado (no partido – diz-se, e à portas fechadas). Que também tem telhados de vidro, todavia como ninguém consegue subir tão alto na carreira, é versão de gran suspeita e carecida de demonstração empírica.


Chouriços Cacholeiros
(Nascidos aos quartos de hora)

Os mastronços/as deste signo são uma porcaria com’aos demais, mas como são brancos, moles e tomam viagra para ir ai fumeiro, usam pele bronzeada, frequentam ginásios e ginásias, para ver as pindricas e pindéricas linhas uns dos outros, aderem que nem goma às novas tecnologias e jamais passarão das 50 flexões na Net. Normalmente desabafam antes do tempo e quando carregam o carro chamam pelo Gregório à força toda. Politicamente são radicais, e ou estão doentes ou pertencem ao Movimento. Não adormecem com facilidade desde que não estejam no serviço, e quando se cansam (ou envergonham) de ver as mãos sem fazer nada, metem-nas nos bolsos. Raramente usam chapéu, excepto se for de dois ou três bicos.


Tira Picos e Fura Bolos
(Nascidos às horas certas)

Os cromanhonos e cromanhonas deste signo sempre foram bafejados pela canabis e OH2Porro, vulgo “água da moca”, líquido de virtudes infimamente medicinais, de forma bastante diversa. Contudo, alguns ficarão simplesmente tantarantantans, enquanto outros impotentes ou frígidas. É provável que caminhem aos bordos nas bordas da ressaca, portanto aconselha-se que mal isso lhes suceda, o aplicarem de imediato a regra do código postal, que indica que repetir a dose é meio caminho andado no alcançar da salvação e estado de graça. São apologista do "iiiiih, agora não dá!!..." e costumam rematar todos argumentos com "mais nadas" sentenciosos ou demais frases feitas da moda. São maus de cópia, piores de originalidade mas plagiam na perfeição.


Banana Podre
(Nascidos aos vinte pràs certas)

Os celtiberos atreitos a existências sub-reptícias que tiveram a feliz enfermidade de aparecer no deus-dará da desdita sob este signo, serão uns felizardos invictos e apostróficos, por quanto nunca casarão ou concubinarão com criatura vistosa, arrendada ou por conta própria, glarba ou desenxovalhada, dado o seu respirar contundente, com hálitos activos e inequívocos, derramar sobre o meio as cinzas do seu vulcão interior putrefacto, mas também jamais serão corneados enquanto o diabo tira o cisco do olho. Se instados a exercer o seu charme fazem-no com prontidão e desenvoltura, pelo que comummentemente contratados pelas grandes empresas para receber (afastar) credores, atender reclamações, contactar com clientes indesejáveis.


Vade Retro e Contracurvas
(Nascidos às meias horas)

Australopitecos muito desportistas e competitivos, sempre prontos para mais uma, gostam de criar boa impressão em qualquer tipo e formato, mas preferem instituir-se primeiro entre crianças e idosos, supondo que estes são os que melhor admirem e gabem, com desmesura e abastança, o seu coquetismo traiçoeiro e sedutor. Raramente se recusam ao prazer dos outros e são capazes de gatinhar incansavelmente até atingir os propósito$, que afiambram como brinde e testemunho do seu profissionalismo, ou defendem da gula alheia com magnum honor, vociferando lambuzados o “é meu, muito meu, todo meu, só meu e não o dou a ninguém” da tragédia popular em quatro cacos “Ora ponha aqui o seu geladinho”. Reagem mal às contrariedades do dia a dia, pelo que ficam normalmente indispostos e com ventas e penico.


Pavão Depenado
(Nascidos de um engano TMG)

Os figurões e figurinas desta moita são filhos dum pulo de cerca que se deveu acima de tudo ao hábito dos seus progenitores frequentarem os lugares errados a más horas. Peritos em não seis, não comento e não me comprometam, costumam apostar na carreira para evitar atrasos nas contas, períodos e tabelas, embora raramente o consigam. Normalmente enfarpelados nos rigores académicos e boémios, são moinantes de arribação e integram a vida moderna pela licenciosidade da formatura. Se são de cá vão para lá e se de lá vêm para cá, demonstrando que única constante da boa-vai-ela é a mudança, e no cumprimento do destino ao vaivém da vida. Todavia tendem a arrepender-se disso... – não obstante tarde e com sentidos pêsames, enquanto as famílias compungidas e enlutadas se demonstram estóicas e fadadas para o carregar a cruz (sem grande penha). Dançam bem, gostam de apertos e rebolam-se ao primeiro olhar.


