9.28.2004

Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações. Disseram-no ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso da família e de como ele iria condicionar a posteridade dela.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas).
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se atinha como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.

(Excerto de AS PISTOLEIRAS E O BANDEIRINHAS, conto de actualidades primárias sem efeitos secundários, politécnicos e universitários)

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La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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Onde a liquidez da água livre

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