8.27.2005

Excerto da obra inédita ESTRELA, de Gabriel Raimundo, já no prelo, e a ser lançada em Outubro, provavelmente na Covilhã e aqui em Portalegre.

Capítulo IV

SAGA DO REI FRANCISCO

Dinis, o Príncipe das Pedras Brancas, mais parece vocacionado para cronista da corte que gira em torno de sua mãe Rainha do que propriamente inclinado a desgovernar a região em que implantou o lustroso e confortável Castelo do Amor e Ventos Prósperos.
Foi, precisamente a uma observação da mãe neste sentido, que ele retorquiu com um argumento de se lhe tirar um chapéu da cor da azeitona galega: - Se eu consegui tornar-me perito em Turismo e Comunicação, não foi para vender aos deslumbrados da neve e das nossas belezas naturais os estereótipos dos compêndios de História e Geografia, nem o conteúdo veiculado pelos folhetos vistosos dos departamentos de propaganda do nosso Património. O que eu pretendo é colher troncos e ramas do saber popular, conhecer a fundo a nossa Geografia Humana e as aspirações dos nossos conterrâneos.
- Quem te ouvir falar assim, meu filho, vai julgar que te queres candidatar a Presidente da Câmara – espicaça-o a Rainha, adivinhadora dos planos profundos do seu rebento primeiro.
Ambos sabiam que se tratava de uma brincadeira, pelo que Dinis tomou a iniciativa de colocar mais questões, a quem o gerou e toda a disponibilidade e paciência do mundo mostra em esclarecê-lo, principalmente acerca de assuntos, inerentes ao reinado para que foi investida pelo pai Rei que, generosamente, abdicou do trono em proveito da sucessora ímpar, com a mesma determinação com que o faria, se da Rainha de Inglaterra se tratasse.
- Fale-me da actividade profissional de Rei Francisco, o meu avô...
Sorrindo, perante mais este trocadilho de seu dilecto Dinis, a Rainha do Casal procura não defraudar a veia de bom ouvinte e incansável investigador do seu interlocutor:
- O meu pai trabalhou que nem um dos actuais imigrantes do Leste, por todos os rincões em que pediam braços ágeis para as tarefas agrícolas.
Contém a comoção real, não tardando a abrir a cascata das recordações:
- Quem precisava de pessoal para trabalhar à jorna, deslocava-se à hoje Praça da Liberdade. Até havia uns que vinham do Dominguiso, dos Vales, das aldeias do rio-abaixo. Eu passava ali muitas vezes e via lá uns moços com a enxada aos pés. Aqueles que arranjavam patrão iam trabalhar. Os outros voltavam com a merenda para casa, o que nunca aconteceu com o meu querido pai, tal o apreço com que era tido na bolsa dos agricultores da meia-lua do rio Zêzere, bordada de oldeiros propícios à expansão de pomares, vinha, milho, legumes.
Por outro lado, é dos poucos habitantes da freguesia que altivamente pode subscrever a afirmação, em relação ao centro mais nobre da Vila dos Tecidos: - Eu nunca perdi tempo a pintar o tecto à Praça!
Lamentavelmente, este é um passatempo favorito de muitos jovens, de pré-reformados e idosos, gentes sem objectivos socioculturais ou meros subsidiodependentes do Ministério do Ócio.


Mouros façanhudos e Ratinhos ridentes

Ilustra as qualidades braçais de Rei Francisco com um dado fabuloso:
- Chegou a integrar-se num rancho de Ratinhos do concelho de Pombal para as tradicionais ceifas calorosas, nas herdades da região considerada o Celeiro da Nação. Um manajeiro e angariador de mão-de-obra valorosa que um dia se cruzara com ele na Ponte Pedrinha, gostou do seu porte humilde e decidido e nunca mais lhe perdeu o rasto.
Chegou a fazer o trajecto a pé até ao Rossio de S. Brás, o ponto de encontro na capital do Alentejo, tal qual os parceiros no desbaste das searas, que ao principio as camionetas da carreira eram de horário espaçado e bilhete caro...
- Qualquer outro Rei iria de caleche – chalaceia o neto que vagamente conhecera o avô...
- Ou na charrete de um desses abastados lavradores que passavam dias a fio, jogando à batota num dos manhosos casinos, estrategicamente colocados entre o sul e a capital do Reino – satiriza a Rainha do Casal, no que deixou espantado o filho, pela amplitude dos conhecimentos demonstrados, certamente colhidos nalgum almanaque de anarquistas, uma molhada de cidadãos bombásticos que se divertiam a contestar o regime monárquico e a denegrir a República e que tinham o desplante de reivindicar o desalojamento dos defuntos de terrenos considerados sagrados, com o pretexto de que a terra deve pertencer a quem a trabalha...
Rei Francisco alimentou-se das migas dos alguidares que lhe facultavam e conheceu outros velhos comeres dos ganhões da região, em que os temperos com poejos, espargos e outras ervas aromáticas faziam esquecer o azeite, ao mesmo tempo que se deliciou com carnes de porco e borrego, os enchidos, produtos copiosamente servidos na mesa de capatazes e do pessoal da casa. A míngua do vinhito que lhe acelerava o pulsar das veias, compensava-o com os goles de água da infusa e as pancadas secas nas hastes das espigas carregadas de grãos, nunca se afastando da frente dos mais audazes segadores.
Por voltas do S. Pedro já se encontrava em casa a remirar os cobres de reserva.
- Os alentejões puseram-nos a alcunha de Ratinhos, devido ao nosso aspecto atarracado e teimoso no meio das searas, onde dão nas vistas os nossos dentes brancos nos rostos morenos, tudo levando na frente, como se ali caísse de repente um exército de seres roedores – explicava-nos ele já no lar, à roda de uma malga de caldo de feijão que lhe puxava pela língua. Claro está que mais depressa lhe rolavam as palavras contra os dentes, se a ceia fosse acompanhada por uma pinguita do garrafão, comprado na tasca do primo Ribolache, o homem que em noites de alma quentinha gritava do terreiro em frente: - Aqui é o Céu!...
A Rainha nada esconde a Dinis, cada dia mais interessado em vasculhar nos compartimentos históricos maternos. Outra revelação faz ao filho:
- Contou-me uma noite o meu pai que os alentejões – nome que ele dava aos habitantes dessas terras de planície, de muitos calores estivais perfurando as copas dos chaparros e das azinheiras, e fortes geadas no Inverno – não acolhem muito bem os Ratinhos que - de empreitada - ceifam nos campos da sua região, porque dizem que tais ranchos os vão prejudicar, ao aceitarem efectuar aquele duro trabalho por um preço irrisório. Inclusive, os agrários chegam a recrutar pessoal na Beira, em Trás-os-Montes e no Algarve, nos momentos em que os assalariados da zona se recusam a efectuar as tarefas inadiáveis, pela tabela que os latifundiários lhes pretendem impor. Segredou-me o meu pai que já chegou lá a haver tiros e desgraças, por causa desses desentendimentos regulares...
Nem só adversários encontraram os Ratinhos, também apelidados de Galegos, porque originários de localidades acima do Tejo (como desforra, os de além-Tejo não se livram de ser designados de Mouros).
- Nada nos metia medo – afiançava o meu pai, homem pacífico. – As mulheres de chapéu de abas largas e roupas coloridas a cobrir-lhes todas as partes do corpo, como as árabes, gostavam de nós. No baile de despedida, por alturas do S. João, alguns companheiros agarravam-se a elas como os grilos à serradela. Raro era o ano em que não ficava por lá um dos elementos do nosso rancho, casado ou amigado, consoante as posses. Por sinal, há várias famílias como o apelido de Rato, entre Évora e Portalegre, pelo menos, e mais do que uma loja ou café ou restaurante com o reclame de Ratinho... Nos Canaviais, freguesia que medrou em volta do Convento do Espinheiro, aglomeraram-se largos núcleos de originários da área de Pombal e arrabaldes. Primeiro ficaram os Ratinhos mais atrevidos e, aos poucos, foram ali desembarcando os parentes com ofícios de ganha-pão garantido no concelho eborense, desde o alfaiate ao leiteiro, padeiro, serralheiro, pedreiro, pintor, empreiteiro de obras, carpinteiro, canalizador, mecânico, sapateiro, barbeiro, quer dizer, os homens dos ofícios em crescente valorização e que não precisavam de carta de chamada para ingresso e radicação em sítio de fisionomia ainda indefinida, mas cá dentro... Eu não fui na cantiga de nenhuma ceifeira, porque te tinha a ti e à mãe Hortense – confidencia o Rei à menina de seus olhos, à sua Maria Rainha.
O manajeiro, o capataz geral, os patrões e os companheiros de rancho apreciavam a frontalidade e a capacidade de trabalho do serrano Rei Francisco, habituado a oferecer a força braçal, desde a meninice, de cujas brincadeiras mal desfrutou, uma vez que a sua escola foram os campos das redondezas, com quadros a céu aberto e lições ao relento, seguindo atento as fúrias e humores variáveis da Professora Natureza.
Dos 20 aos 60 anos foi um dos esteios do rancho de ceifeiros de Pombal que ele servia com devoção, por achar uma coincidência - fora do comum - ele também habitar no número 1 da rua do Pombal no Casal da Serra!
No meio das espigas carregadinhas de grãos de oiro, debaixo de um céu semeado de lanternas que lhe lembravam o naco de firmamento que avistava da janela de sua casa na comunidade casalense, Rei Francisco dormia envolvido num casaco defensivo da poalha dourada e das picadas dos insectos, ávidos de sangue serrano... Não virou costas ao pão pedregoso nem à água choca, chupou caroços de azeitonas britadas, ingeriu gaspachos destemperados, trincou linguiças e torresmos de sortido duvidoso.
Gradualmente, lavradores, capatazes, manajeiros e companheiros de percurso viram nele um patriarca emblemático, capaz de arbitrar qualquer conflito.


Humilhação e queda real

Até que um jovem recentemente promovido a manajeiro, enciumado com o prestígio que o Rei alcançara no círculo dos ceifeiros meteu na cabeça que urgia dispensar-lhe os serviços, como se faz a um seringa descartável.
Um dia, esse badameco conhecido por Zé Bode, teve o descaramento de gritar à frente de todos, no instante na pausa que o Rei aproveitara para refrescar a garganta e limpar o suor que lhe escorria em bica, quando o termómetro marcava 41 graus:
- Ó Rei! Você não pode com uma gata pelo rabo, já não vale nada. Fique em casa no próximo ano! – foi a sentença fatal, da parte de um fedelho que tomara o lugar do pai – o Albano de orelhas de abano – homem cordato e compreensivo para com o parceiro, fosse ele de trás-de-serra ou do lado do Sol a escorrer pelas encostas da Cova da Cereja.
- Então, agora como é que vamos sobreviver? – preocupou-se a sua Hortense, habituada que estava a esse pé-de-meia anual, complemento que conseguia aos incertos ganhos, auferidos nos breves períodos em que laborava nas propriedades de notáveis e abastados, ora na poda de vinhas e árvores frutícolas, ora na rega, no arranque de batatas ou na plantação de novos pomares.
- Ó minha mãe, não chore! Não se apoquente, mulher! Alguma coisa se há-de arranjar. Uma fatia de pão que eu tenha, reparto-a com vossemecês! – a Rainha em amadurecimento encorajava a progenitora.
A solução imediata não tardou. Rei Francisco passou a ajudar a irmã Piedade dos Bigodes, mulher de bater o pé ao carrapato do marido – Arménio da Onça – um pegamasso sempre de roda do cigarrito de enrolar em papel fino e fechar com lambidela de beiços, assustador da passarada com pragas constantes, capazes de corar as maçãs do rosto de uma rameira.
Porém, a irmã não lhe dava um vintém. Rezava esta estranha ladainha pelos cantos: - Ai dinheiro! É os infernos!...
Rei Francisco chega a casa com uma cestita meia de batatas, ao fim-de-semana.
- Olha! Só se come batatas – desabafava a minha mãe e chorava muito.
- Seque as lágrimas, minha mãe! Comemos todos da mesma panela – tentava mais uma vez consolá-la.
O Rei andava arrombado de todo, em consequência do mau passadio, batucando nos madrastos torrões com a enxada obediente. Um final triste estava para ocorrer...
Certo dia, depois de vender a carga de hortícolas no Mercado Municipal da Covilhã, como acontecia com regularidade, sofreu um acidente fatal. Em vez de montar na posição normal, sentou-se de lado, à maneira das senhoras de alta roda em passeio citadino. O cavalo não estava habituado ao movimento intenso dos carros e espantou-se numa curva da via inclinada...
Maria Rainha revive a tragédia de voz soluçante:
- O meu pai foi projectado para o meio da estrada de paralelos, partiu a espinha. Ainda o levámos ao endireita de Caria e a seguir a um médico conhecido.
Ao fim de três semanas, acabou-se o martírio do Rei que nunca viu o sangue azul correr-lhe nas veias, nem beneficiou de qualquer benesse do tesouro real.


