11.12.2003

BOM DIA COMUNIDADE!!...

“Quando se consegue alguma coisa que se deseja, é muito bom deixá-la onde está.”
W. Churchil

Eu devia começar por referir a minha indignação sobre o holocausto dos animais e das circunstâncias que rodearam ou foram consequentes à temática do recente “Planeta Azul”, bem como de salientar que o Dia Europeu Sem Carros não serve para fazer macacadas políticas, mas sim para meditar e reflectir sobre os efeitos do excesso de carbono na atmosfera, e de como esta elevada comparticipação na composição do ar afecta o nosso metabolismo, que está “programado” para recebê-lo em percentagens de oxigénio, azoto e carbono, muito diferentes daquelas que é obrigado a receber actualmente. Ou por outra: se fosse um cidadão empenhado e informado como deve ser qualquer indivíduo adulto europeu, responsável por si e pelos seus familiares, conterrâneos, patriotas, continentais e irmãos de espécie – a que se convencionou chamar humanidade –, eu estaria moralmente obrigado a manifestar o meu repúdio e não subscrição dessas duas atitudes humanas que colocam o homem com um QI (Quociente de Inteligência) muito inferior ao de qualquer galinha, bicho doméstico sobre o qual rezam as crónicas e más-línguas populares enaltecendo-lhe singularmente a sua estupidez natural, desinteresse estético, a ditadura política ou carismática do galo, e o gregarismo primário, quase resumido ao cantar de pôr ovo, arrulhar de ensinar pintos a conhecer grãos comestíveis, esgaravatar na vida e esganiçar-se com alarido se acossadas. Mas não irei fazê-lo, dado que esses acontecimentos são indignos de figurar lado a lado com iniciativas de portalegrenses que negam a baixeza geral e demonstram que há outros caminhos e veredas passíveis de serem trilhados pelos que querem fugir à bestialidade: o da leitura de obras literárias, gerando com ela convívio, debate, troca e partilha de saberes ou afectos, conhecimentos diversos, confrontos de projectos de sociedade e teorias comunitárias, aprofundamento da democracia e valorização pessoal – enfim, o manifesto interesse na criação de uma Comunidade de Leitores em Portalegre.
E o que é uma Comunidade de Leitores? Confesso que não sei!... Podia responder que é cozido e assado, ou que existem em Portugal diversas deste ou daquele estilo, como podia salientar que se fosse eu a idealizá-la teria esta ou aquela particularidade que a identificaria face às demais existente pelo país fora. Todavia, se o fizesse estaria simplesmente a fazer demagogia barata e prognóstico de intenções... e a comportar-me como qualquer cocó que quer poleiro e milho fresco.
Portanto, embora reconheça que é uma acção cultural que teve enunciados anteriores e cuja originalidade é tão grande aqui, onde em períodos recentes e distintos aconteceu pelo menos duas vezes ( uma na Biblioteca Municipal de Portalegre sob a coordenação de Inês Pedrosa, e outra na Escola Superior de Educação com a responsabilidade projectiva de um grupo de alunos do curso de Jornalismo e Comunicação), como em qualquer outra parte do planeta, trazendo a lume modalidades, enquadramentos, autores, obras e quoruns emblemáticos de outras tantas maneiras de abordar o conceito e realizar a ideia, estou em crer que finalmente existe na cidade um conjunto de pessoas interessadas na iniciativa e essencialmente empenhadas em levá-la por diante, se atender sobretudo ao que me disseram aquelas com quem pessoalmente contactei acerca dela.
Nesta perspectiva, talvez entusiasmado por uma motivação antiga e por demais conhecida da maioria dos portalegrenses, ouso salientar o meu agrado perante o facto, assim como apresentar publicamente a minha candidatura a integrá-la como qualquer outro leitor que, por diferentes motivações ou expectativas, a ela pertença e se não importe – ou tolere – a colaboração de quem é subversivamente indisciplinado em termos de leitura, e pavoneia o seu diletantismo nestas páginas. Mas que gosta de ler! E que aprendeu o significado da palavra sonho nos romances que sua avó lhe leu nas tardes estivais à sombra de um limoeiro ou nos contos que lhe narrava à lareira, nas noites de Inverno. Que assimilou três coisas distintas e as uniu numa só, a que mais tarde veio a reconhecer como próximo daquilo que as enciclopédias definem como literatura, entrelaçando as pontas da esperança, da liberdade e fantasia, fazendo com elas aquele tapete voador que as mil e uma leituras lhe emprestaram à realidade, mas que ao invés de evasão lhe propuseram novos problemas e questões, inquietudes e preocupações, sensibilidade e dispares técnicas de abordagem a ela. E assim aprendeu que dizer amo-te, tanto pode dito usando só duas palavras como com milhentas páginas delas, resmas e resmas de obras, ou pode ser dirigida a inúmeros seres e universos, desde as coisas á natureza, dos cosmos à simples formiga, à miss universo como à ervinha minúscula dada por inútil, que ninguém hesita em arrancar dos seus canteiros... Porque...
Porque não desconheço a palavra gratidão e sei dizer, obrigado companheiros! Obrigado comunidade! Obrigado aventureira do além e lá na eternidade esperas por mim, à sombra dos limoeiros celestes, a fim me contares todas as histórias que não tiveste tempo de contar-me aqui na terra... E obrigado palavra, que inventaste para todas as coisas e seres a certeza de eternidade!

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

Arquivo do blogue