6.29.2011


Aqui Há Gato


Talvez tenha chegado a hora dos políticos começarem a pensar naquilo que dizem e fazem. Vivemos tempos difíceis – como disse o nosso presidente. Porém os funcionários públicos, sobretudo os da área da saúde, ainda os complicam e dificultam mais.
Hoje, e porque a minha médica de família me “receitou” a medição da pressão arterial uma vez por semana, dirigi-me ao Centro de Saúde a fim de cumprir o estipulado. Bastava medir a tensão e anotar os valores desta no documento para o efeito. Pois bem, qual não foi o meu espanto quando a funcionária de serviço me sentenciou que, para as ditas medições e porque a minha médica era aquela e não outra, isso só podia ser feito na segunda-feira.
Ora hoje é quarta-feira. Quando regressar à consulta, que justificação lhe darei por não ter cumprido o preceito aconselhado? Que os serviços de saúde não quiseram efetuar um serviço que ela estipulou dever ser efetuado havendo nas instalações pessoas e equipamentos disponíveis para o efeito?
É triste. Lamentável. E abjeto.
O Ministério da Saúde é um dos mais pesados e onerosos na arquitetura organizacional do Estado, nomeadamente nesta legislatura que agora começa. E tanto dinheiro, tamanha fatia orçamental, nem sequer dá para cumprir um preceito tão simples que até as farmácias fazem de borla? Farmácias que são empresas e que com os seus descontos, impostos e participações fiscais “engordam” o PIB? Aqui há gato!

6.28.2011


Das Estruturas Fundamentais


Pelo pensamento da pessoa se define a sua qualidade, conforme decreta a Bíblia que, embora sendo para muitos sagrada não deixa de ser maldita para outros tantos, e parte o mundo ao meio, o que não abona nada a seu favor, porquanto algo que se diz advogar o bem não pode criar o mal e desunir a humanidade nunca há de ser coisa lá muito boa. Mas é impossível edificar, construir, fazer uma democracia sem democratas, da mesma forma que sem ovos, naturais ou sintéticos que sejam, jamais se conseguirá confeccionar uma omeleta. O ambiente é o teatro, o palco, o suporte natural e modificado onde as economias e sociedades se objetivam e executam na sua mais convincente intercepção entre a biosfera, as políticas de desenvolvimento e a humanidade. Logo, é impossível não pressentir má índole ao pensamento que subjaz ao organograma governamental que junta no mesmo saco, quer dizer, sob a mesma tutela, território, agricultura, mar e ambiente, uma vez que a mais-valia deste ministério é o de atender à sustentabilidade ecológica através de estudos de impacto ambiental. E advogar em casa própria nunca deu bons resultados!
Dispor de uma Política Ambiental para corrigir as disfunções entre as atividades socioeconómicas e a ecosfera, não é um luxo que os países em vias desenvolvimento possam ter, mas uma exigência e inegável necessidade dos nossos tempos, sobretudo europeus e civilizados, onde se verifica uma continuada crise agravada pela escassez de recursos naturais, sobrepopulação dos litorais e desertificação interior, excesso de consumo e elevados padrões de desperdício, uso pouco racional da tecnologia, gestões viradas para a insustentabilidade sem objetivos de médio e longo prazo, comportamentos egoístas generalizados, alterações climáticas e desestruturação acelerada dos ecossistemas, consequência de uma exploração descomunal e arbitrária dos recursos de que se compõem.
Portanto, e porque nada disto é novo, e até já foi enunciado na Revista Progresso Social e Democracia, desde os primeiros números, o ambiente devia ter sido melhor acondicionado, junto à Cultura por exemplo, e sob tutela do primeiro-ministro, a fim de lhe salientar a importância na linha de preocupações governamentais, dando continuidade às preocupações tradicionais sociais-democratas que estiveram – quem se lembra de Pimenta? – na vanguarda do ambientalismo portucalense de pós 25 A. Sobretudo porque o ambiente também é cultura, é sociedade, é desenvolvimento e, principalmente, política e economia.

6.18.2011


Que saudades que eu já tenho do Ministério de antanho!


(Cantiga feita nos grandes campos de Roma)

Por estes campos sem fim,
onde a vista assi se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?

Todos estes campos cheos
são de saudade e pesar,
que vem para me matar
debaixo de céus alheos.
Em terra estranha e no ar,
mal sem meo e mal sem fim,
dor que ninguém na entende
até quam longe se estende
o vosso poder em mim!

(Sá de Miranda, 1481-1558)

Aplaudo veementemente a decisão de Passos Coelho em extinguir o Ministério da Cultura, não só porque nunca fez nada de positivo e meritório de louvor sobre a cultura, como nunca passou de um elementar e básico sorvedouro dos dinheiros públicos que depois esbanjou a alimentar clientelismos, compadrios e propaganda (mal) encapotada. Finalmente os portugueses têm aquilo que merecem. E de nada lhes valerá virem depois rabiar e lamuriarem-se, que desde a campanha eleitoral que estavam avisados quanto ao destino da cultura na legislatura que se segue. Aliás, se não fossem o que são, brutos e ignorantes, incivilizados e cábulas, trambiqueiros e medíocres, incultos, falsos, maliciosos, déspotas, vingativos e iletrados nunca teriam votado no PSD. E votaram!
Todavia, preferia que esta pasta, a da cultura, estivesse mais perto da modernidade e do conhecimento do que do folclore e da propaganda. Vê-la adstrita ao ministério e sob tutela de Nuno Crato, onde convivem já – e muito bem! – a Educação, o Ensino Superior e a Ciência, seria um sintoma de reforma social além do da reforma administrativa anunciada com o atual organograma do Estado sob a alçada governativa. Ou será que a cultura não tem nada a ver com conhecimento, ensino superior e educação, e vice-versa? Ou será que na versa do vice a educação, ensino superior e ciência não têm nada a ver com a cultura? Há muito tempo que me tenho ando a lembrar, e sentir mesmo algumas saudades, de Roberto Carneiro... Pois, agudizam-se.
Há males que vêm por bem. A cultura portuguesa só é bem vista se for lamechas, maneirista e pacóvia, e vale mais não a termos nem quaisquer pretensões nesse campo ainda romano, por via jesuítica ou judaico-cristã, do que imaginarmos as potencialidades de um cluster nacional que nos catapultasse para a ribalta da atualidade, como sucedeu com a Itália desde a renascença, a França desde o iluminismo, a Inglaterra desde os Beatles ou o Brasil desde o Rio. Depois, que faríamos ao «que pensas, porco? Na lavadura» com que o artesanato e os naïfs gostam de classificar e definir a cultura? Já Sá de Miranda, quando fez a cantiga em epígrafe, encontrando-se em Roma, diante da extensa campina romana, deixou de ver a excelsa beleza da paisagem, porque lhe ficaram os olhos embargados e obscurecidos pela nostalgia do amor e da saudade.
Ora este obscurecimento da realidade e do mundo visível é muito próprio do lirismo português. E tendo eu sempre aqui vivido, salvo raros momentos de curta viagem, não será de estranhar a ninguém que sinta saudades do tempo em que a educação era igualmente cultura, pelo menos no condomínio, fechado ainda como impunham os assaltos e demais vilanagens da ralé sobre a coisa pública, e em que se supunha fazerem alguma vizinhança, embora com muita coscuvilhice e desmandos entre as comadres, sobretudo nos bailaricos joaninos ou na retouça dos desfiles... Não eram grande amigas, ao que consta. Nunca o foram, nem se espera que alguma vez o venham ser. Mas, enfim, pagavam a renda a meias!

6.14.2011


Palmatórias, cadeados e sepulturas, tudo coisas sem semelhança mas com relação direta na história dos povos…


De bolorentos livros rodeado,
Moro, Senhor, nesta fatal cadeira:
De quinze anos a voraz carreira
Me tem no mesmo posto sempre achado.

Longo tempo em pedir tenho gastado,
E gastarei talvez a vida inteira;
O ponto está em que quem pode queira,
Que tudo o mais é trabalhar errado.

Príncipe augusto, seja vossa a glória,
Fazei que este infeliz ache ventura,
Ajuntai mais um fato à vossa história;

Mas se inda aqui me segue a desventura,
Cedo ao meu fado e vou co'a palmatória
Cavar num canto da aula a sepultura.
(1782)
Nicolau Tolentino, poeta português do século XVIII.

[Nota: O autor, fora nomeado professor de Retórica, em Lisboa, em 1767, e ainda que não houvesse naquele tempo avaliações nem cortes por virtudes orçamentais derivadas da dívida e do défice, a vida docente também não era nada fácil. Este soneto foi dirigido ao príncipe D. José, herdeiro do trono, que faleceu prematuramente em Setembro de 1788. Era um espírito culto, inclinado aos poetas e filósofos. Foi grande amigo do duque de Lafões, que o instruía sobre o que se passava na Europa.]

Permitam que escreva por direito algumas palavras que entortam os sentidos adjacentes ao ser, como ao estar, que sendo essenciais ao viver, muito esforço temos contudo de fazer para que disso se lembrem os demais, ou nós nos venhamos pura e simplesmente a lembrar...
Eu sou do tempo em que nas escolas, se havia bibliotecas, todas tinham os livros em prateleiras (ou armários) com grades de arame grosso e fechadas a cadeado. E a primeira vez que me aventurei a entrar nessa dependência, excentricidade suspeita, segundo observei pela cara dos presentes, e num manifesto favor concedido pela contínua de piso, que sequer teria a terceira classe, escolaridade obrigatória do seu tempo, jurei para nunca mais. Mas era novo, e as juras desse tempo, valem para um dia ou dois se tanto, e se não voltei àquela frequentei então outras que ajudaram a esvanecer o trauma das iniciações dolorosas.
A escola em causa sofreu recentemente notórias melhorias e modernização, porém o sistema e a democracia é que não. Não há palmatória, é óbvio, mas os castigos continuam a ser os únicos meios didático-pedagógicos como reforçamento negativo. Como os aplicam, em que medida, quem o faz, isso é que ainda não está bem esclarecido. Consta que é no final da formação: os educandos querem entrar no mercado de trabalho e dizem-lhe para esperar que a crise passe. Como já estamos em crise desde 1383-85 ninguém duvida da força do determinismo e... desiste. Alguns arriscam e partem. Outros vão dormir prò Rossio e Restelo.
Entretanto, as medidas de contenção e ajustamento recomendadas pelo BCE/CE/FMI admoestam as soberanias, e alguns ministérios fundem-se com outros, havendo mesmo alguns que se evaporam num clique mágico para deslumbramento dos papagaios da “coorte” e do capitão da fragata onde o Tejo lhe ondeia os cascos. Podia ser grave e lamentável, mas “não no é”. Antes sim, conforme reiteram os diplomados pelas novas oportunidades, exemplo vivo e condigno de inovação e empreendedorismo. Vamos enfim descobrir o mar. E a pólvora prò fósforo!
Porque os caminhos dos senhores são infinitos…
Ora, se épocas houve em que os livros de bolorentos e empilhados se tornaram raros, e resistentes, na minha formação tornaram-se intocáveis para se não estragarem, sob o medo de lhes tocar que apenas era superado pelo medo de os ler, quais preciosidades fora do alcance dos brutos iletrados, crianças e alunos em geral, como igualmente (prisioneiros) intocáveis uns porque não seriam adequados à minha idade, outros muito avançados para o meu conhecimento, aqueloutros por os não merecer e ainda os demais por estarem vedados (proibidos) a toda gente por perniciosos e de malvada estirpe. Também “sofrem” agora do efeito gradeamento mas principalmente por estarem fora, fora das salas de aula, fora de uso, fora dos interesses medianos, fora de cuidados estatais, fora de moda, fora de casa, fora da atualidade e do conhecimento, fora de jeito e de lombadas viradas para a vida em geral, porquanto os seus autores em vez de a contemplarem nos seus conteúdos apenas puxam o brilho às doutrinas e às tradições do narcisismo serôdio no marketing personalista. No vira a leiva da fama, que o mesmo é que dizer, da vaidade ao quilo de papel.
Por conseguinte, dificilmente em Portugal haverá algo de novo a não ser alguma velharia recuperada dentro da lamechice do pão com manteiga usual no que à cultura diz respeito, uma vez que é sabida a apetência dos reizinhos do poder para amputarem a massa crítica da sociedade para melhor reinarem, coisa que melhor se faz em reino de cegos, como esclarece o ditado. Exceto, é claro, o cadeado nas estantes (gaiolas) que poderá passar a ser electrónico!

