6.27.2017

A POESIA, ESSA INVENÇÃO




A POESIA, ESSA INVENÇÃO

Retardo o passo pra que passes
Cruzes portal pró desconhecido, 
Que faças o que só tu fazes
Dites a rota, dês sentido
Aos caminhos que te celebram
–  Aos poemas que te inventam!

Joaquim Maria Castanho 

6.25.2017

SILVO COLORIDO





SILVO DE COLORIDA LUZ 


Só quando te não vejo 
Posso refugiar-me em ti, 
Dizer que penso, que sinto
Que anseio, que desejo
Como foi o dia que vivi
Sem viver, se dele pinto
O esgar sonhado e ali
Refugiado atento
Mais caminho de pronto
Com os poemas que avento
À Sol num cruel rodopio
Pelas fisgas do assobio
Que sufi me deixa tonto… 

Joaquim Maria Castanho

6.23.2017

LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA




LEVEZA INTEMPORAL DA ROCHA

Me deponho ante ti
Num desígnio de então, 
Que no descruzar já li
Na pele a imensidão

Calada, 
                de granito
Como uma pedrada 
Acua tempo proscrito!

Joaquim Maria Castanho

6.16.2017

(RE)GANHAR A PASSADA

  


(RE)GANHAR A PASSADA 

Plo óculo do infinito
Na descoberta incolor
Sonhos travam, e o atrito
Se refaz próprio propor 
E propósitos propõem
As singelas alegrias
Que pouco a pouco compõem 
Pegadas pra pegar os dias… 

Então, o verbo floresce
Pelas pétalas completo
No beijo que não esquece 
Carinhos d'avó e neto.

Joaquim Maria Castanho 

6.02.2017

Excerto de NOTA a OS SIMPLES, de Guerra Junqueiro




“Quis mentalmente viver a vida singela e primitiva de boas e santas criaturas, que atravessavam um mundo de misérias e injustiças, de vícios e de crimes, de fomes e de tormentos, sem um olhar de maldição para a natureza, sem uma palavra de queixume para o destino. E então encarnei, por assim dizer, no pastor grandioso e asceta, na moleirinha octogenária e sorridente, no cavador trágico, nos mendigos bíblicos, na mansidão dos bois arroteando os campos e nas labaredas de oiro do castanheiro, aquecendo a velhice, alegrando a infância, iluminando a choupana. E, depois de uma existência de sacrifício e pureza, de abnegação e bondade, deitei esses ingénuos e pobres aldeões na terra misericordiosa e florida do campo santo, pondo-lhes por cima das sepulturas rasas o Céu maravilhoso e cândido, que em vida sonharam e desejaram. 
É claro que essas figuras não são inteiramente reais, da realidade estrita, efémera e tangível. Criei-as, ou antes, completei-as com a minha alma, com o meu próprio ideal.” 

14 de Maio de 1892

Guerra Junqueiro  - Excerto da NOTA à edição de OS SIMPLES

6.01.2017

DÁDIVA

  


A DÁDIVA 

Olho lá pra fora
Através de teu olhar, 
E de como ele se demora
Sem saber que esperar… 

Luz sobre azul celeste
Dum sorriso que me deste! 

Joaquim Maria Castanho

5.30.2017

SOMBRAS CARDINALES




AS SOMBRAS CARDINALES

A sombra de Cláudia é
Bem mais velha que ela; 
Está dobrada sobre si. 
Alguém que perdeu a fé
Soprou a própria vela
Se esqueceu de ser, ali
Longe de quem vimos… e eu vi. 

– E como era bela! 

Joaquim Maria Castanho

5.28.2017

SERENO DEGUSTAR




SERENO E SILENCIOSO DEGUSTAR

Almoço devagar. 
Acrescento-m'assim
Só pelo paladar
A olhar o alecrim
Nas bermas do jardim
Ond'olhos resvalam
Nesse tanto sentir
Por ver-te a sorrir… 

– Que até o calam! 

Joaquim Maria Castanho

5.25.2017

ISCO VOADOR




O ISCO VOADOR

Pousou exatamente ali... 
Quase de propósito, pra que a visse... 
E eu vi! 
Callei, callei, calei
Segurei, 
E só agora o disse. 

Joaquim Maria Castanho 

MINHA PRIMA, PARABÉNS




PARABÉNS Clara, minha prima
Neste dia de felicidade. 
Que cavalgues por ele acima
Até aos oásis da idade, 
Sem as ciladas nem azares
Sem atropelos nem mau clima, 
E companhia que desejares 
– Sejam família como pares! 

