10.18.2017

SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS




SANGUE, SUOR E LÁGRIMAS

Se estivermos atentos
Sempre que uma flor brilha, 
Logo veremos momentos
Em que mãe é também filha
Aspergindo esse deserto
Das vozes, se distantes
Com que o amor torna perto
Os corações dos amantes
Na recíproca medida: 
Beijo entre após e antes 
– Cálice de pura vida! 

Joaquim Maria Castanho

10.17.2017

Thomas Mann, Os Buddenbrook



"Deus salvara-o. Outra vez, ainda criança, durante os preparativos para um casamento, assistira ao fabrico de cerveja (era costume fazer-se em casa). Para o efeito fora colocado um enorme barril em frente da porta. Ora, sucedeu que esse barril tombou, apanhando a criança. O estrépito e a violência da queda foram tais que a vizinhança acorreu e foram necessários seis homens para voltar a erguer o barril. A cabeça do menino ficou esmagada debaixo da cuba e o sangue corria abundantemente por todo o corpo. Puseram-no numa padiola e, como ainda lhe restasse um sopro de vida, levaram-no ao médico e a um cirurgião. Ao pai consolaram-no, porém, dizendo-lhe que se devia conformar com os desígnios divinos, pois que era impossível que o filho se salvasse… Pois atentai então: Deus Todo-Poderoso abençoou os recursos médicos e restabeleceu-lhe a saúde por completo! Ao recordar-se desse terrível acidente, o cônsul voltou a pegar na pena e escreveu a seguir ao derradeiro «Ámen»: «Meu Deus, a Ti louvarei para todo o sempre!»"

In THOMAS MANN, OS BUDDENBROOK, página 64
Tradução de Gilda Lopes Encarnação
Coleção Essencial - Leya/Livros RTP




A SININHO

Ouço o teu ouvido
A escutar
O silêncio consumido
Na leitura do lugar. 

E sob esse dossel de sílabas
Umas mudas, outras estridentes
Sedosas, penteadas, 
Nascem meigas pétalas
Queridas, desejadas… 

– Sorrisos, afetos, gentes! 

Joaquim Maria Castanho

PENSAR PARA O VENTO...




PENSAMENTO AVENTADO

Alguém lê, 
E eu sinto algo… 
Como se pensar
Fosse um não-sei-quê
– Nascido farejar
No nariz dum galgo! 

Joaquim Maria Castanho

10.16.2017

VAGÕES DE SÍLABAS




TREM DE SÍLABAS 

Chovem-me na alma solfejos outonais
Pla clave desses sorrisos já quase ditos,
Com que os sonhos se investem vestais
Ninfas, deusas, musas, estrelas e mitos
À beira do comboio em metálicos cestos
Feitos da rede e trama dos meus textos… 

Joaquim Maria Castanho

10.02.2017

PRIMAVERA OUTUNAL





OUTUBRO PRIMAVERIL…

T'eclipsaste na dúbia tarde
Resguardo de Afrodite caído
O marmóreo ombro, destemido
Cruzando o tempo sem alarde
No espaço dum quando se solta

– E eu rogo-te… «Volta!»

Porém, ficaste tão-só de perfil
Que o sol em verbo s'espraiou, 
Ficou perdido, esquecido
E entre o anil celeste voou
Na peugada dum outro abril
Que, afinal, nunca chegou!

Joaquim Maria Castanho

9.27.2017

Encontro em Itália, de Liliana Lavado




"Afinal, ainda restava alguma coisa em comum entre ele e Sara: os livros." 
in LILIANA LAVADO
ENCONTRO EM ITÁLIA
(Página 138)

9.17.2017

ESTE ADORAR-TE TANTO




ESTE ADORAR-TE TANTO

Entre as paredes de fazer pela vida
Onde te emparedas, e solidária 
Fazes só com o teu estar nesta lida
Parecer qualquer sílaba tão vária… 
Que apenas tua é a rima
E mais qu'ela também eu, 
Pois ao ver-te cada dia
Tal qual as lá de cima
Iluminas a poesia 
– És caminho, e sol meu.

Os gestos despachados, meiga magia
Do olhar, onde as estrelas têm morada
Refletem as odes que saram a poesia
Dessa melancolia de lua, se adiada… 
Porque só tu lhe dás brilho
Lhe emprestas o tal encanto
Que ilumina todo o trilho
Dos que adoram sem pranto, 
E que trilham se partilho
Este adorar-te tanto!  

Joaquim Maria Castanho

8.25.2017

A TULIPA perlada




TULIPA PERLADA 


Passo a passo até expirar
O caminho se desenrola
Desde creche, desde escola, 
Com o destino já marcado
Pra essa cova retangular
Onde a terra se renova
Vendo renovado navegar; 
Outra corrida contra o tempo, 
Tal desfilada de sorraias
Que inventaram sol e vento
Que agita panos e saias
Maias que afloram o mundo
Lhe dão a cor, vivacidade, 
Dessas rimas com que inundo
As ruas da minha cidade. 



Grito libertado, granito
A soltar-se para os cumes, 
Que é ond’o corpo, aflito
Ard’em mais sublimes lumes. 

in JOAQUIM MARIA CASTANHO
REDESENHAR A VOZ, pág. XIV

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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