6.09.2011

As roturas no movimento da ruptura entre a esquerda e a direita a-radicais


Os democratas em segunda mão preparam-se para afundar ainda mais Portugal do que já está, podendo uns reivindicar os seus direitos, nomeadamente o de manifestação e o de greve, e os outros, depois de instituído o governo, o interesse nacional, mas todos sabemos bem que nenhum deles está a falar verdade, que o buraco é mais em baixo e chama-se insegurança, falta de soluções genuínas e sustentáveis, incontinência orçamental e dificuldade de comportar-se democraticamente sob a mira do BCE/CE/FMI.
Até porque a vida política portuguesa, ao contrário do que alguns iluminados "agentes políticos e politólogos" nos querem fazer crer, se estava sujeita aos ciclos "climáticos" do ora-mandas-tu, ora-mando-eu, ora-mandas-tu-mais-eu, tradicionalmente bailado entre o PS e o PSD, com o CDS à esquina a tocar a concertina, deixou definitivamente de o estar. Em ambos, as rupturas internas potenciaram clivagens insanáveis com a atribuição de cargos (agora seriamente comprometedora) ou alargamento da clientela subserviente, e o espectro das simpatias exteriores dilui-se pela falta de credibilidade gerada, principalmente, pelos inúmeros casos judiciários em que as suas maiores figuras se viram (ou estão) envolvidos. As alterações climáticas chegaram, portanto, à esfera da política pelos mesmos motivos que à ecosfera: por excesso de poluição e consequente aquecimento emocional.
No instante imediato a que José Sócrates (JS) se desceu do trem governamental, eis que Pedro Passos Coelho (PPC) iniciou a sua viagem no pouca-terra, pouca-terra, pouca-terra, do progresso adiado, da cidadania em stand by e da participação ainda a esfregar o olho do despertar que Garcia Pereira lhe facultou. E o ter PPC recrutado das hostes independentes Fernando Nobre, poder-lhe-á fazer sossegar durante o período inicial governativo aquela franja do eleitorado mais atreita à "voluntariosa cidadania das ONG", proporcionando alguma da ténue trégua que as mudanças encerram no vamos-a-ver-no-dá, mas será sempre uma aberta de pouco tempo, uma vez que muitos dos seus apoiantes discordaram da sua adesão ao PSD, havendo até quem a apelidasse de traição.
Como se não bastasse, os sectores da economia ameaçados pelas alterações dos mercados, a competição infrutífera com os países emergentes, a inadequada qualificação da mão-de-obra nacional e as dificuldades de financiamento, eis que a classe política se manifesta incapaz de renovar o seu discurso continuando a fazer das legislaturas uma espécie de jogo de futebol com estropiados genéricos mas equipados a rigor.
Portanto, pergunta-se: Será que Anibal Cavaco Silva, presidente da República Portuguesa, nos quer alertar para o facto de estar na hora de partir, coisa que os judeus deviam ter feito logo em 1932 da Alemanha, quando nos seus discursos anda a sublinhar a importância da diáspora? Será um aviso? Um sinal? Pelo sim, pelo não, acho que os órgãos de comunicação social portugueses deviam pôr-se de atalaia às movimentações da família do nosso presidente, para onde vão e por quanto tempo, pois há muita gente que tendo informações privilegiadas não se coíbe de usá-las na salvação dos consanguíneos... É que a língua pátria é muito traiçoeira, e a pronúncia entre rotura e ruptura nem sempre nos dá uma indicação clara do que foi afirmado. E, pelo que calculamos, se a segunda é má, a primeira é cem vezes pior!

