11.30.2015

PANORAMA HISTÓRICO DA CULTURA JURÍDICA EUROPEIA




"O trabalho de recuperação dos sentidos originais é, como se vê, penoso. O sentido superficial tem que ser afastado para deixar lugar às camadas sucessivas de sentidos subjacentes. Como na arqueologia, a escavação do texto tem que progredir por camadas. Os achados de cada uma delas têm que fazer sentido a esse nível. O modo como eles foram posteriormente recuperados pode ser objeto de descrição; mas isso é uma outra história – a história da tradição.

A cada nível, portanto, o esforço é o de recuperar a estranheza, não a familiaridade, do que é dito; o de evitar deixar-se levar por leituras pacíficas; o de ler e reler, pondo-se porquês a cada palavra, a cada conceito, a cada proposição, a cada «evidência» e procurando a resposta, não na nossa lógica, mas na lógica do texto. Até que o implícito deste se tenha tornado explícito e possa ser objeto de descrição. Nessa altura, o banal carrega-se de sentidos novos inesperados. O passado, na sua escandalosa diversidade, é reencontrado." 

in ANTÓNIO M. HESPANHA
Panorama Histórico da Cultura Jurídica Europeia
Publicações Europa-América
(Pág. 48)

11.25.2015

VIVER É PARTILHAR por PAUL ÉLOUARD






(...) 

Viver é partilhar odeio a solidão
A grilheta da morte quer-me reter ainda
Já não beijo ninguém como beijava dantes
O pão era sinal de ser feliz
O bom pão que nos torna mais quente o nosso beijo

Como abrigo possível só há o mundo inteiro
Pra mim viver é hoje responder aos enigmas
É renegar a dor que é cega de nascença
E sempre em pura perda estrela sem qualquer brilho
Viver perde-se para reencontrar os homens

Que a palidez do rio encubra a do arroio
Que olhos de maravilha vejam tudo em seu lugar
A miséria acabada e os olhares lavados
Uma ordem crescendo do grão à flor à árvore
Andaimes vivos a sustentar o mundo

A criança a renascer em cada homem e rindo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 41)

AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS por PAUL ÉLUARD




AOS MEUS CAMARADAS TIPÓGRAFOS

Tínhamos o mesmo ofício
Que ajudava a ver na noite
Ver é compreender e agir
É ser ou desaparecer. 

Era precioso acreditar preciso
Crer que está nos homens o poder
De ser livre e de ser melhor
Que o destino que lhe foi imposto

E nós esperávamos a grande primavera
E nós esperávamos uma vida perfeita
E que a claridade se decida
A carregar todo o peso do mundo.

in PAUL ÉLUARD
Poemas Políticos
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 45)

11.15.2015

IRMÃS DA ESPERANÇA por PAUL ÉLUARD




IRMÃS DA ESPERANÇA 

Irmãs da esperança ó mulheres corajosas
Que contra a morte tendes feito um pacto
O de unir as virtudes do amor

Irmãs sobreviventes
Que jogais a vossa vida
Pra que a vida triunfe

Aproxima-se o dia ó irmãs da grandeza
Para rir das palavras guerra dor e miséria

Cada rosto terá seu direito à carícia. 

POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Pág. 74)

DIÁLOGO de Paul Éluard




DIÁLOGO

Belo invento coberto de vergonha
Memória de ouro enrolada no chumbo
Amor glorioso posto fora do leito
Natureza nobre manchada por anões

VINDE VER O SANGUE NAS RUAS

Somos muitos a recusar
Que seja o sol uma faca
Que seja o mar um veneno
Somos muitos a querer viver

NADA NEM MESMO A VITÓRIA
ENCHERÁ O TERRÍVEL VAZIO DO SANGUE: 
NADA, NEM O MAR, NEM OS PASSOS
DO SAIBRO E DO TEMPO
NEM O GERÂNIO ARDENDO
POR SOBRE A SEPULTURA. 