Beirões nos campos d’ Além-Tejo

Dinis procurou honrar a memória de seu avô Rei Francisco, através da divulgação dos dados apurados acerca dos Ratinhos. Eis o trabalho que enviou para um periódico das cercanias do Guadiana, mas que nunca viu a luz do dia, pelo que teve de resguardá-lo no cofre das memórias pendentes, até que agora se decidiu a revelá-lo:

Chegavam em ranchos, com fisionomias graníticas buriladas pelas tempestades do Norte. Daí o apelidarem-nos de Galegos, uns, enquanto as gentes da ceifa os apelidavam de Ratinhos – a estatura atarracada e a predisposição para mostrarem os dentinhos nas densas searas, mais os andrajos negros que lhes revestiam a pele terrosa, evocavam esses seres saltitantes e determinados debaixo de um céu sufocante. Mas, acabaram por se misturar com os naturais, pelo que hoje vivem nos limites de Évora e noutros recantos do Alentejo risonhos descendentes dessas pessoas sofredoras, empurradas a transpor o grande rio, deitando para trás das costas a saudade das parcelas de chão de penedos, carqueja e urze, regadas a geadas intempestivas e suores de teimosa enxada.
Presentemente, na freguesia de Canaviais, os originários nortenhos cantam com a voz da terra que ajudaram a tornar madura e amadurecida, com raízes bem fundas neste Alentejo hospitaleiro.
Surpreendidos pelos horizontes de fazer esquecer as hortas hereditárias de trás de serra, depressa muitos deles se decidiram pela transferência de região. Canaviais foi uma das zonas de eleição para pessoas como o Ti’ Zé do Moinho, como é popularmente conhecido José Gonçalves.

Relata a seguir o jovem investigador que o nonagenário do concelho de Pombal constrói a rua da Paz:

Pelo olhar de quem nasceu em 29 de Novembro de 1907 em Vila Chã, ainda perpassam as faúlhas de vivacidade e energia que o animaram a dar forma de povoado sólido aos Canaviais. Dos seus 90 anos bem preenchidos, conta 63 de vida regular no perímetro de Évora.
A memória de Ti’ Zé do Moinho é uma nascente de Primavera:
- Comecei a vir com 7 anos à ceifa, na companhia de um manajeiro lá do Norte que trazia 30 homens para a Herdade da Preguicite Aguda, e uns rapazes novos. Ele também era empreiteiro. Andei meia dúzia de anos a fazer a ceifa, até que me casei. Passados três anos, vim falar com o meu padrinho de nascimento – o Dr. Bento Pouca Roupa – que era o Provedor da Misericórdia e me convidou para tomar conta da azenha - localizada no Degebe - com a minha mulher Conceição Fatigada. Fui eu que fiz as mós e pus o moinho a funcionar a cem por cento...
Prossegue o nosso paciente interlocutor:
- Ah! Mas a seguir à ceifa, aprendi a carpinteiro na terra e fui trabalhar para Lisboa com um indivíduo que tomava obras de empreitada... Voltei ao Norte e, já casado, comecei a andar no negócio de ambulante com o meu pai – vendíamos loiça de Coimbra, e também peles e trapos velhos para fazer mantas, a uma fábrica de tomar.
Vim para baixo como carpinteiro e tornei-me moleiro, a pedido de meu padrinho... Até que pensei em arranjar uma quinta de renda e assim me aguentei, ao longo de 18 anos... Acabei por comprar um naco da Quinta Nova dos Canaviais, onde nos encontramos.

Remontamos aos primórdios do povoamento da zona que não cessou de se expandir e tornar numa freguesia com um núcleo acentuadamente urbano, sem perder as características da inicial tranquilidade rural, na orla dos eixos rodoviários que a servem.

- Isto era uma área muito grande. Uns senhores compraram-na e retalharam-na em talhões, para vender. Houve um que me agradou e não descansei enquanto não o comprei.
Vim cá vê-lo a uma segunda-feira e passou a ser meu à terça – era o Dia do Senhor Porco, porque os lavradores e os quintaneiros tinham então o costume de se juntar na Praça do Giraldo para negociar porcos e ovelhas. Comprei o talhão com o dinheiro emprestado pelo meu padrinho... Havia um bocado de vinha no terreno e uma só oliveira. Depois vendi uma parte do ribeiro para lá, para amortizar a dívida... Comecei logo a fazer umas casitas e, passado algum tempo, o prédio onde ainda vivo. Mas arrendei a parte de baixo para taberna, agora café...

A entreajuda da filha professora:

Acordámos numa pausa para o homem dos 90 anos, um misto de vitalidade entre o castanheiro e o sobreiro, e passámos a dialogar com a filha, D. Zilda, professora reformada:
- Viemos morar para cá em 1955. Foi quando eu saí professora, por isso é que eu sei!
- E depois – retoma o tranquilo ancião – fui construindo todas as casas à volta da estrada, hoje rua da Paz. À medida que fazia uma casa, hipotecava-a e, a seguir, erguia outra. Fiz uma dezena de moradias e nunca fiquei a dever nada a ninguém, graças a Deus! Eu é que fiquei a arder com alguns calotes...
Continuei a construir casas e a negociar em cereais. Juntava um dinheiro, outro tirava-o do Banco por empréstimo. Ia pagando e fazendo outras habitações, mantendo encargos bancários na ordem dos cento e tal contos. Naquele tempo, representava uma soma enorme, mas pagava sempre na altura certa – liquidava um para levantar outro, estudei a maneira de trabalhar!
Noutra fase, passei a negociar em azeitonas de conserva. No quintal há umas talhas grandes, apropriadas para tal. Comprava-as, meti-as no tanque e, à medida que ficavam prontas, destinava-as à região de Lisboa... Comprei logo uma camioneta e percorria o Barreiro, Setúbal, Palmela... E carregava também areia com a minha camioneta. Trabalhava dia e noite – só eu é que sei... Tive três filhos e estudaram todos!

Este Além-Tejo transformou-lhe o modo de encarar a vida:

- De cá, tenho boas lembranças, mas algumas menos boas do Norte! Adaptei-me bem ao negócio e ao Alentejo. Levei uma vida tranquila e os meus filhos não me ajudaram em nada. Foram para a escola e seguiram o seu caminho... A minha mulher é que me auxiliou muito.

Em jeito de retrospectiva:

- Foi uma vida um bocado apertada, graças a Deus não estou arrependido do que fiz. Não cheguei a tirar a 4ª. Classe, mas aprendi a ler e escrever... A minha filha sabe mais que eu. Ela também negoceia. Reformou-se muito cedo, aos 52 anos de idade, já com 32 de professora, e vai vender queijos à capital e ao Algarve...

Auscultados os vizinhos de Ti’ Zé do Moinho, vemos confirmadas as suas afirmações... Deste modo constatamos que as gentes do Norte, radicadas nos Canaviais, se dedicavam aos ofícios – padeiros, sapateiros, uns dedicados à venda e arranjo de bicicletas, outros taberneiros, carvoeiros, costureiras quase todas as donas de casas, havia pequenos proprietários de imobiliário – investiam na habitação, como aconteceu com o Ti’ Zé do Moinho e com o Sr. Aires que tinha uma correnteza de casas compridas e com chaminés que, pela sua semelhança, era conhecida por Comboio.
Este pessoal foi atraído pelas gerações anteriores que chegaram por ocasião das ceifas e outros trabalhos agrícolas. Os primeiros Galegos compraram terras, fixaram-se e deram origem ao incremento de um núcleo urbano com alguma importância. Gradualmente foram atraindo parentes e amigos, já voltados para outras artes, complementares das exigências de um bairro moderno, envolvido por quintinhas, formando a actual Freguesia dos Canaviais, povoada por pessoas com amor à terra, à Natureza.

Conclui Dinis a peça jornalística com esta observação do quotidiano eborense:
Terminara à Porta Nova o percurso do cliente, em vésperas da Feira de S. João, e discutia o troco com o taxista. Este só tinha uma nota de dois mil escudos e até confiava em receber o custo da corrida, na próxima ocasião, aproveitando o ensejo para lançar a pergunta:
- O Senhor é do Norte, não é? Pela pronúncia...
- Sou das abas da Serra da Estrela. E o Senhor?
- Sou de Chaves e estou cá há 20 anos. Chamo-me Sousa... Os meus colegas dizem que eu sou Galego, mas eu não me importo! Riram-se ambos. Afinal, eram mais dois Galegos que o acaso tornara amigos!

8.16.2005

Fragmentos do dizer

4.

Haverá um lugar onde nada é tudo
Aquilo que nos acontece é sempre sinal
De outro tanto interpretável à luz fria
Transparente do facto no espelhado reflexo
Ou água de mistério no olhar de um rio
Na subterrânea cave dos sentimentos, as rosas
Eriçam seus espinhos de sangue coagulado…

Mas na orla do tempo que se vê escorrer
Como um mar esmaecido pela voz das profundezas
As barcas nas correntes lisas ante a praia
Os remos de abraçar forças desaçaimadas
O simples gesto da foz escolhendo murmúrios
Ou o compósito da tarde no solfejo do ocaso
Brilha lazarento para lavar-te os pés nus
Empresta à espuma uma solidão efervescente
No regaço dos dedos sob a sombra das unhas
Pintadas de carne apagada ou lava encarnecida.

Não, a insistência não modifica a gente
Apenas empurra quem já de si quer ser
E sendo evolui tornando-o diferente
Ajusta, acerta, aponta, afina o querer
Para somar vitórias, seguir em frente.

Porque é aí, entre perguntas e resposta
Viradas prò desígnio de quem se aposta
Que a árvore se faz folhas, ramos, tronco, poesia
E do dizer a alma nasce também o dizer da magia...

5.

Distribuo-te pelos meus versos
Como se fosses o sal que os tempera
A verdade insuspeita que os habita
A cor que matiza a fala simples
O nome insurrecto que teima em permanecer
Mesmo muito depois de ser dito, repetido e redito
Confrontado com o seu eco no desfiladeiro do meu desassossego
Que vocifera o receio da alma na certeza que a desmente.

Viver é ter um grande amor e ser-lhe fiel
Até ao limite de todos os limites inclusive
Este: o de alguma vez tentar sobreviver-lhe.

Portanto, quando sentes familiares os meus versos
Assim como que inscritos no íntimo secreto da voz
A germinar químicas soluções para a refracção do desejo
Ou a contemplar o manso exemplo da luz nos contornos do dia,
Tens toda a razão: porque eles falam sim falam do ser
Do amor que é a nossa casa, quarto, sala comum
Cozinha de confeccionar o quotidiano na originalidade de cada segundo.

Falam de sentir prazer em dar prazer
Em naufragar nas ondas tempestuosas do sonho
Surfar nas linhas das mãos e escalar teus lábios
Ou na alpinia de escutar os segredos do tacto.

8.09.2005

Fragmentos do Dizer Fragmentos
1.

Já era quase noite neste dia ainda o mesmo dia
Quando comecei a escrever-te mas é de madrugada
Quando a aurora do odor do teu corpo se mistura
E dilui em brasa no perfume acidulado da rosa canina
E seu fumo evola e dança entre nós urgentes e nus
Que os ventres se requerem desesperados e sôfregos
E se fundem num só fogo de igual fragrância de sangue
Latejante sangue, febril e avassalador de esquecimento
Que cheira tão bem que até dói custoso de acreditar
As folhas a arderem estralejando desde a semente à raiz
Libertando fleumas de convergir na morrinha da manhã.

Eu confesso que também não sei quase nada das horas
Dos dias e do tempo apenas reconheço os minutos que sinto
Na intensidade dos sessenta segundos de pensar em ti em ti
Em ti no analógico desmedido até ferver cachoeiras de DNA
Furnas de lava ácida nucleónica borbulhante nas lagoas cerebrais
Ou desmesuradas quedas de água interior a despencar abruptas
Precipícios líquidos do desejo com que te dissolves em mim.

Há outras coisas que quero igualmente dizer-te sem parar
Claro, mas que podem esperar ainda pelo sacrifício do verbo
Quando o degolarmos na pedra ou altar de todos os silêncios
E o seu latido agonizante raspar o arrepio e sulcar a alma
Com as pontas de diamante das estrelas que anavalham o medo
O rasgam de alto a baixo e esfaqueando-o como cristais cintilantes
Plantam nas telas do céu diamantinos e fulgentes soslaios
Esses teus com que dizes não à morte de nenhum animal
Flor, árvore, ideia, cor, som, gesto, expressão de agora ser
Porque tu preferes que profira a vida em linhas de horizontes
Paralelos sobre a paralelidade como socalcos de aproximação
Palavras sobre palavras a irromper no imo seio das veias
E pulsantes impulsionem as correntes águas a espraiarem-se
Até não podermos mais de tanto ruborizarmos no inconfessável
Vermelho desejo do tumescente segredo no beijo sequestrado.

Porque quando se é julgado por incendiário e ter ateado fogo
À floresta dos sonhos incondicionais e estes em labaredas
Te incendiarem o corpo no suplício da obsessiva possessão
E me possuíres em ti como um crime consumado no imo foro
Então poderei explicar sem as usuais contundências iludórias
Da retórica dos remorsos e rebates dos desejos arrependidos
Que mergulhei na morte abraçado ao meteorito incandescente
Do teu beijo e atravessei-a toda num golpe de adaga imperial
Em voo picado de corvo marinho sobre o oceano do tempo
Separando a eternidade em duas metades como fruto maduro
Cometa acutilante de unha felina a dizer a fresta que nos une.

2.

Ninguém soletra o meu nome assim como tu assim
Ninguém lhe reconhece sentidos novos de dizê-lo
Simplesmente como se ele estivesse à porta e esfinge
Fosse do ARN mensageiro a resposta electrodérmica
A genética dos significados universais que há em cada um
O alfabeto ancestral que nos circunscreve o ritmo circadiano.

Quando dizes Joaquim eu percebo imediata e exactamente
Como pode uma mão tão pequena guardar tantos segredos
Ou quem sou eu para calar o indizível se atómico, nuclear
Dos sentidos a condição sine quoi non da notícia garrafal
A espalhar a ocorrência de um substantivo que desnaufragou!

Sim, quem sou eu para desoxirribonucleizar o silabar da voz
Erigir barragens sucedâneas para os rios e lagos amnióticos
E sereno me quedar fumando cigarro atrás de cigarro na tarde
Enquanto se pratica a traição do verbo estanque intransitivo
Quieto que nem uma bruma branca no gris artificial do modo
Permitindo ao sol depositar seus óvulos de solidão sobreaquecida
Pelos protozoários da incerteza na frigideira da planície afogueada!

Não; não esquecerei jamais as linhas esquerdas da tua mão
Repetindo que há outra vida na própria vida que eterniza a vida
Qual paixão dum girassol celestial a seguir a luz do teu olhar
Cruzando os tempos e distâncias imemoriais apenas na esperança
De rever teu sorriso pleno de mansidão confiada na minha fidelidade
Que já não inventa significados adversos por cada nome que repetes.

Mesmo que às vezes dê comigo a esbracejar enredos prò teu silêncio
Receios nebulosos nos dentritos aferentes dos axiomas da insegurança
Da angústia de não poder despir a molécula do destino com a língua solta
Obrigar as sinapses ao strip-tease profundo da história da espécie
Tecer com elas a malha, a teia, a rede, a cama elástica, o trapézio
Onde as hipérboles e elipses helicoidais do futuro nos balançam...

Ainda que sôfrego consuma cada segundo apressando a tua chegada
Hei-de ser-te fiel até à voz do restolho nas estepes
Quando sussurra seu grito estaladiço sob os pés
E nus desvendam o segredo da raiz na morte inerte
Ali sucumbido ao impudor escaldante do sol abrasador
Aquecerei meu sangue como lagarto na laje dos morouços
A absorver sequioso o secreto sigilo de teus sonhos e gestos.

Indubitavelmente. Ali... Fiel até às palavras que nunca me dirás!

8.02.2005

E = mc2

Primeiro Andamento


As botas rangem – maruja lá fora
O gesto repentino da criança rufia –
E mais, mais ainda que as botas
Os homens crescem, crescem andando.


Os homens batem, marcham, rangem
Proferem que é botas partindo...


Exijo-me soletração calçada
( Ainda não morreram os preconceitos! )
Plástica evasiva de caminhar cabisbaixo
: Se é assim que se esvaem os pesadelos...


