8.02.2011

O CORREDOR
Jean Reverzy
Tradução de José Manuel Calafate

“Está ainda por surgir uma nova ciência que se ocupará da aproximação entre seres vivos, dos seus contatos, dos seus retraimentos, dos movimentos dos seus corpos e dos seus membros. Ciência que será a da solidão do homem e, por isso mesmo, a do próprio homem: este o motivo por que ainda não tentou ninguém.”
Jean Reverzy



De início, no vestíbulo bastante escuro distingui, à esquerda, para lá duma porta de vidrinhos, toalhas brancas estendidas e talheres de metal; à direita destacavam-se um cabide, algumas prateleiras carregadas de conchinhas e bibelôs e muitos outros móveis cuja utilidade me era desconhecida. Então, chamei: mas ninguém me respondeu e hesitei aventurar-me mais longe, numa semiobscuridade riscada de raios que se entrecruzavam diante de mim… É mais audacioso ordenar o mundo por palavras do que por olhares. Por isso, sem repetir o meu apelo, perscrutei o fundo do vestíbulo que prolongava o voo duma escadaria, onde julguei distinguir uma forma clara e palpitante cujos contornos pouco a pouco se foram precisando: eram as pernas duma mulher calçando pantufas a rebentar nas costuras, que descia silenciosamente os degraus. Avancei então mais um passo e distingui a bainha de um vestido negro e dum avental branco e amarrotado, depois as mãos e finalmente o busto e o rosto de uma criada que pousou suavemente sobre o parquete e veio ao meu encontro. Sorri-lhe e, erguendo o braço para lhe dar a entender que era inútil aproximar-se mais, pedi um quarto com vista para o mar. Ela sorriu também mas não pareceu compreender-me e, sempre caminhando para mim, levou a mão ao rosto onde os dedos pareceram querer modelar os lábios a fim de que o seu sorriso correspondesse ao meu.

Nota biográfica: Jean Reverzy nasceu em Lião, em 1914, e morreu na mesma cidade, em Julho de 1959. Formou-se em medicina. Em Agosto de 1940 foi demitido do seu internato pela sua atitude não conformista em face dos ocupantes e colaboracionistas. Entrou no movimento da Resistência, esteve preso e acabou a Guerra nos FTP. A partir de 1945 dedicou-se à medicina num bairro operário. A sua atividade literária iniciou-se em 1954, com o romance Le Passage, que obteve o prémio Théophraste-Renaudot. Depois escreveu Place des Angoisses e O Corredor.
Renovador da técnica do romance moderno, que muitos comparam a Alain Robbe-Grillet, embora haja notáveis diferenças entre ambos, dele afirmou André Wurmser, em Les Lettres Françaises: «Completamente ensimesmado na solidão e no silêncio do homem é, com efeito, um sonho; a realidade acarreta o convívio, a palavra, a simpatia, a antipatia, as relações sociais. Tal é – em meu parecer – a moral a tirar desta espantosa narrativa (O Corredor) que um excelente escritor teve a coragem de realizar».
Referindo-se ao mesmo romance, escreveu Maurice Nadeau, no France-Observateur: «Jean Reverzy iguala-se, de uma assentada, pelas suas intenções e a sua ambição, aos maiores: pensa-se em Joyce, em Kafka, em Beckett».
Eis quem era o grande romancista, infelizmente falecido aos 45 anos.

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