5.09.2008

O Ouro Nazi
Tom Bower

Trad. Eduardo Saló
384 Páginas

«É incrível!», proferiu, olhando ao longo da fila de testemunhas. «Alguém é uma vítima num campo de concentração, apresenta-se um herdeiro e os bancos dizem-lhe: «Então, mostre-nos a certidão de óbito comprovativa de que o seu ente querido, um dos seus pais, foi morto

Durante a última Guerra Mundial, os judeus, além de chacinados, foram também saqueados e espoliados. Principalmente, no ouro e depósitos bancários. Contudo, não foram somente os mentores e executivos do holocausto quem com isso mais beneficiou. Um enorme rol de países usufruíram, directa ou indirectamente, dos proventos derivados do histórico flagelo. Entre eles, na lista dos que receberam e aplicaram as receitas oriundas dos campos da morte estão, à cabeça, a Suíça, o Brasil, Argentina, Portugal, Estados Unidos da América, além de uma grande plêiade de financeiros e banqueiros internacionais bem sucedidos e melhor estabelecidos, não obstante "nazisticamente" comprometidos e intencionados. O que vem sublinhar uma – mais uma! – evidência dos nossos tempos: que da falta de compensação para alguns (raros) crimes avulso, dá o genocídio lucro por todos.
"(...) De Berna, ouro no valor de 138 milhões de dólares fora reexportado para Espanha e Portugal. Numa estimativa muito conservadora e, por conseguinte, "a mais favorável à Suíça", o Banco de Berna aceitara "um mínimo absoluto de 185 milhões de dólares de ouro pilhado e mais, provavelmente, 296 milhões".
Incluído no ouro pilhado vendido à Suíça, figuravam o belga, no valor de 223 milhões de dólares, e o holandês, avaliado em 100 milhões. Algum desse foi expedido pela Suíça para a Turquia, Espanha e Portugal. Dos 3859 lingotes que chegaram a Lisboa procedentes de Berna, entre os quais pelo menos 1180 holandeses e 673 belgas, 318 continuavam armazenados nos seus envoltórios de origem holandesa. Um investigador britânico revelou que os portugueses estavam "visivelmente preocupados", porque o ouro pilhado permanecia nos cofres "como se o banco tivesse em seu poder a Mona Lisa, sem sequer a retocar". O governo de Portugal mostrou-se inflexível na sua pretensão de que o ouro fora obtido na Suíça na sua boa fé e recusou aprovar a sua devolução. Em contraste, as autoridades espanholas entregaram do seu aos americanos, em Dezembro de 1945, para seguir imediatamente para Francoforte, e ficaram com as restantes setenta e três. O Banco Nacional suíço não admitiu nada.
" (Páginas 158/159)
E a indignação generaliza-se quando nos apercebemos que o principal beneficiado, ou quem melhor se aproveitou desse dinheiro sangrento, em plena consciência do que estava a fazer, foi um país que, nos últimos cinquenta anos, perante os seus vizinhos, como parceiros globais, se vangloriou da invejável opulência e qualidade de vida... E aquele que mais entraves pôs a que os herdeiros das vítimas e sobreviventes do holocausto viessem a (re)apossar-se do seu património: a Suíça. Impunidade, aliás, que só veio a findar quando, em 1997, é levada ao Tribunal da História para explicar a sua ostensiva faustosidade, como resultado dos esforços Aliados empreendidos na execução do Programa Porto Seguro, que pretendeu convencer os países neutrais a confiscar todos os bens germânicos à sua guarda depositados.
Reportagem exaustiva, consequência de telefonemas de dois amigos do autor (Mike Kinsella e Bob Royer), teve por principais fontes os arquivos nacionais americanos, suíços, britânicos e franceses, das Comissões Judaica Americana e de Distribuição Comum Americana, além das aproximadamente quarenta entrevistas efectuadas por Tom Bower a outras tantas pessoas envolvidas pela temática, é o documento que faltava, enquanto prova, de quanto o anti-semitismo europeu se prolongou para depois do fim da Grande Guerra, e continuou a matar "silenciosamente" inocentes, por mais 50 anos, punindo os seus nascimentos e premiando os executores dos seus familiares, bem como os simpatizantes do nazismo internacional. Um registo que devemos ter sempre presente, e em memória, se não quisermos ser seus históricos cúmplices...

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue