6.28.2008

Grupo de Leitura READCOM-IPP, de Portalegre
A próxima sessão do GLRP recairá sobre

As Velas Ardem Até ao Fim
Sándor Márai
Trad. (do húngaro) de Mária Magdolna Demeter

a que não vejo necessidade de acrescentar nada, uma vez que esta espelha o sentimento e o espírito da iniciativa, bem como ainda não li a obra para, acerca dela, opinar com discernimento e honestidade. Creio porém, que até a data da ocorrência, me esforçarei por lê-la (ainda que com sacrifício... – e o que é que uma pessoa não faz pelo bem das colectividades?) sem deixar transparecer, quer ao nível crítico, quer ao simples desfrutar regaladamente da leitura, qualquer motivação negativa, aversão pessoal ou preconceito genérico e estilístico. Há de tudo nesta vida, e é dessa diversidade que lhe nasce o equilíbrio... Outros dirão "o tédio" – mas não vou repetir-lhe a proeza, a fim de acautelar-me de falsos e mal-intencionados testemunhos!
Portanto, se não for pedir muito, ao menos deitem uma olhadela à capa, que é feia e sorumbática, e deve ser o prenúncio daquilo que lá vai por dentro: o Inverno das saudades que rodeiam os muros da lamechice. Ou não!

6.27.2008

Estranhos Inimigos
Robert Asprin
Trad. Eurico da Fonseca
2 Volumes: 192 + 192 Páginas

Com recente estreia em publicações portuguesas, digamos que há pouco mais de dez anos, é porém, muito longe de ser um desconhecido no campo da ficção científica, um conhecidíssimo autor, pelo menos nos domínios da literatura fantástica, porquanto séries de sua autoria, como Myth e Thieves´ World, no conjunto das quais se somam mais de duas dezenas de títulos, lhe granjearam notória popularidade. Pela presente obra, novela ou romance se chamará, cuja verdadeira originalidade reside no facto de os narradores e intérpretes desta saga serem alienígenas, seres extraordinários em tudo diferentes dos da humana espécie, mas nem por isso menos inteligentes ou subtractivamente dotados, no aspecto físico, os Tzen, oriundos dos Pântanos Negros, mundo (irreal) em risco de desaparecimento, e que construíram um império sob o único fito para além do seu planeta natal, poderemos aprender, dentro das linhas que costuram os hipotéticos supores, que há espécies a quem já preocupam coisas que à humanidade são puras perversões.
Senhores de uma técnica e de um conhecimento superiores, combatem por necessidade imperial e nunca por prazer ou motivações próprias. Divididos em três castas (os Guerreiros, os Cientistas e os Técnicos), têm por tarefa irradiar de um dos planetas que querem ocupar todos os seus autóctones, espécimes da Coligação dos Insectos, estranhos inimigos, mas com poder e civilização bastante avançados. Depois de exterminados os Nadadores, seguem-se-lhe os Voadores, quais vespas que imperavam nos ares. Contudo, é no mundo subterrâneo, com as Formigas, que a luta mais dificuldades e baixas provoca aos ocupadores, dadas as características essenciais desse confronto. Vencerão ou não?, eis mais uma questão pírrica sobre a qual se não devem lançar (ou fazer) apostas.

Todavia, há que realçar que neste livro a dois volumes, as qualidades autorais e criativas, saem extraordinariamente prejudicadas pelos acabamentos e qualidade da mancha gráfica, uma vez que notam sobremaneira nele uma composição descuidada com palavras a que faltam letras, frases a que faltam palavras, não concordância entre sujeitos e formas verbais, frequente troca do plural pelo singular e vice-versa, repetição desnecessária de proposições e pronomes, como que a relembrar-nos que os conceitos de revisão são sempre benéficos quando acompanhados dos procedimentos de fixação dos textos, independentemente de nós gostarmos ou não dos autores que processamos, e expomos ao julgamento público. É óbvio que cabe aos autores toda a responsabilidade sobre os conhecimentos explícitos, as coerências de conteúdo e o pronunciável arrebatamento, suficiente e necessário, para provocar a preferência dos leitores; mas também não é menos óbvio, que o conhecimento tácito que transforma um texto num produto cultural, fazendo dele um bem apetecível ou execrável, esse, é da total responsabilidade dos editores, que aqui, se esqueceram, incompreensivelmente dela. O que é pena, porquanto o mercado português do livro e os escores de leitura nacional, não são assim tão avantajados que permitam frequentes laxismos na qualidade... Nem falhas de competência, que prejudicam, directa e indirectamente, quem nos ganha o pão nosso de cada dia!

6.26.2008



O Discurso de Vergílio Ferreira Como Questionação de Deus
Maria Joaquina Nobre Júlio
350 Páginas

Misturar Deus com análise literária, embora que vernáculo e pré-bíblico, pode também ser ousado. Além de profundo e exímio em cumplicidades, sobretudo terrenas. Portanto, a ideia deste trabalho, que posteriormente virou tese de doutoramento, de escamoteamento das relações dos autores como divino, em geral, mas que em particular é tanto da responsabilidade da autora como de Vergílio Ferreira (VF) que em vida o sugeriu, e leu, subscreve-se plenamente na interpretação da leitura das obras, uma vez que é impossível abstrairmo-nos dela, por ter sido naturalmente ela que a inspirou.
E assim, merece o título escolhido um reparo especial, que reporta não só à prosa daquele que é (nele) analisado, como também à natureza desta tese. Porquanto o termo "questionação" não se emprega aqui como significativo de pôr em causa a existência de, ao caso Deus, nem para vilipendiar, apostrofar, discutir ou contestar uma essência, mas sim na medida em que esta reflecte uma ansiedade de busca, como no sentido que Heidegger lhe dava, ao propor-nos que "todo o questionamento é uma procura", sendo parte integrante dessa procura também a descrição/narrativa do caminho percorrido além do destino alcançado. Neste contexto, que afinal é o preferido (e proferido) pela a autora, o que a obra de VF mais evidencia, na forma como coloca os seus personagens e fantasmagorias perante Deus, e os obriga a um exame de investigação ininterrupta, talvez erigida à custa de muita ansiedade, desejos incontidos, contradições, desabafos, falsos reconhecimento e negativismos duvidosos, não é uma tentativa de se assegurar da existência de Deus através da fé, coisa assaz pouco intelectual e madura, antes uma maneira de o conseguir pela reflexão contínua e continuada, quase obsessiva, que resulta, ou em cujo discurso romanesco sobressai, a notória intenção de demonstrar pela "experiência laboratorial" da narrativa de ficção que as ideias e posições explicitadas, quer nos seus Ensaios, quer no seu Diário, integram um roteiro imagético.
Ao falar do modo de encarar (ou compreender) Deus, tal como o fez VF, que ao longo da sua obra nunca o tratou como uma evidência irrefutável, quiçá uma desfeita ao império racionalista, nem como atalho de mínimo esforço para facilitar a compreensão do Homem, do Mundo e da Vida, mas antes calculadamente com o rigor, precisão e exigência de honestidade intelectual, que um diálogo franco e aberto carecia para, no seu evoluir constante, facilitar uma purificação de posturas e relacionamento "descomprometido" com o divino. O que legitima sem dúvida a pretensão de Maria Joaquina Nobre Júlio, em não entrar em polémica sobre a existência ou não-existência de Deus, isso pertencerá ao foro íntimo de cada um que lê, e que até sua fé dificultaria, e que ao invés preferiu equacionar e interpretar, de forma interdisciplinar, embora que sob a autoridade do texto, a excelsa convivência e interpenetração entre dois discursos tão impermeáveis – o narrativo, ou literário – e o reflexivo – filosófico ou teológico – conseguidas numa obra que também é o espelho (relato) e a memória de uma vida. Ou de muitas, as nossas, já que lendo-o estamos igualmente a participar do seu questionamento e a fazer a nossa própria busca, em aturada e meticulosa questionação. Como VF o fizera. Precisamente, com mente lúcida. E precisa.