Ontem, à mesma hora de hoje,
Ouvi dizer a um companheiro:
“ Nasci agora três vezes... Três! E é fantástico...
Nem por isso me sinto fatigado! “
HÁ PESSOAS CAPAZES DE TUDO.


As botas rangem ( raque, raque, raque
Raque ), como uma coisa a perguntar-nos:
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?
Quantos restam ainda? Quantos restam ainda?


Segundo Andamento

Tu: Tu és um criminoso!
O teu crime é trabalhares
Mais que o necessário,
E permitires que o lucro que dás
O teu suor, o teu esforço
O teu tempo, o teu sangue
A tua fome, a tua mão
Sejam usados contra o teu companheiro
Homem da mesma fábrica
Homem do mesmo escritório
Homem da mesma repartição
Homem do mesmo campo
Homem do mesmo mar
Homem do mesmo Homem.


Tu: Tu és um criminoso!
Temer é medrar. Engorda,
Engorda em ti o canibal antigo,
O teu gesto de indiferente.


Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime evidente,
O mais de entre os mais que todos,
É dar a título de imposto
O teu voto, o teu trabalho
O valor acrescentado, a quota fiscal
Com que a tirania dos fundamentalismos te
Prende
Mata
Exila

E há-de comprar
Fazer
Usar
Inventar
Alugar
Distribuir, o armamento ideal
Com que possa repetir Hiroximas
Cubas
Líbanos
Angolas
Áfricas do sul
Argentinas
Leninegrados
Jugoslávias
Timores
Moçambiques
Haitis
Iraques
São Salvadores
Sem conto nem fim...


Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime perfeito
É a mentira do teu voto
E o voto da tua mentira
Onde te trocas, meia dose de angústia
Disfarçada
Hondtorizada
Calibrada
E premeditada.


Tu: Tu és um criminoso!
E o teu crime ímpar
É o gesto de morte da baleia do mar do norte.


Tu: Tu és um criminoso!
E é inegável o teu crime
Naquela barriga sobressaída
Naquela ruga precoce
Naquela praia poluída
Naquela flor murchada
Naquela jovem violada
Naquela casa desabitada
Naquela robusta lápide
Onde se inscrevem as saudades mais imediatas.


Tu: Tu és um criminoso!




Nunca a indiferença o foi mais
Que isso
Por isso
Inscrita como epígrafe de nós.


Terceiro Andamento

Foi promulgado, de imprevisto
E ninguém quis acreditar, por si só:
“ Aos vinte dias do mês de ontem, a morte morreu. “


Mas nós estávamos lá
E usámos o refrão:
A morte é morta.


E então foi verdade,
E corremos pelos campos
À procura dos campos
Dos campos.


E então foi verdade,
E corremos pelas fábricas
À procura das fábricas
Das fábricas.


E então foi verdade,
E corremos pelos mares
À procura dos mares
Doutros mares.


E então foi verdade,
E corremos na multidão
À procura de cada nós
Em cada um.


E então foi verdade,
E corremos na ousadia
À procura da aurora
À procura do novo dia.


E então foi verdade,
E corremos na verdade
À procura da procura
Em busca de nós.


E então não foi mentira!



Nenhuma. Mesmo a sós.



AUTO DA VISITAÇÃO

1.

Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.


« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??

2.

Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.


Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.


Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.


À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.


Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol

Tão quente, a fralda de fora.


Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...

« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »


FOLGA DO GANHÃO

( Despique, à janela do moinho )


Medir-te-ei a alma
Dê bem ou mal medida
Pois gela quem acalma
E cede com medo à vida


Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr


Lide eu só de domar
Áleas de milhos meados
Que mesmo assim o semear
Me tomará braços suados


Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr


No doce e no alimento
No mel, lameiro e eira
Iluminai e dai-me alento
Sê como a lei primeira


Ela:
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr
Inda mal nos conhecemos
Já o sol se está a pôr

* * *

Nos lemes há sal e prata
Nos campos lume pedra e pó
Mas sei que o tempo trata
Mui pior quem canta só


Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor


Malha e sega humilde
Vira a leiva no sopé
Cresta mel, colhe vide
Que serás como quem é


Ele:
Com o tempo qu’inda temos
Bem podias um favor

Cresce a flor anainha
No pousio ou seara fútil
Mas se não for regada
Fica pequena e inútil


Ele e ela:
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor
Inda mal nos conhecemos
Já me aparto com dor


PERFUME DE RECORDAR

“ Il ne reste que moi qui ne suis pas à vendre
Alors tu es passée et je me suis donné
A toi
Pour rien “
( À VENDRE, de Léo Ferré )


No baralho do universo os naipes são Deus, Homem, Natureza e o trunfo é sonho.
Mas nós acima de tudo somos gesto, ombros só quase...
Coisas que carregam anos infinitos
Extensões de lábios que não se uniram
E ninguém!, ninguém!, quando estamos abraçados
É capaz de dizer qual é o macho e qual é a fêmea.
Um poema que se não dá é um cadáver!


Isto são actos que se podem cometer, uns aos outros
Num só dia. No entanto eu, eu que sou memória e gesto e celebração
Eu! Eu, que em calhando é o que é, nada
Mais: Eu, lúdico jogador de empréstimo
( Como no futebol ), levei anos e anos
A desvendar-lhe a saturação e a polpa.


Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...


Por isso não irão usar-me como trampolim para alcançarem o que querem
( Os trampolins também sabem saltar... )
Porque o amor embora se não saiba o que em verdade é
E o ar, sente-se-lhes sempre a falta
E se prefere este total, ao bacanal
Ao de todos o seu igual, pois é preciso recarregar as baterias
Já que o XXI vai ser enérgica e pedagogicamente mais escrupuloso!
Um poema que se não dá é um cadáver...


Já todos sabem... Já todos viram os abutres voar...
E o nevoeiro de Outono?... – Está frio amiga... Tanto! Tanto!
E tu tão longe... – E chuvisca.
Está frio, amiga – e deste pranto
A mão aconchega a gola da pelica
E o Eu colo-me às paredes brancas e frias
Com a esperança de que cá estejas um destes dias...
( Um poema que se não dá é um cadáver! )

Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos acontecer...


O suicídio é um Outono que não chega a Inverno.
Esquecemos o nosso cadáver na gaveta da Primavera
E agora surpreendemo-nos ao compreender que está frio...
Se pelo menos o nosso cadáver nos acompanhasse!...
É o conforto de estarmos sós... Podemos adormecer.


Oh, podemos adormecer...
Oh, podemos acontecer...
Oh, podemos ser perfume!...


DOS GATOS

“ O amor de um pelo outro é como uma extensa sombra
que se beija, sem qualquer esperança de realidade. “

Anais Nin, in A Casa do Incesto


Havia naquela tarde uma luz insuportável
E escorriam dos muros e árvores líquidos viscosos
E os caminhos terminavam sempre antes do fim
E eu e tu não nos entendíamos, sós
Como um pomar abandonado e os lagartos e as aranhas a correr por entre as folhas
mortas,
E também não nos queríamos entender
Porque havia naquela tarde uma luz insuportável.


Havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento
E os homens passavam carrancudos e arrepanhados
E chiavam as rodas das carretas de madeira e bois de tela
E ouviam-se sinos vindos de muito longe,
E o vento soprava contínuo e frio e cru
E nós tínhamos medos nos olhos e não nos víamos
Porque tínhamos receio que nos lêssemos a vontade assassina,
Pois havia naquela tarde um cheiro fétido e nojento.


Havia naquela tarde um velho e uma lanterna
E nós queríamos a tarde para o velho,
E o velho não queria a tarde porque a tarde era dele.


Havia naquela tarde o troar da tempestade
E nós envelhecíamos sem dar conta anos sem medida
E confundíamo-nos com verde-escuro das folhas
E a nossa pele era como as cascas dos carvalhos
E os nossos pés estavam gretados e o chão também
E os nossos pêlos pareciam musgo outonal
E os nossos dedos foram trôpegos e frios
Porque havia naquela tarde o troar da tempestade.





Havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada
E nos regatos passavam sapatos velhos de criança
E as mães andavam vestidas de negro com as caras tapadas
E a água fazia rum-tchac, rum-tchac
E batiam as folhas nas folhas dos carvalhos e as cancelas
E as vozes tremiam mas os ecos nnãããoooooooo,
E a catedral era de madeira ardida e escura
Pois havia naquela tarde um bordão e uma trouxa abandonada.


Havia naquela tarde um gato negro-cinzento miando
Pardo no cocuruto dum muro cinzento-negro
E nós queríamos a tarde para o gato
Mas o gato não queria a tarde porque a tarde era dele.


Havia naquela tarde um quá-quá dos patos
E nas traseiras das casas a roupa debatia-se e contorcia-se
Como se tivesse gente mole dentro dela,
E as salamandras subiam aos alpendres,
E os sapos passeavam nos canteiros
E as flores estavam todas fechadas
E as nossas mãos não queriam tocar-se
E nós queríamos dar a tarde às nossas mãos
Mas as nossas mãos não queriam a tarde
Porque as nossas mãos sabiam que a tarde era delas.


Havia naquela tarde dentes escarnados
E compridos e caninos
E as nossas mãos nunca taparam os orifícios bucais
E nós tínhamos que ver os dentes grandes
Escarnados, amarelentos, com coroas negras sobre o sangue das gengivas
E nós queríamos ver a tarde
Porque ela era a nossa tarde
E por isso nós queríamos a tarde porque ela era nossa.

Nossa,

Como o ronronar é dos gatos.


2.

Soubemos que vinhas de longe
Do lado de lá de Mitilene
E que ainda proferes as estrofes de Safo
E quisemos honrar-te com a nossa presença.
É a tua chegada!


Bem-vindas sejam as que acreditam no seu ventre frutuoso!
Bem-vindas sejam as que querem partir para lá do lá!
Bem-vindas!


Soubemos que gostavas de ouvir cantar
E por isso entoámos murmúrios dulciquentes

E assim quisemos beijar-te na madrugada da madrugada
Da tua chegada.

Bem-vindas sejam as que ainda querem gritar o seu encanto!
Bem-vindas sejam as que sabem regressar para partir!
Bem-vindas!


Soubemos que guardas a imagem do último espelho
E que fremes incestuosamente leda.
E por isso convidámos os mais belos espectros
E por isso convocámos os druidas mais românticos
E por isso ilibámos cada fada e prostituta
E por isso entregámos as salvas de prata
E por isso depusemos os lençóis de cetim
E por isso quisemos celebrar a festa do teu corpo.


Bem-vindas sejam as que ainda celebram o gesto!
Bem-vindas sejam as que ainda ensaiam o grito!
Bem-vindas!


Soubemos que o inferno é cruel como a menstruação.
Soubemos que a progesterona fere como o ácido.
Soubemos que andas no mundo para obter prazer
E nuvens polvilhadas de afrodites.
Por isso deixámos a sopa a cozer
E os martelos da fábrica
E os programas lectivos
E a mesa do café
E o volante da camioneta
E os ficheiros de clientes
E as reuniões episcopais
E os partidos constitucionais
E os desafios de futebol
Para te vir receber.


Bem-vindas sejam as que se conhecem e entendem!
Bem-vindas sejam as que sabem assentar o calcanhar no chão!
Bem-vindas sejam as que parem alegria!
Bem-vindas!


Ao contrário do cisne
Soubemos que cantas melhor quando chegas.
Seremos teus jograis e amanuenses
E imunes ao movimento da clepsidra
Entraremos de mãos dadas triunfantes
Na cidade de cristal onde a felicidade é inútil
Porque sabe que ninguém deseja aquilo que já tem
Ou porque não quer viver paredes meias com o bem-estar e prazer.


