12.22.2011

NA MEDIDA DOS FATOS

"Se há alguma coisa que um funcionário público deteste fazer,
é fazer alguma coisa para o público."
K. Hubbard

Enquanto nas bibliotecas públicas e demais serviços onde a administração local e central insistem em armazenar os excedentes de recursos humanos com elevado défice funcional, grosso modo conhecidos e reconhecidos, por imprestáveis e sem qualquer utilidade prática, havendo mesmo casos em que estes se escondem em secretárias barricados por estantes ou nos recantos menos visíveis das instituições, ou aos magotes de três e quatro a cortarem na casaca de quem frequenta e franqueia os portais de suas coutadas de exploração da pátria, o nosso governo, para pagar os favores dos países de língua de expressão portuguesa pelo constante e avolumado contributo em manter-nos acima dos níveis de uma Grécia, comprando-nos a dívida e investindo em Portugal nos setores energéticos como financeiros, por exemplo, aconselha aos cidadãos que têm formação, habilitações e capacidades de gerar riqueza, que emigrem, sobretudo para o Brasil, Angola e Timor que foram de entre eles os que mais nos abonaram a economia. Seria grave se não fosse ridículo. Além do que, sem a mínima dúvida, nem todos os ministros deste governo assim pensam. Sem esses em que o país tanto investiu nos últimos anos, é caso para se dizer que atirávamos fora os meninos e meninas com a água do banho!
Por outro lado, a oposição tenta justificar o calote aos credores com o «não pagamos, não pagamos» estudantil das propinas de 2000. Dizem que a folga orçamental e de cumprimento do défice troikiano deve ser usada em benefício daqueles, exatamente os mesmos, que mais oneraram os custos de manutenção do Estado, que sempre foram um excedente evidente e um peso morto na nação, os acamados do corporativismo salazarista do pós-marcelismo, tentando passar a perna ao futuro e sustentabilidade socioeconómica em benefício próprio e dos poderes instalados desde a Idade Média nas franjas da corte e erário público. Alguns refilam com razão, pois acham-se injustiçados, porque enquanto estiveram fora do aparelho de mordomias ninguém mexeu no sistema, e agora que também lhes calhava o banquete é que se andam a insurgir contra e lhe querem acabar com a mama. Entre estes os profs. da ensinança da língua portuga pelas quatro partidas do mundo, tudo gente de bom viver e melhor maneirar, a quem se paga à barba-longa para andarem de monte em monte a difundir o galaico e fumar uns porros.
De somenos ser, nos afiançam os entendidos analistas dos Media com fatos à medida, que muito provam saber desta coisa de não fazer nada mas ter sempre razão, e que engrossam o número dos que olham de mãos nos bolsos logo que encontram alguém a trabalhar, dando indicações e palpites sobre a melhor maneira de executar a tarefa. Os peritos, ou aqueles que há muito deixaram de pensar porque sabem tudo. Treinadores de bancada da política nacional, usam impreterivelmente o plural majestático para acorrentar às suas opiniões a indecisão e alheamento das audiências, principalmente quando pretendem proferir asneira grossa mas sem lhe sofrer as consequências, demonstrando mais uma vez que isso das procurações e cheques em branco se passam em Portugal a torto e a direito à vista da lei para evitar a desordem. E safam-se, os intelectuais! Os críticos! Os dissidentes! Principalmente agora, a que não falta quem tenha razões de queixa por lhe bater também à porta – e à carteira – alguma medidinha de austeridade no fato que lhe assenta, afinal, por medida e que tão bem costuraram. Ou exigiram que lhe costurassem, através do voto e ordenações.
Desconfio, porém, que de nada lhes servirá esbracejar e fazerem salamaleques aos superiores do patronato, a não ser para mostrarem o fio dental, que é isso o que calha a quem muito se abaixa...

12.19.2011


PARA GRANDES MALES, GRANDES REMÉDIOS

“(…)
Deste País das Maravilhas
Que levam quase a sério.
A inspiração se esvai: narrar
Drenou seu poço e, embora,
Quem fatigado a conta queira
Adiar um pouco a história,
«Mais tarde eu conto», alegres vozes
Gritam «Mais tarde é agora!»
(…)”
In Lewis Carroll, Alice no País das Maravilhas


A globalização é um fato e contra este género de constatações não há argumentos que valham. Por outro lado, temos a crise, nacional e conjuntural, que nos impõe frugalidade e excelência nos consumos, mas principalmente nos comportamentos, coreografia, exotismos e atitudes. Alguns e algumas terão dificuldade em adaptar-se às novas circunstâncias, é certo, todavia, devem manter acesa essa centelha de esperança que acalenta tanto as almas superiores e confiantes como as mais céticas, preconceituosas e primárias.
Não desconheço que a procura do genuíno, raro, precioso e fantástico é uma demanda de nossos tempos, como noutros o foi a Terra Prometida, o Santo Sepulcro, o El Dourado ou Elixir da Juventude. Porém as coisas mais belas e extraordinárias que a vida nos pode conceder, estão ao alcance de todos, e para delas usufruir com mestria e ótimo desempenho, apenas cada qual precisa simplesmente de fechar a boca, sem qualquer habilitação especial, diploma, iniciação/prática esotérica ou brevet, e sequer lugar eleito, adequado e utópico: respirar e amar – nem mais, nem menos!
Para quem seja muito exigente e careça de concentração máxima, até pode recorrer ao exercício radical de fechar igualmente os olhos.
Nada mais simples. E se houver ainda alguém para quem o simples é deveras complicado, a quem só aquilo que é caro dá valor, então pode sempre recorrer a ambientes de luxo, suites imperiais e ar engarrafado, como o da Guarda ou Covilhã, música inspiradora e conselhos hard-core dos realizadores mais ousados da indústria da imagem.
Mas é um desperdício… Mesmo as ostras, se boas e frescas, como são melhores, é ao natural!
Respirar com a boca fechada obriga que os pelos do nariz desempenhem a sua função de filtrar as impurezas que no ar há, para não nos adentrarem para o sistema; e fechar a boca enquanto se faz amor, evita que se pronuncie o nome de alguém em que se pense enquanto se não está com ela (ou ele) que a substitui. Evitar que a/o ausente se transforme em intrusa/o é uma ótima opção para quem gosta de fazer duas coisas ao mesmo tempo (sem sacrifícios de maior). Ainda restam dúvidas da utilidade do recurso?
Sejamos sinceros. Já não nos restam muitos mais anos para fazer experiências de complicar apenas porque sim. Está fazer-se tarde para humanidade e, embora ainda haja quem pense que mais tarde é agora, do que não devemos esquecer-nos é que isso era verdade, sim, mas… ontem. Nos princípios do século passado!

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue