La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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11.13.2009


Bruxelas, 12 de Novembro de 2009
Alterações climáticas:



Relatório intercalar mostra UE na boa via para cumprir, até mais do que o exigido, os limites de emissões de Quioto
A UE está no bom caminho para cumprir os seus compromissos de redução ou limitação das emissões de gases com efeito de estufa no âmbito do Protocolo de Quioto, revela o relatório intercalar anual da Comissão relativo às emissões. As projecções mais recentes indicam que a UE-15 cumprirá o seu objectivo de 8% de redução no âmbito de Quioto. Dez dos restantes 12 Estados-Membros têm também compromissos próprios impostos pelo Protocolo. Prevê-se que reduzam as suas emissões para 6 ou 8% abaixo dos níveis do ano de referência. Este resultado será conseguido através de uma combinação de políticas e medidas já tomadas, compra de créditos de emissão a projectos de países terceiros, aquisição de licenças e créditos por participantes no regime de comércio de licenças de emissão da UE e actividades de silvicultura que absorvem carbono da atmosfera.
Nas palavras do Comissário Stavros Dimas, responsável pelo pelouro do Ambiente: "Estas projecções consolidam ainda mais a liderança da União Europeia no cumprimento dos nossos compromissos internacionais de combate às alterações climáticas. Indicam que a UE-15 vai a caminho de cumprir o seu objectivo para 2008-2012 no âmbito de Quioto. E, com o pacote comunitário relativo ao clima e à energia, adoptado também este ano, pusemos já em acção as medidas básicas para reduzir bastante mais as emissões que produzimos – pelo menos 20% em relação aos níveis de 1990, até 2020. Nenhuma outra região do mundo ainda o conseguiu. Mas um corte de 20% não basta para prevenir uma perigosa alteração do clima. Por isso, a UE apostou em elevar a fasquia da redução para 30%, sob condição de outros grandes emissores darem o seu justo contributo para um acordo mundial ambicioso na conferência do clima, a realizar em Dezembro em Copenhaga. É fundamental que os nossos parceiros do mundo industrializado e as grandes economias emergentes assumam as suas responsabilidades."
Compromissos de Quioto
No âmbito do Protocolo de Quioto, os 15 países que eram Estados-Membros da UE quando o Protocolo foi assinado (UE-15) devem reduzir as suas emissões colectivas de gases com efeito de estufa no período 2008-2012 para 8% abaixo dos níveis de um dado ano de referência (na maioria dos casos, 1990). Este compromisso colectivo traduziu-se em diferentes objectivos nacionais de emissão para cada Estado-Membro da UE-15, que a legislação comunitária torna vinculativos.
Não existe objectivo conjunto para as emissões da UE-27. Dez dos doze Estados-Membros que aderiram à UE em 2004 e 2007 comprometeram-se individualmente no âmbito do Protocolo a reduzir as suas emissões, até 2008-2012, para 6% ou 8% abaixo dos níveis do ano de referência. Apenas Chipre e Malta não estabeleceram objectivos em matéria de emissões.
Projecções para a UE-15 e a UE-27
Conforme foi anunciado em Maio (cf.
IP/09/851), as emissões de gases com efeito de estufa da UE-15 em 2007 – o ano mais recente em relação ao qual se dispõe de dados completos – ficaram 5,0% abaixo dos níveis do ano de referência, em contraste com um crescimento económico de cerca de 44% durante o mesmo período. Quanto à UE-27, globalmente, as emissões diminuíram 12,5% entre o ano de referência e 2007.
Por outro lado, a Agência Europeia do Ambiente estima que, em 2008, as emissões dos Estados-Membros da UE-15 diminuíram ainda mais, para 6,2% abaixo dos níveis do ano de referência. Para a UE-27, a estimativa actual é de emissões 13,6% inferiores às do ano de referência.
O relatório intercalar da Comissão
[1], baseado nas projecções mais recentes dos Estados-Membros[2], mostra que, no período de compromisso 2008-2012, as políticas e medidas em vigor – isto é, já aplicadas – deverão reduzir as emissões da UE-15 para 6,9% abaixo dos níveis do ano de referência.
Os planos de dez dos Estados-Membros da UE-15 de comprarem créditos associados a projectos de redução de emissões executados em países terceiros ao abrigo dos três mecanismos de mercado previstos no Protocolo de Quioto – comércio internacional de emissões, desenvolvimento limpo e implementação conjunta – aumentariam a redução em 2,2 pontos percentuais, elevando-a para 9,0%
[3] e, desse modo, indo além do compromisso da UE no âmbito de Quioto. Prevê-se que a aquisição de licenças e créditos pelos operadores do regime de comércio de licenças de emissão da UE gere uma redução suplementar de 1,4%.
As actividades previstas de florestação e reflorestação, que criam 'sumidouros’ biológicos nos quais é absorvido o dióxido de carbono atmosférico, contribuiriam com um corte adicional de 1,0%.
Por sua vez, com as políticas e medidas em discussão, se integralmente postas em prática, seriam possíveis reduções até 1,6%. Consequentemente, o valor total da redução seria de cerca de 13,1%3, dando uma ampla margem de segurança para se alcançar o objectivo de 8% de redução.
Prevê-se que todos os dez Estados-Membros da UE-12 que fixaram objectivos no âmbito de Quioto cumpram ou ultrapassem os seus compromissos.
A actual incerteza acerca da duração e da gravidade da recessão económica e, portanto, do seu impacto nas emissões poderá levar à revisão das projecções logo que as perspectivas se tornem mais claras. Além disso, as projecções de alguns Estados-Membros podem estar a subestimar futuras reduções nas emissões, porquanto não têm ainda em conta o pacote comunitário relativo ao clima e à energia, adoptado há alguns meses (cf.
IP/09/628).
Refira-se ainda que a metodologia utilizada para calcular o efeito do regime de comércio de licenças de emissão da UE carece de aperfeiçoamento. São necessárias metodologias e pressupostos sólidos e coerentes para se obter uma projecção mais precisa dos efeitos do regime.
As projecções das emissões de gases com efeito de estufa devem ser consideradas na perspectiva das reduções efectivas já alcançadas, que foram de -9% para a UE-27 e de -4% para a UE-15 entre 1990 e 2007. Por conseguinte, os esforços de redução terão de ser substancialmente acelerados no futuro em toda a UE para se poder alcançar o objectivo de -20% ou -30% até 2020.
Outras informações:
O relatório intercalar está disponível em:
http://ec.europa.eu/environment/climat/gge_progress.htm
Página Web da DG Ambiente sobre alterações climáticas:
http://ec.europa.eu/environment/climat/home_en.htm
Comunicado de imprensa da Agência Europeia do Ambiente:
http://www.eea.europa.eu/pressroom/newsreleases


Para mais informações sobre assuntos europeus:
http://ec.europa.eu/portugal/index_pt.htm
[1] Progressos na realização dos objectivos de Quioto. Comunicação da Comissão. COM(2009) 630
[2] Segundo a compilação de projecções da Agência Europeia do Ambiente.
[3] Valor arredondado.

11.09.2009

Política Criativa...
A crise bate forte e os políticos vêem-se forçados a poupar nas férias, trocando o hotel ou o aldeamento turístico pelo parque de campismo. As situações multiplicam-se: enquanto Louçã e Bernardino Soares fazem um churrasco com Manuel Pinho, a ministra da saúde vacina Mário Lino, e Oliveira e Costa espreita para fora das grades da sua roulotte. É o cartoon de António Martins, que já é um clássico !
©Ilustração António Martins

E mais um brinde que me chegou por mail... Como a assinatura do autor está difícil de ler, a autoria fica registada por ela mesma, e pronto, que o tempo não está para milagres!



11.07.2009



Da Ilha do Príncipe aos Confins

do Universo

Paulo Crawford
Fundação Calouste Gulbenkian
11 Novembro 2009 18h00


A contemplação dos céus constituiu desde sempre uma fonte de inspiração para os seres humanos. O firmamento e os astros eram o reflexo do que se passava na Terra, por vezes idolatrados, outras vilipendiados, marcando pela sua presença constante os ritmos da vida social. O modo de olhar e de compreender o nosso planeta e as suas características influenciou de forma igualmente poderosa o pensamento sobre o cosmos e os seus componentes. Pode-se dizer que o conhecimento dos astros e o saber sobre a organização das sociedades humanas sempre funcionaram como um jogo de espelhos.

Por esse motivo, quando em 1610 Galileu publica o “Siderius Nuncius” (o Mensageiro dos Céus) a mensagem que se anuncia é a da formidável revolução científica e social que a modernidade então encetava. A natureza iria igualmente revelar as suas leis, tal como qualquer sociedade civilizada, em benefício da humanidade. E, de facto, descobriram-se novos horizontes e as fronteiras do cosmos caminharam para o infinito, no espaço e no tempo. O Universo das vozes e das súplicas transformou-se num mundo de luz. Uma riqueza imensa e inesperada de novos fenómenos emerge desta extraordinária exploração, que urge apreender e compreender.

O Ano Internacional da Astronomia celebra precisamente este formidável empreendimento. A Fundação Calouste Gulbenkian, a Associação Cientistas no Mundo e o Centro Ciência Viva de Constância colaboram nesta comemoração, dando a conhecer a todos o mundo em que vivemos, a sua beleza e a sua dinâmica, mas também o entusiasmo e a imaginação daqueles que diariamente interrogam e questionam as suas fronteiras.

João Caraça, Director do Serviço de Ciênciada Fundação Calouste Gulbenkian




O grande triunfo da teoria da Relatividade Geral (RG) teve lugar após a observação do encurvamento dos raios luminosos, durante o eclipse de 29 de Maio de 1919, realizada por Arthur Stanley Eddington na ilha do Príncipe e Andrew Crommelin no Sobral, Brasil. Estas expedições tinham por objectivo verificar o encurvamento dos raios luminosos no campo gravítico do Sol. Na altura, a preocupação dos astrónomos ingleses era decidir entre a teoria da gravitação de Isaac Newton e a RG, a nova teoria da gravidade de Albert Einstein. Quando em Novembro desse ano é anunciado em Londres que estas medidas confirmavam as previsões da RG, Einstein é aclamado como o génio que destronou Newton. Torna-se de um dia para o outro, aos olhos da opinião pública, no maior e mais famoso cientista de sempre, com a popularidade de uma estrela de cinema, cujas opiniões científicas, políticas ou morais passam a ser escutadas com respeito e admiração.
Nesta palestra recordaremos o contexto em que decorreu a expedição de Eddington à Ilha do Príncipe para verificar a RG, e discutiremos dois aspectos diferentes desta experiência crucial. Em primeiro lugar, avaliaremos o suposto preconceito de Eddington a favor da RG e mostraremos que os investigadores envolvidos nestas observações e na análise dos resultados tinham boas razões para concluírem a favor da teoria de Einstein. Depois tentaremos responder a algumas questões simples tais como: Qual foi o impacto em Portugal da expedição de 1919 que teve lugar em solo sob administração portuguesa? Porque é que os astrónomos portugueses não acompanharam Eddington? Qual era o perfil da comunidade astronómica (portuguesa)? Em que temas trabalhavam? Até que ponto seria a teoria da relatividade apropriada por eles? Teria a RG desempenhado algum papel em investigações posteriores?



Paulo Crawford é actualmente Coordenador Científico do Centro de Astronomia e Astrofísica da Universidade de Lisboa.

É Doutorado (1988) e Agregado (2000) em Física pela Universidade de Lisboa. Embora tenha iniciado a sua preparação científica na área da Gravitação no King’s College da Universidade de Londres sob a orientação do Prof. John Taylor, apresentou o seu doutoramento na Universidade de Lisboa em 1987, sendo o primeiro doutorado desta área em universidades portuguesas.
Criou uma linha de investigação de Gravitação e Cosmologia no final dos anos 80, primeiro integrada no Centro de Física Nuclear e a partir de 2000 no Centro de Astronomia e Astrofísica.

Orientou os primeiros doutoramentos de Gravitação e Cosmologia na Universidade de Lisboa, onde rege desde 1983 um curso de Relatividade e Cosmologia.

Tem mais de 40 publicações em revistas internacionais.


Áreas Científicas Principais:

· Cosmologia Relativista: Soluções Cosmológicas Exactas Espacialmente Homogéneas e Anisotrópicas.
· Universo Primitivo: a interface entre a Cosmologia e a Física de Partículas;
· A estrutura causal do espaço-tempo: Buracos Negros e Buracos de Minhoca (“Wormholes”).
· Outras Teorias da Gravitação. Unificação da Física.
· História da Relatividade.




Fundação Calouste Gulbenkian Auditório 2
Transmissão directa nos espaços adjacentes
Videodifusão
http://live.fccn.pt/fcg/

Informações Serviço de Ciência
Fundação Calouste Gulbenkian
Av. de Berna 45A – 1067-001 LISBOA
T. 21 782 35 25 F. 21 782 30 19
E.
fronteiras.universo@gulbenkian.pt
www.gulbenkian.pt/fronteiras.universo


Próximas conferências:
_________________________9 Dezembro 2009 18h00 The New Age of Discovery in Astronomy* Robert Kennicutt
Institute of Astronomy, University of Cambridge
*Tradução simultânea
_________________________7 Janeiro 2010 17h30 O Dia em que nasceu a Ciência João Caraça
Fundação Calouste Gulbenkian

19h00 Observações astronómicas de Júpiter
_________________________
24 Fevereiro 2010 18h00 Nas Fronteiras da Gravitação Vitor Cardoso
Centra Instituto Superior Técnico, Universidade Técnica de Lisboa

11.05.2009






Ranking das escolas: ensino ou instrução?

Num país em que a educação nunca foi solução mas problema, vejam-se as cunhas que são metidas e os meios usados por determinadas pessoas com o fito de obter um diploma, nunca com o sentido de evoluir numa melhor educação, neste país em cada qual faz gala de exibir na testa o seu grau académico, a questão dos “rankings” escolares teria forçosamente de ser distorcida.
Neste país, a maioria dos pais, seja por fraca escolaridade, seja pelo tempo gasto a trabalhar, só se deslocam às escolas quando são chamados a resolver algum problema relacionado com o seu filho ou para resolver algum problema burocrático, matrículas, receber os boletins de avaliação, etc.
Quando o povo desconhece melhor enganado é.
Vamos então ao meu peixe.
Os “rankings” agora apresentados e que o senhor director do jornal “Público” tanto pugnou para publicar, representam e são o quê?
Nada mais representam que a média matemática obtida pelos alunos de uma dada escola na execução de um exame em comparação com os alunos de outra escola, de condições físicas, sociais, culturais e económicas absolutamente diversas.
Representa esse dado só por si a qualidade ou não de um estabelecimento de ensino por comparação com outro que ocupe um lugar mais baixo?
A minha resposta é clara: não!
Os resultados obtidos pelos seus alunos nos exames é um indicador que as escolas deverão ter em linha de conta para elaborarem os seus projectos educativos mas apenas isso e só, um indicador entre muitos mais que fazem com que eu considere uma escola boa para ensinar a minha filha ou não, e esses factores são independentes do facto de ela obter boas, assim-assim ou maus notas mas que lhe permita um crescimento equilibrado, saudável e sem complexos.
O sistema de ensino português começa por estar falsificado quando são impostas quotas de acesso aos cursos do ensino superior, isto leva a que muitos jovens sejam afastados do curso que gostavam para outro do qual gostam assim-assim porque não obtiveram nota suficiente para isso. Por outro lado, outros jovens empurrados pela família, devido ao prestígio e à nota alta exigida, também vão escolher cursos para os quais não se sentem vocacionados mas porque são esses os cursos dos “mais inteligentes”, os cursos em Sr. Dr. ou Sr. Eng.º quer dizer isso mesmo e dão prestígio social.
O problema não é fácil de resolver, para mais num país que apesar de pequeno, produziu até hoje legislação educativa inversamente proporcional ao seu tamanho. Nem o douto Dr. João Pedroso, conhecido jurista, se entendeu com as mais de sete mil leis, despachos, normativos, etc. que a um só tempo, e quantas vezes contradizendo-se entre si, regulam o sistema de ensino português.
Nem Kafka, nos seus melhores dias, sonharia com tal burocracia.
Em frente...
Ora esta pressão da nota motivada pelo “numerus clausus” vai implicar nas famílias e nos jovens uma inusitada pressão na nota do ensino secundário a ser obtida.
É claro que no meio de tal confusão todos, talvez com excepção dos professores, se estejam a marimbar para a qualidade do ensino pois o que querem é notas altas e para obter esse desiderato vale tudo, até facilitar, imbecilizar ao máximo os enunciados das provas de exame.
Antigamente oferecia-se uma galinha ou um porco ao professor, como isso hoje é difícil, arranja quem pode, uma escola privada que garanta a nota necessária ao rebento.
E aqui estamos a falar de instrução, não de educação, isto é, treina-se massivamente o aluno a resolver uma série de questões e problemas de uma forma cada vez mais automática, como se da condução de um carro se tratasse e não é por acaso que a aprendizagem da condução, bem como os preceitos da tropa se chamam precisamente instrução.
E é esta a prática nas vinte primeiras escolas do “ranking” português, curiosamente todas privadas.
Estas escolas não têm ou “produzem” alunos inteligentes? É claro que sim, até porque fazem à partida uma selecção de conhecimentos, alunos que não passem na prova de acesso não entram. Mas o objectivo é a nota, juntem agora alunos escolhidos quase a dedo e que já por si são dotados a serem instruídos para os exames...
Depois temos as pobres das escolas públicas, vagueando de ano para ano, pelos lugares mais fundos do “ranking”.
Aliás não é por acaso que a divulgação dos “rankings”, fazendo a vontade a alguns pseudo-ingénuos e pseudo-defensores da qualidade do ensino, encarnados pelo director do “Público”, José Manuel Fernandes, coincide com a maior ofensiva desde sempre à Escola Pública quer por privados (o que é normal) mas sobretudo da parte do governo da nação.
O que está por detrás da nuvem de fumo que são os “rankings” esconde-se a tempestade da destruição de toda e qualquer credibilidade do ensino público, com o intuito de entregar também a educação à esfera privada, limitando-se a escola pública a dar guarida aos filhos dos pobrezinhos que não têm dinheiro para pagar a escola privada, aquela que garante não só a nota de acesso ao curso desejado, mas também e curiosamente, a entrar nas universidades públicas porque essas sim são reconhecidamente melhores que as privadas e também muito mais baratas.
E assim, na Democracia portuguesa o ensino continua a ser feudo de uma estrita e rica e burra elite (salvo excepções).
Entra pois aqui a questão das escolas públicas e o pomo fundamental desta minha arengada: a Educação.
Educação pressupõe a aquisição por um indivíduo, normalmente com a ajuda de um professor ou tutor, de um conjunto de instrumentos, capacidades ou competências que lhe vão permitir no futuro e de forma autónoma ou em equipa, dar resposta a novos desafios e a encontrar diferentes soluções para os problemas mais ou menos complexos que lhe são colocados.
Resumindo: enquanto a instrução formata e limita o indivíduo a responder de forma condicionada e automática; a educação liberta-o para encontrar soluções criativas e inovadoras.
Terminarei apresentando um exemplo que talvez vos esclareça melhor que todo o meu “parlapiê” antecedente.
Há cerca de quatro anos, numa escola do concelho de Sintra, saúdo a coragem camarária que num concelho desta dimensão fornece gratuitamente os manuais escolares a todos os alunos do 1º ciclo, esta escola contava na altura com oitocentos alunos, do jardim-de-infância ao 4º ano do 1º ciclo. Edifícios envelhecidos, computadores do tempo da outra senhora, casas de banho nem sempre a emitir os melhores cheiros, árvores, barreiras, muros, perigos... Mas nos intervalos, recreios cheios da alegria das 800 crianças.
Ora, há quatro anos foi esta escola objecto de uma avaliação externa promovida pelo Ministério da Educação. Da equipa avaliadora, composta por três pessoas, duas delas nomeadas pelo Ministério apresentavam trabalhos de investigação em Educação e estavam ligadas ao ensino universitário, a outra pessoa era inspector do ME.
Entre os 800 alunos desta escola foram registadas 22 nacionalidades diferentes, alguns não conhecendo uma palavra de português quando entravam na escola, havia cerca de uma dezena de alunos de etnia cigana, uma panóplia de religiões e culturas, vários alunos com síndroma de Down, com diferentes graus de autismo, com paralisia cerebral e outras afecções físicas e psicológicas, abreviando para não maçar. Além destas crianças ainda havia que contar com alunos portadores de défice cognitivo acentuado e todos aqueles que ninguém sabe bem porquê têm dificuldades de aprendizagem.
Mas apesar dos parcos recursos disponibilizados pelo ME, das condições dos edifícios e salas de aula, os alunos em cadeira de rodas iam à casa de banho ao colo dos respectivos professores, quando a saúde ou idade das funcionárias não permitia fazer essa espécie de serviços. Apesar de tudo contra, nenhum destes alunos ficou para trás, nenhum destes alunos ficou sem ter a atenção devida, nenhum foi deixado ao abandono, nenhum foi segregado. A alegria da escola era vê-los brincarem todos juntos nas horas do recreio.
À equipa de avaliação foram-lhes disponibilizados todos os documentos que aprouveram por bem consultar, contactaram com alunos, professores, funcionários, representantes dos pais, representantes da comunidade e de comunidades estrangeiras (Casa da Guiné, por exemplo), representantes das autarquias (Junta de Freguesia e Câmara Municipal), conselho de docentes, conselho pedagógico, conselho executivo e assembleia de escola.
É claro que também tiveram acesso aos resultados que os alunos obtinham nos exames nacionais do 4º ano de escolaridade, os quais nem sequer eram muito famosos.
Esta Escola foi avaliada em todos os itens entre Bom e Excelente.
Compreenderam a diferença entre educar e instruir?
Então perceberão agora melhor a verdadeira importância e o lugar devido aos “rankings” dos exames.
E o lugar, que todos devemos exigir nos estabelecimentos de ensino público, porque pago pelos nossos impostos, à Educação.
Nas escolas privadas farão como muito bem lhes aprouver, desde que o dinheiro para a brincadeira não saia do meu bolso.


Jaime Crespo

11.04.2009



Apologia Digital
:porque o futuro não se recorda, inventa-se



"«o pobre só vai para a frente quando tropeça»,dizia o meu avô."
Baptista-Bastos, in Cão Velho Entre Flores

As pessoas que lêem são capazes de tudo; eu, até já fui à Turquia! Outros, não contentes com essas aventuras de ir e voltar, foram mais longe ainda, e disseram o indizível e inaudito, por exemplo, Fernando Pessoa teve o desplante e o descaramento de afirmar que a pátria dele era a língua portuguesa, coisa que carece de substância, pois ninguém vai à tropa pela língua, nem trava batalhas de afirmação da soberania e demais patetices que isso acarreta, do género e semelhante quilate, que é para tanto que há pátrias e sentimentos de nacionalidade, bairrismos da futilidade e corporativismos confederados, tipo somos todos brutos e uns bocanas sem emenda mas temos uma bandeira com que espanejar a História e as frustrações derivadas da nossa pequenez e insignificância. Seja, portanto, que o Fernandinho faleceu há muito e às vezes até bebia o seu copinho, coisa que, como todos muito bem sabemos, inspira grandemente essa arte da asneira aqui, asneira ali, nos ziguezagues da vida, porém não vejo desculpa para lhe andarem agora a repetir as boutades, só porque entendem ser esse o melhor caminho para não chegar a lado nenhum que é o marketing intelectual, espécie de diz-que-disse que defende os menos corajosos do banco dos réus e dos critérios de qualidade, de escrita como de pensamento, estéticos como éticos, e do rigor genial, convenhamos, como sustenta Tabucchi ( http://www.elpais.com/articulo/portada/Antonio/Tabucchi/casa/cuestas/elpepuculbab/20091031elpbabpor_2/Tes ) porque O Tempo Envelhece Depressa, para quem a língua, quer dizer, o italiano, não só é a pátria portátil, mas também a casa que pode levar às costas, tipo caracol ronhoso, para onde quer que vá, exactamente essa casa onde pode guardar os milhentos livros da sua biblioteca pessoal toscana, ou o idioma (software) com que processa os seus sonhos, por mais incongruentes que se manifestem, com que escreve e pensa, talvez sob a influência dessa gripe mental, sem vacina nem antídoto à vista, que é produto da sociedade da informação e da comunicação, vulgarmente conhecida por computadoradependência, que vem delapidando as gentes mais toscas e rústicas, nascidas fora da Toscânia, é certo, neste sertão ibérico, por exemplo, que embora reconheçam que não conseguem fazer nada de jeito sem o seu portátil(zinho), não permitem aos alunos nem ao sistema de ensino, que façam do Magalhães o mesmo que Pedro Ramus fez do livro: instituiu-o como instrumento didáctico-pedagógico por excelência, transformando o sistema de ensino e escola naquilo que hoje é, em detrimento da (pari)patética que fora desde a Antiguidade Clássica, por muito generosa e profícua de certos e errados que tivera sido, nos maniqueísmos da (nossa) desgraça ocidental.
Senão, vejamos, de uma vez por todas: José Saramago, alguma vez teria ganho o Prémio Nobel da Literatura, se não usasse para escrever um computador, que inicialmente era simplesmente uma máquina de escrever com mais funções e melhor rendimento, também chamada de processador de texto? Era ó tinhas! Os compêndios escolares algumas vez teriam a qualidade gráfica e a excelente disposição/paginação que hoje apresentam se não fossem compostos, paginados, fixados por meio de computadores? Vai lá vai! As centenas, duas e mais quaisquer sessenta ou setenta mil, para ser mais exacto, de falantes desta língua de trapos que é o portuga, com seus dialectos bem e mal amanhados, crioulos e miscegenações várias, estariam contactáveis, logo unidos, em qualquer parte do globo depois da diáspora que sofreram, se não houvesse a possibilidade de usarmos os computadores em rede, e as comunicações on line, como hoje fazemos? Uma ova, é que podíamos!
Então, se querem armar em intelectuais, fazer popas e franjas de modernice, meus mestres de meninos e meninas a quem a retouça corporativista agrada mais que o trabalho útil, necessário e correctivo de assimetrias e desigualdades, vão chupar caroços de manga e deixem os Magalhães em paz, porque eles fazem parte e são imprescindíveis às navegações do futuro da nossa língua, que não é, nem pode ser pátria nenhuma, mas sim um instrumento de trabalho e entendimento, uma ferramenta da comunicação, uma arte e uma fábrica de símbolos, tanto como a pintura, que dá para casas e muros, bandeiras como quadros, e não é por isso que passa a ser pátria de ninguém com o mínimo de juízo, entre pessoas comuns, normais, que têm mais que fazer do que largar umas asneiras graciosas para dar nas vistas e promover as suas infortunadas criações, que de outra forma, continuariam a cruzar as águas do desconhecimento e do anonimato, como qualquer cacete de boieiro no alto mar e à deriva. Porque se até o tempo envelhece depressa, isso acontece sobretudo, quando a memória para admitir a mudança e o progresso, bem precisa, em vez de pensar o futuro, como seria lógico e desejável, e prefere recordá-lo.
E recordar, seja o que for, se o não tivermos vivido antes nunca será coisa de levar a sério, nem sugestão de temperança, a não ser entre os condutos sem pão da finória latinidade, que confundem cultura e língua com visco de armar aos tolos: há quem caia, sim senhora, mas mal dá pela manha, atira forte gargalhada aos ares, sacode as vestes e vai à vida, que matreirice de literato não enche gorpelha nem mata a fome a viventes. Mesmo a de espírito, que também muitos há que dele andem magros. E anorécticos!

10.27.2009

LANÇAMENTO DO LIVRO
O GRANDE FEITICEIRO AMARELO
31 de Outubro, 17h, no Lugar do Desenho
TEXTO: HELENA OSÓRIO
ILUSTRAÇÃO: JÚLIO RESENDE



O livro é publicado pela Animedições com o apoio da Fundação Júlio Resende e da Câmara Municipal de Estarreja, Sage, Arquitectos Ricardo Azevedo e Simaca.



“Trata-se de um conto para todos que mostra como é possível transformar as coisas menos boas da vida em experiências positivas, abordando de alguma forma o que os Portugueses encontraram além-mar", segundo afirma Helena Osório.







...SINOPSE



O conto, inspirado na obra de Júlio Resende em Goa, com desenhos seus inéditos, fala deum cavaleiro amarelo que se veste de ouro e não sabe sorrir. Ele vai buscar 1001 mulheres aGoa para habitarem a muralha da China onde vive com 1001 cavalos especiais – daquelesque os Portugueses, no tempo dos Descobrimentos, transportam nas suas pesadas embarcações,conhecidas por Carrancas, e à mistura com móveis indo-portugueses, rinocerontese outras preciosidades exóticas.O cavaleiro ostenta um anel mágico que o faz viajar através de um nevoeiro verde e, assim, rapta1000 goesas que dizem ser as mais fiéis e belas do Mundo (exaltadas por Camões). Rapta-asapenas para lhes oferecer um dos seus valiosos cavalos e para as tratar bem. É que, tradicionalmente,as goesas são obrigadas a queimarem-se por morte do marido. O cavaleiro salva-as!Mas, nem as 1000 goesas, nem os 1001 cavalos, o fazem sorrir. Falta-lhe mais uma, tantasquantas os cavalos.Regressa a Goa e cruza-se na praia com uma mulher diferente das demais encontradas. Umamulher que não sabe falar, o faz sentir só e o leva a rir finalmente. É uma sereia que se apaixonapelo riso amarelo do cavaleiro com dentes de ouro. Ambos mergulham no mar de Goa e transformam-se numa espécie de golfinhos sorridentes.



(Helena Osório)
UM CADÁVER NO TRAMÓIA


Almerinda Rodrigues, dezoito anos ainda fresquinhos e um palmo de cara que nos deixa estupefactos, rosto oval esticado, queixo para a frente, boca rasgada com o lábio superior em biquinho, dentes certos e favudos, cabelo negro, sedoso, encaracolado e comprido, olhos castanho-escuro, pele rosada e macia, com algumas sardas indeléveis a salpicarem o ângulo das pálpebras com o nariz agudo, de ventas alçadas e abertas, caminhava ao longo da estrada que atravessa Casal Parado, em direcção à ponte. Um carro económico seguiu-a de perto, quase lado a lado, e o motorista, talvez deslumbrado pelo recorte de suas pernas e ancas, que se adivinhavam sob a ganga das calças apertadas, cheias e musculadas, mas num desenho esguio que lhe realça as nádegas firmes e salientes, pondo a cabeça de fora do vidro, lança-lhe piropos:
«Ó borracho!! Não te faltava nada!... Nadinha. Dava-te tudo o que quisesses!... Queres ir dar uma volta, bombom?!... Contigo ia até ao fim do mundo. Até à morte, se preciso for!...»
Mas ela, mantinha-se inalterável. Não afectava ouvi-lo. Nem um pestanejar lhe arrancava, aquele desarrazoado dele. E continuava estrada fora, impassível, em passo seguro e convicto, mãos nos bolsos do Kispo verde, saco de lona a tiracolo, batendo-lhe na coxa a cada impulso da passada.
Esta atitude dela não agradou ao condutor do veículo. Ou, então, este interpretou o silêncio por um consentimento. E levou mais longe a audácia, trocando os piropos por roncos e palavras menos correntes ao linguajar das famílias.
«Dava-te uma foda, que até vias estrelas!... Não me queres chupar o cepo?!... Tens uma boca mesmo à medida dele! Aproveita filha!!... Que é de borla, e ainda tens brinde!»
Aí, ela puxa do tabaco e isqueiro, um bic amarelo de usar e deitar fora, não recarregável, e acende um cigarro, soprando as baforadas para diante, desafogada e tranquila; de seguida, após guardar o tabaco com o isqueiro dentro do maço, no espaço deixado vago pelos cigarros que lhe extraíra, num dos bolsos interiores do kispo, mexe com a mão livre no recheio do saco, apalpando-o até encontrar o que procura. Do conteúdo (estávamos ainda no Carnaval), retira uma bomba de espantar pardais das vinhas e trigais, que, sem que o automobilista se aperceba minimamente dos gestos, ateia, com o auxílio do morrão do cigarro, e atira-a pela janela do carro. A bomba de rastilho incendiado cai no banco, entre as pernas do motorista, e rebenta-lhe junto aos testículos. BUM!! – Ecoa o estrondo abafado do interior. A viatura, que o condutor desgoverna por causa da dor, despista-se e cai ao ribeiro, pouco antes da ponte e sem chegar a tocar nela.
Almerinda nem se digna a olhar para trás. Aquele acinte não lhe diz nada. Não é com ela. Ainda não tinha completado a travessia da ponte, e já o seu espírito se entretinha com outras coisas. Pouco depois, um agricultor vindo de cima, parou o tractor, de reboque carregado de vides, e correu em auxílio do sinistrado.
Almerinda é filha da única puta que existiu em Casal Parado nos últimos vinte anos, mas não lhe deve nada além do nascimento, pois foi criada e educada por uma família de mais posses que a recolheu e cuidou. Ela sabe-o e até já falou pessoalmente com a mãe. Não raras vezes deu-lhe roupas, dinheiro, bolos, embora que simplesmente em alturas festivas. No entanto, não sente que seja sua filha, nem se importa ou envergonha pela vida que a mãe leva. Sempre que pensa nisso acode-lhe à mente que tal acontece porque acontece, que não tem nada com isso, nem poder para alterar, e que se a mãe faz o que faz é porque o quer fazer. O que, diga-se em abono, é pura verdade, visto ela não exigir efectivamente nada aos seus clientes: fá-lo principalmente por gosto e uns quantos almoços ou jantares divertidos e bem regados. De resto, para os seus gastos e usos, trabalha na agricultura, nas vinhas ou pomares, em que as mulheres dos donos se não melindram ou não sabem.
Casal Parado é uma povoação dividida em quatro, de acordo e como resultado da sua rua central, que é a estrada, se cruzar com o Rio Tramóia, a que também chamam Ribeiro, no seu principal e mais antigo monumento: a ponte. Duas colinas que se encontram e terminam nas várzeas da beira-ribeiro, que férteis e bem amanhadas, retalhadas em rectângulos mais ou menos pares, os talhos, produzem a horticultura suficiente e necessária aos habitantes dos dois lados da freguesia, que o ténue curso de água separa. A meio das encostas, fronteiros e em igual altitude, os autóctones identificam o lado oriental do riacho, onde ficam as escolas primária, pré-primária e secundária, os cafés, a Junta de Freguesia, a Igreja e a casa mortuária, os supermercados, bancos, agências de seguros, clínicas médicas, restaurantes, drogarias, peixarias, prontos-a-vestir, lojas de móveis e de artesanato, por Casal Parado; e o ocidental, onde se situam as oficinas, fábricas de bolos e padarias, carpintarias, estaleiros de construção civil, fornos de cerâmica, lagares e moagens, por o Outro Lado. Mas esta é uma visão estritamente interna e vocabular, sem pretensões geográfico-administrativas, quer dos pontos de vista político e social, quer dos recursos e potencialidades.
Quem faz a cisão ambiental é a estrada. Uma estrada que não vai para mais lado nenhum depois de atravessar a povoação, extinguindo-se e ramificando-se em caminhos de cabras poucos metros além do término do alcatrão, coisa que acontece na sequência da última casa de Casal Parado. Cruzando o riacho que corre (quando há água para tanto!) de Sul para Norte, aos esses e gorgolões de bêbado, ainda que habitualmente que com um ínfimo fiozinho de água, uma quase mijadela de gato, insiste em contrariar os seus congéneres correndo ao contrário, divide a urbe entre ricos e pobres, empresários e operários, agricultores e assalariados rurais, comerciantes e consumidores; respectivamente, entre nortenhos e sulistas. A sul dela graça tudo o que é desgraça: a droga, o alcoolismo, a insuficiência monetária, carência alimentar, o analfabetismo. Mas no seu norte situam-se as vivendas tipo maison, os palacetes aristocráticos, os salões de chá, os estabelecimentos de empregado fardado a rigor, o clube, os bem vestidos e melhor montados, normalmente em viaturas ligeiras de seis mil contos média. É nessa zona que Almerinda Rodrigues vive, embora reconheça que veio da outra banda, e não descure as diferenças nem o porquê delas. Pelo menos de algumas delas.
Estudou na sede de concelho até ao 12º ano, porque a família adoptiva quis que ela o fizesse, embora não lhe admitissem a necessidade de avançar nas habilitações mais além, tirando um curso médio-superior por exemplo, ou mesmo um superior, que lhe garantisse um futuro mais risonho do que àqueles que a recolheram. Até porque, consideravam eles, proporcionar a ela tanto como aquilo que eles e os do seu sangue tinham, seria humano e católico; agora, dar-lhe a possibilidade de no amanhã ela vir a ter um estatuto social superior ao deles, isso já seria perjúrio e blasfémia. Ela sempre o soube, mas também nunca se importou. Aliás, e não obstante tenha sido uma excelente aluna, a melhor, inclusive, em algumas disciplinas – porque lhe era impossível não saber as matérias depois de assistir às aulas, já que ali estava e ouvia os professores, e dado não ter mais para fazer –, foi para a escola porque a mandaram ir, não porque quisesse ou visse nela uma maneira de realizar fosse o que fosse, sim por sentir dever de obediência àqueles que nada lhe eram, e que, contudo, a haviam trado “como se fossem”, expressão que acuidadamente gostavam de empregar, logo que se deparavam com uma oportunidade de o fazer (socialmente).
Tirou assim o Curso de Secretariado do ensino secundário e complementar, via profissionalizante, com média final de dezasseis valores, segundo reza o diploma afixado na sala da família Santana, em moldura de bronze e fundo de veludo preto. Simplesmente, ligou-lhe tanto como se o não tivesse, e, como eram escassos os empregos na época, ou porque não se preocupou em encontrá-los, o seu primeiro trabalho foi andar na apanha da fruta, do tomate e vindima, para depois seguir carreira no campo em todo e qualquer serviço que lhe solicitassem. Sabia conduzir tractores e alfaias agrícolas, tratar do gado vacum, aves de aviário, cogumelos de estufa e fazer a contabilidade dos respectivos ramos da actividade económica. E sempre que podia embrenhava-se pelos vinhedos e pomares, matas e charnecas, de espingarda de pressão de ar em punho, caçando coelhos, lebres e perdizes, se estes se descuidassem com ela. Sozinha e sem receios. As mariquices não lhe assentavam bem, e punham-na irritada e agressiva.
O dia de aniversário, em que atingiu a maioridade, passou-o a vergar a mola, na colha de tomates. À noite, então em casa, ofertaram-lhe prendas (cuecas e meias, um avental de cozinha e meia dúzia de guardanapos prò enxoval), um bolo com dezoito velas e um discurso adulto de boas-vindas, que podia resumir-se mais ou menos nisto: “a partir de hoje estás por tua conta, e nunca te esqueças que na cama que fizeres, nela te deitarás. Se quiseres continuar cá em casa, fica o tempo que te apetecer, mas começarás a participar das despesas.” Ela compreendeu: era a maioridade. Portanto, visto não ter para onde ir, acatou as regras e permaneceu. Fez as contas, e o pouco que lhe sobejou – além dos gastos gerais de manutenção, como pensos higiénicos, pasta de dentes, desodorizantes, livros, discos, revistas, café e tabaco, peúgas e cuecas, ou alguma imperial nos dias quentes de Verão, entre outras quinquilharias – meteu-o no banco, em conta individual, e sem menção a qualquer outro titular ou testamentário. Esporadicamente comprava ténis e calças de ganga, ou T-shirts e camisolas de lã. Consoante o tempo. Nesses meses o saldo bancário pouco subia. Mas nos demais em que tais despesas não ocorriam, chegava a forrar vinte contecos. Limpinhos e sem espinhas.
Durante o estio usava, de conjunto com os ténis e calças de ganga, uma T-shirt curta a tapar-lhe o tronco e os seios soltos. Se arrefecia um pouco, ou nas meias-estações, vestia-lhe por cima uma camisola de lã de gola redonda, a rodear-lhe o pescoço esguio. Se era Inverno ou frio dele, punha por sobre as duas o kispo verde com gola e punhos de malha. De mais variações apenas quando do dia da primeira comunhão, e somente porque fora obrigada, num vestido branco de ocasião, que na generalidade haviam reconhecido não lhe assentar nada mal.
Ao deitar, porém, as preocupações com o próprio corpo, tornavam-na implacavelmente meticulosa e calculista. Quase todas as noites se postava nua em frente ao espelho grande, o do guarda-vestidos, a observar-se, pálpebras comprimidas numa lâmina de olho, o cenho franzido. Abria a boca e confirmava o estado de cada um dos seus dentes. Depois, indiferente à temperatura que se fizesse sentir, descia o exame até aos seios, sustendo-os primeiro na palma da mão em concha, como que a ponderar-lhes o peso e o volume, acariciando-lhe os mamilos com a polpa dos dedos humedecida em saliva, palpando-os em volta, procurando quistos ou calosidades. Finalmente flectia as coxas para poder observar a vagina, a que, com dois dedos afastava os lábios exteriores, para melhor inspeccionar os interiores e clitóris; e seguidamente, virando-se de costas e com o auxílio de outro espelho mais pequeno, redondo, após alçar as ancas e com a mão vaga afastar as nádegas, atentar minuciosamente o ânus. Registava mentalmente as suas conclusões enquanto se deitava, vestindo ou não pijama, conforme a temperatura da noite e segundo a estação do ano, ao que adormecia assim que se estendia no leito, a perna esquerda totalmente esticada, mas a direita perceptivelmente flectida e dobrada para fora.
O leão reina na selva. Deus impera no seu reino. O homem governa no mundo do homem. E no império de Almerinda Rodrigues também não há quem mais mande e obrigue; é a ela que pertence essa tarefa. De que não abdica. Resolveu ter o seu macho, a sua casa e as suas crias. E te-las-á um dia, para reinar sobre elas, sem que nada possa desviá-la desse propósito, e não obstante todas e quaisquer riquezas ou cursos que lhe facultassem. O seu caminho há muito que fora traçado, e ela tomou-o por uma linha recta – impressionante e infinitamente recta. Segui-la-ia. Segui-la-á. A toda a hora o soube, como, aliás, o sabe agora.
Um dia levantar-se-ia cedo e começaria a procurar o seu macho, quando já se sentisse pronta e acabada para o receber, e suficientemente apta para gerar crias sãs e robustas como compete à natureza das mães que se prezam e orgulham. Mas antes desse dia, ninguém lhe poria as mãos na crica com sua autorização. E Almerinda era selvagem demais para lho fazerem sem ela permitir!... Ela escolheria o seu macho; esse macho seria o macho dela, e ponto final. Com ela era assim que as coisas se passavam. Haviam de ser. Foram.
No dia-a-dia o seu lema era economia. Não economia de poupança financeira ou de relações de produção, de bens ou serviços. Mas sim, economia de gestos, palavras e actos. Até no andar, que ela praticava direita e com segurança, o passo era dado com a medida exacta para o comprimento e flexão das pernas, a fim de manter e aproveitar o balanço do tronco e braços, ou o impulso dos pés, dos quais assentava primeiro os calcanhares para levantá-los recuperando o efeito mola propulsora do metatarso e dedos. A sua agilidade e flexibilidade eram (e são) invulgares, embora que treinadas apenas com o trabalho, os exercícios diversos que aproveitava da execução das tarefas laborais que lhe eram solicitadas, o andar de bicicleta, ou, casualmente, na caça e caminhar a pé; erguer cestos, subir às árvores, conduzir tractores, partir lenha, lavar a roupa.
Desfrutava contudo de um porém: apreciava chás de ervas naturais ou folhas e cascas de algumas árvores, não contando com a bica de todos os dias. Daí que raramente fosse ao médico por constipações e infecções menores. Ministrava-se a si própria os chás que a ocasião pedia e deixava o resto por conta do tempo, descanso e sistemas imunológico e de defesa. Ou da mezinha caseira dos três aaa: abifa-te, avinha-te e abafa-te.
Se alguém lhe perguntava porque fumava, respondia invariavelmente:
«Porque gosto, ora então!»
Mas não era verdade. Fumava para amortizar (anestesiar) o olfacto. É que, nos dias em que o não fazia, acusava uma acuidade olfactiva extrema e apuradíssima, e sentia, portanto, ou deixava-se estimular e reagir, a todos os odores e cheiros por mais leves e discretos que fossem. Os perfumes fortes, sobretudo, martirizavam-na. No entanto, os que principalmente a irritavam eram a adrenalina, o estrogénio e a luteína humanas. Por isso, para prevenir que o seu sistema endócrino a traísse e reagisse aos estímulos exteriores, quer eles fossem propositados ou espontâneos, destruía momentaneamente as suas capacidades gustativas e olfactivas, através do uso controlado e intoxicação tabágica. Pelo menos, se as não destruía, anulava-as temporariamente.
As frequentes leituras e horas de caçada treinaram-lhe os reflexos e precisão visual. Para ela, ver ao perto com nitidez e definição, era-lhe tão fácil como distinguir os mais ínfimos pormenores longínquos: uma questão de abertura ou fecho de lente, que conseguia contraindo ou distendendo as pálpebras, quais diafragmas em sucedâneo. Membranas que, se contraídas para nos fixar nos olhos, lhe deixavam uma lâmina castanha, acutilante, fria, em cada pupila, que nos obrigava a desviar os nossos, não sem que antes sentíssemos percorrer-nos um arrepio de gelo.
Nunca a ouvi contar uma anedota ou rir-se das caricaturas e ridículos humanos. A impassibilidade de quem fita o longínquo, eram a sua peculiar pose de estar em sociedade. Mas ouvia-a gargalhar com vontade enquanto brincava com os cachorros no pátio dos Santana, ou a observar os gatos a caçar no celeiro, na adega e nas medas de paus. E tinha uma gata, atravessada de siamês, de quem gostava particularmente, a Lili Marlene, lhe permitindo dormir na sua cama, junto aos pés, e para quem matava com a pressão de ar passarinhos diversos, invariavelmente pequenos, que empestavam a zona com seus chilreios e esgravatares, destruindo canteiros e distribuindo sementes, numa semeadura de torna baldia.
Mas fora às audições constantes e nocturnas, em baixíssimo volume, demasiado baixo até, se para mim estivessem sintonizadas, dos seus rocks, pops e discos de clássicos, que deveu o saber-se espiada e perseguida nas tardes de fim de Outono, em que vinha do café ou se regressava mais tardiamente do trabalho. E teve a certeza de que o era, quando, depois de abandonar o estabelecimento deu uma volta mais larga, por uma rua transversal ao quarteirão, correndo, e o foi surpreender à esquina de baixo, trinta metros antes da sua porta, tossindo-lhe propositadamente alto sobre a nuca descoberta, assustando-o e obrigando-o, numa explosão de raiva vingativa contida durante nove meses, a desvendar-lhe os seus intentos e anseios.
«Há-des pagarmas, cadela. Vaca, filha de puta!!... Há-des pagarmas!!» Vociferara ele, o perseguidor, dessa vez perseguido, qual caçador caçado, e que não era outro senão o tal motorista que se despistara, ao lado da ponte, sobre o ribeiro: António Sarraceno, avicultor, proprietário de vários aviários de codornizes e frangos, lá para os confins do Outro Lado, de estrutura atarracada e compleição pícnica, muito susceptível nos humores e temperamental, a deslocar-se ainda com a ajuda de duas muletas, por mor das fracturas sofridas no acidente, de tíbia e perónio da perna esquerda e fémur da direita. «Essa te garanto, vaca. Nem que seja a última coisa que faça nesta vida. Puta. Filha de peixe sabe nadar, não é?!...»
Almerinda cheirou-lhe a adrenalina, o que lhe fez alçar o queixo e fremir as narinas, antes de atirar para o ar uma gargalhada inumana, irada, raivosa, de despeito e provocação, a replicar-lhe:
«Eu, se fosse a ti, era o que faria, canalha. Mas se com os tomates completos eras cobarde, agora ainda o deves ser muitos mais!!...» E seguiu para casa, sem pressas, nem hesitações.
A António Sarraceno não fora fácil esconder dos médicos e polícias de segurança pública o porquê de seus testículos queimados e desfeitos, a que a medicina avançada da equipa cirúrgica dum hospital da capital, em que entrara pela porta das urgências, só conseguira salvar meio esquerdo e nada do direito. Além da vergonha e frustração, germinavam já no seu íntimo a ânsia de vingança, como resultado duma impotência que se adivinhava (com ou sem Viagra), o medo de vir a ser descoberto. Primeiro, dissera-lhes que não sabia como acontecera; e depois, lembrara-se, que se haviam, incendiado os estofos no despiste, por causa de qualquer curto-circuito ou avaria na parte eléctrica, provocando a explosão de algumas bombas de Carnaval que trazia no tablier, das quais uma se lhe viera anichar entrepernas. Ao que os doutores e policiais sorriram perante o ridículo, senão trágico, da situação; no entanto, como era a vítima a autocondenar-se, deixaram-se doutros alvitres, e não visionaram nele mais que um caso azarento, que provavelmente se devia à má estrela sob a qual tinha nascido o sinistrado. Aos médicos, quando o ambiente social o propicia, serve-lhes ainda de anedota sobre a fatalidade e azares dum provinciano, com a garantia de provocar a hilaridade geral. E quando António o soube por um enfermeiro de poucas diplomacias, em vez de se lamentar, suspirou de alívio, ganhando a certeza de que a peta havia pegado de vara e garfo. Sem sombra para dúvidas, nem enxertos de outras artimanhosices.
Naquela noite Almerinda fizera as suas inspecções físicas um tanto tardiamente para o habitual. Fora demasiado longe no escárnio e provocação, e isso, ditava-lhe que devia ficar alerta e preparada para qualquer retaliação que ele lhe aprontasse. Lera o medo nos olhos dele, e sabia muito bem, que quando um homem tem medo é capaz de fazer os impossíveis para o ultrapassar e vencer. É um desafio sobrenatural, a não descurar, superiormente à vingança que lhe estava na origem. E ela odeia surpresas... Não gosta. Assentam-lhe mal. Não lhe vão com o feitio. Nem tão-pouco das festivas e aniversariosas!...
Por conseguinte, ao retornar da rua, vai directamente para a garagem do tractor, que serve simultaneamente de oficina e carpintaria, vasculhar na sucata até encontrar um rolamento de aço, com o diâmetro sensivelmente superior a uma moeda de cinquenta paus, e uma gasta bomba de ar, com que antigamente enchia os pneus da bicicleta. A velha e de canudo, que agora tem outra!, comprada já com o seu dinheiro...
Não contara a ninguém o que se passara há seis meses atrás, nem iria fazê-lo então. Os seus problemas deviam ser resolvidos por si mesma, pensava ela. E se alguma vez viesse a sucumbir-lhes, seria porque não era apta para continuar a viver, nem prestava para procriar, pois transmitiria às suas crias os vínculos e genes dos vencidos. O que faria deles uns condenados por herança, responsabilidade que ela nunca se permitiria admitir.
Aliás, se quisesse desabafar, também não teria com quem: a sua maneira de ser, despegada e independente, inibiu os que tentaram aproximar-se e transmitiu-lhes um sentimento de inutilidade assaz forte por essas iniciativas, ténues, vãs e sensaboronas. E amigas de infância, nunca teve realmente nenhuma de que se lembrasse, porque a sua diferença de nascimento as afastava dela, ou a distanciava delas, conforme e à vez. Nem queria tê-las. A amizade só produz recordações inúteis e trastes que empecilham as mudanças. Se criamos novas. Ou partimos para outros lugares – onde se faz particularmente portuguesa e se nomeia por saudade.
Primeiro, desmontou o rolamento e guardou as dez esferas cromadas que continha, de aço, no bolso dos trocos das jeans. Depois arrecadou os aros num dos bolsos do kispo, embrulhados em plástico estraladiço, para que fizesse reboliço q. b. e lembrar-se, na manhã seguinte, de os atirar para o meio dos outros e demais sucata, quando passasse por detrás da oficina do João Brocas, ali mesmo ao fundo da Rua da Igreja. E, em seguida, desenroscou a porca de fixação do punho e varão da sola à bomba de ar, cortando-lhe a ponta, na outra extremidade com um único furo de enroscar os pipos, transformando-a num tubo oco e desimpedido. Finalmente, com o tubo na mão esquerda e o corta-arame na direita, deslocou-se aos fundos do quintal, a um molho de arames de ferro com meio centímetro de grossura, e cortou de um três pedaços de metade de metro, e duas braças de arame de zinco do rolo que estava ao lado. Voltou à garagem, e, com o auxílio do torno fixo à bancada, ajustou e prendeu os ferros ao tubo, deixando-lhes vinte e poucos centímetros de fora, um por baixo e dois pelos lados, enrolando-lhe em roda uma braçadela de arame, bem apertado e que torceu para se não soltar. Experimentou-lhe a firmeza e considerou-a satisfatória. Fez um novelo com o arame restante e introduziu-o no bolso interior, junto ao tabaco e isqueiro, no lado contrário ao da carteira. Então dirigiu-se para o quarto com tubos e ferros debaixo do kispo, a fim de destapar a bucha superior de um cartucho de calibre 12, extrair-lhe de dentro o chumbo 7 de caçar às rolas, colocar em seu lugar as esferas que trazia no bolsinho das calças, voltar a tapá-lo, rebordando novamente e apertando-o bem: enfiou-o no tubo da bomba de ar, pelo lado de que lhe sobravam os arames de ferro, e introduziu tudo no saco de lona que costumava trazer a tiracolo.
Suspirou fundo, num descomprimir de missão cumprida, e só por fim se entregou à tarefa de auto-examinar-se atentamente, para deitar-se com um sorriso de satisfação e contentamento acerca do que acabara de ver.
«Falta pouco», disse para consigo, antes de adormecer. «Falta mesmo muito pouco!...»
E adormeceu definitivamente.
Ao dia seguinte, levantou-se cedo como era seu hábito, e depois de ingerir um grande pequeno-almoço, providenciar a merenda e conferenciar com a família sobre o que era preciso e havia a fazer no talho, marginal ao Tramóia, a ladeá-lo, pegou na pressão de ar e no saco de lona, e foi à vida. Os Santana moravam em Casal Parado, mas o talho que possuíam, na beira do ribeiro, situava-se na várzea do Outro Lado. E tal obrigava-a a dar um desvio largo, curvilíneo, pela ponte; o que, diga-se, desde que estivesse bom tempo percorreria na bike. Só que desta feita, numa manhã de quinta-feira, dia de caça, que se adivinhava radiosa, ela fê-lo a pé, evitando deixar-se surpreender por qualquer encontro menos desejável.
Chegada ao talho, encoberta pelos canaviais da beirinha, retirou do saco o tubo e acoplou-o ao cano da espingarda de ar comprimido, jungindo os arames de ferro ao cano da arma, fixando-os a ele e atarraxando-os bem com o auxílio do arame que restara da igual operação na tubagem, e que trouxera, exclusivamente para o efeito, num dos bolsos do agasalho. Garantiu-se da sua firmeza e de como sem dúvida resistiria ao impacto do tiro, carregou a pressão de ar com um chumbinho e deitou-a ao longo de um rego de couves, paralelo à regadeira de batatas que iria sachar durante a manhã.
Estávamos em Novembro, e fazia nove meses que António Sarraceno mergulhara ao riacho, com a dar a cegar-lhe o conhecimento e a condução. A semana decorrera com um tempo de Primavera (e ainda estava!), a que os antigos costumam chamar o Verão de S. Martinho. Mas à noite esfriava, para, de manhã, o orvalho e a geada formarem um manto de gelo sobre as plantas e na terra amanhada em redor do caule. Simplesmente, a Almerinda isso não incomodava por aí além, nem dificultava nos seus afazeres. Todo o tempo era bem-vindo, quer fosse calor ou frio de rachar. Devemos desejar o que temos, nem mais nem menos, e apenas na exacta medida da sua existência. Principalmente o tempo.
No decurso da matina o movimento na várzea limitara-se a dois ou três grupos de caçadores que deram meia dúzia de tiros a coelhos, subindo ou descendo, pelas bermas do riacho, e raros horticultores, que andaram no amanho dos talhos. Curiosamente deixara-se surpreender por um dos cães de caça; isto é, quando deu por ele tinha-o na sua retaguarda, sem que o ouvisse ou o tivesse visto aproximar. Pensou para consigo que tal não podia repetir-se e atou o cabelo na nuca, em rabo-de-cavalo. Mas tirando o dito canino ninguém mais soube dela ou a viu, já que o talho se situava entalado entre duas sebes de canas, pelo lado do rio e a sul, com um laranjal à esquerda e pereiras por detrás.
Rés das onze horas mastigou uma sande de presunto, com o objectivo de atrasar o mais possível o almoço, que esfriara, e para o qual teria que fazer uma fogueira denunciativa da sua presença, se o quisesse aquecer. Além do que o período da refeição, são as duas horas (do meio-dia às duas) superiormente solitárias da várzea: por ser relativamente perto das casas, todos os seus ocupantes a abandonam para comerem a ver o telejornal e a telenovela da tarde. A primeira, mas que é portuguesa, e sobre a qual o povo tem manifestado aguerrido entusiasmo quando dela fala. E... não era somente ela quem o sabia. Sem vivalma no valado e as televisões ligadas, com o usual volume elevado, como fundo sonoro, nas residências dos agricultores mais próximos, tudo ali podia acontecer entrementes, sem que ninguém se apercebesse do quê.
À medida que sachava as batatas, ia também, sem nunca a levantar acima da altura da rama das batateiras, deslocando para perto de si a pressão de ar, cuidando em tê-la sempre ao jeito de pegar a qualquer momento. O cabelo preso facultava-lhe melhor acuidade visual e auditiva, e a expectativa a que adicionava voluntária e propositadamente um pouco de fome, afinavam-lhe a capacidade de resposta e rapidez de reflexo, tal como ela queria que fosse e sabia que aconteceria. Na noite anterior notara que o seu corpo estava maduro, quase pronto para receber macho e procriar. E não iria consentir que alguém lhe atrapalhasse os planos.
Desde o serão anterior que não fumava, não obstante tivesse tabaco e lume no bolso interno do abafo, que despira para melhor se movimentar e porque o trabalho também aquece, como ela costuma dizer, nem bebera qualquer tipo de álcool, quer cerveja, quer água-pé, como era usual a todos trazerem para a fazenda, em garrafas escuras arrolhadas a cortiça. Noutras circunstâncias, àquela hora, provavelmente teria dado já três ou quatro beijinhos na botelha, a molhar o bico e olear as goelas. Mas também quanto a isso a sua abstinência fora decretada, e a única garrafa que trouxera continha apenas água, água pura da fonte lateral ao edifício da Junta de Freguesia, cujos restos corriam abundantes em desperdício para o Tramóia.
Ocasionalmente erguia-se, sacudindo a cabeça para os lados e para trás, fazendo oscilar o rabo-de-cavalo, de mãos ambas nos quadris e pernas afastadas, respirando ruidosamente de narinas alçadas ao ar frio e húmido, enquanto perscrutava em redor detectando sinais de possível presença humana; ou outra, como a dos pardais, pintassilgos e cartaxos, que eram sinais evidentes da não-presença humana. Que no campo não há maior sinal de perigo do que o silêncio e ausência total de vida animal: se os répteis e pássaros se não mexem e assustam à tua passagem, é porque estão escondidos e amedrontados por outro motivo qualquer. E essa causa, pode bem ser mais forte, malévola, fatal e mortífera do que tu!...
O campo é tão seguro como a cidade, se não tiver seres (des)humanos; o que se passa igualmente com a cidade: é tão segura como o campo se os não tiver também. A maldade, a perversão e a morte são conceitos humanos, não estipulações da natureza. Na natureza há transformações; na humanidade, transgressões. Almerinda Rodrigues meditava sobre tais transcendências, quando, muito antes de o ver, ouviu e cheirou a presença de António Sarraceno, a aproximar-se de moita em moita, num odor ácido, subindo o rio, como uma aragem, por dentro dele, encoberto pelos canaviais de ambas as margens. Sabe que é ele e para o que vem; e também sabe que ele não sabe que ela o sabe. Nas suas relações com os outros esse tem sido irrefutavelmente o seu grande trunfo, a vantagem que tem desequilibrado o acaso e a sorte para o seu lado. A capacidade de antecipação era uma das dívidas que tinha para com o seu inconsciente: a ele devia o facto de se manter intransigentemente viva e total. Fora o inconsciente que lhe ditara as regras do jogo no relacionamento com os pais adoptivos, e depois com os colegas, professores e demais problemas, ou ninharias que, assim como o atravessar de uma rua, olhar para cima no preciso e exacto momento em que uma telha se desprende e despenha do alto, o desviar-se de um obstáculo que não vê na noite de breu, podiam provocar autênticas tragédias. Aliás, acreditava ela, se não fosse o inconsciente de cada um, ninguém sobreviveria aos primeiros seis meses de vida, salvo raras excepções de desenvolvimento em estufa.
Puxou a espingarda para mais perto de si... e manteve-se dobrada sobre o sacho, os músculos das coxas e das costas retesados e entumecidos, ora dilatados ora contraídos, fingidamente abstraída do momento, continuando na tarefa de remover o solo à volta das plantas, arrancando-lhe as ervas e afofando a terra para melhor absorver a água quando chovesse ou fosse regada.
António Sarraceno abandonara as muletas na curva norte do riacho, na proximidade de uma meda de cepas que aguardavam que o dono usufruísse de tempo, ocasião e transporte para as levar para o alpendre da lenha, a fim de as ter por perto quando fizessem falta para a lareira. Dessa curva ao local em que Almerinda se encontrava distavam coisa de trezentos metros, entrincheirados por canas verdes, salvo em raras abertas de passagem ou cais de fixação de motores de rega, cuja mangueira do chupador estendida estava dirigida a algum poço central do leito. O fisioterapêuta há dois meses que lhe retirara as canadianas, mas ele comprara outras e insistira em representar uma dificuldade em caminhar superior à que deveras sentia. É que assim, se algo corresse mal, ninguém suspeitaria dele, pois não encontrariam qualquer rasto de muletas, além do que não lhe atribuiriam capacidade física e agilidade no desempenho que a um homicida exigiriam. Comera a mãe diversas vezes, e havia de fazer o mesmo à filha, desse por onde desse. De tanto se não escaparia ela!... Pela certa. Como dois e dois serem quatro. Era uma promessa. Antiga. A.
Foi a sorrir, na antevisão do gozo, que ele ultrapassou a sebe de canas e se lhe postou na frente, a uma distância de quinze passos de metro.
«Hoje é qu’o mamas!!...» Gritou ele, escarnecendo da solidão de Almerinda, exibindo um pavoneado ar de vitória, e enorme navalha na mão direita...
Almerinda largou o sacho, dobrou-se mais um pouco e vasculhou as batateiras a seu lado, com a destra, até encontrar o que sabia que iria encontrar. Achou. Endireitou-se de repente, e à subida surgiu-lhe na mão a pressão de ar, de que apoiou a coronha à anca, disparando de imediato. Ao sair do cano, o pequeno bago de chumbo da espingarda de ar comprimido embateu na escorva, no fulminante, do cartucho de calibre 12 anichado ao tubo da bomba, explodindo este por seu turno, enviando ao peito do homem as esferas cromadas, enraivecidas no fogo da pólvora. Cinco acertaram-lhe, de entre as quais, uma, lhe rompeu o coração de lado a lado. Escancarou a boca numa tentativa de gritar o seu espanto, mas a intenção morreu-lhe, tal como o júbilo que antes arvorara, caindo para trás no ribeiro, afastando ainda com a mão esquerda as canas que em segundos anteriores desviara para entrar, mas para sair desta feita. A navalha soltara-se-lhe, pulando no ar, antes de sumir-se entre as rabaças altas do leito quase seco do Tramóia.
Almerinda nem se dignou ir à margem ver como António havia ficado. Morto ou vivo pouco lhe interessava saber. Esperou simplesmente que o tubo arrefecesse, para desatarraxá-lo do cano da pressão de ar, meter-lhe dentro, com o cartucho agora descarregado, a navalha que o outro deixara cair, e enterrar tudo bastante fundo, juntamente com os aros dos rolamentos que não tivera oportunidade de atirar para a sucata da oficina do João Brocas. Bem fundo. O que considerou ser quando a cova estava com metro e meio de profundidade, atirando-lhe para dentro tubo, arames, ferros, navalha, aros, plástico e invólucro, que tapou depois, escrupulosamente.
Quando deu o serviço por findo fez uma fogueira, do outro lado do talho, contrário à beira do riacho, para aquecer o almoço; e comeu-o, demoradamente, assim que o achou suficientemente quente, da marmita de alumínio esmaltado, cortando quadrados de pão caseiro que lhe punha dentro, a embeber o molho avermelhado do colorau, e mastigando devagar mas insistentemente cada pedaço de carne de porco guisada. Terminada a refeição pôs o saco de lona no chão, estendendo-se por sobre o kispo aberto, de cujo bolso interior tirou o tabaco e isqueiro, e, deitando-se de costas, para trás, usando-os com esteira e cabeceira, fumou, finalmente, tranquila mas com sofreguidão, o primeiro cigarro do dia. Consultou o relógio: eram treze horas e trinta minutos. Se o sol se mantivesse assim, até podia bater uma soneca, sem perigo de esfriar. Já tinha esquecido a existência dum corpo ao fundo do talho, por detrás das canas, entre o verde-escuro das rabaças altas do leito do Tramóia.
Pelas quatro horas da tarde, o céu começou por empalidecer e escureceu de seguida, tornando-se dum cinzento ameaçador e, vindo do lado do mar, um ventinho menos frio fez-se sentir. Então ela deu a faina por acabada, para, antes de se dirigir a casa, subir às primeiras habitações do Outro Lado a conversar um nadinha com o José Rústico, sapateiro divertido, e a ti’ Ana Chambel, logo na rua inicial, a quem sobe. Foi inclusive um tanto mais acima, à tasca da Sílvia, de pressão de ar aberta e descarregada sobre o ombro, a beber um café. Depois regressou, cinco e tal já, estrada adiante, direito a casa, antes que descambasse a chover.
Ao jantar, em verdade, a chuva começou a cair, primeiro em ralos pingos grossos e intervalados, mas depois em chuvisco ritmado, e só veio a parar domingo, na parte da tarde, a seguir à missa. Quase 52 horas de queda de água sobre o solo, que afinal não estava assim tão ressequido nem precisado, ininterrupta e contínua, que se fez escorrer para o rio, enchendo-o até aos bordos, e arrastando na leva o corpo de António, em decomposição, ainda para além da curva norte, local em que abandonara as muletas, a fim de as recolher no regresso que se não consumou, pelo menos na forma em que ele o previra.
No enquanto a chuva parou o cheiro da putrefacção subiu a encosta, invadindo as artérias de Casal Parado. E as pessoas, incomodadas, procuraram saber o porquê dele. Depararam então com o corpo do Sarraceno, enganchado numa pereira velha caída ao ribeiro, próximo dos limites da freguesia. Foi comunicada a ocorrência à GNR do concelho que, por sua autoria e moto próprio, informou a Polícia Judiciária, as autoridades competentes e respectivas, e o Instituto de Medicina Legal. O corpo foi levantado e todos ficaram a saber que tinha sido assassinado. Almerinda Rodrigues foi das primeiras a chegar a essa conclusão, após ter ouvido alguns zun-zuns nesse sentido ao cabo da GNR. E discutiu acaloradamente o assunto no café, como todos os outros.
Quarta-feira de manhã, um assalariado rural encontrou as muletas junto às cepas, quando se preparava para as carregar no reboque do tractor, e comunicou o achado a um perdido PJ que encontrou. O polícia paisano não tugiu nem mugiu, mas convocou uma reunião com os colegas de desdita, sob o pretextado objectivo de reverem as suas teorias. De pouco lhes valeu. Até concluírem que o caso apenas se solucionaria com o tempo e o acaso, que são sábios neste tipo de ocorrências, e lhes proporcionassem o desfecho, foi um toma-lá-dá-cá.
Almerinda ainda não resolveu o problema do macho, mas ultimamente tem-se mostrado cordial, alegre e atenciosa… Todavia eu, que sou um desavisado da alma, se suspeito de quanto se passou nem o noto, e se o faço sequer me importo, que para viver todo o tempo é pouco, e quem o não aproveitar, por mor de ninharias, muito menos terá de são, do que de louco!

10.15.2009

OUTRO MILAGRE EM FÁTIMA


Dizer que foi um passeio maravilhoso, não posso fazê-lo. Mas foi a minha (única) excursão casalense – até hoje. Daquelas com bastos idosos a arrastar os calços e exibir dentaduras, com alguns netos maiorzinhos, barulhentos, cá para os bancos de trás, onde as cigarradas e cervejolas rodam e giram, volteiam e regozijam numa fona, que nos põem tantarantantam. E os lugares da frente ocupados pelas meninas de setenta anos, entre outras melindrosas, que quando saem de casa, o que raramente acontece, gostam de ver por onde pisam, ind’assim o acidente mortífero as apanhe desacauteladas, ou sem tempo de fazerem o registo, para mais tarde poderem contar. «Já que pagámos, não queremos perder pitada», dizem elas.
A Fátima. Agora usa-se muito. Com passagem pelas grutas de Mira d’Aire e almoço num restaurante “típico”, ranchos folclóricos e bailarico, com parque privativo de estacionamento para camionetas bus-de-passageiros (sic), uma ampla sala prò corridinho e malhão, enorme, que dava para aboletar um regimento, até que fosse da GNR!, localizado num descampado à beira da estrada.
Partíramos de madrugada, com a geada embranquecendo os canaviais e ervados das valetas, e chegámos a Fátima pelas dez horas, mais coisa menos coisa, depois de termos unicamente parado para pequeno-almoçar num outro café-restaurante, também de beira de estrada e com quem os organizadores tinham familiaridades compensatórias, de comer e beber à borla, graças aos inúmeros clientes que lá lhe levavam. Lembro inclusive, que aí comprara os jornais do dia! De sábado. O Expresso, O Público e o DN. E que levei o resto do caminho a lê-los. Sem ligar a ninguém, cumprindo o meu papel de forasteiro entre forasteiros, nem permitir envolver-me nas conversas e anedotas da meia-camioneta adulta em que tivera lugar e me sentara. Ou sentaram, mais precisamente.
Pessoalmente, considerara a peregrinação como um importante passo dado no sentido da consolidação dum hipotético enraizamento à vida social do meio em que na hora habitava, Casal Parado – nome por que atende a quem entende. Mas em que nunca depositei grandes créditos e empenhos. Um que “ sim senhora, mas não me comprometam “, a que se costuma anuir com o afectado sentimento de superioridade de todos os urbanos cosmopolitas sobre os rústicos provincianos, acolhedores mas pacóvios, prazenteiros embora que intimidados. Um passar por entre eles sem lhes roçar nas vidas, corpos (e consciências). Um manter ser querer, de distâncias, céptico e asséptico, de vender Melhorais, aliás bem característico do estilo “se bem não fizer, mal também não pode trazer” da praxe em casos que tais.
Todos conheciam todos. Desde o berço e, provavelmente, até à cova. Salvo a excepção que eu era, que não conhecia ninguém, não obstante todos me conhecessem pelo que para eles ainda hoje sou: o vizinho novo – o alentejano. Em casa ficara-me uma cadela em trabalho de parto, e que por mim foi tida como única companheira certa durante esse ano. E, mais os seus quatro cachorros, com os quais me prendara no retorno ao lar. Família grande e de relações complicadas!... – dirão. Mas não. Aparte a ironia, ripostarei, de simplesmente suficiente. Cínica. E canina. Como todas.
Logo que chegados a Fátima, estacionando num dos parques mais próximos do santuário, fomos em bando até à capelinha e ouvir missa, num banho de homília para o resto do dia, depois, na igreja que encima (ou enfunda) o sacro recinto. Mas feito isso, tirando uma ronda de reconhecimento pelos locais de predilecção da plebe, desde o museu de figuras de cera até aos quiosques de bijutaria religiosa e “recordações”, pouco mais havia que ver e fazer, no que, por conseguinte, aproveitei aquele tempo para dispersar e desopilar um pouco, aliviando-os da minha inocentemente confrangedora companhia, e girei para onde calhou e as pernas me levaram, sem contudo me afastar sobremaneira da serventia de acesso à camioneta, ind’assim me não esquecessem na abalada.
Era uma data sem significado litúrgico relevante, bastante longe dos trezes de Maio ou de Outubro das aparições, e dado o cedo da hora, sem grande movimento ou afluência peregrina. Uns raríssimos visitantes que se faziam transportar em carros particulares, além dos autóctones que andavam a tratar de vida por essas bandas. Beatificamente. Por sinal, esparsos transeuntes empenhados e compenetrados nos afazeres que os esperavam, ou nos trabalhos e caprichos do lar, doce manancial de arrelias e desencontros, que recentemente haviam abandonado.
Portanto, com medo que se me antecipassem no retorno e os fizesse esperar (aos meus companheiros excursionistas, claro está), fiquei-me por ali, sentado próximo do estacionamento, no muro que ladeia o recinto do santuário, ao lado esquerdo, logo no início dele, aguardando a ordem de envio para a rapadela do tacho. O nevoeiro levantava-se pouco a pouco. E as baforadas das minhas (cismáticas) cigarradas de espera, deixavam no ar um fumo espesso e baixo e baço, a pairar expectrante (de expectante espectro), nos tediosos minutos, desenhando figuras diluentes no meu fantasmagórico imaginário. Na minha irrealidade sonambúlica, pois não estava habituado a levantar-me tão cedinho!...
Ao certo – que provavelmente a impaciência, reforçada pelo frio, esticou-os –, decorreram uns bons trinta minutos, antes que alguém da minha excursão desse sinal de vida. Só que, entretanto, nasceu o milagre!...
Eu explico.
A determinada altura da espera, maré de boa venturança, e como principiava perto dali a pista dos supliciados rastejantes, dos pagadores de promessas que se arrastam de joelhos até ao núcleo do sacrossanto recinto, que os mais radicais suplantam ainda com a subida da escadaria, foi-me propiciado o espectáculo, deveras exótico e invulgar, de assistir à troca de calças por uma jovem de vinte e piques anos, a fim de melhor e mais confortavelmente cumprir os votos prometidos à Nossa Senhora do lugar. Chamemos-lhe Mariana. Ou Lurdes da Conceição. E era de compleição atlética, entre o metro e setenta e o metro e oitenta de altura, morena, rosto angular, sobrancelhas espessas, olhos negros, lábios de desenho acentuado, carnudos e salientes a emoldurarem a boca larga de dentes regularmente brancos e favudos, com cabelos castanho-escuros, lisos, descaídos até meio das costas, penteados singelamente de risco ao meio. E encontrava-se acompanhada de uma senhora cinquentona, de óculos com aros quadrados, reboluda e anafada, meã de altura, e outra rapariga mais nova, a rondar pelos dezoito anos, de jeans, louraça nos encaracolados da permanente, ténis Nike, que nunca tirou as mãos dos bolsos do kispo verde que trazia vestido e abotoado, e que me deu a impressão de ser alguma prima da primeira e sobrinha da segunda, não só porque não levava a situação muito a peito, como também por apresentar aquele ar de quem está ali por acaso, a ver as modas, e não tem grande coisa a ver com aquilo.
Pois, à morena, assim que lhe apercebi os propósitos de trocar de calças, ali, justamente à minha frente, nos piques do trombil, quase na ponta do nariz, nunca mais lhe tirei os olhos de cima... Havia de o fazer, sim senhora, mas não sem que me consolasse e brindasse o olhar (e a solidão) com a visão céltico-venusiana de um bom naco das suas coxas e, glória das glórias!, até das suas afrodisíacas cuequinhas, possível sendo, coisa deveras importante para um filho único de pais idosos – qual maduros, qual quê! – nado e (amargurado) crescido em lar pouco frequentado por primas novas ou vizinhas gentis, como podeis calcular.
Neste somenos, quando havia passado para aí um bom quarto de hora, do restante tempo para o retorno à camioneta dos meus piedosos companheiros, levei-os eu atenteando a coisa, concentrado, embebido, embevecido e atento, deslocando-me ora para a direita, ora para a esquerda, conforme e contrário à posição da prima, e desde que esta se interpusesse entre ambos ou não. Creio inclusive, que a louraça se apercebeu suficientemente bem dos meus legítimos propósitos, visto que, no auge da refrega, piscando-me um olho cúmplice, parou de saltitar de um lado para o outro, quedando-se estática e apreensiva, um nadinha arredada, para assim me não diminuir o campo de visão, e mais tranquilamente poder desfrutar o gozo às poses da pagadora de promessas. Atitude, aliás, que considerei bastante acertada e realista!... Já que é assim que se dão grandes passos no sentido do futuro... Ou até na criação de uma sólida, promissora e fértil amizade. Quem sabe!
De mãos nos bolsos do Kispo, com a gola levantada até às orelhas, e o cu bem firmado na granítica pedra do muro, a que as calças de ganga reforçadas por felpudas ceroulas não autorizavam repassar e transmitir o frio dos estofos do canapé, em sumapedra de orar a Deus, inclinando ligeiramente, ora para a frente, ora para os lados, franzindo as pálpebras para melhor fixar a imagem, dizia para comigo mesmo que a moça era, além de uma estampa em desenvolvido e aperfeiçoado acabamento, também uma autêntica brasa a que nada faltava para me pôr a ferver o caldeirão das estrofes à temperatura das esterilizações. Altota, tronco possante, abobadado, ombros ondulados sem enchumacices, braços roliços mas compridos, e seios volumosos, empinadotes prà frentex, sob a blusa de lã de gola alta, azul com losangos vermelhos, verdes e brancos, que deixava adivinhar os mamilos empertigados, quais fontes santas de jorrar tentação no Agosto ressequido da minha abstinência. E comedimento. Assim mesmo: rechonchudos e suculentos, determinados e firmes, recheosos, polpudos e macios, em fartura e grande quantidade, que é como se quer tudo o que é bom! Porque unicamente aquilo que não presta se quer pequeno e de curta duração.
À “tia” ou “mãe”, como me quis parecer ser a graduação hierárquica familiar da mais velha da tríade, tanto se lhe dava como se lhe deu, de compenetrada e imbuída que estava pelas exigências e apelos da fé, que muitas vezes nos isola do mundo e nos faz ver somente aquilo que queremos e cremos ver. Demais a mais, pelo que se entretinha segurando, entre mãos dedilhado, um terço de contas escuras, enquanto fervorosa mexia os lábios, embora que (demasiado) silenciosamente para mim, que tendo para a rapacidade sonora, numa velocidade e movimento, que acima de tudo o mais demonstrava ser alguém entusiástica e devota, duma fé aplicada e diligente.
Primeiro, a donzela em causa, procurou e retirou de um saco de plástico amarelo as calças de ganga, flectindo o dorso e realçando as ancas, avolumadas pela posição, e cobertas por outras de flanela, estimulando-me a fantasia, fazendo-me antecipar em imaginação o seu espectacular e maravilhoso recheio. Foi então aí que comecei a respirar com intermitências e picotado, engolindo em seco e amiúde, de expectativa e delírio!...
Depois, retirou do mesmo saco umas joelheiras de guarda-redes, esponjosas e brancas, com bordo e emblema vermelhos; sacudiu as calças de ganga e esticou os braços para a frente, com elas seguras, balouçando, inspeccionando-as assim, estendidas, pela dianteira e por detrás – nada na mão, nada na manga!... –, para, em seguida, suspendendo-as apenas com a mão esquerda, principiar a desabotoar e correr o fecho éclair das que tinha vestidas, com a outra mão livre.
Sustive a respiração. Fixei o olhar e retesei o corpo, qual felino antes de executar o salto mortífero sobre a presa descuidada. Vi-a descalçar os sapatos sem se dobrar, com a ajuda do bico do pé pressionando sobre o calcanhar e tacão contrários, e, de repente, SENTI (repare-se que não vi simplesmente, mas senti autenticamente, pois continuava segurando, pela cintura, com a mão canhota apoiada no quadril, as calças que ia vestir, e porque de perfil, não me facilitando ver bem para além delas) as calças usadas deslizarem-lhe, descerem-lhe pernas abaixo, caindo amarfalhadas à volta dos tornozelos. Contudo, exactamente nesse instante, vi-a empertigar-se, metendo a barriga para dentro, enquanto com ambas as mãos tentava, esforçadamente, abotoar as calças de ganga!! De seguida, dobrou-se pelos joelhos, calçou e atacou os sapatos, dando início ao pagamento da promessa, arrastando-se numa velocidade pouco acelerada, mas bem ritmada e segura.
Como foi que ela conseguiu vestir as calças? Deu um salto? Estavam descosidas pelo lado contrário ao meu, àquele em que me encontrava? Enfiou primeiro a perna esquerda, tapando-me a visão da nudez da outra?... Não sei! Sinceramente, não sei. Não vi. Mas juro-lhes: a meus olhos não foi dado enxergar o mais ínfimo pedaço de pele ou de roupa interior. Nada. Rien. Nadica. Nadinha. Absolutissimamente. Foi a elipse mais linda, mais bem conseguida, a que já alguma vez assisti. Se é que assisti... – Ou se é possível existir uma assim, de tão perfeitinha!
Dirão: “Tu é que deixaste de ver, passou-te uma coisa pela vista, apagaste-te, entraste em coma de pouca dura, parou-se-te momentaneamente a vida “, ou qualquer outra baboseira do género. Todavia eu tenho a certeza de que nem pestanejei. De tão atento e compenetrado que estava.
Daí que, ainda que venham com os argumentos que vierem, dos mais fantásticos aos mais realistas, pensem aquilo que pensarem, provem-me aquilo que me provarem, nunca conseguirão – e eu conheço-me bem... Que quando se me dá a ver umas boas pernas, não brinco em serviço! – destruir-me esta fé que se me meteu: O TERCEIRO MILAGRE DE FÁTIMA ACONTECEU.
E todos os que duvidarem, é porque não fazem a mínima ideia do esforço e concentração que despendi, nem o calibre da minha acuidade visual, que nunca careceu de lentes, para detectar uma agulha a metros de distância, e por mais emporcalhado que o palheiro estivesse. Ou porque são incrédulos, e deles nunca será o reino. Dos. Céus... (Aleluia, senhor!!)
Quando o pessoal voltou, não obstante a minha prosternação, nada notaram de estranho. Para eles era naturalíssimo que eu estivesse a ver afastar-se, de joelhos, uma jovem peregrina em cumprimento de promessa. Mas eu, pecador confesso, durante o almoço, e para o resto da viagem, jamais abri o bico...
É desde então que me ficou, este jeito calado de ser!...

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