12.22.2005

Ambiente: "Os Verdes" dão nota negativa à actuação do Governo em ano gravoso

Lisboa, 22 Dez (Lusa) - "Os Verdes" deram hoje nota negativa a actuação do Governo em matéria de políticas ambientais, num ano "gravoso" marcado pela seca, fogos florestais e, recentemente, pela poluição provocada por um navio que encalhou nos Açores.
Numa conferência de imprensa, a deputada do Partido Ecologista "Os Verdes" Heloísa Apolónia chamou à atenção para os fenómenos extremos que se verificaram este ano em Portugal, notando que são uma consequência já visível das alterações climáticas a que o Governo não tem dado o devido valor.
Heloísa Apolónia salientou o "conformismo" face à adopção de medidas internas que permitam reduzir a emissão de gases com efeito de estufa, em especial nos sectores da energia e dos transportes, e acusou o Governo de estar mais preocupado com a compra de créditos de emissão, um dos mecanismos previstos para o cumprimento do Protocolo de Quioto.
Quanto à possibilidade de introduzir portagens para entrar nas grandes cidades, avançada quarta-feira pelo secretário de Estado do Ambiente, considerou que não inibe a entrada de veículos e não passa de uma "medida de fachada".
Heloísa Apolónia declarou que as expectativas criadas pela mudança de Governo, tendo em conta a passagem anterior do primeiro- ministro pela pasta do Ambiente e a experiência técnica e profissional da equipa ministerial que foi constituída, foram frustradas.
"O ambiente foi assumido como parente pobre da política governamental", afirmou a deputada, acrescentando que houve um desinvestimento de 13 por cento no Orçamento de Estado.
A maior "desilusão" revelou-se na conservação da natureza, continuou.
O desinvestimento no Instituto de Conservação da Natureza (ICN), que não lhe permite "valorizar as áreas protegidas", e o adiamento do Plano Sectorial da Rede Natura e da Lei-Quadro para a Conservação da Natureza foram alguns dos exemplos que apontou.
Por outro lado, "o Governo só intervém na área do ambiente em tudo o que for negócio para o sector privado", criticou a deputada de "Os Verdes".
Para sustentar esta posição, Heloísa Apolónia indicou casos como o "espírito empresarial" e a parceria com privados que se pretende desenvolver no ICN, a Lei-Quadro da Água que abriu caminho à "mercantilização de um bem essencial à vida" e a co-incineração de resíduos perigosos, que considerou não passar de "um negócio para as cimenteiras".
"Os Verdes" anunciaram ainda que vão propor em Janeiro a criação de um grupo de trabalho para avaliar toda a legislação, programas, planos e estratégias existentes na área do ambiente para avaliar o que está a ser cumprido e o que nunca passou do papel.
"O problema não é haver falta de legislação, é haver falta de vontade política em assumir o ambiente como um factor de desenvolvimento e crescimento económico", considerou Heloísa Apolónia, RCR.
Lusa/fim

12.05.2005

PIDDAC 2006 - PORTALEGRE
PS CHUMBOU TODAS AS PROPOSTAS DE “OS VERDES”

“Os Verdes” consideram lamentável que o PS tenha rejeitado todas as propostas de alteração ao PIDDAC 2006 que “Os Verdes” apresentaram.

“Os Verdes” relembram que a apresentação formal das suas propostas foi feita exactamente nos mesmos termos das que tinha apresentado no PIDDAC 2005, isto é, nenhuma das propostas implicava aumento de receita, e nesse sentido não tinha qualquer implicação no valor do défice, quando não apresentámos propostas de reforço de verbas, mas apenas de desagregação de verbas de bolos globais não identificados com projectos específicos, atribuindo-lhes um projecto concreto – no fundo as nossas propostas destinavam-se a especificar projectos concretos e respectiva verba dentro de sacos globais.

Para o distrito de Portalegre, “Os Verdes” apresentaram as seguintes propostas, todas rejeitadas pelo PS:

Construção de um Centro de Hemodiálise em Portalegre
Construção do Centro de Saúde dos Assentos (Portalegre)
Construção do Centro de Educação e Interpretação Ambiental, adaptando as instalações da Escola da Queijaria
Requalificação da ETAR da Ribeira de Nisa
Construção do Centro Cultural de Fortios (Portalegre)
Conclusão do projecto da APPACDM/Moita (Portalegre)
Construção do Parque de Santo António (Portalegre)

11.04.2005


PERGUNTA


É inalcançável, pequenina, diminuta, como as estrelas das madrugadas de Junho
E tem os cabelos a pingar cachos orvalhados das manhãs de São João
O olhar inquieto e inseguro e fugaz de quem andou perdida na esperança
E a ousadia subtil, a leveza espontânea que acompanha a inocência descuidada.


Queria poder pronunciá-la como se faz às sílabas frágeis e silvestres
Descer pelos seus dedos à procura do horizonte na planura da liberdade
Da sofreguidão de infinito com que nos limitamos a impenetráveis solidões,
Instantâneos, flashs de luz imediata à sombra dos tempos configurativos
Perenes de eternidade condensada quase à flor dos sonhos contraídos
Nos deuses ancestrais que nos emprestaram o amor tornando-nos seus iguais.


Porque é esse mistério das florestas impossíveis que nos arrebata e sustém,
Acicata mas elucida, nos dita que morrer é um falso temor quando se esteve aqui
Aqui, tão perto de nossos corpos insaciados, inventores da impertinência contagiosa
Capazes de cruzar todos os Bojadores, escarnecer de todos os gigantes
Proferir o desconhecido como se fosse um acessório de toilette no desfile dos dias
Qualquer coisa de supérfluo mas sustentável, pouco incomodativo, a escorregar
Para as lagoas da insignificância sempre distraídas no ocaso das searas
A ondular sobre a brisa dos montes e pradarias nas tardes de amenos Maios.


Não digas nada que os teus sustenidos de pronunciar não permitam repetir
A deliciarmo-nos no replay das metáforas selvagens, cabritos irrequietos
A saltitar de boca em boca como beijos que nelas se colam e se deleitam
E soletram despidas de rodeios ou doutras falsidades menos vergonhosas.


Se sois vida, porque te escondes nos silêncios que não abraçam? Diz. Vá, diz.



DEVERAS


Acorda, deixa esvoaçar os cabelos, desce do tropel de silêncios
A que te entregas na longa noite saturada de medos e fantasias.
Não permitas que as vozes da ignorância, as tuas companheiras,
As tuas colegas de escola e residência, te soturnem os quotidianos
Nem se anexem ao teu anseio de futuro e liberdade como uma cochonilha
Que risca e enferruja, asfixia e mata a alegria da planície verdejante.
Selvagem. Salpicada de papoilas, quais bandeiras perenes de insurreição.


Aparece na janela, diz o olhar das madrugadas, soletra a fidelidade de um sorriso
Com teus lábios de princesa africana, teus braços de erguer a aurora.
Assim. Assim. Como quando nos esperamos ao canto da página inocente
A escorrer infinitos das letras rebeldes e perigosas dum orgasmo incandescente
Da manhã, redonda e macia, como teus seios de laranja suculenta e gulosa.



És farinha duma espiga por inventar, pó branco da alma sem cor
Sêmola do meu outeiro a esgueirar-se de esquina em esquina, flor em flor.
Trazes a alvorada do desejo a romper-te do ventre e o grito das azinheiras
Caladas a soltar-se nas colinas do horizonte a quem o sol da tarde pede perdão.


Mas se por acaso ouvires o meu choro de erva daninha não o interrompas nem acalentes
É que ando preocupado com o destino que os homens estão a dar às palavras simples
Como Terra, Rio, Prado, Mar, Rua, Floresta, Animal, Atmosfera, Oceano, e Liberdade.




SEXTA-FEIRA



Quando se parte somos distância que se concretiza em nós como se fosse órgão vital
Vísceras, úlcera, soro, sangue ácido a corroer-nos por dentro forjando esquecimento
Quase incandescente a soletrar-nos solidão, ponto agreste e difuso na planura do ser
Mancha de fogo na planície que abarca horizontes desencontrados, sonhos daninhos
Na monda dos riscos e das formas, intempéries de medo que assolam a seara submissa.


Não me ponhas nos gestos sentimentos que não tive nem nas noites pessoas que não houveram
Quando no silêncio das madrugadas perscruto as ansiedades de outros silêncios fugitivos
Quais felinos domésticos caçando soturnidade e mistério pela calada dos tempos pueris.


Permite apenas que perdure o suficiente para não querer morrer sem choro e voz e canto
No vegetal suspiro de ficar alerta, a palavra à flor da pele, os olhos inquietos
De pardal assustadiço espiado bebendo a água das fontes dos caçadores furtivos e implacáveis.


Tenho na boca a salinidade das ervas de uma açorda que não quis, o aroma dos poejos
Bravos, o judaico amargor no alho duma esperança amassada em alquímico almofariz.
Sou aquele que não pretende, mas pretérito conjugado por mais uma dúvida a amadurecer
Sob a brusquidão de todas as imagens apagadas, de todas as fotografias perdidas.


Cada vez que partes é de mim que te escondes, outra rocha sob a espuma das marés quotidianas
Vaivém ensurdecedor, casquinado, ósseo, terrífico, por todos os fantasmas que não foram
O sentimento de busca no abraço do vento envolvendo teu colo de planície dourada musical
Ondulante, adolescente dançarina, entregando seu ventre ao orvalho das madrugadas de Junho
Num grito de acordar universos, porque se nos mantivermos vigilantes, Deus não adormece...


SAUDADE


Creio que ainda és todas as palavras por proferir,
Metáforas selvagens esquecidas no ocaso da bruma.
As imagens murmuradas de salivar a noite consentida.
Os poemas perdidos nos teus cabelos de searas a serpentear.
Os gestos soltos decididos de quem sabe o que é querer.
As colinas dos seios a eclodir maduras na planície do peito.
O sorriso de espiga silvestre a baloiçar primaveras.
Os dedos imperiosos de medir infinitos na sofreguidão dos corpos.
As colunas das pernas sustentando o átrio do templo da vida
Em que ajoelhado me deponho num beijo de sonho e semente
E me ergo na rebentação de todos os desejos por dizer.

Se partes sempre como outra onda esquecendo a espuma
Dos dias em que olhos nos olhos nos dissemos de frente,
Sob o vaivém semanal das andorinhas que se tornam gente,
Sombras negras de cantar o romance em qualquer tuna.


E para trás fico eu a procurar-te na distância cruel.
A pedir a Deus que abrevie esta elipse de marcar a quente
Que faz de cada hora uma obreira abelha diligente
A encher os cálices minutos de meu ser em favo de fel...


A gritar protestos mudos e parados no desespero da colmeia;
O meu quarto feito inferno que só tua ausência incendeia.



O DIA PROIBIDO



Em cada vez que partes fico assim, de coração à solta
Qual potro bravo a quem tentaram selar o alado dorso
Domar o ânimo, pear o galope, torná-lo sociável e compreensivo.
Tu és silêncio, mas sou eu quem fica desértico de mim...
Ser princesa também não deverá ser nada fácil, se reconheço
Me ensinaste todos os truques da feitiçaria das formas ausentes
Obrigando-me a desenhar-te na tela celestial do azul supremo
Sempre que queria ter-te apenas minha, serena e gloriosa e livre.


Se deste conteúdo a todas as músicas anteriormente por ouvir
Que eram sons e nada mais que sons a pairar na bruma escorial
No cinzento apagado dos silêncios que não escutam, toscos ruídos
Que não sabem o que é a imensidão do cosmos nem o seu pulsar febril
A vibrar dentro das veias, a querer explodir ao ritmo de nós mesmos
De todos os seres, de todas as leis, de todas as luzes e transparências
De todas as palavras inocentes que o tempo ciosamente guardou secretas
Poliu, amadureceu, eternizou, unicamente para que eu te pudesse inventar!...


Se és ar, e eu respiro... E ousadia, e esperança, e planície fecunda
E eu me quedo, e destroçado sucumbo, ao ver-te partir... indiferente...


Então, rebelo-me. Vou buscar o inexorável resquício de forças ao infinito
Ao mais recôndito da exígua ancestralidade, e divinamente vingativo
Determino: Que as sextas-feiras sejam os únicos dias que não têm perdão!!


PORQUÊ DE VÉNUS


Pensar que se pensa doutra maneira!
Que o olhar a distância torna perto
O que o longe separa a vida inteira.

Iludir-se a gente em ser sábio e esperto
Ao querer espreitar a vida doutra seteira...
Perder por segundos a aridez de deserto
A ela dada pela morte derradeira.

Sonhar, ou saber-se dormindo e desperto
Estar, se quando os medos vão partindo
É sempre um regressar à vez primeira
Num gesto de flor... suas pétalas abrindo.


Mas ser igualmente o escravo da fileira
De DNA, como o foram sempre, sempre
Os bichos da terra. Filhos de seu ventre!!


RECUSO


Recuso pensar-te na madrugada, e ao frio.
Recuso imaginar-te doente, sofrida ou sem tesão.
Recuso abandonar-te no silêncio mudo e ímpio
Quando a chuva selvagem fustiga o saguão.

Recuso a família ardilosa que me diz mal de ti.
Recuso o perfume das rosas nos dias em que te não vi.
Mas recuso. E recuso. E voltarei a recusar, enfim
Sempre que algo me distorça ou te afaste de mim.

Recuso a morte, a saudade, a dor, a ansiedade e o medo.
Recuso a voz que se esconde por detrás daquela máquina cruel;
Recuso a pobreza; recuso a fome, o exílio e o degredo,
Assim como recuso a mentira, a intolerância, o ser-te infiel.

Recuso a cidade, a glória, a fama e tudo quanto encerra em si.
Recuso a riqueza, o poder, a sabedoria. Tudo recuso: só te não recuso a ti!


AGUARELA

Tu, que buscas pela janela
A esperança dum horizonte

Lá fora

Há em ti tudo isso que estudas
E esperas quando olhas por ela

Lá fora

Há em ti o ser-se cativante
Como há o ser-se pequena vela

Lá fora

Em nau de oceano te desnudas
Ao fitar o dentro distante

Tão fora

O baço perfil na vítrea tela
Onde se vê que estás e escudas

Lá fora Lá fora
Tão dentro Tão perto

Quando te buscas pela janela






ABSTRACÇÃO



Fitando a chuva tu olhas
Entre nada e coisa nenhuma há;
E perto das cores que desfolhas
Estás, longe de ti, como quem não está.

És um ponto indiscreto de soletrar
Um silêncio a descoser-se na sutura;
E quando te miras, já te não vês murmurar
Quem querias ser, numa emenda futura.

Podias recorrer à insensatez de sonhar.
Podias esperar na imensidão do dizer.
Porém... preferes, simplesmente, olhar.

Podias esconder a franca nudez de ser.
Podias pensar na contradição de pensar.
Mas no contudo porém, queres apenas olhar!


CÉREBRO

Esse vampiro dum quilo e tal
Que teu corpo alimenta
É quem te torna real
E combate o que nos atormenta.


PROMESSA


É quando o sulfuroso da alma
Se entrega ao desmaiado azul,

E as lacrimais águas se fundem
Num só rio em busca da voz

Que tu e eu, meu amor
Ganhamos sentido nesse futuro que caminha
E baloiça sob a pendular força da incerteza,
Mãos nos bolsos,
Cordel do pião a arrastar na areia...

Nunca o esqueças
Sobretudo se os nossos netos o desconhecerem
Quem são – quem foram.


(RE)ENCONTRO


Ninguém adivinha até onde pode chegar
A distância dobrada pela solidez
Do silêncio, pronto, finito à pequenez
Do verbo – amar é sempre ruptura
Ponto de entrelinhamento , sutura
De conjugação propensa ao ansiar
Ambíguo de escrever a sublime doçura
Dos olhares que se perdem em buscar.

Somos ínfimos, é certo, no sentido pleno
De nos dizermos grandiosos
Num mundo tão pequeno.
“ Onde foi que nos vimos pela última vez?!... “
Façamos de conta que foi na imensidão
Da planície ensolarada dos tempos talvez
Há mil anos junto aos rochosos
Desvãos do silêncio dado da mão.

Há mil anos... Quem diria!...
E ainda nos reconhecemos!... Como quando
Ao fim do trabalho de um longo dia
Nos vamos à beira de ser soletrando!

Tivesse sido ontem, ou já agora:
Há tanto, tanto tempo numa hora!!...


PODIA

Um homem e uma mulher sabem
Sempre quem são se os olhos mentem
O que a voz desdiz – e quedos
Murmuram serenos quadros
Dum imperioso desejo que se quis.

Que apagou pétreos medos
Ao corroído silêncio dos segredos
E fez do ser um campo de aventura,
Qual seara ondulante sob a brisa da ternura.

Podia até haver temporal! Podia
Até o sol cair a pique na planície!
Podia até o sonho revulsionado
Naufragar nas escarpas da crendice,
Que o dia seria de constante calmaria
A pairar no olhar apaixonado
Dum homem, duma mulher... Que se queria!


FINALMENTE
As horas passam diluídas
Na espera dum ocaso diferente.
São sinais de morse, pontos ..
Traços - -, .. pontos, a terçar encontros
Nos S O S da gente.


São fazeres de assim,
Olhares de dizer nas vidas:
Até que enfim!





SEM-DOER QUE TANTO DÓI

É sem fim este buscar desencontros.
Este pedir à dor que seja única-
Mente imaginária perdida noutros,
Mas sempre presente, como túnica,
Manto, que descaído me cobre os ombros...

Hei-de ser sem dúvida, o que mais
De amor sofreu sem nunca amar
Ninguém, alguma vez sequer, em tais
Suplícios de palavras por lavrar;
Fingindo-se elas autênticas e reais

Que, contudo, embora o sofrer constante
Feito palavra, a dor é mais cortante
Se das outras simples e corporais
Pretendida esta em órgãos ideais!


MUSA


Olha desconhecida!... O acaso mexe-se
E surpreende-nos com seus tentáculos
Na orla do verbo dos verbos, e esquece-se
De ser o que nunca foi pelos oráculos
Da vida.

São coisas profundas essas!
As paixões carcomidas, as desditas
Com que pedimos meças
Às palavras esquecidas.
Hermafroditas
Pontos de referência na malquerença
Tida;
As bexigas da vida.

Sinais de somenos, asteriscos da diferença
A escorrer do rosto, cruéis, brutais
No acatar da sentença:
Tu és a causa – eu sou a consequência.


DIÁRIA EM CINCO ESTRELAS


Vê a manhã colorida pelas casas
Duma rua de sol, cães vagabundos,
Bolas aos hexágonos escorrendo nas valetas
E bicicletas estacionadas sem ordem nem zelo.

É aí que eu resido e me demoro
Quando tudo aquilo que tenho
A fazer é deveras mais importante.

Nunca obedeço aos imperativos da disciplina
Numa manhã assim sou anarquista
Para almoçar como um nobre burguês
E deitar-me pouco depois de descambar
Na crítica materialista e no socialismo.

Ao adormecer sou sempre comunista
Para que os sonhos madrugadores me libertem
Da opressão de Estado e possa erguer-me
Sem mácula, arrependimento, saudades.

Finalmente kitsch, na manhã soalheira
Os olhos ramelosos mas a alma limpa.

MARI(A)POSA

l.
Guardas a avareza de Israel
A luxúria de Roma – bebe neste sol... bebe!
Vives na aspereza da morte
Da sorte
Em gestos lentos de quem passaja tempo
- Bebe neste sol... Bebe!
A planície lá ao fundo respira ( ainda )
Como quadro crispado se
Sobre sendo.
As horas rompem másculas
O silêncio
Em separata e cuidados.
Receias-te e recompões-te sequencialmente
Sem notar que há mar e fogo e sede.
Sonhas e sondas o hemisfério

Pela sinédoque do arco do arco-íris
- Bebe neste sol... Bebe!

2.
A alva lava está entre mim e ti.
Com ela mergulho – pertenço-te.


GESTO DE CRINA


Tenho um pássaro nesta mão
E um mundo na outra;
Mas só a primeira é que voa.

Faço com ela viagens
Esdrúxulas ou ternas
E penso
E a noite vai.

Faço adornos no teu cabelo
De flores e sonhos
E desejo
E a noite vai.


E quando ainda é noite
E eu já não preciso de ti,
Tu não estás
E, no entanto... Existes.


MURMÚRIO


Na tua rua a lua nua
Voa tão rés que nem soa
O luar a rasar a face tua
Sob o silêncio c’a entoa




ORAÇÃO A S. VALENTIM

( “ What’s in a name? That we call a rose
By any other name would as sweet. “ )


Às vezes perguntamos ao nosso caminho
Quem somos nós
Ou a nós mesmos qual é o nosso caminho.
E não sabemos como sair da baralhação dos sentidos.
Fazemos dos sentimentos um escudo que nos ataca
E não ouvimos distintamente os segredos
Que a vida tem para nos contar.

Mas também às vezes, quando amanhece nebuloso
Ou o sol se nega a repetir que temos em nós tudo
Principalmente aquilo que ele mais ama
Com sua voz de violar-nos a alma pelos olhos
Uma rosa vermelha vem pousar-nos em frente,
E dizer-nos que ainda é possível a ousadia
Que ainda é possível o sonho
Que ainda é possível o sorriso
Que ainda é possível a ternura...


Porque mais do que a voz e a língua
Há o silêncio de um olhar que significa.


SOU NADA SEM TI


Por mil anos que vivêssemos jamais conseguiria
Deixar de sofrer por cada Sexta-feira em que partes,
Como se ficasse amputado de vitais partes
Órgãos essenciais, membros sem os quais não viveria.

Porque sou um morto sem ti... Uma alma penada!
Um registo apagado. Um mutante sem futuro.
Um quasimodo. A elevada potência de nada.
A raiz quadrada de ninguém. Um grafite sem muro!

Porque sou a encarnação do desespero puro...
Gesto tímido de menino abandonado e inseguro.
Uma força escondida sob a esperança decepada

De esperar-te verso a verso, suplício das artes
Em fazer rimar amor com desejo, ou até futuro
Com regresso. E a saudade? É a dor com que me partes.






UM COPO NA TARDE

( Março, Praça da República )


Pôs-se o sol.
Eis que as sombras deslizam
Mais francas,
Menos disfarçadas
Mais macias
Pelo aveludado da cor.


Já sonâmbula, a cerveja
Apetece pela indeterminação
Do ocaso
Submisso
Escorregadio.


Mas sempre silencioso
Na glote que inebria.


ESTRADA FORA


Não há estrada sem chegada
Não há estrada sem partida
Duma tens a vida dada
Doutra tens a vida tida
Não há estrada sem chegada
Nem chegada sem partida


Vai no corpo sem sinal
Foge ao verde e encarnado
Cria o quadro animal
De querer o cativado


VAI VOLTA CONQUISTADO
VAI E SOLTA DERROTADO


Vai no empréstimo animal
A essa estrada sem partida
E faz da chegada um sinal
De quem inventa vida tida


VAI E SOLTA DERROTADO
VAI E VOLTA CONQUISTADO


Atesta o coração na festa
Desta gesta que nos resta
É um gesto que te invisto
É um sonho que t’empresto
Cresta a fresta deste xisto
Nesta estrada em que resto

Dá ao corpo são abraço
Foge ao dever e solidão
Parte pelo contínuo traço
Dum caminho sem senão


VAI E SOLTA DESTINADO
VAI E VOLTA CONQUISTADO


Se não partes neste abraço
Que cresta como a solidão
Tolhe-te o gesto e o traço
E ficas massa de alcatrão


VAI E SOLTA DESTINADO
VAI E SOLTA DERROTADO
VAI E VOLTA CONQUISTADO


RODOVIÁRIA DA PARTIDA COM TRÊS PARAGENS


l.

O desejo é uma flor.
E a saudade? Um regador.

Mas a minha mensagem é o grito
Grito
Grito

O



o
t
i
r
g

O
De não estares aqui...
Pouco a pouco.


Refaz-se a simbiose
Em solid(ão)
A(r)i(e)dade
E o sol... Nascerá em apoteose.


Todavia agora, se algo não entenderes
Olha as árvores que passam.


2.
Parece-me que tudo se pode passar entre nós.
Parece-me que cada um se torna outro quando nos encontramos.
Parece-me ficar doente se nos afastamos.
Parece-me que quando ficamos a sós
Sinto um contentamento contente
Uma alegria alegre
Uma unicidade única
Um fogo
Um gesto
Um brilho
Que me arrebata todo duma vez
E me atira em viagem vertiginosa
Alucinante
E total.