Joaquim Maria Castanho

5.12.2017

VEJO-TE ENTRE BÁTEGAS




TE VEJO ENTRE BÁTEGAS

Desço pelo meio da tarde
Por negras pedras gretadas
Onde a saudade me arde
Em quadras incendiadas
Dessa luz, entre sombras, nua
Pisada pela memória
Se, letra a letra, quase crua
Copia de nós sua história
E nos devolve esse elixir
Cujo suco é tempo puro, 
Mel coado n'areia do porvir
Cruzado em ponto seguro
Plas costuras da água caída, 
Como intervalos num muro 
Que são as seteias da vida. 

Joaquim Maria Castanho

5.10.2017

MURMÚRIO VENEZIANO...




MURMÚRIO VENEZIANO… 

Nada é tão linear como parece
Nem sombras repetem realidade, 
Que quanto há humano merece
Ser observado na profundidade, 
Não das almas, mas do significado; 
Sequer sentir é apenas demonstrar
O que se pensa se, pois, quem sente
Anda com isso, assim, estampado
Nas atitudes, caprichos, ou cuidar
Agir igual plo que é diferente. 
Porque tão-só, pura e simplesmente
Ser profundo bebe-se do passado
Que não passou, pra retornar a viver, 
Ser futuro, sem ter sido presente.


Portalegre, Café José Régio, 10.05.2017

Joaquim Maria castanho

5.07.2017

DILUIR LUMINOSO




LUMINOSO DILUIR 

Naquela bifurcação
Com que o corpo toca o chão
Deponho meu beijo de veludo
Imaculado, e o mundo fica mudo
Esquecendo da rosa o pranto
Ante o júbilo divinal
De teu sorriso, de teu manto
Sobre o diáfano ideal.

É sempre ele quem me guia
Entre as estrelas e cometas
Pelas filigranas do dia, 
Perpendiculares como setas
De um Cupido irrequieto
Se nos ocasos de magia
Eu te puxo pra mais perto… 

E nesse efeito tão manso
Que na semente só a luz tem, 
Penetro a imensidão e avanço
Bit a bit, traço a traço,
Com o que sou, penso e faço 
Como se fosse ninguém.

Joaquim Maria Castanho

5.06.2017

FALAR NÃO É COLAR RÓTULOS (NOS DEMAIS)




FALAR NÃO É COLAR RÓTULOS
 (AOS DEMAIS)

1.
A cobaia, no reduzido reduto
Redoma, escritório, cela, toca
Reduz-se até ser outro produto
De compra/venda, empréstimo, troca;
Já ouviu dizer que a sua raça
Tivera outrora o costume de falar
Pra discutir a utilidade dos sons
Prà'nalisar os motivos a discutir
Prà'valiar mercados, cota em praça
Pra conduzir fiéis entre maus e bons
Para produzir distrações e bem-estar
Se ouvir a si mesma e demais ouvir…
– Foi aí que a coisa tremeu, talvez: 
Perdeu razão no dia-a-dia e mês a mês, 
Ano a ano, vida a vida… e até morreu. 

E ora supõe-se que nunca aconteceu! 

2.
A voz não é uma arma de arremesso
Nem a fala serve só para atacar
Ou pra defender, "gritar" o excesso
Náusea, resto, do sentir e do pensar; 
Não é nenhum instrumento do avesso
Contrário ao humano uso de criar, 
De ligar o vário e avulso a seu par
De partilhar, conviver e ser começo
De tudo que não é apenas fim; e isso
É já um terço dos atos e compromisso
Que após ser muito bem combinado
É então cumprido por qualquer lado
– Vértices questionáveis em discussão
Prontos ao remate final do sim ou não. 

Joaquim Maria Castanho

5.05.2017

O CONTRÁRIO DA MORTE




AO CONTRÁRIO DA MORTE

Buzinam isto, aquilo
Dizem pra fazer assado
Cozido, frito, e dar asilo
Ao doce coração aflito
Por 'tar assim acossado
Causador d'algum atrito
Além desse que é nascer
Ser gentio e querer dizer
Ao que veio, ao que está
Mesmo que não esteja aqui
Esteja até noutra parte, 
De ilusão em ilusão vá
Plantar acolá, acoli
Algo parecido com arte. 

Mas esquecem os projetos
Vontades esclarecidas
Que pintam nos velhos tetos
Das Sistinas carcomidas
Novos grafites e afetos
Entre chegadas e partidas; 
Que irrompem sem esperar
Como dum clique qualquer, 
Estalido que pel'olhar
Se tornou big-bang profundo
Nessa espécie de mar –
E lágrima com te inundo
Ao ser apenas quem te quer
Sem querer nada do mundo. 

Que à vida não importam
As cruéis minudências
Que nos prendem e nos atam
Ao agora das tendências; 
Como representar pra ser
Que faz das aparências, 
Coisa já de si contrária
Aos credos, como às razões, 
Que ela evolui por vária
Reformando as tradições
Do vulgar e ordinário
Para pulsar nos corações… 

– Ser da morte o contrário!

Joaquim Maria Castanho

5.04.2017

O GIZAR DA LUA




O GIZAR DA LUA 

Arina, A Deus sempre eterna
Mentora do bem, do prazer e da jus, 
Podia entrar no mar mas vai pla berma
Arredondando-o no ser com sua luz. 
O ocaso, é tão-só porta do fundo, 
E nas casas, se diz, de serventia;
Porém, sua morada é nosso mundo
E d'onde sai ao fim de cada dia…

Para onde irá? Terá amantes? 
Ninguém sabe… Ou, sabendo-o, não o diz. 
Que onde ela vai, já ia muito antes
E a lua não fala… Só escreve a giz! 

Joaquim Maria Castanho

MARKETING OU QUALIDADE?




MARKETING OU QUALIDADE?

Já não há soluções definitivas
Prò que esporádico acontece
Pouco é o desejo e expetativas
Além das estatísticas se desce
À realidade pura e dura
À coisa vida sem os enfeites
Dessa nuance, grande urdidura
Com que o homo sapiens teceu
Os paraísos, infernos, deleites
E declarou ser o Planeta só seu… 
A atualidade é um detalhe
Fruto direto mas circunstancial, 
Com que a lógica do crer atalhe
Pròs desvios ao que é essencial. 

Joaquim Maria Castanho

5.03.2017

DAS FAMÍLIAS, O SORRISO É A MARCA




A MARCA DAS FAMÍLIAS 

Plo chão me aliso, desmedido
No texto, perdido; porém, viso
À esquina do riscado friso
Sob o azul, cruzado, vertido
Em espelho de mão pra navegar, 
Enquanto já a luz incidia
Sobre folhas (de figueira) ralas –
Os cachos pendentes a balançar
Solfejo de ondas plas escalas
Da tua passada, que me dizia
(Determinada pla direção tida
Como quem irá ganhar seu dia, 
Fazer pla sorte, fazer pla vida) 
Que ver-te vai além da poesia
Em significado e sentimento, 
Exalando nela essa alegria
Do sentir que se fazia alento, 
Por ser matriz de uma jornada
Marca registada do momento. 

Que o mundo, seja lá o que for!, 
Reflexo de um conto, ou teoria, 
A circular cúmplice, ou isento,
Só é real se estiver da cor
E tonalidade do teu «B :) m dia!»

Joaquim Maria Castanho

5.02.2017

FAZER O TEMPO




FAZER... O ...TEMPO

Pra que sejamos o etc. & tal
Dos três pontos entre o bem… e o mal, 
Ainda que o rio corra agitado
Temos que avançar prò outro lado; 
Que só lá, naquela avistada margem
Nossos sonhos deixam de ser miragem
E passam a fazer parte integrante, 
Qual ritmo e batida, desse pulsar
Que é nuclear a cada instante. 
Que o tempo também tem um coração
Seu órgão vital, modelo ou matriz, 
E se dou a volta ao quarteirão
Para te ver, mas falho por um triz
Foi porqu'ele quis e não quis, e em vão
Vi e não vi, que seu ser fui eu que o fiz. 

Joaquim Maria Castanho 

5.01.2017

ROMANCE COM SEREIA À BEIRA-RIO




ROMANCE COM SEREIA À BEIRA-RIO

Adivinho-te ainda do outro lado
Mas já defesa me caiu e espero,
Sem que pela ânsia desesperado
Expetativa esconda o que quero,
Que águas correntes são cadeado
Quando coração bate por sincero
E silêncio não significa cuidado
Se calado espero – e até acelero
O tempo pra que surjas imediata, 
Sorriso tão à flor dos olhos, assim, 
Que do respirar então me escapa 
O barco das viagens aonde se ata
O corpo s'o desejo quer e destapa
Pra beijá-lo poro a poro e sem fim.

Joaquim Maria Castanho

4.30.2017

PARABÉNS GUILHAS




PARABÉNS, GUILHAS

Parabéns Guilhas, campeão
Formado e em formatura
Que nos dá por ora a lição
– Tranquilidade segura
Que persegue suas metas
Entre curvas, sobre retas
Até ao destino final –
De pôr o ponto assente
No ser e estar consciente
Da verdade ambiental
E equilíbrio social
Que se requer sustentável
Além de gerar o "ar" puro
Harmonia e ser seguro
Pró bem-estar, e agradável
Na construção do futuro
E pla eternidade sem fim… 

Eis os votos do teu tio 
                       Quim

4.28.2017

DEScomPARECIDO E GENTIO




GENTIO E DEScomPARECido 

Já sob sombras me navego
Enquanto o sol declina
Por detrás dessa cortina
Folhas dançam, e eu cego
Chego a adorar Arina
Não por ser A Deus que é
Mas falho de bárbara fé
Um atalho m'ilumina –
Sangue ao corpo ensina
O arrebatar tão eficaz
Qu'até de mim sou contumaz. 

Logo, descomparecido
Nesse juízo pertinente
De intentar ser ouvido
Com'os demais, na gente. 

Joaquim Maria Castanho

NASCENTE OCIDENTAL




NASCENTE OCIDENTAL 

Lancei a minha mão ao horizonte
Para ver onde iria parar, cair… 
Aflorou tuas faces, tua fronte
Só pla esperança de te ver sorrir. 

Também o sol foi na mesma direção, 
Tomou caminho para os teus lados; 
Foi em busca, perseguindo minha mão
Por ter inveja dos meus cuidados.
Que esse astro sabe, se quer brilhar, 
Que tem de ter razões, causa de jeito, 
Tal e qual é para mim o teu olhar
Quando o verbo me pulsa no peito. 

Lancei a minha mão ao horizonte
Apenas pra ver o que de lá trazia… 
Trouxe sede e saudade dessa fonte
Que são teus olhos, na minha poesia. 

Joaquim Maria Castanho

4.27.2017

UM CHÁ COM AROMA DE ISTAMBUL




AROMA DE ISTAMBUL

E a bela samaritana
Deu ao estrangeiro
A beber essa tisana
Do olhar, primeiro…

E a saudade chama
A flama de seu chá
Já apenas plo cheiro!

Joaquim Maria Castanho

4.26.2017

NEGAÇÃO DA SANIDADE




NEGAÇÃO DA SANIDADE

Já não temo a solidão
Nem receio morrer sequer, 
Pois meu medo é teu não
E não outro não qualquer… 

Supus, por deixar de te ver
Ser capaz d'esquecer também
O teu sorriso, a tua voz
Sem igual a mais ninguém, 
Mas ora fiquei a saber
Que não há forma de perder
Quem está vincado em nós, 
Quem ouvimos no caminho
(Micro-eco sem entrave
Nas ondas do vento suave)
Que fazemos para fugir
(Mas saudade agrave…), 
Estrela em que m'aninho
Insiste ser a casa cinco
Sublinhado sulco, vinco
Por favor não digas não
Outra vez, que de morrido
Ficarei vivo, mas ficção
Personagem sem coração, 
Tão rendido, tão sofrido
Que prà vida 'tou perdido… 
– Da sanidade negação! 

Não temo ser descoberto
Nem me saberem cativo, 
Mas tão-só não ter-te perto
Cada segundo que vivo.

Joaquim Maria Castanho

4.25.2017

TRANSPARENTE É O ABRAÇO




ABRAÇO TRANSPARENTE

Mergulho em tuas águas
E sou o cristal de um jardim, 
Sem orgulho e sem tréguas
De ser em ti, como tu em mim
Já na ribeira dissolvente
Pla liquidez da sofreguidão: 
No abraço pleno a semente
Gera socalcos no coração, 
Janelas por cima deste rio
Que agita as profundidades
Mata sedes, corrói o frio
Planta vides nas saudades, 
Essas mais que uma, duas
Três, mil que sejam por segundo
Que, cópia de ti, serão luas
Cópias da lua qu'é A sol do mundo. 


Mergulho na água que tu és
Soluto de soletrar paixões, 
Que dá a volta mundo sem pés
Nem julgar o ser plas ilusões. 

