6.07.2011


Profecias e Imitações

Conforme os resultados das últimas eleições legislativas, o círculo eleitoral de Portalegre, apresenta-se-me como um dos poucos em que a democracia se espelha nos números: não há vitórias claras nem derrotas esmagadoras para ninguém – exceto para os portugueses, na generalidade e em particular os nordeste-alentejanos, que vão continuar troikados até ao pescoço. Por conseguinte, eu também me demito. Regresso, pois, à honrosa condição de independente.

Fez a fina flor do entulho uma bulha de sete lições para nada, pois que continuam todos na mesma, à beira da rotura, bem entendido, mas de mangas arregaçadas prò negócio da coisa pública. As rádios noticiam, os jornais sublinham, o diz-que-disse do café não se evita de repetir que o «uma’ssim!» era esperado e conhecido desde o tempo em que a nacionalidade fora arrebatada pelos Filipes, que de Espanha nem bom vento, nem bom casamento. Pois bem: o vento do exemplo veio e nós imitámo-lo, e à boda não faltou nem ele, nem ela. Se havia dúvidas quanto ao ditado, nada nos demove que tinha fundamento com raízes de Bandarra. A profecia cumpriu-se.

Já há apostas quanto ao tempo que durará esta legislatura, uma vez que os cadernos eleitorais estão desconformes a quantidade de eleitores, podendo decrescer a percentagem não só das abstenções como dos partidos votados, nulos e brancos, assim como a legislação que põe todas as forças políticas em pé de igualdade apenas foi aplicada na última semana de campanha, sem qualquer consequência para os grandes partidos, únicos beneficiados com a “ilegalidade”, onde, curiosamente, até o partido que fez acionar os mecanismos legais, o PCT/MRPP, saiu lesado (em votos) da tentativa de democratização do plebiscito.

É óbvio, portanto, que alguém soprará nas cinzas da corrupção e abuso de poder pendentes sobre as cabeças que lideram a direita portuguesa e, à semelhança do que vai sendo dito em França a propósito do boss do FMI que foi apanhado com as calças na mão nos UEA, que todos sabiam as tendências do senhor embora as calassem por questões corporativistas e “patrióticas”, venham a trazer à baila processos antigos para enquadrar os novos, e então se exclamará que isso era do domínio público e expectável, de acordo com a biografia dos sujeitos. Todavia será serôdia a constatação porque o mal já está feito.

As recentes eleições podiam ter sido aproveitadas para varrer a casa, incluindo a parte debaixo dos tapetes. Não o foi e, pelo contrário, mais lixo foi escondido sob eles. Oxalá não venhamos a arrepender-nos pagando na carne e na alma os ímpetos da ousadia!

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La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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