Uma tarde disseste:
- Sou terra.
Fiquei atrapalhado por te não saber capaz
De dizer coisas tão belas.


3.

Ontem, mais tarde ainda, durante a noite
Trocaram todas as letras ao meu poema.
Alguém que por aqui passara
Baralhou-mas.


Ontem, durante a madrugada,
Bebi dum trago os mais lindos olhos do mundo;
Mas alguém por aqui passou
E levou-mos consigo.


Ontem, durante a aurora,
Trabalhei na arquitectónica do universo;
Alguém por aqui passou
E deu-lhe nome de terra.


DIZER DIFÍCIL


Fala-me dessas coisas impossíveis
Como respirar quando nos encontramos,
Os momentos de ser o que nos damos,
Os receios de naufragar indesvendáveis.

Fala-me dos gestos esforçados sobre-
Humanos de pôr alguma razão em ser
Credíveis na indiferença que há em deter
O rio do cais que nos abalroe e dobre.

Fala-me do silêncio que em olhar nos diz
Do tanto que nos queremos manter indizíveis
E sucumbindo vamos ouvindo estalar o verniz,
O vingar das expectativas, os sonhos tidos...
Tão despertos e atentos aos esperados momentos
Que de possíveis crêem impor-se como vividos!

NOME DE MAR E VELA


O meu amor tem o cheiro das brisas do mar azul indomesticável
E os trejeitos simples das papoilas silvestres das searas trigueiras
De quando o vento sussurra intrigas à planície luminosa e fértil
Plena de maresia e sôfrega de meus olhos em si derretidos e desmaiados


E veste os mantos do negro estudantil em que esvoaça liberta
Afinando as horas pelo Abril de balada que ao fado acerta.
E joga comigo ao esconde-esconde de janela em janela, estar e ir,
Essa que eu mil vezes fixo nos fins-de-semana e feriados longos
Como se ela fosse a resolução de todos os meus problemas e hiatos.
Qualquer coisa como a moldura única de todas as minhas narrativas.
Universo ilimitado para o jogo de todas as minhas metáforas e elipses.
Campo de batalha para todas as minhas alegorias, imagens e sinédoques.
E comparações e presopopeias e metonímias e ironias e alucinações.


Que nem ela fosse a revelação dos sonhos das milhares de galáxias
Por descobrir e desvendar à plenitude dos corpos e das planícies
Ao infinito brilho de estrela que há em seus olhos de medir o céu.


Porque transporta consigo a esperança e fulgor dos ancestrais
Os genes que me faltavam para eu resumir a história da humanidade
Num só capítulo, todo ele de ir à escola e brincar pelas veredas.

A SARDANISCA



No granítico muro que delimita o canteiro
Das rosas mais mal afamadas da minha aldeia
Costuma estender-se ao comprido do dia soalheiro
Uma lagartixa sarapintada, por sinal nada feia.


Dá-me até a entender, pela sua atitude pensativa
Que medita em êxtase profundo
Sobre os pecados do mundo.


Ou então que me escuta sem cerimónia restritiva
Enquanto declamo por supetão
Alguma estrofe mais exclamativa.


Sendo como é, infiel aos suplícios da estética,
Da rima com rima em forma atlética,
Sucede-lhe por vezes, porém, inclinar a cabeça
Logo que no recital tropece ou a voz da emoção
Me estremeça.


Atenta, arisca, feminil
Esta réptil figura tem ainda
Aquele retoque especial e primaveril
Que São Martinho ao Outono ensina.


Tem trejeitos inteligentes de gente animada
E, se se coça por mor de alguma areia
Palhiço ou delével teia,
Como quem se enfeita ensimesmada
Mirando-se provavelmente em imaginários vitrais,
Quase parece uma tal outra qu’eu conheço
Cujo nomear tão-pouco mereço
E que mora noutros quintais.


Nas tuas faces jovens e malandrecas
Que quando sorriem são traquinas
Matreiras, ladinas
Mas se serenas... imitam a cera das bonecas.

10.06.2005

A D U A S M Ã O S
Por Joaquim Castanho e Filipa Ribeiro

O rei vai nu”, disse o rapazito


A engenharia genética condensa, como nenhuma outra tecnologia,
tanto as nossas aspirações quanto as nossas desconfianças

Margarida Silva

Vem este artigo a propósito do lançamento do livro “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, de Margarida Silva, professora de biotecnologia no Porto e vice-presidente da Quercus, da Universidade Católica Editora. Os Organismos Geneticamente Modificados (OGM) são organismos que adquirem, pelo uso de técnicas modernas de engenharia genética, características de um outro organismo, o qual, em algumas vezes, é bastante distante do ponto de vista evolutivo. Esta é, sumariamente, a sua definição técnica. Em termos de indústria agro-alimentar e da aplicação que fazem dos OGM, estes são, como disse e muito bem Luísa Schmidt, uma “coqueluche” que “é apresentada sedutoramente aos países pobres, a quem se acena com a quimera da abundância e do fim do problema da fome” (Expresso, Dezembro de 1999).
Com efeito, apesar de poucas, erguem-se já algumas vozes do interior da comunidade científica para alertar sobre as implicações dos OGM na saúde humana, sobre os riscos para o ambiente, para a agricultura e para a sociedade. E fazem-no porque, ao contrário do que se possa pensar, os OGM são uma realidade e todos estamos sujeitos a consumi-los sem sequer disso termos consciência. E é para essa tomada de consciência, esclarecida e rigorosa, que este último trabalho de Margarida Silva contribui, dado existirem várias leituras possíveis desta questão transgénica.
É aqui que a comunicação social é importante na tentativa que deve fazer para despertar nos cidadãos a atenção e posicionamento eficazes face a um dos problemas mais actuais para a qualidade de vida no nosso planeta. Infelizmente, isto é o que não se tem feito, porque simplesmente não é possível quando até os media se declaram, impunemente, indisponíveis para darem espaço nas páginas dos jornais, mediação televisiva integrada e não repetida, cobertura diversificada e personalizada na rádio, internet e afins. Porque as questões científicas e ambientais não podem ser atiradas para a geral condição de produto estratégico na imparável senda de mais e diferentes audiências, segundo a qual a comunicação de questões de grande interesse social relativas à saúde pública e ao ambiente sustentado se cinge ao ciclo hermético e/ou apanágio para fins político-económicos pouco sustentáveis pelos custos que comportam à vida do planeta.
Perante aquela que pode ser a mais radical experiência no mundo natural, temos de estar esclarecidos, posto que esse é um esforço mútuo para cientistas, industriais, políticos, empresas, legisladores e consumidores. É neste sentido, portanto, que surge “Alimentos Transgénicos – um guia para consumidores cautelosos”, o qual é desprovido de gíria demasiado técnica e que tenta, deliberadamente, abrir os olhos e o diálogo com o consumidor. E fá-lo dando conta da controvérsia em torno desta questão desde que surgiu a primeira planta transgénica, em 1983. Assim, a autora começa por enumerar as vantagens dos OGM apontadas por diversos grupos científicos, políticos e de cientistas, mas pelo tom usado percebe-se que as vai atacar, ou seja, que a vai dissecar, recorrendo a uma análise cientificamente fundamentada, cada um dos argumentos que são discutidos neste prós e contras dos transgénicos.
Entre os benefícios para quem vende OGM, Margarida Silva indica os seguintes: o aumento da produtividade agrícola (maior resistência a pragas), redução nas aplicações de pesticidas (melhoria ambiental, inúmeras variações especializadas para agradar tanto a agricultor como consumidor e industrial, gestor e necessidades do 3º mundo. Dizem que ainda ninguém morreu por causa dos transgénicos e que os OGM são as plantas mais estudadas do mundo.
Ora, para começar, a nível mundial, apenas 4 países produzem 99% de todos os OGM: EUA (66%), Argentina (23%), Canadá (6%) e China (4%), o que não deixa de ser sintomático do aproveitamento económico e político que apenas visa lutar contra a morte por fome. Pois sim... Além disso, a agricultura insustentável é uma das características da nossa sociedade onde ainda predomina uma cultura alimentar que privilegia as farinhas, os óleos e a distribuição personalizada dos alimentos cuja proveniência e conteúdo são questionáveis. Por outro lado, a estrutura administrativa social fundamentada em representantes que beneficiam grupos económicos em detrimento de valores humanitários básicos, a isenção da responsabilidade pessoal para com a saúde e educação, delegando-a a profissionais formados em perspectiva mercantilista, eliminam o desejável empenho pessoal na vigilância da qualidade dos alimentos. Como é possível que esta esmagadora minoria interessada nos OGMA ignore a perda de equilíbrio ecológico de espaços selvagens e agrícolas, os riscos da introdução na cadeia alimentar animal e humana de substâncias que nunca dela fizeram parte, da contaminação generalizada dos alimentos não transgénicos, da manipulação abusiva e mecanicista da vida e, por fim, do domínio económico do planeta pelas grandes empresas mundiais. Como é possível, que tudo isto se resuma a patentear sementes que sempre foram e deviam continuar a ser um bem comum e de livre acesso? Sim porque a incorporação de um gene significa, que alguma parte do organismo receptor vá produzir uma nova proteína e o aparecimento de uma nova característica, a qual é transmitida de geração em geração? Estão todos cegos perante esta nova “bomba atómica para o mundo natural e humano”? Provavelmente, tal como aconteceu com os resultados da bomba atómica de Nagasaki e Hiroshima, quando se perceber as reais consequências dos OGM, então, dir-se-á que “o rei vai nu”, mas mais uma vez, será tarde demais e poderão não haver trancas para pôr na porta.
Torna-se, pois, claro que os OGM representam para políticos e cientistas uma solução fácil que consiste na interpretação errónea daquilo que a biotecnologia em particular e a ciência, em geral, podem fazer. A acrescentar a isto está o facto de ainda não existirem, até hoje, provas científicas demonstrativas da segurança dos transgénicos na alimentação humana e animal. Mais: porque a circulação comercial dos alimentos transgénicos só começou em 1996, ainda não decorreu o tempo necessário para aferir das consequências dos agrotóxicos nestes. Na altura em que se completam 50 anos desde a descoberta de Watson e Crick, urge analisar o potencial da genética, pois é notório que um simples gene, na sua complexidade, apresenta infindáveis extensões e, como explica Margarida Silva, “um gene fora do ecossistema molecular onde a evolução facilitou a adaptação mútua torna-se imprevisível e, ao ser inserido, num genoma estranho através de um evento fortuito, num local ao acaso, o seu comportamento pode ficar radicalmente alterado”.