6.23.2008

Quarto 13
Edgar Wallace
Trad. Catarina Rocha Lima
192 Páginas

Quando cai o pano tiram-se as máscaras. E desvenda-se o mistério do nome. As iniciais pontuadas do detective/inspector J. G. Reeder dão lugar aos nomes próprios que costumam anteceder os apelidos: John Gray, querem elas dizer. Assim, fica-se a saber que o personagem sinistro desta história, como de outras de Wallace, Seu Edgar para os premiados íntimos, aquele homem alto, cadavérico, noctívago, entre os cinquenta e os sessenta anos, cabelo ruivo, rosto seco, expressão tristonha, orelhas proeminentes, a sobressair da cabeça em ângulo recto, enormes óculos redondos encavalitados no nariz, mesmo-mesmo na pontinha dele, sempre a segurar o guarda-chuva com uma mão e o chapéu na outra, não passa de uma manobra de diversão para distrair o leitor, e mais não é que o subalterno Golden, ao serviço do superinformado e imaginativo Reeder. Em “epílogo”, que é para tanto que servem os últimos capítulos, esses animaizinhos literários em vias de extinção, desde que funcionem como um anticlímax de “fracamente pouca” intensidade esclarecedora da acção, e não como uma distorção destrutiva de qualquer narrativa incauta.
Neste palimpsesto edgariano, onde Wallace se copia dos melhores momentos, Reeder anda disfarçado de marginal ingénuo bem-comportado, para encurralar definitivamente um dos mais bem sucedidos falsificadores de dinheiro. Para que a armadilha funcione empresta-lhe uma pitada de amor sedrôdio e quixotesco, transformando a investigação numa defesa de recurso, em salvaguarda da dignidade e integridade da amada, ou contra-ataque a fim de proteger a sua Dulcineia dos embustes e artimanhas do meliante vigarista e vingador. Camuflado, na sombra das máscaras, mexe os cordelinhos, lança boatos, “interpreta” metáforas, decifra enigmas. E, como todos os actores convictos e convincentes, cai na sua própria teia, ficando realmente enredado e preso pelo objecto da sua paixão estratégica, de todo em todo inventada, provando uma vez mais que, mesmo quando a vida é um jogo, com o coração não se brinca. O que faz das ditas traquinices e reinações um caso sério… ou, virtualidades que se desvirtuaram – usurpando-as a, se alguma houve!, virtude (histriónica).