Joaquim Maria Castanho

ABRAÇO TRANSPARENTE




ABRAÇO TRANSPARENTE

Mergulho em tuas águas
E sou o cristal de um jardim, 
Sem orgulho e sem tréguas
De ser em ti, como tu em mim
Já na ribeira dissolvente
Pla liquidez da sofreguidão: 
No abraço pleno a semente
Gera socalcos no coração, 
Janelas por cima deste rio
Que agita as profundidades
Mata sedes, corrói o frio
Planta vides nas saudades, 
Essas mais que uma, duas
Três, mil que sejam por segundo
Que, cópia de ti, serão luas
Cópias da lua qu'é A sol do mundo. 


Mergulho na água que tu és
Soluto de soletrar paixões, 
Que dá a volta mundo sem pés
Nem julgar o ser plas ilusões. 

Joaquim Maria Castanho

4.24.2017

COM AS FOLHAS SOLTAS DO SENTIDO




COM AS FOLHAS SOLTAS DO SENTIDO

A dúvida me desfolha, tortura
E dilacera, que chego a delirar
Às doídas fronteiras da loucura, 
E aí te guardo pra lá do guardar. 

Não só teu rosto, mas também a voz
Perduram em mim, marcam o dia, 
Desatam e desenleiam estes nós
Com que alma à mágoa se prendia… 
Doía não te ver, com o doer atroz
Que fomenta essa melancolia, 
Que isola e ata, me deixa a sós,
E bloqueia o crer, que já descria
Sentir o quanto à vida se alia 
A si mesma e segreda existir,
Ou diz calada que sem ti é nada
Como igualmente eu nada sou, 
Ínfimo ponto sem ser nem porvir
Gota que seca no pó da estrada
Tão longe da água que a gerou
Que é lágrima de sangue morto, 
Coalho no soalho podre e torto
Do chão irregular, chão contorcido
Moída incerteza sobre teu querer,
Expetativa, papel atribuído 
Ao sentir que de mim sabes ter,
Que não sabê-lo me tira o sentido
Se dilacerado meu ser na espera
Corrói o ânimo já tão corroído
Que até o respirar me dilacera…


Tão amargurado, na incerteza
Que é a dor onde fora gerado, 
Que se fora flor de rara beleza
Havia de ter pétalas de cuidado
E dúvida, que me traz desfolhado.

Joaquim Maria Castanho

4.23.2017

DO ALTO DE CASAL PARADO SE VÊ TODO E QUALQUER LADO





DO MIRADOURO DE CASAL PARADO…

Em Casal Parado, as ruas
São como as ruas de qualquer lado
Com portas ímpares e portas pares
Janelas, varandas e paredes nuas, 
Cujas cores variam segundo o pintado
E conforme é vulgar em demais lugares… 

Mas Casal Parado não é igual 
A qualquer outro lado conhecido, 
Pois faz menção de dali se ver Portugal
Não plo que é mas plo que podia ter sido. 

Dali vê-se como se fosse uma geringonça
E este se parecesse a qualquer viatura, 
Que treme como gelatina e salta que nem onça
Quando a economia cresce segura;
Mas se, porém, oscila de incerteza
Traça, planeia e giza em linhas retas
Em direção a muitas dessas metas
Que parecem antídotos prà crise portuguesa.
E que já vem de há muito tempo atrás, 
Mesmo de mil trezentos e oitenta e três
Em que a coisa andava zás catrapus-catrapaz
Pelas desenvergonhices dos nossos reis.

Portanto, está bom de ver (e sentir)
Que em Casal Parado, nada anda sem mexer
Nem nada mexe sem muito rir, 
Tal e qual como costuma dizer
O nosso povo, sadio e bem-apessoado –
E que de Casal Parado não quer sair.

Joaquim Maria Castanho

4.22.2017

CASAL PARADO




Que lugar é esse, o da literatura, enquanto experiência humana? Que terra é essa que nunca foi, mas a que eu chamo simplesmente de Casal Parado?