10.03.2005

O poder do esquecimento
"Se a política é meio de elevação e libertação do homem,
sejamos políticos. Se a política é limitação da mente,
saibamos perguntar para que serve.
"
Júlio Roberto
As origens do sofrimento humano estão profundamente ligadas às condições da sua existência.
Conforme terá afirmado Louis-Ferdinand Céline, na sua Viagem ao Fim da Noite, o esquecimento é o único pecado que não tem perdão. Porque é imperdoável esquecer o que homens e animais sofreram durante a II Guerra Mundial, da mesma forma que é igualmente inolvidável a experiência por que passaram os “hóspedes” dos campos de concentração nazi, as mulheres violadas nos Balcãs, os “apartados” da África do Sul ou os torturados de Cuba.
Há dias atrás, aquando do 13º aniversário da APPACDM (Associação Portuguesa de Pais e Amigos do Cidadão Deficiente), de Portalegre, me cruzei nas instalações desta associação com o presidente da edilidade local, garantiu-me ele o feito no dito de que desta vez se tinha esquecido de me oferecer o bilhete para a tourada, e que suponho referir-se à costumeira da das Feiras das Cebolas. Esquecera-se porque se não lembrara, e pronto!, que estas coisas da memória são exactamente assim, sempre dependentes dos alzheimers do dia a dia.
Com toda a sinceridade não gosto de espectáculos que estropiem, utilizem, chacinem ou torturem animais, e muito menos que os enjaulem num reduto fechado para os humilhar perante babosas aficcions. A perda fora menor, portanto. Mas deu-me o mote para aquilo que realmente estava e está em questão: se a minha felicidade dependesse directamente desse gesto ou bilhete, eu teria sido um dos mais infelizes seres humanos do planeta e arredores. Teria sofrido a dor das expectativas defraudadas, a elementar carência de algo que fora considerado essencial. Sobretudo porque havia alinhavado a satisfação de um desejo com as linhas da esperança e fé nos meus semelhantes.
Ora, o que é indesmentível é que se o esquecimento pode ser pecado, em relação à história, ao conhecimento, aos afectos, às fés, também pode ser crime, quando é cometido sobre alguém que depende de nós. Se os familiares se esquecerem de ministrar a vacina a uma criança, como me sucedeu a mim com a da poliomielite, isso fará com que ela carregue toda a vida com as sequelas e estigmas concomitantes; se eu me esquecer de dar alimento ou água a um animal que prendi à minha porta, para me guardar dos intrusos, e ele perecer por isso; se alguém se tiver comprometido a pagar qualquer salário do qual depende a sobrevivência de um agregado familiar e se esquecer de o fazer, fazendo perigar a vida, bem-estar e harmonia dos seus membros; se deixarem esquecido ou fechado alguém num ermo isolado e sem meios de comunicação; se ao conduzirmos nos esquecermos de parar na zebra no preciso momento que um peão a atravessa, atropelando-o; se, enfim, nos esquecermos de atender a um pedido de socorro ou de contribuir com a parte correspondente e imposta por lei dos nossos rendimentos para o erário público… Então, não há dúvidas nenhumas que o esquecimento é igualmente crime. Nem que a negligência é uma arma mortífera!
E porque aos olvidados se não podem por si mesmos defender, além de pecado é assassínio, e mais que homicídio, é crime contra a humanidade. Principalmente porquanto o poder só se lembra de pugnar pela resolução dos problemas dos humanos subtraídos quando se esquece dos seus interesses arrivistas, particulares e materiais, tal como a todos nós é dado observar em Portalegre, onde ninguém pode, em seu juízo, deixar de reconhecer que o poder se lembrou e teve dinheiro para fazer inúmeras pontes eifelianas sobre rios inexistentes, mas as crianças da APPACDM têm que ir fazer hidroterapia a piscinas de outro concelho, mais precisamente no Crato. Como também não pode deixar de ver que o poder se lembrou de pagar balúrdios para criar novas e jesuíticas instalações autárquicas no Colégio de S. Sebastião, vulgo Fábrica Real, mas se esqueceu de providenciar a edificação do Módulo de Administração e Apoios Gerais da sede da APPACDM, ali à Moita, projecto ofertado por um arquitecto a executar num terreno doado pelo pai de uma utente. Que o poder se lembrou de fazer umas quantas azinhagas em novo empedrado para a cidade ficar mais bonita, mas se esqueceu de acautelar os acessos a esta APPACDM que têm que ser feitos atravessando propriedades particulares, sob o excelso favor dos seus proprietários. Que o poder se lembrou de reivindicar a feitura de um novo hotel de luxo na zona industrial, para carpir os eventos do gregário feudalismo sustentável, mas se esqueceu de complementar o dito projecto da APPACDM com o seu Módulo Residencial, essencial para a melhoria de qualidade de vida dos seus membros, tanto utentes como pessoal auxiliar e especializado. Que o poder se lembrou de fazer parques/bunkers de estacionamento para os seus kamhikazes de monóxido de carbono, mas se esqueceu de facultar à APPACDM um autocarro próprio e condigno às necessidades dos cidadãos que a integram. Que o poder se lembrou de transformar dois jardins para ficarem ainda menos úteis do que já eram, mas se esqueceu de instar à criação do Jardim e Horta Pedagógica correspondentes ao mesmo projecto da APPACDM, com fins óbvios para a formação e integração das suas crianças e adultos. Que o poder se lembrou de edificar um Centro Cultural topo de gama mas que se esqueceu que a civilização também é cultura, que o respeito pelas diferenças um espectáculo dignificante e o desenvolvimento humano um direito de todos. Que o poder se lembrou de utilizar os dinheiros públicos para se tornar mais poder, mas se esqueceu de socorrer às necessidades especiais de quem até para expressar o seu voto precisa de acompanhamento responsável. Que o poder se lembrou de promover a imagem de uma cidade mas se esqueceu que há pessoas que vêem o mundo e a vida de uma perspectiva diferente da nossa, cujas carências e formas de comunicar não se pautam pelos nossos códigos de linguagem, que praticam uma afectividade que nos é incompreensível, são incapazes da consciente emancipação, mas a quem o desenho e a escultura, a dança e o canto, a colagem, a pintura, o bordado, a carpintaria, as representações dramáticas, o hipismo, a natação, a marcha, a ginástica, o cuidar de animais, a horticultura, o cultivo e arranjos de flores, o convívio com os outros, a arte e a natureza, são mais que actividades económicas, mas antes tarefas de superação do seu isolamento, elos imprescindíveis para se ligarem à sociedade a que também pertencem, por direito e condição, e a sua especial maneira de nos dizerem quanto nos amam.
Quando, num país com o défice de 6,83 sem a fatia das autarquias e regiões autónomas, assistimos ao desbaratar do erário público, na propaganda partidária onde se enaltecem as obras feitas em prol da carreira política deste ou daquele que quer prolongar a sua estadia à frente dos desígnios de uma cidade, que é insuficiente para atender às necessidades vitais daqueles que de si dependem, cuja deficiente memória não chega nem para se lembrarem das suas responsabilidades cívicas primárias, e esquecem que o futuro resulta sobretudo da forma como acondicionarmos o presente e o passado, então não restam dúvidas de que com este quorum político nunca alcançaremos os patamares europeus, jamais teremos um estatuto de cidade madura e emancipada, como as congéneres da restante Europa desenvolvida, por mais que lhe lavem a cara e lhe vistam os trajes do folclore domingueiro, a fim de desfilar nas passarelles da vaidade provinciana.
Ou seja: já que temos uns políticos que não se lembram de contemplar na sua escala de prioridades programáticas, a resolução dos problemas do nosso dia a dia, os nossos direitos de cidadania, a melhoria da qualidade de vida, a humanização da cidade, a modernidade e o desenvolvimento sustentável da nossa região, a coesão social e os cuidados essenciais dos nossos familiares e amigos, mas sim se preocupam com satisfazer uma megalomania inusitada à sensatez, então é bem provável que também nós nos esqueçamos de votar neles, quando no próximo dia 9 de Outubro formos exercer o único acto que em democracia tem as qualidades do algodão que não engana: a alvura da nossa esperança. Especialmente porque não bastam a nenhuma existência as intenções constitucionais e apoios ministeriais, nem o exclusivo empenho dos familiares dos nossos conterrâneos com deficiência mental, para consolidarem a entrosagem social que merecem. É igualmente necessário compreender que o esforço de adaptação de qualquer indivíduo à sociedade é uma dádiva que ele nos concede a todos nós, e que sempre que lho inviabilizamos é um pedaço precioso que amputamos à humanidade. E que por cada oportunidade que lhe negamos ou dificuldade que não lhe abreviamos é uma mancha de malévola oxidação que acrescentamos à memória da nossa espécie, que não só ofuscará a imagem que os vindouros dela farão, como nos sonegará a consideração e reconhecimento dos países mais desenvolvidos do mundo, afinal os únicos que podem investir em nós – ou como prova e na justa medida daquilo em que a História se tornou exímia: que o esquecimento com esquecimento se paga.
Que o mesmo é dizer, já que aos nossos obreiros políticos não é dada a elevação moral de pugnar pelas nossas ansiedades e expectativas, então devemos responder-lhe que são um roubo para a nação, que não servem para nada, e muito menos para nos governar, em consonância com as inquietações enunciadas no pródromo, por Júlio Roberto.

9.21.2005

Sempre, sempre mais e ainda melhor (es)

Companheiros e companheiras:

Em conformidade com as linhas programáticas aprovadas na VII Convenção Nacional Ecológica, de 22 e 23 de Junho de 1996, na certificação de uma acção política baseada e consciente da relação simbiótica entre o homem e a natureza, a cultura e o meio ambiente, entendíveis como componentes da ecosfera reciprocamente condicionáveis, que assistem à génese do Movimento Ecologista Português – Partido OS VERDES, directamente germinado na necessidade de agir pela paz, pela desmilitarização, pelo desarmamento, pela desnuclearização, pelos direitos cívicos e de expressão ideológica, pela implementação da ecologia e pela procura constante de formas alternativas de entender a vida e organizar a sociedade sob a bitola de um progresso e desenvolvimento solidários e sustentáveis, pautado por princípios que se adjuvem ao pugnar evidente, eficaz, frontal, transparente, contínuo e democrático que faculte a crescente humanização da cidade de Portalegre, acelere os maquinismos sistemáticos de descentralização do Estado, incentive e efective o aumento da participação da região e suas gentes no processo de democratização da sociedade, propicie notória melhoria na qualidade de vida dos portalegrenses, incremente e acompanhe de forma envolvida e responsável a problemática da globalização cumprindo no quotidiano a definitiva instituição do “pensar global agir local” que a caracteriza, concretize a multicultura e diversidade como itens ou indícios latentes da sustentabilidade ambiental, social, económica, biológica e cultural, o Partido Ecologista OS VERDES e eu, na qualidade de candidato à Assembleia Municipal de Portalegre, na tentativa de ajudar a edificar uma sociedade ecologista e emancipada, que valorize o conhecimento e a tecnologia, a consciência cívica e a cidadania, e igualmente corporize o ideal libertador e progressista do 25 de Abril, aos níveis político, económico, social, cultural e ambiental, reforçando sempre o cariz e o sentido da solidariedade, da igualdade, da cooperação entre as instituições públicas e privadas na produção da qualidade de vida, da convivência harmoniosa entre grupos e sectores da sociedade, e humanização da malha urbana histórica e periférica/campesina desta capital de distrito, propomos:

1) Deliberar e intervir em favor de um gradual aumento quantitativo e qualificativo da utilização dos transportes públicos na cidade, da cidade e para a cidade, bem como providenciar para que se não compre mais qualquer veículo movido a energias tóxicas não renováveis (gasolina e gasóleo), aumentar as frequências nos horários e número de carreiras, adequar os horários à vida da cidade e necessidades de deslocação da população estudantil e autóctone, sobretudo dos residentes nos bairros dos Assentos e Atalaião, corrigir os trajectos actuais e multiplicar o número de paragens estendendo os percursos às novas urbanizações (Lysias, Santana, Carvalhinhas, Fonte dos Fornos, Areeiro, por exemplo), alargar o serviço de transportes (incluindo com carreiras nocturnas) às populações das restantes freguesias do concelho (Carreiras, Fortios, Reguengo, Ribeira de Nisa, Urra, Alegrete, Alagoa, etc.) com vista a dinamizar, revitalizar e facilitar a vida recreativa e comercial da cidade histórica, e garantir que cada um dos veículos de passageiros a gasolina e gasóleo se vendam e sejam substituídos gradualmente, a curto e médio prazo, por veículos equivalentes mas ecologicamente desejáveis, movidos a gás e/ou electricidade.

2) Contrariar a predominância de plátanos nos passeios públicos e jardins, providenciando o transplante dos que se manifestem incomportáveis com o espaço urbano em que se encontram para zonas em que não agridam a biosfera, plantando em seu lugar outros espécimens vegetais mais conformes à flora da região, susceptíveis de amenizar o secular confronto entre o ambiente serrano e o citadino, em observância à progressiva integração da vertente decorativa urbana na da decoração paisagista regional, tentando esbater e eliminar quaisquer factores de contradição ambiental adversos à biodiversidade, confluência de interesses entre a sustentabilidade ambiental e a qualidade urbana, quer do ar como da comunidade biológica, do habitat ou do espaço reservado à convivência diária das famílias citadinas; assim como contrariar a expansão industrial e urbana promovida sem regras e obedecendo apenas aos interesses da especulação imobiliária e do lucro fácil, que incentiva a ocupação e destruição das hortas e demais terrenos aráveis da periferia da cidade, com graves consequências na perda da qualidade ambiental, evidente subtracção da diversidade biológica, e elevado contributo para a descaracterização da paisagem regional e local, para o desequilíbrio ecológico, situação que além de impedir a utilização desse solo circunstante como gerador de riqueza, é igualmente produtora de doenças civilizacionais anexas à degradação ambiental, causadora de infelicidade generalizada, sufocação, stress e inúmeras doenças do foro psicossomático que em realidade já afectam vasta camada dos nossos conterrâneos citadinos.