6.07.2011


Profecias e Imitações

Conforme os resultados das últimas eleições legislativas, o círculo eleitoral de Portalegre, apresenta-se-me como um dos poucos em que a democracia se espelha nos números: não há vitórias claras nem derrotas esmagadoras para ninguém – exceto para os portugueses, na generalidade e em particular os nordeste-alentejanos, que vão continuar troikados até ao pescoço. Por conseguinte, eu também me demito. Regresso, pois, à honrosa condição de independente.

Fez a fina flor do entulho uma bulha de sete lições para nada, pois que continuam todos na mesma, à beira da rotura, bem entendido, mas de mangas arregaçadas prò negócio da coisa pública. As rádios noticiam, os jornais sublinham, o diz-que-disse do café não se evita de repetir que o «uma’ssim!» era esperado e conhecido desde o tempo em que a nacionalidade fora arrebatada pelos Filipes, que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Pois bem: o vento do exemplo veio e nós imitámo-lo, e à boda não faltou nem ele, nem ela. Se havia dúvidas quanto ao ditado, nada nos demove que tinha fundamento com raízes de Bandarra. A profecia cumpriu-se.

Já há apostas quanto ao tempo que durará esta legislatura, uma vez que os cadernos eleitorais estão desconformes a quantidade de eleitores, podendo decrescer a percentagem não só das abstenções como dos partidos votados, nulos e brancos, assim como a legislação que põe todas as forças políticas em pé de igualdade apenas foi aplicada na última semana de campanha, sem qualquer consequência para os grandes partidos, únicos beneficiados com a “ilegalidade”, onde, curiosamente, até o partido que fez acionar os mecanismos legais, o PCT/MRPP, saiu lesado (em votos) da tentativa de democratização do plebiscito.

É óbvio, portanto, que alguém soprará nas cinzas da corrupção e abuso de poder pendentes sobre as cabeças que lideram a direita portuguesa e, à semelhança do que vai sendo dito em França a propósito do boss do FMI que foi apanhado com as calças na mão nos UEA, que todos sabiam as tendências do senhor embora as calassem por questões corporativistas e “patrióticas”, venham a trazer à baila processos antigos para enquadrar os novos, e então se exclamará que isso era do domínio público e expectável, de acordo com a biografia dos sujeitos. Todavia será serôdia a constatação porque o mal já está feito.

As recentes eleições podiam ter sido aproveitadas para varrer a casa, incluindo a parte debaixo dos tapetes. Não o foi e, pelo contrário, mais lixo foi escondido sob eles. Oxalá não venhamos a arrepender-nos pagando na carne e na alma os ímpetos da ousadia!

6.04.2011


Consciência ou Criancismo, Eis a Questão
(:Apontamentos à mesa do Alentejano)