E por isso reunimos todos os tempos à volta do tempo
E teremos bem vincado em nossos rostos
Que todos os dias são o primeiro dia
Que todas as vezes serão a primeira vez
Que todos os amores são o primeiro amor
Que todos os gestos são o primeiro gesto
Que todos os olhos são os primeiros olhos
Que todos os lábios são os primeiros lábios
Que todos os beijos são a primeira palavra
E que essa é o corpo da festa originária.
Soubemos que gostas de amoras e uvas orvalhadas...
Bem-vindas sejam as que sabem adaptar o corpo às estações
Ano a ano e comer ( amar ) o f(r)uto(uro) da colheita!
Bem-vindas!


Bem-vindas as que abandonaram a coprofagia
E se repastam com o corpo de seus corpos!
Bem-vindas!


Soubemos que gostavas de te ver nascer
De ti própria em grito selvagem.
E por isso plantámos estes lagos puros e limpos
Para que nos bebesses enquanto te acariciávamos os seios
E onde podes entrar como em fruto maduro e suculento
De caroço e realidade!


Bem-vindas as que sabem rodear-nos com sua língua de pétalas de rosa vermelha
E ousam investir o íman incestuoso do corpo!
Bem-vindas as que não mitigam!
Bem-vindas!


SOLAR 21

1.

Janelas cerradas. Mesmo assim.
Gostava de ser aquela partícula
Gostava de ser aquela faúlha
Gostava de ser aquele arlequim
Gostava de andar no sopro do vento
E sonho lá fora.


Causa vertigens cortar palavras
Desflorar janelas
Entrar nos vestidos colegiais
E esquecer o regresso.


A lareira arrefece a memória.

O reverso está riscado,
E as metonímias são aspas.


Se o semítico fosse investidor
( O touro gosta de grandes planos
Em todos os filmes a preto e branco )
Abria uma agência de viagens;
Uma sucursal do sonho.


E se entrássemos prò poema...?
Pomos a mesa junto ao fogo
Damos cartas, e jogamos pragmática
Como bons velhos reformados que somos.
“ Sem parceiros! Cada um para si.
Dobrem as apostas: é finados. “
O ás é rei e trunfo.


Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Meta mais cem “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
“ Queres desforra? “
Pi-pi-pi-pib-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pib-pi
Pi-pi-pi-pi-pi-pi-pib
Pi-pi-pib-pi-pib-pi
Pi-pi-pib-pi-pi-pib
Pib-pi-pi-pi-pi-pi-pi
Pi-pib-pi-pi-pi-pi-pi-piiiiii...


Sincopada a moral cai
Neve néon sobre a zebra:
A sintaxe está certa quando a semântica
Semantica, e o justifica:
O nosso anacoluto é existir –
Outro hiato a que nos permitimos.


A caserna da puberdade está lotada;
Os cabelos desalinhados, húmidos
São mãos aflitas que vagam.
Por exemplo, temos o v. g. que ainda não chegou
Embora tenha combinado desta trazer bom produto
Para despirmos no jardim fronteiro
( Os alfandegários... Sempre os judiciários!... )


Enquanto sorvemos a lareira que ex-pira.


Há restos na cozinha e os livros repastam-se livres,
Porque os dias ronronam ao borralho;
Antes de o serão findar
( Os fantasmas têm que regressar antes da aurora )
Aglutinaremos o texto injectando sangue de salamandra
E entoaremos hinos ciprianos.


2.

Nesta reescrição há um tempo corrupto
E um modo de estar sem ser:
Faz-se manhã porque é morta a madrugada:
Cada coisa é a sua própria regra transformacional.


É, a cada um, lícito, agora dizer:
Tu és a minha morte que sou a tua –
Assim por diante, numa sequência infinita
Até ao ser saído do caldo oceânico, que é o fim de anteriores formas.



Após a última partida de Whist,
Soprados os lampiões e abotoados os capotes
Passaram pelas mentes imagens senis
Vindas de retinas com amplo diferencial correlativo,
Morreram todos os adjectivos que eram próprios
E os nomes repudiaram os seus verbos
E as coisas perderam o seu número e qualidade
E tudo foi sombra duma sombra,
Que é a quantidade mais imediata.


Abriram-se as janelas, e as cadeiras ficaram na mesma:
Mais tarde – soube-se – vaporosos vestidos posaram, ocos
E o pintor desembainhou a honra.


VIRGEM ESTÁTUA VIVA

( Óleo impressionista de rapariga subindo a escadaria de entrada duma
Escola Secundária, a fim de ir fazer exames. )


Nos degraus das escadas os olhos postos
Sobem lestos e azulíneos através dos rostos
Cínzeos de bronze e pedra lacerados cedo.
Tão de repente demasiados dos sustos
Há órbitas sôfregas em ausentes custos
E rangem os granitos sob os pés do medo.


Fitam-se ângulos rasantes à íngreme escalada
Horizontes tangentes chocando estrelas no vértice
Só de humano nos esgares perpendiculares da escada.
Raios disparam-se em traços de ícones formas em hélice
Ferindo plásticas portas encimando telas
Feitas das lonas tostadas nos mastros das velas.


Fendem-se os gestos no cinzento dos gritos!
Gemem lágrimas dos ângulos aflitos!
Gladiam-se os exteriores em espólia conquista.
Esvoaçam tecidos frémitos adolescentes; crista
De onda em plúmbeo orgasmo de atritos!...


NAMORO


Há sempre livros possíveis
Entre nossas mãos
Um sorriso jovial, um beijo
Roubado sou quando me lembras
Distante.


Podia minha voz sussurrar-te
A distância transponível
A minha cabeça entre teu colo?


Mas há sempre um MAS
Que a vida tece
Com as linhas que nos pede emprestadas
E tu não me escutas, nem eu repouso...


Por isso, nas horas vagas
Em que me alinhavo e descoso
Continuamente visando o mar e as vagas
Em que vou e venho
Um rumo me impele, e ouso...


E sonho...
... E tenho.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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