3) Humanizar o espaço histórico da cidade, actualmente esvaziado de famílias como de pequenas empresas que lhe davam uma dinâmica e pulsar próprios eivados de substancial harmonia económica, cultural e social que contribuíam grandemente para a segurança pública, reabilitando para a habitação familiar a preços sustentáveis e/ou sociais todos os fogos devolutos e degradados de intra e extra muros, com vista a facilitar a coesão social e integração de estudantes e emigrantes, promovendo a sua fixação na região, em acelerado decréscimo demográfico desde remotas eras, o que em muito tem contribuído para o seu subdesenvolvimento.

4) Aumentar o número de ruas sem trânsito e fomentar a implementação e unidades de produção circunscritas à cultura, conhecimento e inovação tecnológica, bem como das actividades artística, comercial, turística e de serviços, cuja produção de mais-valias colectáveis seja também garante de sustentabilidade económica e melhor qualidade de vida dos portalegrenses.

5) Alterar radicalmente o conceito o de pavimentação urbana: as vias para circulação automóvel são lisas, onde é fácil caminhar e de materiais não escorregadios, mas os passeios e ruas para circulação de pessoas são invariavelmente de empedrado manhoso, de difícil aderência, escorregadios q.b., impróprios e arriscados para a locomoção humana, sobretudo dos mais idosos, que até podem ser muito bonitinhos mas que se demonstram cada vez mais inúteis para aquilo para que realmente foram feitos: servir as pessoas em liberdade.

6) Recanalizar toda a água das nascentes e linhas fluviais urbanas hoje em dia desperdiçadas e canalizadas para a rede de esgotos ou espelhos de água, espécie similar a céu aberto, que sempre sujos e inestéticos ficam à autarquia tão onerosos como produtores da sua imagem pública pouco transparente e estagnada, para reservatórios e estações e gestão de recurso a fim de ficarem disponíveis para usos industriais e de rega dos jardins públicos e privados que a requeiram por mais barata, impregnando a autarquia da prática de poupança de um bem escasso tal e qual como esta já aconselha ao cidadão comum, dando o exemplo daquilo que se pede.


7) Apostar no desenvolvimento sustentável é garantir o equilíbrio ecológico e assumir a responsabilidade de estar solidário com as gerações vindouras. Tentaremos por conseguinte combater e denunciar qualquer linha identificadora de insustentabilidade que reflicta, de forma mais o menos camuflada, qualquer prática de exploração do homem pelo homem, cativação e transformação selvagem produtivista dos recursos naturais da região, subordinação da vontade política aos interesses particulares e económicos, na perspectiva de corrigir assimetrias e desigualdades regionais, nomeadamente as de oferta de qualidade de vida e motivação cultural entre a cidade propriamente dita e as freguesias rurais, resolver e colmatar as injustiças sócio-culturais que historicamente têm penalizado o nosso interior desfavorecido, estimular a participação democrática dos portalegrenses na resolução dos problemas locais, regionais e nacionais, recorrendo ao referendo sempre que se avizinhe útil e oportuno, racionalizar a gestão dos espaços públicos urbanos, pôr termo à destruição acelerada da orla hortícola da cidade para fins habitacionais que apenas respondem aos interesses particulares de construtores civis e unidades bancárias de crédito, enfatizando deveras quanto estamos empenhados na criação de bem-estar individual e colectivo, na salvaguarda e promoção dos valores culturais, ambientais, paisagísticos e ecológicos, assim como na promoção e defesa das riquezas locais sem descurar o seu reflexo no equilíbrio regional, nacional e global, capaz de inibir as tentativas economicistas geradoras de crise de sobreprodução e emprego, consumo forçado e destruição dos recursos limitados mas imprescindíveis à vida.

8) Providenciar uma cidade para todos edificando plataformas de acessibilidade ou instalando elevadores em todos os serviços públicos e facilitar as obras nos privados que os queiram efectuar, quer no transporte dos materiais como no fornecimento de máquinas, licenciamentos, projecto arquitectónico e mão-de-obra especializada.

9) Providenciar para que a participação e qualidade da cidadania do sector feminino da população ganhe projecção e protagonismo estabelecendo um timing operativo favorável, nomeadamente nas reuniões partidárias, nas Assembleias Municipais e Assembleias de Freguesia, nos eventos oficiais autárquicos, posto que sendo estes sempre efectuados em horários nocturnos e terminando invariavelmente altas horas da noite, a indispõem à participação cívica e lhe sonegam a possibilidade de discussão e esclarecimento da problemática sócio-política, incompatibilizando a vida pública da mulher com a sua vida familiar ou necessidades de assistência familiar.

10) Criar o Conselho Autárquico para o qual serão convidados a participar todas as individualidades de destaque das áreas empresariais, profissionais, culturais, artísticas e cognitivas, com o único objectivo de reflectir, enunciar, promover e consolidar o harmonioso desenvolvimento do concelho, na prossecução de uma sociedade para todos.

11) Pugnar pela criação de um canil hospital/hospedaria em condições de higiene, estruturais, de manutenção e de serviço clínico-veterinário suficientes e capazes, onde se possam abrigar não só os animais abandonados mas também hospedar aos que os seus donos queiram acondicionar temporariamente, por vontade expressa e mediante pagamento para o efeito, ou os enfermos que carenciem de cuidados especializados, apoio educativo e convívio com outros da sua espécie.

12) Estimular a construção de uma estufa e/ou reptilário, para fins turísticos e pedagógicos, onde se possam observar e reconhecer todas as espécies de flora e répteis existentes na região de S. Mamede, a fim de os poder divulgar e valorizar, rentabilizar e promover sem interferir nem prejudicar no seu habitat selvagem, o Parque Natural da Serra de S. Mamede e áreas adjacentes.

13) Acelererar a concretização do Parque de Merendas, Desportos e Lazer junto ao Estádio Municipal, conforme o aprovado anteriormente.

14) Deliberar a favor da implementação de um RMPA (Regulamento Municipal de Protecção dos Animais) no qual se definam, de harmonia com a legislação nacional em vigor, normas municipais estritas e firmes, verdadeiramente eficazes para dissuadir e punir quem maltrate, abandone, descure, use para fins comerciais ou abuse de animais na cidade.

15) Instituir e definir um compromisso autárquico de não autorização e não licenciamento de espectáculos e divertimentos cruéis com animais no concelho, nomeadamente circos, rodeios, carrosséis de póneis ou de outros equídeos, bem como touradas em praças desmontáveis.

16) Indisponibilizar totalmente os materiais, equipamentos e mão-de-obra para manter ou efectuar qualquer melhoria na praça de touros, assim como não permitir que os veículos dos transportes municipalizados efectuem carreiras ou sirvam de promoção aos espectáculos tauromáticos, nomeadamente na deslocação de grupos de forcados.

17) Instigar todos os serviços administrativos autárquicos a não usarem outro papel que não o reciclado, e afectar nesta medida também todos os estabelecimento de ensino cuja tutela de materiais, equipamentos e manutenção lhes esteja ligada, como é o caso dos pré-primários (creches e infantários) e 1º Ciclo do Ensino Básico, assim como providenciar a circulação da agenda cultural e demais informação respeitante aos serviços camarários e/ou municipalizados, como cortes de água, cortes de ruas ao trânsito, alterações de horários nos transportes públicos ou funcionamento dos serviços, eventos recreativos, desportivos, culturais ou oficiais, se faça por via SMS, como à semelhança daquilo que já se pratica, p. e., em Estarreja ou Entroncamento.

18) Reprogramar a atitude cultural do município de forma a fomentar a criação e usufruto dos produtos culturais numa perspectiva de disseminação da sociedade para todos, aposta não só centrada nas vertentes da multidisciplinaridade e multiculturalidade mas igualmente no capítulo das filosofias da ética e da estética à luz das quais todos os seres são iguais em dignidade e direitos, a educação ambiental sejam um dos itens inalienáveis, a biodiversidade um valor intrínseco à vida e o respeito pelas diferenças como principal suporte no qual se devem estabelecer todas as relações interpessoais e inter-institucionais, com transparência de processos, diálogo na prossecução dos intentos e estratégias, determinação nas atitudes, coerência nas propostas e solidariedade na expressão dos eventos.

19) Reeditar a Festa dos Aventais, criando uma Comissão de Cidadãos para o efeito, mas garantindo-lhes da parte da autarquia espaço apropriado, apoio logístico, equipamentos de realização, financiar, suportar e facilitar o material gráfico de promoção conveniente[1], bem como encetar diligências para que as associações, empresas e demais forças vivas da cidade se envolvam no evento, se integrem rotativamente na sua gestão e organização, e estabeleçam entre si estudos e possibilidades de melhorias e adequação aos tempos presentes.

20) Sensibilizar a autarquia para instituir e implementar uma Feira de Reciclados, com criação de espaço de aprovisionamento, mostra, recolha, restauro, troca, compra e venda na Fundação Robinson, onde decorrerão a feira mensal e certame anual de antiguidades e usados, não só para evitar o elevado nível de desperdícios da nossa postura consumista, como igualmente para propiciar aos mais desfavorecidos e coleccionadores a aquisição de bens ainda em condições de circulação por preços acessíveis.

21) Instituir as estruturas básicas fundamentais e logísticas suficientes para criar, formatar, fomentar, promover e manter operativo o PROGRAMA HELP – Hoje Estamos Livres Para…, que articule simultaneamente a educação ambiental, a actividade recreativa e desportiva dos jovens, a solidariedade e participação democrática, a integração dos mais novos ou recém-chegados à cidade e consolidação dos seus direitos de cidadania, com vista a facilitar a sua emancipação. E numa perspectiva de sublinhar que HOJE ESTAMOS LIVRES PARA… nos organizarmos, lutarmos por nós e pelas nossas ideias, combatermos o especismo, a homofobia, o sexismo e a xenofobia, reflectirmos o passado, resolvermos o presente e inventarmos o futuro, na sã convivência com os restantes seres da nossa comunidade ecológica e/ou habitat, com respeito pela vida e meio ambiente ou dispostos a renegociar o nosso desenvolvimento sem o tradicional recurso ao parasitivismo fundamental, à exploração desregrada dos recursos naturais, eivados de economicismo antropocentrista com que nos temos conduzido na nosso soberano provincianismo obsoleto.

22) Providenciar a construção de uma central de compostagem e distribuição/construção dos respectivos recipientes pela cidade, não só para produzir fertilizantes de uso nos jardins públicos, como para venda aos horticultores e agricultores da região a preços de produção.

23) Impedir a destruição das hortas da periferia urbana reformulando-as, bem como motivando os seus proprietários a proporcionar-lhe também uma utilidade pedagógica, didáctica e de elevado interesse formativo da nossa identidade local e regional, na prossecução da agricultura biológica ali praticada desde remotas datas e que foi uma tradição da região, um valor etnográfico reconhecido pelo folclore e linguagem praticados, na tentativa de preservar a nossa cultura originária, urbana mas fortemente enraizada nos formatos hortícolas e campesinos que a sustentaram, possibilitando assim aos vindouros portalegrenses e visitantes o reconhecimento histórico e a mais-valia da produção e comercialização dos bens que consequentemente dela sempre resultaram e ainda podem continuar a resultar.

24) Baptizar, identificar e etiquetar cada elemento da flora (árvore ou arbustro) dos nossos jardins públicos, atribuindo-lhe um estatuto mais dignificante do que o actual, reconhecendo-lhe o seu valor na renovação do ar urbano respirável, na produção de qualidade de vida e seu contributo para a saúde dos residentes urbanos, instituindo um “programa autárquico de baptizo” de cada árvore, através de convite a personalidades ilustres, visitantes ou autóctones que demonstrem a sua anuência ao programa e queiram ficar ligados à história da cidade pela sua componente de cidade para todos.

25) Providenciar a criação de estruturas para a prática de desportos urbanos e de parques infantis em todos os bairros ou zonas residenciais da população activa, e assim possibilitar às camadas jovens da população a prática dos denominados desportos cosmopolitas do nosso tempo (atletismo, patins, skate, etc., etc.), como é comum em outras localidades europeias.