6.20.2008


O Vício


Se tanto desconfio, fui dado, desde muito cedo, como um caso perdido... E, pese embora, as partidas que a vida me pregou, de nenhuma emenda me valeram. Malhas que o destino tece, se dirá. Outros, sobremaneira compadecidos com a desgraça alheia e mais tolerantes, que no céu estaria escrito... Mas, a bem dizer, o que é certo, é que se coisa se vaticinou grave, muito pior foi o resultado no que deu.
Ao princípio, do mal o menos!, ainda me apodaram de "mentira fresca", quando ao serão, sob o luar de Agosto, no pátio do monte, depois do jantar, se partilhava a melancia, e se afincava o dente no galo suculento, que era quando me questionavam sobre o que durante o dia fizera, ou me acontecera, preocupações legítimas da família, tios e avós, que viam nas minhas demoras, quando no cumprimento dos recados entre a horta e o forno, ou deambulações pelas veredas mal frequentadas do caminho, já um prenúncio de mente transviada, e eu lhes afiançava que vira um lagarto azul nos morouços da Tapadinha ou uma cobra de camisa rameada e asas amarelas nas regadeiras do feijão de ampa. "Oh, pá... Pode lá ser!", admiravam-se. "Isso foi mas é, algum saco de plástico esquecido, que mexeu com o vento", abreviavam apaziguadores. Eu que não, que não, e amuava com o reparo. Insistia mesmo, que tinham sido cobras e lagartos, sim senhora. E escoiceava, até que ouvisse um "pronto, pronto, 'tá bem", para parar com banzé.
Passados dois ou três verões, uma vez que as visões não amainavam, deixaram de me perguntar o que é que eu tinha visto e feito durante o dia, e esperavam paulatinamente, mas circunspectos e com ar de caso, que entre o cuspir das pevides da quarta talhada do encarniçado miolo, eu lhes relatasse a enviesada quão usual peta. Creio que mudei de bichos e evoluí na criação, para aves, mais coisa menos coisas, porquanto até já a mim fazia espécie haver tantos répteis travestidos e com aptidões histriónicas... E se deixaram de ser sardaniscas em traje de gala, passaram a ser corvos com indumentária canarinha. O certo é que perderam também o hábito de comentar-me as descobertas, e no fim apenas diziam "esta, é que é fresca!", adiantando "a melancia, claro...", caso eu desse sinal de me ter apercebido que estavam a pôr dúvidas ou suspeitar da reportagem.
Ora, um belo dia, não me lembro com quem nem quando, suponho que haveria visitas, talvez de parentes distantes, quase a pôr os pés no botaréu da entrada, notei que dentro de casa, além de aí haver mais gente que do costume, se conversava, e se conversava acerca de mim. Falava-se da escola, dos desaguisados quotidianos, da minha apetência para a vadiagem e fraca prontidão no cumprir das incumbências dos adultos. E referia-se inclusive a manifesta e reiterada aptidão para a mentirinha. Como ninguém dera por mim, adiei a entrada em cena, e fui remoer sobre a novidade, em local afastado. Aprendera a ler, a escrever, a contar, mas sentia-me defraudado pelas conjecturas ouvidas. Conspiração, era o que era. Meti-me de brios e alterei o comportamento. A partir de então, não voltaria a abrir o bico, acerca do meu relacionamento com a fantasia do mundo. Via o que via, mas guardá-lo-ia só para mim. E dito e feito.
Mais tarde, quando me vieram parar perto alguns livros de ficção, pude constatar que essas invenções não eram coisa unicamente minha, e passei a devorar quantos me passassem à mão de semear. Que neste caso, seria colher, para ser melhor dito. Com tal empenho e dedicação, que logo houve quem, fazendo jus à sua alta erudição, me diagnosticasse como "leitor compulsivo". Mas para os meus meios, essas manigâncias das pulsões, impulsões e compulsões, andavam por freudismos de pouca a monta, e aquilo que se decretou foi que tinha contraído "o vício da leitura", o que, como demência maníaca, ainda era pior que a da mentira. Mentir, qualquer um mente, havendo mesmo quem o faça por bem... Agora ler, isso é terrível, pois quem o fizer é capaz de tudo. E portanto, sendo diminuto já o crédito tido, perdera definitivamente o que restava. Estava perdido... Nomeadamente para muitos professores do ensino oficial e oficializado, que consideravam que os compêndios de fiscalidade e estenografia é que mereceriam todas as bíblicas atenções, se se quisesse andar no mundo com prestigiada honradez, e sem envergonhar a família.
Todavia, aos trancos e tamancos, o defeito avolumou-se. E o golpe, com a propalação do advento, fora duro, mas como em qualquer família com pergaminhos e de apelido que se preze, se de grande e duradoira gesta, fica bem ter um porra-louca nela, até não se abalou seriamente. Feriu, coçou-se, mas não traumatizou. Enfim, eriça-se, contudo pega-se a afronta de caras e segue-se frente (que atrás vem gente). Apenas com um senão, e que veio destemperar os cânones, esgotar a paciência...
Por alturas lectivas do secundário, o jornal A Rabeca publicou em letra gótica, tipo de coisa esmerada, e com cercadura amaricada, um poema meu. Assinado e tudo. E a ousadia soou. Esvoaçou que nem boato, e se folhas leva-as o vento, como dizem, este rodopiou, enroscou de marosca pensada, calhando com a má ideia a alqueivar o tino, e toma: foi cair a obradura nas mãos do meu avô.
«Eh pá, que é isto, meu Deus?!...» Não queria crer. Lançou os olhos ao céu, talvez em prece, rogando entendimento e clareza, mas não havia dúvida, vira bem o nome, atenteara a peça, a negrura da tinta. Tudo. Com a mão livre tirou o chapéu e coçou o couro cabeludo, e com o mesmo membro, a aba do feltro entalada entre o indicador e o polegar, com o mindinho e o anelar a esfregar o toutiço, arrefinfou-lhe a coçadela mais uma vez, duas vezes, três, porém sem o mínimo alívio. Custava-lhe a crer no que via. Anuviou-se-lhe o discernimento, entaramelou-se-lhe a língua, embargou-se-lhe a alma num aperto de fogo. «Pode lá ser! Chiça, não merecia isto... Não merecia! Não merecia!" E toca de rumar ao lar, na busca de consolo, a arrastar as botas, que lhe pesariam que nem grilhetas.
Nele, a minha avó, à volta das caçarolas e panelas de barro, assustou-se mal o viu, pelo semblante de abatido, lívido e quase defunto, que notou no marido, sempre de tão boas cores, compleição e galharda figura. «Oh, homem, que se passa homem?», afligiu-se ela.
«Ai mulher», respondeu este, dando tempo ao tempo, para recuperar o fôlego. «Olha pra isto, mulher... Olha pra isto, e diz-me que não é verdade. Diz-me que não é o que estou a pensar!»
E ela olhou. Viu. Voltar a olhar. E reviu. Mas, ao contrário, de desmentir, confirmou. «É... É um poema do gaiato. E depois?»
Então, não aguentou mais, abateu-se sobre a cadeira de bunho, junto à tulha das cinzas, esbracejou, tentando falar, mas que não saiu de pronto, até que finalmente arremeteu aos solavancos da desgraça, concluindo: «Mas tu vês mulher..., a nossa maldição...? Já tinha um vício, que era do piorio... o da leitura. E agora tem outro: o da escrita. E logo poesia! Poesia... Que hão-de dizer, por aí?... » E prostrou-se, definitivamente. Fulminado pela desgraça, que nem os Definitivos conseguiram apaziguar. E durante dias, até o caldo lhe soube mal. Hoje, dou-lhe razão. Provavelmente, há maldições que nenhuma família merece. Sobretudo se vícios destes, que não matam tão lentamente, como seria de esperar!