As democracias não são todas tão democráticas quanto aparentemente se observa e nos querem fazer crer. Podemos mesmo dizer que há umas mais democráticas do que outras, à semelhança daquilo que G. Orwell disse a propósito dos animais da sua quinta explicada no book da sua faceta mais irónica e satírica, em galhofeira crítica a determinadas sociedades fundamentalistas: todas as democracias são iguais, mas há umas mais do que as outras. Isto é, depois dos modelos económico-sociais não devemos parar nas nossas conquistas e ir um pouquinho mais além, entrando no capítulo das qualidades – da qualidade de vida, do grau de prosperidade e bem-estar, do nível da participação e da cidadania, das expectativas de futuro e sustentabilidade, do aprofundamento das relações democráticas, da transparência, da igualdade de oportunidades, do combate à corrupção e ao tráfico de influências, do debate franco e aberto, enfim, num modelo democrático que contemple o contínuo exercício da alternância e diversidade na composição, bem como se cultive na prática da discussão profunda, que favoreça a intervenção activa de todos os cidadãos e de todas as diversas formas de organização e/ou movimentos que expressem a sua vida gregária, outorgando-lhe os correspondentes direitos e deveres de participação efectiva, e não simplesmente, constitucional como atualmente se manifesta.
Uma democracia que permita e exija um poder mais próximo, melhor partilhado, mais transparente e superiormente fiscalizado por todos, num quadro administrativo eficaz e descentralizado, em que os diferentes patamares da organização do Estado, desde as associações de bairro, freguesias, concelhos, regiões ao poder central e da União Europeia (UE) se entrelacem e interpenetrem como um todo que persegue o progresso, o desenvolvimento, a igualdade e a sustentabilidade.
Principalmente porque à organização do Estado e ao Planeamento económico não podem alhear-se todos quantos lhes sofrem a governância, uma vez que as grandes questões do presente e do futuro lhe dizem diretamente respeito, independentemente dos seus graus de responsabilidade, consciência cívica, emancipação e autonomia, ou da apetência voluntariosa e contributiva em que enquadrem, desde empregados a empresários, com inegável direito de decisão nos vetores da nacionalidade, sejam eles de ordem militar e do envolvimento do país em operações belicistas internas ou externas, no processo de construção da UE, nas questões de segurança e aduaneiras com países cujos limites nos são próximos e onde a classe operária se nos irmana.
Um tipo de democracia que assenta nos pressupostos da Sociedade da Informação e do Conhecimento, onde as TIC (Tecnologias da Informação e da Comunicação) facultam a tomada de consciência coletiva dos fatos e dos problemas nacionais e continentais, como globais, motivando cada um para as contingências(1) existenciais de cada outro e simultaneamente de todos, e torna a IV Internacional Socialista na plataforma de excelência na prossecução dos ideais e anseios de todos os trabalhadores da atualidade que se quer perpetuar num futuro definitivamente imorredoiro.
(1) Contingências – factos possíveis mas incertos; que podem acontecer ou não, cuja essencialidade não está determinada; eventualidades, condicionalismos de duvidosa estirpe e consequência; que têm natureza fortuita e ocasional.

6.03.2011


Os brancos, os amorfos e os “nem aí”

Quando uma geração é, ou está, de tal forma atrofiada que não consegue analisar com clareza aquilo que as anteriores fizeram e definir o que quer, tudo quanto lhe aconteça de menos propício é-lhe merecido. Principalmente quando é uma geração que tem formação superior na sua quase maioria. Será que nem para ler e discernir entre os projetos sustentáveis e os do venha nós o vosso reino lhes serve o canudo? Nem para reconhecer que existe alguma diferença entre o modelo democrático económico-social e o modelo democrático da participação e cidadania, e que essa se chama qualidade, evolução da democracia para uma etapa onde a qualidade se mistura com a sustentabilidade para propiciar qualidade de vida, igualdade entre iguais como entre diferentes, assegurar o futuro dos seus como do planeta? Não votar em nenhum ou votar naquele que o avô aconselha, pagando até para que o façam e abaniquem a bandeirinha em cima do Jeep ou trator da cooperativa é exatamente a mesmíssima coisa. Infelizmente, mas é. Entre aqueles que se calam e os que fazem tanto barulho que impedem de ouvir as propostas dos demais não há diferença nenhuma: todos querem destruir a democracia – e, seja por que motivo for, isso há de ser sempre um retrocesso para os povos que arriscaram libertar-se das tiranias/ditaduras do século passado.
Uma coisa é convencer pessoas de escolaridade medíocre que algo que ainda não experimentaram é bom ou mau; outra, a léguas de distância, é pressentir que pessoas com formação superior não saibam discernir entre propostas sustentáveis e balelas oportunistas de inspiração serôdia no caudal marxista como no liberal. Há diferenças, muitas e inegáveis, e quem sabe ler regista-as e pondera-as, compara-as; e quem desconhece o verbo, para esses tanto faz, pois nunca hão de ver umas nem outras. Tudo para elas só poderá ser martírio ou saudade, que, se sentida e real, também é martirizante.
Eu sei que há famílias que preferem prejudicar todos os seus semelhantes a beneficiar um dos seus membros; sei, e conheço muitas. Mas não podiam deixar de ser mais uma mafia desorganizada nestas eleições? Portugal agradecia!

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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