Alhos Porros e Cepas Tortas
(Nascidos aos meios quartos de hora e/ou às certas e vinte)

Os energúmenos indígenas desta tribo zurrismal e que tiveram o despautério de nesta casa astral zurrar pela primeiríssima vez em vernáculo lagóia, hão-de ser bem sucedidos na arte de (en)cantar, catar e contar loas aos mais tansos que eles. Desde cedo assumirão o seu papel de líderes da trambiquice, no entanto de entre eles alguns recuperarão a inocência perdida, que aplicarão com criatividade em profissões de alto risco (para a fé e salvação) como design, manequins de alta costura, marketing e publicidade. Infelizmente os restantes devem enveredar pelas alas do “penso rápido e seco depressa” sucumbindo às maravilhas do exctasie. Salvo os que morrerem novos todos os outros falecerão apenas quando tiver quer ser ou não tiverem outro remédio. (Paz à sua alma e os nossos sentimentos às famílias contritas e circunspectas… A astrologia é uma ciência humanista, crente e abnegada!)

Gigélia Cheirosa
Cartomante encartada

9.30.2004

NEW KITSCHENET


Hoje caprichei na ementa:
Fiz smilles de souflé
Com emotions a acompanhar.

É que já ninguém abraça de puré
Nem põe beijos a fritar!


NÃO HÁ CRIME NO ANOITECER

Caprichadas de silêncio antecipado
As palavras do lago plenas de sigilo
Constrangidas pelo parado das águas
Reflectem: são pausas, folhas, paus
Retratos invertidos de quem passa.

Ao fundo a cidade lança seu soslaio de Sé
Entre as góticas frondes verdes do jardim
Nas vésperas de um outono que se esqueceu
De cumprir o calendário das estações.

E granito antes das rosas; cal, sempre cal, após elas.
Mas a espraiar-se no lusco-fusco o ocaso
Distancia-se imaginável por detrás do casario
Apenas enraivecendo
Irisando
Apodrecendo de laranja o horizonte azul.


É preciso reconhecer o privilégio de estar só
Ser ínfimo perante a grandeza do dia
Para escutar a lentidão da luz a esvanecer-se
A dissolver o intermitente negro sobre o céu
No curvilíneo e estonteante esvoaçar das andorinhas.

Na planura quieta do espelho a água
Esverdeia pouco a pouco de anoitecendo.
Não serve de nada fingir que a tarde tarda
Nem lembrar porque se esqueceu o meio-dia.
Não está certo sermos quem não somos
Ou esconder o rosto nas sombras do querer ser:
A frescura da luz que refresca está em si
Mesma e igual é esta cinza de aço baço
Como mapa de sonoridades caladas por descobrir.

Ouvir-me na luz que se esconde não é crime
Nem pedir palavras aos silêncios antecedidos,
Porque escorrendo as sombras são apenas sombras
Nadas incapazes de sobrecarregar os espectros temidos.

Esplanada de "O Tarro", 30.10.04 - 19:20 horas


"INDEFERIDO!!..."


só quando me esqueço de ser sou quem sou
e não o outro que caminha a ver-se acompanhado
de si mesmo lado a lado fintando as sombras:


- Não, não peças silêncio às luzes da cidade
que lançam seus olhos de noite de rua em rua!


CARAMELO EM LEITE CREME


Permito-me compreender quem és
Arrisco-me a ser outro no agora
Aqui dos sonhos por revestir de velas
Mágoas, anseios, crenças, ilusões, pés.

Permito-me ser 59 minutos da tua hora...
Mas quando aí caído entregue todo assim
Eis-me permitido mas perdido sem mim,
Pois naquele minuto único só queres olhar as estrelas!


ZÁS!


A terra é redonda. Pimba!
E o sol está de veludo
Escoando-se no limiar das horas.
Creio no todo-poderoso imenso líquido
Que me animala os ossos e o teu ventre.
Sejamos cruéis como somente nós
E desenhemos nas transversais abertas
Pequenas soleiras onde os velhos gastem a bisca
Os dias e as pantufas são iguais, tal e qual
Recordando os tempos de guerra e senhas
(prò pão).


Ouvi dizer que me não amas - bem
Parva foste, esse direito era só teu.
Agora, será mais fácil suspender-me
Atirar-me de uma nota musical qualquer
Suicidar-me num assobio de rompante
Que procurar o ninho de teus (a)braços.
(São sinas; é prò pão!)

Num dos quadros da minha sala
Tenho um toquê que parece.
Se alguma mosca me atenteia
Ele Pula da Tela pla PaPá-la...

- Zás.



LIBRETO

Jamais seremos outros em nós mesmos
Que é posto a cada um o saber sabido,
Como se fôramos o ainda somos de sermos
Aquilo que apenas nós tivéramos crido.
Jamais esperaremos por nós em idos ermos
De calar a sofreguidão ao sonho tido,
Já que ser é um todo que se quer nos termos
De quem se não atém de rés e ao meio sentido.