       
A gente ao princípio começa por ir lá aos pouquinhos, para se distrair, para descansar da realidade, para se divertir secretamente (quiçá secretamente), para ter um lugar onde só possam entrar as nossas amigas mais chegadas, os nossos seletos amigos, onde as coisas aconteçam por diferentes razões daquelas que em família, na escola, ou na rua, as causam e justificam; para evadir-se do dia-a-dia, para esconder-se da timidez com que nos debatemos, para surripiar uma frase inteligente de que precisamos, para desentorpecer as nossas inquietações, por birra, e até mesmo para buscar auxílio e ajuda na resolução dos problemas que nos assolam. Às vezes entra-se lá pela mão de alguém mais experiente e crescido, uma avó, uma professora que nos cativou sobremaneira, um irmão, companheiro de classe ou simplesmente alguém que contou uma história para adormecermos, comermos a sopa e entreter-nos enquanto o nosso adulto responsável estava ocupado por tarefas inadiáveis. Outras porque aquele ou aquela que nos acompanha no acaso das circunstâncias não está para aturar os bichos-carpinteiros da fedelhada e nos arrumou algo útil com que permaneçamos quietos e sem chatear. Seja pelo que for, o que é certo, é que quando lá entramos nunca mais regressamos a ser os mesmos, com reações diferentes às mesmas sucedências ou acontecidos, ou alterado poder de manobra e encaixe quanto ao que somos e os demais nos parecem ser. Sofremos uma espécie de metamorfose, de transformação, ainda que delével e sem deixar mossa, mínima beliscadura ou picada de insecto, que coçamos ou sacudimos para encetar nova corrida, salto, chuto na bola, pedrada na água, deitar a língua de fora à vizinha velhota mas rabugenta que nos promete rebuçados se lhe dermos um beijinho (bhhhaaaa!!...), ou pularmos sobre a cama à sorrelfa de quem tem obrigação de a manter impoluta. Se estamos doentes, assolados por papeira, varicela, sarampo, gripe, ou de castigo no quarto por alguma malfeitoria grave, como tão-só no desentediar do momento, ao percorrer o quarto com olhar de desafio a fim de perverter a contrariedade que ali nos depusera, damos de caras com uma prenda de anos ou de Natal a que anteriormente não déramos alguma importância, exatamente por ser um livro, um naco de literatura em formato de bolso, tijolo de tapar brechas na desenvoltura lexical, excerto de paisagem de outras dimensões e díspares tempos.  
Depois a gente nem nota como, mas começamos a demorar-nos lá, entretidos com esta ou aquela personagem, alguém suficientemente descarado para nos revelar segredos íntimos, dizer o que pensa disto e daquilo, capaz de desaforos mirabolantes se provocado, possuído de força incomparável, detentor de poderes mágicos que tanto jeito nos faziam para apagar do mapa os pindéricos que nos atrofiam e não nos deixam crescer em paz e retouça. Apanhando-lhes os trejeitos, tiques característicos, falas, traquinices, partidas, repentes, argúcia, e até a vocação e vivacidade imaginativa. Ou inventiva, como apraz a muitíssima e boa gente qualificar. E aí inicia-se o jogo de esconde-esconde, o guardar algo na mochila ou no bolso que nos transmite confiança, tal como uma pedra do rio, uma concha de praia, um cordel insignificante, um apetrecho de pesca, a carica ou berlinde da sorte, o selo valiosíssimo, a moeda suja e carcomida que encontrámos no sótão, no quintal, recreio da escola, caminho que percorríamos desaustinados, mas nos chamou a atenção e fez parar para ver o que era, e mostrámos aos adultos ou colegas, não merecendo outro comentário além do célebre e tradicional «Aaah!, porcarias!» Então, nasce o primeiro sintoma de que ficámos agarrados, viciados, capazes de sonhar acordados, de falar alto quando estamos sozinhos, de escutar a conversa entre duas ou mais pessoas sem que elas nos vejam, e de responder «Médico», por exemplo, se alguém nos pergunta o que queremos ser quando formos grandes, mas fazendo figas atrás das costas e pensando noutra profissão qualquer! 