26) Distribuir mais contendores de selecção de lixos (ecopontos) pela cidade, facilitando o seu acesso aos utentes, e rareando os contentores de lixo geral, dificultando-lhe o acesso, como medida incentivadora de selecção dos lixos domésticos, com vista a cumprir os preceitos ambientais e europeus de reciclagem.

27) Combater a info-exclusão, providenciando novos espaços de formação, serviços e consulta on line, nos demais bairros da cidade, bem como implementar o Wireless municipal, com vista a dinamizar uma sociedade da informação para todos, conforme o plano de acção eEurope 2005, inscrevendo definitivamente a cidade nas rotas das novas tecnologias da comunicação.

Portalegre tem uma palavra e um contributo importante a dar acerca da descontaminação do planeta, da requalificação da ecosfera, da redução do aquecimento global, das alterações climáticas, da qualidade do ar, da água e dos solos, da defesa da Terra como único lar da humanidade, da qual não abdicará, nem prescindirá das suas responsabilidades na construção de um mundo melhor para todos, alicerçado e consolidado na inovação tecnológica, na valorização do ambiente e do conhecimento, enquanto verdadeiros índices da sua emancipação. Porque, enfim, não podemos pertencer ao nosso tempo sem simultaneamente pugnarmos pelo futuro da nossa terra e das nossas gentes, numa opção de desenvolvimento sustentável, pela conservação da natureza e defesa do meio ambiente, pela dignificação da vida e humanização do concelho, por uma democracia directa, cada vez mais participada e aprofundada, no dia a dia como postulados constitucionais, por uma sociedade ecologista, consciente e emancipada.

VIVA o 25 de Abril!
VIVA Portalegre!
Viva a CDU!
Viva Portugal!
PELA PAZ, PELA TERRA, PELA VIDA: VIVA O PARTIDO ECOLOGISTA OS VERDES – VIVA!!!!

[1] Festas dos Aventais, uma tradição extinta. Festa de arreigado espírito democrata e bairrista, com o fito de se passar um alegre dia sob as frondes das árvores das redondezas de Portalegre, sem espírito de classe nem preocupações de estirpe, sem ódios de seita nem divisões por princípios ideológicos ou confessionais, cujos fundamentos elementares residiam na confraternização entre "lagóias", ao ar livre, na Quinta-Feira de Ascensão, Dia da Espiga, teve a sua primeira edição em 9 e Maio de 1907, embora que ainda sem a típica denominação de Festa dos Aventais, nem o concurso das intituladas vestes, o que só viria a acontecer mais tarde, na Fonte Fria, em 16 de Maio de 1912, sob os auspícios dos carolas da "Merenda", que aí se organizaram então como Comissão de Festas (composta por José António Dias, João Baptista Caldeira, João Marcelino Barata, João António Bugalho e Silvestre de Sousa - regente da Banda dos Bombeiros), que se compromete e responsabiliza pela sua realização no ano seguinte. O nome derivou-lhe, segundo informação prestada pelos cronistas locais, do facto de todas as donas de casa, na altura de servirem o repasto aos seus familiares, terem posto este resguardo, na tentativa de evitarem sujar as vestes domingueiras que envergavam. Para mais informações consultar no blog http://www.viverliteraturaviva.blogspot.com o artigo com mesmo título.

9.12.2005

Lição de biologia

A vida é rosa de lava
Pétala incandescente:

E é a ternura quem a incandesce
Nela sobe e desce
Gemina e cresce
Como nas veias da gente;
Porquanto nunca esquece
Que quem se merece
Além de flor
E fruto do amor,
É também semente!

Álgebra sentimental

Qual o peso do beijo na ternura?...
Se as tuas mãos tocassem as minhas
E sentissem meus lábios nesta altura,
Teriam colinas em vez de linhas
E nelas minas… de lava pura!

9.02.2005

DAS HONRAS DA CASA...

" Quem a lava e não entende
Mais a suja do que defende "

Lavar a cara à cidade tem as suas cautelas. Senão, o negócio pode tornar-se uma complicação geral…
Noutros tempos, era costume nas pessoas do povo, tomarem apenas dois banhos durante a sua vida: ao casar e ao morrer. Os mais saudáveis, é claro! Que os que adoeciam nunca poderiam entrar no hospital sem a dita limpeza. Sem a respectiva barrela!… Provavelmente foi daí que nasceu a antiga superstição de que lavarmo-nos faz mal, é para doentes ou mania de quem não bate bem da bola.
Felizmente os tempos mudaram e a higiene, segurança e cuidados com o físico deixaram de ser defeitos. Hoje andar sujo e malcheiroso é estar fora de moda, ser presença indesejável e um incómodo para os demais. Com as cidades isto é igualmente verdade: devem ser bonitas, desejáveis e cómodas. Devem ser funcionais, saudáveis, históricas, cultas, abertas e promover o desenvolvimento humanizado e sustentável, a qualidade de vida e usufruto da cidadania. E podem sê-lo!
Podem ter ruas em vez de azinhagas novas, jardins em vez de alegretes, autocarros em vez de carretas a motor de petróleo, espaços de desporto e lazer em vez de descampados prò contribuinte Todo-o-Terreno, soluções multiculturais em vez de festinhas e arraiais de bairrinho engalanado. Podem.
Mas também não desconhecemos que para isso se conseguir há que fazer modificações nelas; enfim, têm que requalificar-se. Têm que fazer-se obras. Ainda que estas sejam um transtorno para toda a gente. À semelhança do que acontece na casa de cada um de nós, se acaso queremos melhorar a decoração da sala, as acessibilidades, as capacidades da cozinha, a comodidade dos quartos, a categoria funcional das casas de banho.
Então, se precisamos de efectuar benfeitorias no nosso lar, podemos recorrer a duas modalidades possíveis: metemos lá dentro os pedreiros e materiais, que nos assaltam a casa e se assenhoram dela, as 24 horas do dia e enquanto as obras durarem; ou fazemos as ditas por partes de forma a podermos continuar a habitar a moradia, com certas restrições e alterações de horários, mas sem nunca deixarmos de ser seus donos nem prescindirmos dela totalmente. Se somos ricos, temos outras casinhas por aí, uma família que não dá valor aos tarecos, nem se preocupa com o bem-estar dos seus, optamos pela primeira; se prezamos a mobília, gostamos de conviver e damos significado a cada um dos membros do clã, nos preocupamos com o seu dia a dia e necessidades pessoais, escolhemos a última.
Se queremos molestar os nossos familiares e os vizinhos, transtornar as suas vidinhas, destruir-lhe o habitat e o sossego, causar-lhe stress desnecessário, impedir que se desloquem naquilo que é seu, quebrar-lhes as rotinas e souvenirs, riscar-lhe os cobres, embutidos e areados, vamos pela primeira opção; agora, se ao invés, pretendemos respeitar o quotidiano e dignidade dos demais condóminos, nutrimos apreço pelo seu descanso, nos orgulhamos de nunca desejar para os outros aquilo que também não queremos para nós, aí não restam dúvidas, e enveredamos pela segunda.
Portanto, é impossível não estar de acordo com as pessoas que se têm manifestado adversas à forma como estas “obras gerais” citadinas têm vindo a ser feitas. Embora sejam as primeiras a reconhecer que algumas alterações do espaço urbano, além de urgentes, necessárias e imprescindíveis, apenas pecam por serem tão tardias, a verdade é que não se podem alhear da forma como têm sido geridas, os dissabores diários que causaram, a confusão que criaram, as expulsões de clientela que motivaram a diversos estabelecimentos comerciais que, consequência da época do ano e do fraco poder de compra dos portalegrenses, já de si se encontravam com sérias dificuldades em manter as portas abertas ao público.
Como elas, também nós não percebemos, porque é que de um dia para o outro cortaram uma rua onde precisávamos de passar todos os dias, sem ninguém se dignar e ter a hombridade, a educação cívica, de no-lo comunicar com a antecedência suficiente para que não batêssemos com as trombas na porta quando aí precisássemos de passar novamente;
Como elas, também nós não compreendemos para que serve um executivo camarário, se quem manda na cidade são as empresas de construção civil e obras públicas, a quem foi adjudicada a cidade, juntamente com as obras;
Como elas, também nós não entendemos como se destrói uma fluência precária na circulação automóvel e transportes públicos, para a tornar ainda mais complexa e difícil, obrigando os munícipes ao desperdício do seu tempo, além do múltiplo e óbvio desgaste nas suas viaturas;
Enfim, como elas, também nós não podemos ser coniventes e permissivos com as políticas de desenvolvimento que, em nome dos fins, não têm o mínimo pejo de atropelar tudo e todos para os conseguir, que descuram os meios e desumanizam os objectivos, na inequívoca intenção de recolher benesses políticas com as necessidades alheias, na mira explícita do aproveitamento eleitoral dessas obras, como o demonstra a determinação do timing das mesmas, forçadas que foram a fazerem-se e aprontarem-se imediatamente antes, durante e após as eleições autárquicas, cujo afunilamento de prazos é por demais evidente.
É lamentável que tenha acontecido, não duvidemos. E sabemos que este nosso desabafo em nada poderá alterar o autêntico estado de sítio que se instituiu. Contudo, temos consciência e não esquecemos que aqueles, que afinal são quase todos os portalegrenses sem oportunidade de mudar de cidade enquanto as obras durarem, que é a única cidade da sua vida e não têm posses para comprar outra, como sucede às pessoas que precisam de fazer obras em sua casa, e que também não teriam outra para onde se mudar se nela quisessem fazer obras, mereciam ter sido consideradas, respeitadas, contadas neste alvoroço, a fim de lhe terem sido minimizados os estragos em seu diário viver (e conviver).
Porque a cidade é a casa de todos nós, não poderemos deixar de ser solidários com elas, com cada um dos que resistiram e aturaram estoicamente todos contratempos a que foram obrigados, porquanto a nenhum de nós passaria pela cabeça requalificar o nosso lar de forma a que nele não pudéssemos morar (ou, fazendo-o, se lhe imporiam perigos e guerras esforçados mais do que permite à força humana); nem conseguimos entender como racional o desacato a que fomos sujeitos. E em nome de quê? Não é pelo facto de o progresso ser pago às custas da qualidade de vida dos que menos podem que ele se transforma em mais e melhor progresso.
Pelo contrário. Que isto de crescer e salvar a imagem pública das donzelas, tem preceitos e subtilezas de enamorado em duelo ou convicção de medieval e monástica cavalaria, no que até lembra o que sentia, pensava e dizia, o povo doutros tempos acerca da honra: que
“ quem a lava e não entende,
mais a suja do que defende. “
Isto é, como dizemos nós, repetindo o que o nosso povo pensa actualmente, embora que dito de outro modo e em jeito menos rebuscado: que
“quem lava e não se enxuga,
toda a pele se lhe enruga... "
Outro facto acerca do qual também não haverá dúvidas nenhumas!

Escombros



I

Ecoam na vida mais vivida
Viciante vida que nos escorrega pelas mãos
Como água bentificada
Após aqueles instantes de tortura ingénua,
Ela aprecia o chá,
Quente, macio de flores brancas
Tão ingénuas como a própria tortura
Que lhe evapora dos poros da pele suada, tocada.

Escombros que iludem a própria origem
Vagina:
Quero percorrer-te
Refugiar-me no útero materno
Aninhar-me lá
Como antes.
Quero regressar à origem.

Quero abandonar aquilo que não é meu por direito
Quero entregar-me ao trilho escuro
Quero ser-me
Possuir-me
Desejo-o de mim para mim
Será cruel?
Cruz de mim que me invade
Loucura crua que saboreio
P’las papilas gustativas da língua
Unhas roídas
Carne carcomida durante o tempo da vida da carne

Queiram que viva
Queiram que chore só
Queiram que sinta o universo dentro de mim!

Feios e porcos
Que se alojam nos outros
Antes de se alojarem em si mesmos
Que inveja lhes tenho!
Insensíveis de uma coerência nutritiva.

II

Porque se destrói
Porque ama o sofrimento
Porque mo ensinou a amar
Encorajo-o a tomar-me como uma rainha do seu mundo!

A vida é impura para aqueles que lhe fogem
Estúpidos vagabundos esfomeados de ilusões
(Rio)
Eu sempre as consumi.
Destruí-me?
Sempre as implorei a meu dono do amor.
Pedia-lhe ilusões
Como as outras pedem jóias.

