6.04.2008


O Detective Rico
H. R. F. Keating

Trad. Catarina Rocha Lima
240 Páginas

Enquanto detective, Bill Sylvester é um espécime híbrido, geneticamente modificado, qual sofisticada mistura de Mr. Reeder, Poirot, Maigret, Rouletabille, Sherlock Holmes, pela insegurança, timidez, ingenuidade, inocência, vergonha e persistência com que se conduz na sublime e obsessiva tarefa de levar os criminosos a pagarem (caro) pelos seus crimes, numa entrega de misógino e celibatário a quem, na e em consciência, mais se dita do que se (pre)medita. E o seu criador faz girar a narrativa à sua volta, desenvolvendo-a com a simplicidade usual e costumeira da técnica descritiva do "aquilo-que-parece-é", ou, não o sendo, anda-lhe muito perto e na companha. Sem dúvida honesta, que trata o leitor com uma sobriedade respeitosa, servindo-lhe o desenredo, o desenlace da trama, em bandeja de prata e com luva branca, mas nunca o arrebatando pelo lado do impulso convicto e convincente. Como que a indicar-lhe que está metido numa coisa importante, sim, mas que a vida é muito maior e algo mais.
Todavia é um policial já dos nossos tempos, em que o dinheiro se levanta nas caixas automáticas dos multibancos, os folhetos publicitários atafulham as caixas do correio, as moças usam o wondebra que tanto as valoriza, os empresários deslocam-se em helicópteros particulares, os polícias são uns burocratas chatos e subservientes, as velhinhas têm ideias geniais e bebem vinho do Porto – Sandeman, e por anúncio. Enfim, onde o leito das prostitutas serve também de confessionário – ou divã psicanalítico?... –, o principal dever dos ricos é dar trabalho aos artistas, o essencial alimento espiritual e cognitivo das instituições é o comodismo, os homicidas continuam estúpidos e limitados, embora que mais sofisticados e exigentes nas "armas" que escolhem, e as personagens secundárias são irremediavelmente comuns e normais, quer pelas suas condutas, quer pelo senso, despreocupação e gostos.
Daí que os detectives ainda sejam (e pareçam) como as pessoas. Mesmo se (e quando) de ficção. Podem ser ricos, pobres ou remediados. Ao caso, Sylvester é um milionário recente, muito a despropósito, a quem saíra o El Gordo, porque a garota de programa que o acompanhou ao aeroporto, no retorno de uma férias em Espanha, o induziu a gastar as últimas pesetas, em trocados e miúdos, na compra e um bilhete de lotaria. Saiu-lhe!! Milionário à força, autoexpulsa-se da polícia e, em vez de ir gozar a fortuna ao sol e de papo para o ar, resolve prosseguir na investigação em que se encontrava por conta do Estado, mas desta feita por sua própria conta e risco. O que no fim se salda com retumbante êxito, bastante reconfortante, lhe aconchega o amor próprio e a autoestima, embora não baste para satisfazer plenamente um ideal de justiça, sugerindo que ela – a justiça – é humana, e portanto sujeita (e dependente) à imperfeição dos seus ministros. Digo: daqueles que a executam e ministram à sociedade, com a certeza e precisão característica, do para quem o acertar e o errar, não passam de questões de pontaria.

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