Principalmente porque já percebemos que, de cada vez que lá entramos, somos notados: aquilo fala connosco, trata-nos por tu, esclarece-nos acerca da nossa identidade e dúvidas sobre o pessoal conhecido. Passamos a ficar mais um pouco do que o habitual, e se nos chamam para almoçar fingimos que não ouvimos. As personagens preferidas, aquelas que nos vingam e enfrentam com galhardia os arruaceiros do nosso desassossego, os que apostaram em fazer-nos homens dê lá por onde der, prometem surpreender-nos ou revelar-nos coisas indizíveis se não abalarmos imediatamente. Se esperarmos mais uns parágrafos… Se aguentarmos até folhas adiante… Estamos feitos!
Podemos até distrair-nos com as obrigações quotidianas, estabelecer relações sociais desejáveis, tirar boas notas, responder positivamente às expectativas dos maiores e companheiros, brincar normalmente com os primos e vizinhos, integrar grupos, bandos, agremiações religiosas ou partidárias, ir de excursão em visita de estudo ou recreio, ajudar os familiares no campo ou na lide, cuidar do nosso animal de estimação, fazer corridas de bicicleta, assistir a jogos de futebol ou bater palmas na primeira fila dum espectáculo. Como igualmente socorrer-nos da idade que temos para fazer o que acham que devemos fazer com ela, ou é suposto fazer-se nela: brincar, estudar, namorar, trabalhar, conviver, estar com a família ou os amigos, participar da vida pública, encontrar na actividade social um óptimo élan vital para nos fortalecermos e enraizarmos. Além de estabelecer vida e família própria. Todavia, se já descobrimos a nossa voz, e ela foi reconhecida como a nossa voz entre outras vozes, autores ou personagens, narradores ou redatores, então toda e qualquer experiência que tenhamos, ficou com lugar marcado para ser dita por ela numa invenção oportuna e premente, onde essa revelação tomará foros de imperiosa e urgente: tornámo-nos literatos. Nómadas do conhecimento e da geografia, andarilhos da empatia, fotógrafos dos inconscientes (individual e/ou colectivo), contrabandistas de valores pouco explícitos. Vagabundos da língua, cavadores de areais em busca de tesouros que ninguém nos legou, mas antes roubámos do fantástico baú da História como das histórias… Da história pessoal como da coletiva, tenha sido ela registada no consciente como no inconsciente, sobretudo quando encontramos fronteiras demarcadas entre ambas, o que é raro, e só sucede aos que se libertaram da lei da morte por obras valorosas, como salientou o bardo lusitano dos sete mares andarilho.  
E se por um lado ganhámos uma pátria (a língua em que a nossa voz se expressa), por outro, conquistámos também uma trincheira, labiríntica, subterrânea, misteriosa, de onde olharemos os outros para lhe atirar os nossos petardos. Não para os atingirmos mas para os tornarmos conscientes de quanto estão ao nosso alcance. Alguns deles são mesmo fogo-de-vista, artifícios de maravilhar, plenos de cor e exotismo, movimento e som, aroma e ritmo, que os arrebatam e deslumbram, os levam a baixar guarda, exilar-se de si próprios, e seguirem-nos na aventura de soletrar o espaço-quando. O tempo e o modo. A letra e o estilo. O género e a ousadia. Enfim, a fala e a voz! 
Abandonado que foi o reino do fazer é altura de entrar no de como fazer, pois todas as nossas aptidões e experiências humanas se alteraram. Viver deixa de ser importante, mas o como fazê-lo (ou como se faz) torna-se imperativo. Então, se se entra num jogo, ou numa profissão, é premente saber praticá-los bem, não para ganhar o jogo ou evoluir na carreira, mas sim para assimilar a experiência a ponto de poder servi-la pura e real, em condições de utilização óptima, ainda muito dentro do prazo de validade, aos personagens (nossos ou alheios) que habitam no universo dos que nos reconhecem (a voz): a literatura. A mentira. A mentira tão mentirosa que chega desmentir-se numa verdade que nos espelha, reflete, projeta, alicerça e determina. A mentira tão profunda que nos devolve autênticos em palavras para além do que somos e queremos ser. A ilusão que nos descarna e coloca no rubro da carne viva, sujeitos a todas as infeções dos sentidos, incluindo da empatia e propriocepção, do envolvimento pessoal e da cumplicidade inequívoca. E que nos doutrina na forma de nos conduzirmos entre os demais, semelhantes e diferentes, físicos e imateriais… Enfim, chegamos a Casal Parado!  