Truz! Truz! Truz!
Quero ter um filho teu.
Aqui dentro, onde já tiveste.
Carne penetrada pelo teu eu verdadeiro
Um filho da tua e da minha carne
Rebenta-me a veia!
Porquê tu?

Ensina-me as leis de teu universo
A matéria com que trabalhas
Actor da vida
Tão feliz que és...
Ou será visão minha?
Ou será do meu amor
Que esconde os escombros do real
Porquê ninguém vê o que tu és?

Só, eu,
Tão invisível que és
Tão puro de maldade inútil
Corres-me nas veias
Como se tudo fosse teu;
Mentes porque respiras;
Amas-me porque vives do teu reflexo nos meus olhos;
Foges da explosão provocada por teu próprio combustível
Cobarde

Sorte a tua!
És dono do todo,
Tu nunca tens nada;
Cristalizas nos outros
Como em ti mesmo.

Ensinaste-me como o tempo percorre o espaço
O simples caminhar
Encandeada pelo foco de luz
Sem ser derrubada pelos monstros mentais.

És mágico!
Monte de ossos que mia para mim
Que mentindo, ronrona para mim

Gato bravio
Independente que és
Sofrido, violado por todos
Usado e destroçado
Invejo-te como invejo a chuva que
Beija o mundo sem ninguém dar conta!

Sabes-me de cor,
Lambeste-me por dentro e por fora
Que barbárie!
Ensanguentei-me sem a dor
Conquistei-te
Não é divino?


III

A vingança.
Aprender o que me pregaste:
A invenção do amor

Entre entrefalas falseantes.
Dançarino da vida,
Põe a tigela na nuca e consome-me!

Ecoam feridas por lamber
Silêncios de abraços em telhados instáveis
Que nos mostravam o caminho para os céus.

Tal como tu te apresentaste
“Palhaço da vida”!
Já rompeste a minha nata de carne
Que pratos deliciosos de tenras carnes,
Virgens, te tentaram?
Capricho

Porque é que as futilidades nos apatizam?
Ambos amamos o mesmo
O caos.
A caotização do pleno universo
Partículas e mais partículas
Que um dia nos irão absorver.
Partirei agora desse cais?

Amanha será o amanha de tantas coisas
A espera é precisa
Amada e sofrida

Sofrer é criar
E criar também é sofrer
Quero eternizar o amor
Esculpi-lo, acabá-lo e fechá-lo à chave num quarto escuro e poeirento

Como sábio prestidigitador,
Sabe filtrar verdades
Quem precisa de verdades?
Quem precisa da verdade das verdades?

Tu és o maestro da vida!
Sempre o soubeste
Sóbrio que és,
Obsesionas-me,
Carente da mulher que me transformei
Em teus braços e palavras de embalo.
Cresci em ti e por ti, meu caro amor!

Temo a pistola que guardas para ti.
Pressionas o gatilho
Sempre que precisas de ouvir um som
Que mata

Afogas meus prantos, num mar de sereias
Aí tenho a certeza que não faço parte do real.
Protagonizo mais uma mentira tua
O acto ilusório concebeu-me
Nasci para a mente de um sofredor
Que não tinha que amar.


Carmen




"Vou adormecer, beijando-te aqui e agora
Eternizando nosso amor
Com palavras

Sempre partilhaste tudo comigo
"

volinte

8.27.2005

Excerto da obra inédita ESTRELA, de Gabriel Raimundo, já no prelo, e a ser lançada em Outubro, provavelmente na Covilhã e aqui em Portalegre.

Capítulo IV

SAGA DO REI FRANCISCO

Dinis, o Príncipe das Pedras Brancas, mais parece vocacionado para cronista da corte que gira em torno de sua mãe Rainha do que propriamente inclinado a desgovernar a região em que implantou o lustroso e confortável Castelo do Amor e Ventos Prósperos.
Foi, precisamente a uma observação da mãe neste sentido, que ele retorquiu com um argumento de se lhe tirar um chapéu da cor da azeitona galega: - Se eu consegui tornar-me perito em Turismo e Comunicação, não foi para vender aos deslumbrados da neve e das nossas belezas naturais os estereótipos dos compêndios de História e Geografia, nem o conteúdo veiculado pelos folhetos vistosos dos departamentos de propaganda do nosso Património. O que eu pretendo é colher troncos e ramas do saber popular, conhecer a fundo a nossa Geografia Humana e as aspirações dos nossos conterrâneos.
- Quem te ouvir falar assim, meu filho, vai julgar que te queres candidatar a Presidente da Câmara – espicaça-o a Rainha, adivinhadora dos planos profundos do seu rebento primeiro.
Ambos sabiam que se tratava de uma brincadeira, pelo que Dinis tomou a iniciativa de colocar mais questões, a quem o gerou e toda a disponibilidade e paciência do mundo mostra em esclarecê-lo, principalmente acerca de assuntos, inerentes ao reinado para que foi investida pelo pai Rei que, generosamente, abdicou do trono em proveito da sucessora ímpar, com a mesma determinação com que o faria, se da Rainha de Inglaterra se tratasse.
- Fale-me da actividade profissional de Rei Francisco, o meu avô...
Sorrindo, perante mais este trocadilho de seu dilecto Dinis, a Rainha do Casal procura não defraudar a veia de bom ouvinte e incansável investigador do seu interlocutor:
- O meu pai trabalhou que nem um dos actuais imigrantes do Leste, por todos os rincões em que pediam braços ágeis para as tarefas agrícolas.
Contém a comoção real, não tardando a abrir a cascata das recordações:
- Quem precisava de pessoal para trabalhar à jorna, deslocava-se à hoje Praça da Liberdade. Até havia uns que vinham do Dominguiso, dos Vales, das aldeias do rio-abaixo. Eu passava ali muitas vezes e via lá uns moços com a enxada aos pés. Aqueles que arranjavam patrão iam trabalhar. Os outros voltavam com a merenda para casa, o que nunca aconteceu com o meu querido pai, tal o apreço com que era tido na bolsa dos agricultores da meia-lua do rio Zêzere, bordada de oldeiros propícios à expansão de pomares, vinha, milho, legumes.
Por outro lado, é dos poucos habitantes da freguesia que altivamente pode subscrever a afirmação, em relação ao centro mais nobre da Vila dos Tecidos: - Eu nunca perdi tempo a pintar o tecto à Praça!
Lamentavelmente, este é um passatempo favorito de muitos jovens, de pré-reformados e idosos, gentes sem objectivos socioculturais ou meros subsidiodependentes do Ministério do Ócio.


Mouros façanhudos e Ratinhos ridentes

Ilustra as qualidades braçais de Rei Francisco com um dado fabuloso:
- Chegou a integrar-se num rancho de Ratinhos do concelho de Pombal para as tradicionais ceifas calorosas, nas herdades da região considerada o Celeiro da Nação. Um manajeiro e angariador de mão-de-obra valorosa que um dia se cruzara com ele na Ponte Pedrinha, gostou do seu porte humilde e decidido e nunca mais lhe perdeu o rasto.
Chegou a fazer o trajecto a pé até ao Rossio de S. Brás, o ponto de encontro na capital do Alentejo, tal qual os parceiros no desbaste das searas, que ao principio as camionetas da carreira eram de horário espaçado e bilhete caro...
- Qualquer outro Rei iria de caleche – chalaceia o neto que vagamente conhecera o avô...
- Ou na charrete de um desses abastados lavradores que passavam dias a fio, jogando à batota num dos manhosos casinos, estrategicamente colocados entre o sul e a capital do Reino – satiriza a Rainha do Casal, no que deixou espantado o filho, pela amplitude dos conhecimentos demonstrados, certamente colhidos nalgum almanaque de anarquistas, uma molhada de cidadãos bombásticos que se divertiam a contestar o regime monárquico e a denegrir a República e que tinham o desplante de reivindicar o desalojamento dos defuntos de terrenos considerados sagrados, com o pretexto de que a terra deve pertencer a quem a trabalha...
Rei Francisco alimentou-se das migas dos alguidares que lhe facultavam e conheceu outros velhos comeres dos ganhões da região, em que os temperos com poejos, espargos e outras ervas aromáticas faziam esquecer o azeite, ao mesmo tempo que se deliciou com carnes de porco e borrego, os enchidos, produtos copiosamente servidos na mesa de capatazes e do pessoal da casa. A míngua do vinhito que lhe acelerava o pulsar das veias, compensava-o com os goles de água da infusa e as pancadas secas nas hastes das espigas carregadas de grãos, nunca se afastando da frente dos mais audazes segadores.
Por voltas do S. Pedro já se encontrava em casa a remirar os cobres de reserva.
- Os alentejões puseram-nos a alcunha de Ratinhos, devido ao nosso aspecto atarracado e teimoso no meio das searas, onde dão nas vistas os nossos dentes brancos nos rostos morenos, tudo levando na frente, como se ali caísse de repente um exército de seres roedores – explicava-nos ele já no lar, à roda de uma malga de caldo de feijão que lhe puxava pela língua. Claro está que mais depressa lhe rolavam as palavras contra os dentes, se a ceia fosse acompanhada por uma pinguita do garrafão, comprado na tasca do primo Ribolache, o homem que em noites de alma quentinha gritava do terreiro em frente: - Aqui é o Céu!...
A Rainha nada esconde a Dinis, cada dia mais interessado em vasculhar nos compartimentos históricos maternos. Outra revelação faz ao filho:
- Contou-me uma noite o meu pai que os alentejões – nome que ele dava aos habitantes dessas terras de planície, de muitos calores estivais perfurando as copas dos chaparros e das azinheiras, e fortes geadas no Inverno – não acolhem muito bem os Ratinhos que - de empreitada - ceifam nos campos da sua região, porque dizem que tais ranchos os vão prejudicar, ao aceitarem efectuar aquele duro trabalho por um preço irrisório. Inclusive, os agrários chegam a recrutar pessoal na Beira, em Trás-os-Montes e no Algarve, nos momentos em que os assalariados da zona se recusam a efectuar as tarefas inadiáveis, pela tabela que os latifundiários lhes pretendem impor. Segredou-me o meu pai que já chegou lá a haver tiros e desgraças, por causa desses desentendimentos regulares...
Nem só adversários encontraram os Ratinhos, também apelidados de Galegos, porque originários de localidades acima do Tejo (como desforra, os de além-Tejo não se livram de ser designados de Mouros).
- Nada nos metia medo – afiançava o meu pai, homem pacífico. – As mulheres de chapéu de abas largas e roupas coloridas a cobrir-lhes todas as partes do corpo, como as árabes, gostavam de nós. No baile de despedida, por alturas do S. João, alguns companheiros agarravam-se a elas como os grilos à serradela. Raro era o ano em que não ficava por lá um dos elementos do nosso rancho, casado ou amigado, consoante as posses. Por sinal, há várias famílias como o apelido de Rato, entre Évora e Portalegre, pelo menos, e mais do que uma loja ou café ou restaurante com o reclame de Ratinho... Nos Canaviais, freguesia que medrou em volta do Convento do Espinheiro, aglomeraram-se largos núcleos de originários da área de Pombal e arrabaldes. Primeiro ficaram os Ratinhos mais atrevidos e, aos poucos, foram ali desembarcando os parentes com ofícios de ganha-pão garantido no concelho eborense, desde o alfaiate ao leiteiro, padeiro, serralheiro, pedreiro, pintor, empreiteiro de obras, carpinteiro, canalizador, mecânico, sapateiro, barbeiro, quer dizer, os homens dos ofícios em crescente valorização e que não precisavam de carta de chamada para ingresso e radicação em sítio de fisionomia ainda indefinida, mas cá dentro... Eu não fui na cantiga de nenhuma ceifeira, porque te tinha a ti e à mãe Hortense – confidencia o Rei à menina de seus olhos, à sua Maria Rainha.
O manajeiro, o capataz geral, os patrões e os companheiros de rancho apreciavam a frontalidade e a capacidade de trabalho do serrano Rei Francisco, habituado a oferecer a força braçal, desde a meninice, de cujas brincadeiras mal desfrutou, uma vez que a sua escola foram os campos das redondezas, com quadros a céu aberto e lições ao relento, seguindo atento as fúrias e humores variáveis da Professora Natureza.
Dos 20 aos 60 anos foi um dos esteios do rancho de ceifeiros de Pombal que ele servia com devoção, por achar uma coincidência - fora do comum - ele também habitar no número 1 da rua do Pombal no Casal da Serra!
No meio das espigas carregadinhas de grãos de oiro, debaixo de um céu semeado de lanternas que lhe lembravam o naco de firmamento que avistava da janela de sua casa na comunidade casalense, Rei Francisco dormia envolvido num casaco defensivo da poalha dourada e das picadas dos insectos, ávidos de sangue serrano... Não virou costas ao pão pedregoso nem à água choca, chupou caroços de azeitonas britadas, ingeriu gaspachos destemperados, trincou linguiças e torresmos de sortido duvidoso.
Gradualmente, lavradores, capatazes, manajeiros e companheiros de percurso viram nele um patriarca emblemático, capaz de arbitrar qualquer conflito.