Muitos de nós perderam a vida
Na esperança de um mundo melhor
Inocentes seguros dos seus direitos
Eu lhes sorrio e me sorriem

UM ROSTO DE OLHOS MORTOS VIGIA AS TREVAS
SUA ESPADA ESTÁ CHEIA DE ESPERANÇAS TERRESTRES

Gravidade de sentidos e sexo
Veleiro da matéria subtil
E nós somos uma só ramagem
Folhas e frutos para servir a árvore

Por único exercício a bondade
Por única manobra a razão
Com centenas e milhares de aves
Levadas de planeta em planeta

FILHOS DILETOS DA VITÓRIA, TANTAS VEZES CAÍDOS, 
DE MÃOS TANTAS VEZES SUPRIMIDAS

Sempre a palavra meu coração confio
Imagens das imagens a manhã que desperta
Mas que já despertou pois que falamos dela
O sonho sol da noite tem a força de sempre

Ó MÃES ATRAVESSADAS PELA ANGÚSTIA DA MORTE
VEDE A ALMA DO DIA NOBRE QUE VAI NASCER
SABEI QUE VOSSOS MORTOS VOS SORRIEM DA TERRA
SEUS PUNHOS LEVANTADOS TREMULAM SOBRE O TRIGO

Vou fazer florir o redondo carmim
Do céu por sobre a terra e do seu dominar

Ódio é nada amor escreve-se duplo
Se um enfraquece descolaram os dois

VI COM OS OLHOS QUE TENHO, COM ESTA ALMA QUE OLHA, 
VI CHEGAR OS CLAROS COMBATENTES, OS COMBATENTES QUE DOMINAM 
DA ESBELTA, DURA, AMADURECIDA, DA ARDENTE BRIGADA DA PEDRA. 

Que a coragem mais clara esclareça a linguagem
O homem perseguido vem a ser a perfeição futura. 

(NOTA: "As passagens em MAIÚSCULAS são extraídas de poemas de PABLO NERUDA.")

in PAUL ÉLUARD 
POEMAS POLÍTICOS
Prefácio de LOUIS ARAGON
Trad. Carlos Grifo
Col. Forma / Editorial Presença
(Págs. 66-67-68)

11.11.2015

A TERRA DOS SONHOS FELIZES de John Brunner




JOHN BRUNNER 
A TERRA DOS SONHOS FELIZES
Trad. Eurico da Fonseca

"– Bem, será apenas durante algum tempo. Apertemos os cintos!
Depois tinham notado: 
– Os outros ainda estão piores do que nós. 
Mas agora gritavam: 
– Esses ladrões da ONU! 
«Qual é a alternativa? Legislar o canibalismo!»
Fora o que o secretário-geral Pafiq afirmara no seu último relatório sobre o estado do mundo, na sessão plenária da ONU, em Nova Iorque. E Greville, que o vira através do sistema de televisão interna do edifício, notara que, na expressão do seu rosto, não houvera qualquer traço de humor. 
Bem, sempre havia paliativos. Diretivas sobre o uso do combustível, da energia, das matérias-primas essenciais. Não se gastava no aquecimento central o gasóleo que podia ser consumido por uma locomotiva. Não se via televisão com a eletricidade que podia conduzir vigas de aço através de uma trefilaria. Nem se construía um teatro com o cimento que podia servir para outro bloco de apartamentos. 
E depois viera o inevitável: não se andava com um lugar vazio no carro se alguém mais seguia para o mesmo destino. Não se dormia com dois compartimentos vazios em casa, se havia na cidade quem não tivesse onde dormir. 
Nos meados do século XX, a população fora de dois mil e quinhentos milhões. No fim do século alcançara seis mil e quinhentos milhões. Agora era de mais de oito mil milhões! A todo o momento surgiam milhares de novas bocas, a gritar de fome! Milhares de novos corpos que precisavam de ser vestidos! Milhares de novos espíritos exigindo educação, informação, divertimentos! 
O trabalho que Lumberger estava a fazer ali – um homem, um laboratório, meia dúzia de culturas experimentais – podia ter sido feito antes de 1970. Os desertos, em todo o mundo, teriam sido reduzidos a metade. Mas cada vez eram maiores. Um programa devidamente orientado, nos anos 70, teria tornado uma realidade a cultura dos mares, conservando os recursos de peixe e de plâncton, em vez de se servir deles como de uma conta bancária infinita – e desastrosa. 
Que aconteceu em consequência de tudo isso? No fim do século tinham gritado pelo Doutor Nações Unidas para que viesse curar um doente cujo estado se tornara mais grave devido aos curandeiros do que aos verdadeiros males. 
Com a falta de papel, de energia e de artigos de luxo – como os sorvetes e refrescos – e a necessidade de fabricar charruas, ceifeiras-atadeiras e arrastões em vez de carros e giradiscos –, não era de admirar que as pessoas perdessem a esperança. Nem que procurassem SONHOS FELIZES."
(Págs. 31-32)