Joaquim Castanho 

(Ilustração: fotograma do filme A VIAGEM DE CHIHIRO, de Hayao Miyazaki)

4.21.2017

OLHANDO O MAR, SOB O AZUL




SOB O AZUL, OLHANDO O MAR

        (Paisagem com rosto, ou alucinação sobre a água
                                             fulgente de um pôr-do-sol de Foz domingueira...) 

Olha as gaivotas, ali linhas de voo
O seu corte pontiagudo no diamantino céu
E cristal também plácido espelho
Das águas chispando (a)deuses. 

Podes pedir-lhe a calma da tarde
Que não te recusarão o destino,
Porquanto é o corpo quem parte
Mas ficando nelas o olhar-menino
Deste silêncio, líquido definido
Mascando ênfase no sonho corrompido
Pelo coração em sobressalto, desatino
Com a vida e seus incontáveis reveses, 
Que nos concedem sempre o que às vezes
Apenas acidente supomos ser no puro linho.

Não apetece ainda o escurecer:
Há caminhamantes na marginal…
Mas o soslaio do sol fisga a Pousada
E põe na grama verde a linha escalada
De romper as frestas ao molhe triste
Nos olhos dos olhos se o Douro viste.  

                           Pousada da Juventude, Porto
                           .../.../...– 16:30 horas 

Joaquim Maria Castanho

RAIOS DIGITAIS




RAIOS DIGITAIS 


São os ires e voltares de Arina na areia em raios X quem ilumina
E há no tempo altares de abrires a íris ante os milagres que vires
Relógios biológicos dos noves redondos às novidades da gravidez
Porque a dança dos números na cadeia da existência exige tua tez
Neles há elos que entrelaçam a urgência alfanumérica na sensatez
Se despem dos caprichos sulcando nichos de fluorescência e canto
Verdes ramos de silene nas frinchas do manto em retalhos multicor
Esculpidos nas escarpas do ser ainda investido da perfeição divina
Falésias fustigadas pelas marés do amor que a si mesmo se ensina
Quanto só se ama amando na vereda feita por quem muito caminha
Autoestradas a uma outra Roma sem César nem o incendiário Nero
Novo calendário onde os setembros são noves e o nove apenas zero
Recinto aberto dos deuses que duros não fogem e muros esfarelam
Quando as humanidades às vezes fiéis a seus poderes divinos apelam
Mulheres e homens tão-só sem os absolutos corcéis da exigida voz
Idades médias da refrega em laços redutos de refúgio e pura entrega
Socalcos na arena onde perante o temor o último reduto somos nós
A sós feitos nós da rede as mãos damos nas Íris conforme vamos
Assim a noite ensombre o dia e a sombra do mar na terra maresia
Que todo o ph está apenas no fósforo em Pi rico desta filosophi@
Dita nas Ágoras invisíveis e fóruns de ouro dos sentimentos vivos
Como seguro SOS da liberdade nos W que vítreos vencem os e-crãs
Transparentes almas à solta e triplo salto do sonho em solfejo digital
De esgar em esgar repartido sem instante nem o requerer consumido
Das exigências típicas ao profanar da liberdade e dessas liberdades
Pequenas de cada qual que tornam grande e valorosa a que é essencial
E única e múltipla e fecunda e transparente como o meu olhar em ti 
Às vezes insistente, às vezes inquieto, mas sempre forma de chamar-te
Pra mais perto, pra requerer-te como quem quer teu ser de mulher.

Joaquim Maria castanho

UM MENINO VESGO




UM MENINO VESGO 

Há pessoas que se deixam arrastar pela desventura, 
Outras que se deixam seduzir pela beleza. 
Alguns arriscam o destino trágico dos seres 
Que se tornam definitivamente adultos!... 
Mas em cada assisado 
Há sempre uma criança adormecida. 

Também tu, meu amigo, 
Foste um menino mau como os outros. 
Reconcilia-te com esse menino! 
Fala ao teu filho com o teu coração de menino... 
Mas, lembra-te que: 
Falar não é arremessar palavras, 
Não é cuspir frases. 
Falar é deixar que os silêncios falem. 
Tu falas às crianças 
Como se tivesses um velho livro na cabeça 
E um polícia no coração. 
Vês o teu filho sem o olhar; 
Vês só a imagem que dele inventaste, 
Misturada com a ideia da criança que eras. 

E assim, 
O teu filho não sabe rir, 
Gagueja quando o interrogas, 
Não sabe estender-te os braços, 
Não sabe olhar para ti, 
É vesgo. 

Deixa de ser um menino mau, meu amigo, 
Estende os braços ao teu filho, 
Faz gazeta por um dia e vagueia com ele por aí.

JOÃO DOS SANTOS
Poema escrito durante o Primeiro Colóquio Português de Estrabologia, em Sintra, no dia 21.IV.1968.

4.20.2017

ÍNTIMA ESPIRAL




ÍNTIMA ESPIRAL 

Mas limito-me a ler a espera
Entre ser e ver-te, assim real
Enquanto o coração acelera
E entretece o voo original,
O retorno ao eterno querer
Onde os sonhos e a Quimera
Nunca esperam o nosso dizer
A fala, a palavra de quem dita
Que ser é ver que se acredita. 

E por esse interregno suposto
De quem se sacrifica e imola, 
Gosto tanto de gostar, qu’o gosto
É um éter que me dilui e evola. 

Joaquim Maria Castanho

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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