Humilhação e queda real

Até que um jovem recentemente promovido a manajeiro, enciumado com o prestígio que o Rei alcançara no círculo dos ceifeiros meteu na cabeça que urgia dispensar-lhe os serviços, como se faz a um seringa descartável.
Um dia, esse badameco conhecido por Zé Bode, teve o descaramento de gritar à frente de todos, no instante na pausa que o Rei aproveitara para refrescar a garganta e limpar o suor que lhe escorria em bica, quando o termómetro marcava 41 graus:
- Ó Rei! Você não pode com uma gata pelo rabo, já não vale nada. Fique em casa no próximo ano! – foi a sentença fatal, da parte de um fedelho que tomara o lugar do pai – o Albano de orelhas de abano – homem cordato e compreensivo para com o parceiro, fosse ele de trás-de-serra ou do lado do Sol a escorrer pelas encostas da Cova da Cereja.
- Então, agora como é que vamos sobreviver? – preocupou-se a sua Hortense, habituada que estava a esse pé-de-meia anual, complemento que conseguia aos incertos ganhos, auferidos nos breves períodos em que laborava nas propriedades de notáveis e abastados, ora na poda de vinhas e árvores frutícolas, ora na rega, no arranque de batatas ou na plantação de novos pomares.
- Ó minha mãe, não chore! Não se apoquente, mulher! Alguma coisa se há-de arranjar. Uma fatia de pão que eu tenha, reparto-a com vossemecês! – a Rainha em amadurecimento encorajava a progenitora.
A solução imediata não tardou. Rei Francisco passou a ajudar a irmã Piedade dos Bigodes, mulher de bater o pé ao carrapato do marido – Arménio da Onça – um pegamasso sempre de roda do cigarrito de enrolar em papel fino e fechar com lambidela de beiços, assustador da passarada com pragas constantes, capazes de corar as maçãs do rosto de uma rameira.
Porém, a irmã não lhe dava um vintém. Rezava esta estranha ladainha pelos cantos: - Ai dinheiro! É os infernos!...
Rei Francisco chega a casa com uma cestita meia de batatas, ao fim-de-semana.
- Olha! Só se come batatas – desabafava a minha mãe e chorava muito.
- Seque as lágrimas, minha mãe! Comemos todos da mesma panela – tentava mais uma vez consolá-la.
O Rei andava arrombado de todo, em consequência do mau passadio, batucando nos madrastos torrões com a enxada obediente. Um final triste estava para ocorrer...
Certo dia, depois de vender a carga de hortícolas no Mercado Municipal da Covilhã, como acontecia com regularidade, sofreu um acidente fatal. Em vez de montar na posição normal, sentou-se de lado, à maneira das senhoras de alta roda em passeio citadino. O cavalo não estava habituado ao movimento intenso dos carros e espantou-se numa curva da via inclinada...
Maria Rainha revive a tragédia de voz soluçante:
- O meu pai foi projectado para o meio da estrada de paralelos, partiu a espinha. Ainda o levámos ao endireita de Caria e a seguir a um médico conhecido.
Ao fim de três semanas, acabou-se o martírio do Rei que nunca viu o sangue azul correr-lhe nas veias, nem beneficiou de qualquer benesse do tesouro real.


Beirões nos campos d’ Além-Tejo

Dinis procurou honrar a memória de seu avô Rei Francisco, através da divulgação dos dados apurados acerca dos Ratinhos. Eis o trabalho que enviou para um periódico das cercanias do Guadiana, mas que nunca viu a luz do dia, pelo que teve de resguardá-lo no cofre das memórias pendentes, até que agora se decidiu a revelá-lo:

Chegavam em ranchos, com fisionomias graníticas buriladas pelas tempestades do Norte. Daí o apelidarem-nos de Galegos, uns, enquanto as gentes da ceifa os apelidavam de Ratinhos – a estatura atarracada e a predisposição para mostrarem os dentinhos nas densas searas, mais os andrajos negros que lhes revestiam a pele terrosa, evocavam esses seres saltitantes e determinados debaixo de um céu sufocante. Mas, acabaram por se misturar com os naturais, pelo que hoje vivem nos limites de Évora e noutros recantos do Alentejo risonhos descendentes dessas pessoas sofredoras, empurradas a transpor o grande rio, deitando para trás das costas a saudade das parcelas de chão de penedos, carqueja e urze, regadas a geadas intempestivas e suores de teimosa enxada.
Presentemente, na freguesia de Canaviais, os originários nortenhos cantam com a voz da terra que ajudaram a tornar madura e amadurecida, com raízes bem fundas neste Alentejo hospitaleiro.
Surpreendidos pelos horizontes de fazer esquecer as hortas hereditárias de trás de serra, depressa muitos deles se decidiram pela transferência de região. Canaviais foi uma das zonas de eleição para pessoas como o Ti’ Zé do Moinho, como é popularmente conhecido José Gonçalves.

Relata a seguir o jovem investigador que o nonagenário do concelho de Pombal constrói a rua da Paz:

Pelo olhar de quem nasceu em 29 de Novembro de 1907 em Vila Chã, ainda perpassam as faúlhas de vivacidade e energia que o animaram a dar forma de povoado sólido aos Canaviais. Dos seus 90 anos bem preenchidos, conta 63 de vida regular no perímetro de Évora.
A memória de Ti’ Zé do Moinho é uma nascente de Primavera:
- Comecei a vir com 7 anos à ceifa, na companhia de um manajeiro lá do Norte que trazia 30 homens para a Herdade da Preguicite Aguda, e uns rapazes novos. Ele também era empreiteiro. Andei meia dúzia de anos a fazer a ceifa, até que me casei. Passados três anos, vim falar com o meu padrinho de nascimento – o Dr. Bento Pouca Roupa – que era o Provedor da Misericórdia e me convidou para tomar conta da azenha - localizada no Degebe - com a minha mulher Conceição Fatigada. Fui eu que fiz as mós e pus o moinho a funcionar a cem por cento...
Prossegue o nosso paciente interlocutor:
- Ah! Mas a seguir à ceifa, aprendi a carpinteiro na terra e fui trabalhar para Lisboa com um indivíduo que tomava obras de empreitada... Voltei ao Norte e, já casado, comecei a andar no negócio de ambulante com o meu pai – vendíamos loiça de Coimbra, e também peles e trapos velhos para fazer mantas, a uma fábrica de tomar.
Vim para baixo como carpinteiro e tornei-me moleiro, a pedido de meu padrinho... Até que pensei em arranjar uma quinta de renda e assim me aguentei, ao longo de 18 anos... Acabei por comprar um naco da Quinta Nova dos Canaviais, onde nos encontramos.

Remontamos aos primórdios do povoamento da zona que não cessou de se expandir e tornar numa freguesia com um núcleo acentuadamente urbano, sem perder as características da inicial tranquilidade rural, na orla dos eixos rodoviários que a servem.

- Isto era uma área muito grande. Uns senhores compraram-na e retalharam-na em talhões, para vender. Houve um que me agradou e não descansei enquanto não o comprei.
Vim cá vê-lo a uma segunda-feira e passou a ser meu à terça – era o Dia do Senhor Porco, porque os lavradores e os quintaneiros tinham então o costume de se juntar na Praça do Giraldo para negociar porcos e ovelhas. Comprei o talhão com o dinheiro emprestado pelo meu padrinho... Havia um bocado de vinha no terreno e uma só oliveira. Depois vendi uma parte do ribeiro para lá, para amortizar a dívida... Comecei logo a fazer umas casitas e, passado algum tempo, o prédio onde ainda vivo. Mas arrendei a parte de baixo para taberna, agora café...

A entreajuda da filha professora:

Acordámos numa pausa para o homem dos 90 anos, um misto de vitalidade entre o castanheiro e o sobreiro, e passámos a dialogar com a filha, D. Zilda, professora reformada:
- Viemos morar para cá em 1955. Foi quando eu saí professora, por isso é que eu sei!
- E depois – retoma o tranquilo ancião – fui construindo todas as casas à volta da estrada, hoje rua da Paz. À medida que fazia uma casa, hipotecava-a e, a seguir, erguia outra. Fiz uma dezena de moradias e nunca fiquei a dever nada a ninguém, graças a Deus! Eu é que fiquei a arder com alguns calotes...
Continuei a construir casas e a negociar em cereais. Juntava um dinheiro, outro tirava-o do Banco por empréstimo. Ia pagando e fazendo outras habitações, mantendo encargos bancários na ordem dos cento e tal contos. Naquele tempo, representava uma soma enorme, mas pagava sempre na altura certa – liquidava um para levantar outro, estudei a maneira de trabalhar!
Noutra fase, passei a negociar em azeitonas de conserva. No quintal há umas talhas grandes, apropriadas para tal. Comprava-as, meti-as no tanque e, à medida que ficavam prontas, destinava-as à região de Lisboa... Comprei logo uma camioneta e percorria o Barreiro, Setúbal, Palmela... E carregava também areia com a minha camioneta. Trabalhava dia e noite – só eu é que sei... Tive três filhos e estudaram todos!

Este Além-Tejo transformou-lhe o modo de encarar a vida:

- De cá, tenho boas lembranças, mas algumas menos boas do Norte! Adaptei-me bem ao negócio e ao Alentejo. Levei uma vida tranquila e os meus filhos não me ajudaram em nada. Foram para a escola e seguiram o seu caminho... A minha mulher é que me auxiliou muito.

Em jeito de retrospectiva:

- Foi uma vida um bocado apertada, graças a Deus não estou arrependido do que fiz. Não cheguei a tirar a 4ª. Classe, mas aprendi a ler e escrever... A minha filha sabe mais que eu. Ela também negoceia. Reformou-se muito cedo, aos 52 anos de idade, já com 32 de professora, e vai vender queijos à capital e ao Algarve...

Auscultados os vizinhos de Ti’ Zé do Moinho, vemos confirmadas as suas afirmações... Deste modo constatamos que as gentes do Norte, radicadas nos Canaviais, se dedicavam aos ofícios – padeiros, sapateiros, uns dedicados à venda e arranjo de bicicletas, outros taberneiros, carvoeiros, costureiras quase todas as donas de casas, havia pequenos proprietários de imobiliário – investiam na habitação, como aconteceu com o Ti’ Zé do Moinho e com o Sr. Aires que tinha uma correnteza de casas compridas e com chaminés que, pela sua semelhança, era conhecida por Comboio.
Este pessoal foi atraído pelas gerações anteriores que chegaram por ocasião das ceifas e outros trabalhos agrícolas. Os primeiros Galegos compraram terras, fixaram-se e deram origem ao incremento de um núcleo urbano com alguma importância. Gradualmente foram atraindo parentes e amigos, já voltados para outras artes, complementares das exigências de um bairro moderno, envolvido por quintinhas, formando a actual Freguesia dos Canaviais, povoada por pessoas com amor à terra, à Natureza.

Conclui Dinis a peça jornalística com esta observação do quotidiano eborense:
Terminara à Porta Nova o percurso do cliente, em vésperas da Feira de S. João, e discutia o troco com o taxista. Este só tinha uma nota de dois mil escudos e até confiava em receber o custo da corrida, na próxima ocasião, aproveitando o ensejo para lançar a pergunta:
- O Senhor é do Norte, não é? Pela pronúncia...
- Sou das abas da Serra da Estrela. E o Senhor?
- Sou de Chaves e estou cá há 20 anos. Chamo-me Sousa... Os meus colegas dizem que eu sou Galego, mas eu não me importo! Riram-se ambos. Afinal, eram mais dois Galegos que o acaso tornara amigos!

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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