Porque jamais o receio de ser nos fará calar
Esta sã certeza que cada um no outro tem
Em sermos somente nossos e de mais ninguém.

E da vida. Que se quer por nós representar
Ao haver-nos dado como exemplos da zarzuela
"La Cancion del Olvido", e a dor daquela!


A MISSIONÁRIA DO FUTURO


Estais ambos na vida.
És uma professora... E ele, um menino triste.
Então ensina-o. Ensina-o a amar-te.
A ver-te. A esperar-te.

E aí sentirás que ficou cumprida
A missão que em ti existe.


CULPA IMPERATIVA


Ignorando a ignorância
De quem caminha sobre o próprio corpo
Vai o cerne da tolerância
Ignorando como está morto.

Vai o epílogo, o fim.
Vai o exílio, o cabo.
Vai a cauda sem fim
Sem saber que começa no rabo.

Vai, como qualquer cantor de rua...
Vai, vai, vai sob o sol da sina tua.


Vai - vai! - na ignóbil estrada negra
Como quem desafia o atrito,
Como quem destila a regra
De corromper o próprio grito.

Vai o desejo, e na secura
Vai o fio (Ariane)infinito
Que liga o agora ao aqui,
Une o agora ao para ti.

Vai: repito! E repetindo esqueço
Que nem esquecer-te mereço!


VIAGEM DE ROTEIRO
(ENTRE FACTOS E CONJECTURAS)

Quis-me numa hora de recato
Saber-me a sonhar sem sentido.
Havia pedras, árvores e mato,
E uma charneca e um regato
Onde nunca tinha ido.

Era terra de remotos contornos
Com azeitonas, conservas e pão
Madeiras, resinas e vigas de betão;
Solos férteis e tempos mornos
Ao florir da esteva e manjericão.

Porém nesse sonho havia
Algo que me preocupava e impelia
Na urgência do magnético destino tido.
É que fora onde fora sem querer
Esquecendo-me aliás de dizer
Que eu também o houvera querido...
Pois o maior dos saberes dos mais antigos,
É o de entre conjecturas escolher
Que os "factus" são nossos amigos!


CONDOMÍNIO FECHADO


Há vozes intemporais na fluidez
Do líquido estar esquecido de nós?
O que se ouve murmurar antes e após
Do escorrer da solidão e languidez?

São cumplicidades morninhas do olhar
A fremir promessas, ânsias e segredos
Que nos iniciam na arte de interrogar
Aos porquês o por quê de nossos medos?

São inspirações de folha silvestre?
São inscrições de grafito rupestre?
São desalinhos no croquis do querer?
Não, são apenas gritos roucos na planície
Do ser impondo que de vez que se inicie
A flor, certidão inequívoca do "crer é poder".


1.
abrevia solidão como quem tece
a saga dum silêncio amortizado
a distância incendiada dos corpos
a alma indizível do desejo proferido:

ainda é hora. Tens a boca escolhida
nos lábios do tempo literal solícito
aberto, descosido, integral ao verbo
e és espera de quem se aporta e se alerta.

Contudo, nos esgares sucumbidos
desferes um coração que me acerta.

2.
podendo dizer por que calas os lábios
colados contra o tempo num só golpe
a destreza na planura intensa, língua vil
abre o ovo do silêncio, vá!, vá!, parte-o
assim com a gema do dizer inconformado:

sê exemplar. Escuta a luz silvestre
dança nos subúrbios do silêncio
desvenda o ventre ao umbigo da tarde.

Reconhece, que é bom ter amigos, desenhar
intempéries num sentimento possível
mudar o mundo e as consciências com eles
destroçar a nudez crua e anónima dos nomes.
É benéfico aventurar os nossos destinos
nos espelhos partidos em que nos consomes...

- mas não desistimos!

MILAGRE

Eu escrevia de borla para os jornais, e curei-me.
Graçazadeus!!... Aleluia, Senhor! Aleluia!!...


No próximo dia 9 de Outubro, no Restaurante Leitão, em Caia, realizar-se-á mais um encontro dos ex-alunos da Escola Industrial e Comercial de Portalegre, actual Escola Secundária de S. Lourenço, conforme o acontecido em anteriores anos. O preço de inscrição é de 30 euros e será homenageado o professor Duarte Lima, conhecido entre todos por professor Du. Os interessados podem fazer a marcação através do mail deste blog ou na loja da Mariazinha, no Centro Comercial Fontedeira, em Portalegre. Até lá, e saudações

9.28.2004

Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações. Disseram-no ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso da família e de como ele iria condicionar a posteridade dela.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas).
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se atinha como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.

(Excerto de AS PISTOLEIRAS E O BANDEIRINHAS, conto de actualidades primárias sem efeitos secundários, politécnicos e universitários)

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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