O SANGUE DOS OUTROS de Simone Beauvoir



"Cada um ama a sua cada uma."

in SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros
Trad. Miguel Serras Pereira
(Pág. 54)

GOTHE




"dar muito cifra a receita de agradar a todos"

in GOETHE 
Fausto
Trad. de Castilho
Barcelos, 1963

ECLIPSE TOTAL de John Brunner




In JOHN BRUNNER
ECLIPSE TOTAL
Trad. de Eurico da Fonseca


"Ouvidos naquele ambiente, que tanto recordava a Terra longínqua, os relatórios iniciais de cada departamento pareciam mais impressionantes. Em Peat, as pessoas sentiam-se dominadas pelo passado. Ali estava a oportunidade de descobrir uma crença no futuro. 
Ian meditou até que chegou o momento de fazer o seu próprio relatório e depois repetiu mais ou menos o que ele já dissera a Nadine e a Lucas. Não lhe soou melhor que antes; mesmo assim podia reconfortar-se com a ideia de que até o conhecimento negativo era útil. 
Quando toda a gente concluiu o que tinha a dizer, Rorscharch disse: 
– Há uma coisa que eu noto, depois de os ter ouvido a todos. 
Olharam-no, em expetativa. 
– Parece-me que estão a falar como se tivessem chegado a um beco sem saída em todos os últimos caminhos que vos restavam. Estou surpreendido. Para mim, parece-me que deram constantes passos em frente. 
– Valentine? – disse Igor, com um gesto. 
– Sim? 
– Quase tens razão no que disseste. – O velho arqueólogo-chefe inclinou-se para a frente, com um copo de vinho nas mãos. – Naturalmente, em resultado da descoberta dos nossos muito esplêndidos e idênticos edifícios... em atenção a Ian não lhes chamarei «templos»!... em resultado disso nós fizemos uns progressos tremendos. Mas!...
Bebeu um pouco de vinho antes de prosseguir. 
– Mas fomos apanhados num círculo vicioso. É verdade que sabemos muito mais dos nativos do que esperávamos há ano e meio; temos tido uma sorte tremenda, o que é outra maneira de dizer que temos mantido os nossos olhos e os nossos espíritos abertos e respondemos quando alguma coisa surge. No entanto, por outro lado, precisamente porque temos reunido tantos factos novos, temos muitas, muitas mais combinações possíveis. Cada um de nós, à sua maneira, pode ser olhado como tendo o mesmo problema que Ian: portanto enquanto estamos simplesmente a reunir dados, sem um quadro imaginário onde os colocar, sentir-nos-emos mais frustrados que agradados. Pelo que pretendo propor que ressuscitemos o plano de Ian para a construção de um Draconiano simulado, e vejamos se podemos desenvolver uma boa hipótese, partindo das recomendações dele, para comprovarmos aquilo que pensamos saber. 
– Apoiado! – disse imediatamente Cathy, do lugar onde estava, ao lado de Ian." 

(Págs. 130-131)   

INÊS DE PORTUGAL




in JOÃO AGUIAR 
INÊS DE PORTUGAL 
Edições ASA, junho de 1997

"É Pedro que se aproxima agora, lentamente, enquanto fala. 
– Que sabe o mundo de juramentos, Afonso? O juramento que eu lhe fiz, a ela e não ao meu pai e à minha mãe, o juramento que lhe fiz, só esse é verdadeiro e só esse conta e só esse me prende." 
(Págs. 37-38)

Rainer Maria Rilke




Est-ce en exemple que tu te proposes? 
Peut-on se remplir commes les roses, 
en multipliant subtile matière
qu'on avait fait pour ne rien faire? 

Car ce n'est pas travailler que d'être
une rose, dirait-on. 
Dieu, en regardant par le fenêtre, 
fait la maison. 

RAINER MARIA RILKE

(É um exemplo que tu propões? 
Podemo-nos completar com as rosas, 
multiplicando a sua subtil matéria
que se criou para nada se fazer? 

Pois não se pode dizer que ser uma rosa
é trabalho. 
Deus, ao olhar através da janela
governa a casa.)

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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