8.06.2011


NA ESCÁPULA*

Um grupo de redatores, de secretários, saídos do escritório, descia lentamente a Avenida do Neva. Era o aniversário de Struchkov e ele levava todo o grupo a casa.
– Vamos já encher a barriga, amigos! – Sonhava em voz alta o herói da festa. – E de bela comida! A minha mãe preparou um destes pastelões… Eu é que fui buscar a farinha, ontem à noite. E há conhaque… Bom conhaque. Ela já deve estar de esperar por nós.
Struchkov morava em cascos de rolha. Andaram, andaram muito tempo, até que chegaram. Entraram no vestíbulo. O odor de pastelão e de pato assado chegava-lhes ao nariz.
– Sentem o cheiro? – Perguntou Struchkov com risadinhas de satisfação. – Tirem os abafos, meus senhores, e ponham-nos em cima da arca. Mas onde está Katrina? Ó Katrina! Já cá estão todos. Akulina, vem ajudar estes senhores a despirem as peliças.
– O que é isto? – Inquiriu um dos convidados.
Uma escápula estava espetada na parede, uma escápula enorme, da qual pendia um boné novo de pala cintilante e ornado com uma roseta**. Os funcionários entreolharam-se e empalideceram.
– É o seu boné – murmuraram. – Ele está cá!
– Sim, está cá – gaguejou Struchkov. – Com Katrina… Saiamos, meus senhores. Vamos até ao café e lá esperaremos que ele se retire.
Cada abotoou a sua peliça e dirigiu-se em passo lento para o café.
– Cheirava a pato em tua casa porque o patola está lá – chalaceou o arquivista adjunto. – Foi o Diabo que o trouxe. Demorar-se-á?
– Não. Nunca se demora mais que duas horas. Tenho fome. Começaremos por tomar vodka e comer anchovas… Depois outra rodada e em seguida o pastelão. A minha mulher faz bons pastelões. E teremos sopa de couve…
– Compraste anchovas?
– Duas caixas, quatro qualidades de enchidos… A minha mulher também deve estar com fome. Ele chegou sem prevenir!
Ficaram hora e meia no café. Para dizer que tomavam alguma coisa, serviram-se de chá e voltaram a casa de Struchkov. Entraram no vestíbulo. Cheirava ainda mais a comida. Através da porta entreaberta da cozinha, os senhores funcionários lobrigaram o pato e uma tijela de pepinos. Akulina tirava qualquer coisa do forno.
– Ainda não temos sorte, amigos!
– Que há?
Os estômagos contraíram-se de dor. A fome é impiedosa e um gorro de marta pendia da maldita escápula.
– É o do Prokatilov – andiantou Struchkov. – Saiamos, meus senhores. Esperaremos em qualquer parte. Aquele não se demora muito tempo.
– E um porcalhão destes tem uma mulher tão linda! – Proferiu na sala uma voz de baixo profundo.
– Bem-aventurados os pobres de espírito, Excelência – respondeu uma voz feminina.
– Saiamos – gemeu Struchkov.
Voltaram ao café e pediram cerveja.
– Prokatilov é um tipo influente – comentou o grupo, para Struchkov. – Demoram-se uma hora em tua casa e esse valer-te-á dez anos de felicidade. O bem-estar, meu caro! Porque te hás de irritar? Não há razão para tal.
– Não preciso de conselhos. Não é disso que se trata. O que me aborrece é achar-me tão cheio de fome.
Ao fim de meia hora, tornaram à residência de Struchkov. O gorro continuava pendurado na escápula. De novo tiveram de se retirar.
Já passava das sete horas quando finalmente o prego foi aliviado das suas funções e eles puderam aturar-se ao pastelão. Estava seco, a sopa de couve morna, o pato esturricado. A carreira de Struchkov estragara tudo! Mas comeram com apetite.
Tchekov (1883-1884)


*Escápula é um prego de cabeça dobrada em ângulo reto, normalmente utilizado para dele se dependurarem objetos.
**Insígnia de funcionário.

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