6.14.2008

Eis uma sugestão de leitura com características bastante invulgares... É que eu também não conheço! E não sei se estou a convencer alguém a lê-lo, se estou a ganhar coragem para o fazer. Haverá por aí alguém que saiba alguma coisa, quer do homem, como da obra, para me auxiliar? É que agradecia-se. Deveras!


6.11.2008


Os Mutantes Vêm Aí!
Isidore Haiblum
Trad. Alexandra Tavares
2 Volumes, 192 +192 Páginas

Incontornavelmente, esta obra, é um policial do futuro. Claro que é ficção; científica, disse eu. Mas não só. É também, ou parece, o que vem a dar no mesmo, uma Odisseia à moda lusitana – de um povo, o mutante. O homem normal que se transformou noutro, até com a ajuda das máquinas, da energia amplificada. (A nós calharam-nos as caravelas, o vento e o deuses do Olimpo, sobretudo Baco, que foi aquele que mais torceu a nosso favor no Concílio, e nos pôs A Ilha dos Amores, mesmo à mãozinha de navegar...) Ou de outra coisa ainda mais inominável, e que faz deste livro o autêntico três em um: o amor, aquele soluto – alguns chamaram-lhe filtro, elixir – de natureza alquímica que altera a psicofisiologia dos espíritos e das almas, nomeadamente das mais superiores, e se considerarmos o final como parte imprescindível de, ou a, qualquer romance.
Porque a acção, essa, decorre no ano 2075, numa sociedade imperfeita, com homens e mulheres imperfeitos de um mundo imperfeito, mas que serve de consolação a quem tem a sabedoria suficiente para reconhecer que não existe outro possível. Nem para o melhor, nem para o pior; sobretudo se não fizermos nada para isso. E é aí que o humor do discurso sobressai, repleto de diálogos em frase curta e descrições concisas, pelo que principia por dar-nos a lição prática, cujo objectivo moral, se outro não lhe acharmos, é garantir-nos a expectativa de um futuro, mesmo quando o quadro da actualidade for pintado com o negro carregado (do luto). Ou da seita. O que o leitor aceita de bom grado, já que o "tratamento" do crescendo narrativo nos predispõe, e alicia, para o suspense do desfecho. Devagarmente. Mas com eficácia.
Por outro lado, arrefece-nos o medo pelo desconhecido. E oferece-nos a empatia (determinista) da História, através da ingenuidade e capacidade de improviso dos protagonistas. Demonstrando-nos, à moda antiga, que só se é herói à força e quando não se tem outro remédio, e que aquilo que unicamente pode haver de novo, no futuro, é a maneira como os homens e mulheres interpretam o presente, os diversos presentes, e que, afinal, mais não serão do que perspectiva, ou visão, revolucionária de um fenómeno do passado: a luta contra, pelo e no poder. Assim, à queima roupa, como se Isidore Haiblum estivesse simplesmente a falar da pertinaz responsabilidade do tear a vapor na revolução industrial, quando se refere a um amplificador de poder de mensagens e seus efeitos sobre os destinos da humanidade, tal como o reencaminhar de um significado para outro significado, tendo por símile a metáfora de um e-mail.
Porém, com um discurso deveras iluminado. Mas onde, em cujas iluminuras, figuram sempre a graça e os propósitos da BD – de Bom Demais, ou Banda Desenhada, conforme se quiser e o nível de alfabetização permitir. O que, sem dúvida, o torna aquilo que qualquer livro deve ser: uma intricada mistura de géneros, estilos e marcas (pegadas) narrativas , para gáudio de um só instrumento, de um só trinado, de uma só voz – a do autor – mas para o prazer de todos. Os seus leitores, digo eu!

6.04.2008


O Detective Rico
H. R. F. Keating

Trad. Catarina Rocha Lima
240 Páginas

Enquanto detective, Bill Sylvester é um espécime híbrido, geneticamente modificado, qual sofisticada mistura de Mr. Reeder, Poirot, Maigret, Rouletabille, Sherlock Holmes, pela insegurança, timidez, ingenuidade, inocência, vergonha e persistência com que se conduz na sublime e obsessiva tarefa de levar os criminosos a pagarem (caro) pelos seus crimes, numa entrega de misógino e celibatário a quem, na e em consciência, mais se dita do que se (pre)medita. E o seu criador faz girar a narrativa à sua volta, desenvolvendo-a com a simplicidade usual e costumeira da técnica descritiva do "aquilo-que-parece-é", ou, não o sendo, anda-lhe muito perto e na companha. Sem dúvida honesta, que trata o leitor com uma sobriedade respeitosa, servindo-lhe o desenredo, o desenlace da trama, em bandeja de prata e com luva branca, mas nunca o arrebatando pelo lado do impulso convicto e convincente. Como que a indicar-lhe que está metido numa coisa importante, sim, mas que a vida é muito maior e algo mais.
Todavia é um policial já dos nossos tempos, em que o dinheiro se levanta nas caixas automáticas dos multibancos, os folhetos publicitários atafulham as caixas do correio, as moças usam o wondebra que tanto as valoriza, os empresários deslocam-se em helicópteros particulares, os polícias são uns burocratas chatos e subservientes, as velhinhas têm ideias geniais e bebem vinho do Porto – Sandeman, e por anúncio. Enfim, onde o leito das prostitutas serve também de confessionário – ou divã psicanalítico?... –, o principal dever dos ricos é dar trabalho aos artistas, o essencial alimento espiritual e cognitivo das instituições é o comodismo, os homicidas continuam estúpidos e limitados, embora que mais sofisticados e exigentes nas "armas" que escolhem, e as personagens secundárias são irremediavelmente comuns e normais, quer pelas suas condutas, quer pelo senso, despreocupação e gostos.
Daí que os detectives ainda sejam (e pareçam) como as pessoas. Mesmo se (e quando) de ficção. Podem ser ricos, pobres ou remediados. Ao caso, Sylvester é um milionário recente, muito a despropósito, a quem saíra o El Gordo, porque a garota de programa que o acompanhou ao aeroporto, no retorno de uma férias em Espanha, o induziu a gastar as últimas pesetas, em trocados e miúdos, na compra e um bilhete de lotaria. Saiu-lhe!! Milionário à força, autoexpulsa-se da polícia e, em vez de ir gozar a fortuna ao sol e de papo para o ar, resolve prosseguir na investigação em que se encontrava por conta do Estado, mas desta feita por sua própria conta e risco. O que no fim se salda com retumbante êxito, bastante reconfortante, lhe aconchega o amor próprio e a autoestima, embora não baste para satisfazer plenamente um ideal de justiça, sugerindo que ela – a justiça – é humana, e portanto sujeita (e dependente) à imperfeição dos seus ministros. Digo: daqueles que a executam e ministram à sociedade, com a certeza e precisão característica, do para quem o acertar e o errar, não passam de questões de pontaria.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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