1.25.2005

O HOMEM DO SÉCULO QUE VEM


Uma pata de gato, garra de aço nos retém
Neuro-cirurgiões gritam por mais cobaias
À porta envenenada das gerais paranóias
Eis o homem esfacelado do século que vem

Sangue angústia arame farpado
Pira funerária dos homens de estado
Corpos inocentes que as bombas consomem
Eis o homem esfacelado do século que vem

Semeando a morte pela ganância cega
Poetas famintos a infância sangrada
Tudo o que ele adquire não lhe vale de nada
Eis o homem esquizóide do século que vem


O "Engate"


Ela trazia calças de veludo
preto, bicos dos seios de fora

Ele usava um realçador de formas,
trajava a última moda

A festa estava a aquecer,
todo o mundo a chocalhar
com a música almiscarada

«Parece-me que o conheço»,
diz ela toda corada

«Também me quer parecer»,
diz ele com a voz do mar

Sentam-se os dois a beber
falam em Torre de Molinos
amigos, "parties", calor

Vão os dois apanhar ar,
entram prò carro cromado

dão beijos esfomeados
dá-se início à marmelada

tentam os dois acasalar,
mas é em vão...
ele incham como uma vela,
ela incha como um balão

ficam a boiar no nada


A COR DOS MORANGOS


Ele disse-lhe
«os morangos são amarelos»
Ela ficou
loucamente apaixonada

Casaram tiveram
dois meninos bochechudos
conheceram-se bem
e ficaram fartos

mas foram aguentando o barco

E foi então que ela viu
«Que raio afinal os morangos
são mas é encarnados».


VIVOS-MORTOS


Em prazeres de mortos
que brincam aos vivos
homens de olhos tortos
sorriem cativos

sérios e cantantes
nas suas gaiolas,
de transparentes vidros
de duras argolas

eles vão gastando
o seu tempo a dormir
vão balbuciando
coisas que se esfumam

esperando a morte
que os vá desdizer
mascaram a sorte,
em berros proclamam
que é melhor esquecer
esquecer
esquecer!

São antigos monstros
já titubeantes
diz o nosso sangue
vão de vez morrer


Domingo


Os bois passam.
No doa de Domingo
ecoam vozes de roberto
relatos de futebol,
lentos roncos
do lazer.

Os nossos queridos bois
tiram a canga do trabalho,
põem a canga do prazer
e morrem aos poucos
sem dramas nem gritos

Basta-lhes apodrecer,
basta-lhes sonhar-se
dizer sim de modo
brando


ATROPELADO PELA CIDADE


O homem-sem-pele
segue por entre
os couraçados da vida
de olhos abertos
dolorosamente
vendo desesperos
vendo desesperos:
não passa de um fraco
que sente demais
na carne ferida

aqui o arrepio
as multidão cega
mais à frente o pio
cortante
da fera de lata
hordas de borracha
avançam para mm

e

a multidão corre
persegue-o na rua
a montra que acusa
a bolsa infeliz
o pregão que berra
a casa voraz
de penhores sangrentos

abocanha-lhe a perna!
ele cai pelas escadas
do horror abaixo
salta pela janela
a fábrica verde
corre sobre a relva
das velhas no parque
o som da buzina
o chiar dos pneus
a Voz gigantesca
que ataca em surdina

o baque do corpo

o girar louco das sereias
atacadas de histeria
a morte que gela
inútil sem nome
do pobre diabo
nas Augustas Ruas.


SINCRONIA


Há dias em que me sinto
lasso, e me pende fraco
o braço no leito tão desleixado;
são dias em que me finto
e deixo para trás a sombra
perdida de mim

e vivo vidas estranhas,
entre a vigília e o sono,
longe da terra enlutada...

podem chamar-me madraço,
mas então eu sem fazer nada
escalo a Torre de Babel,
vou-me a templos assombrados,
balanço-me negligente
na pontinha e um cordel
suspenso das muralhas do Castelo...
e, sem no entanto alcançá-lo,
deixo ao menos para trás
as águas frias do fosso

- um fosso meu quotidiano - onde atroam
misérias, pruridos, estranhos
pudores, e a voz sangrenta
dos motores dos cadafalsos
automáticos.

Mas quem quererá saber
das minhas viagens de cabeça?
Os mundos por que espreitei?
E eu aqui mudo e quedo!

Dou logo a seguir um salto,
sopro à pressa o pó ao quarto,
recomeço a lide a pôr
em dia, a criar a sincronia

a sincronia entre a imaginação

e a mão
que me não pode definhar
na letargia.


A VIOLÊNCIA ANDA DE LUVAS


A violência já não é como era dantes.
Já não são abusos de censuras, nem
presos isolados em frias celas obscuras
por causa das palavras proibidas.

A violência hoje usa luvas:
Não proíbe, impossibilita.
Já não faz saltar o sangue
em catadupas das gargantas
mastigadas no garrote --

-- sufoca antes,
escondendo as culpas,
os nossos sonhos nas "bicas",
no tédio das horas mortas.

Para quê os carrascos,
se há tantas sorridentes
sociedades anónimas?

A violência anda de luvas.
Nada de armas estridentes:
antes a doce paz dos cemitérios,
ajardinados bairros suburbanos.


NA RUA A ANTÓNIA


Na rua a Antónia via
tantos tanques, tantos vivas,
mil bandeiras empunhadas!

Havia um golpe de estado.

Na rua a Antónia via
nuvens de pó levantado
pelos jipes, correrias, ajuntamentos.

Brilhavam os olhos das pessoas
a ver o mundo mudar
sem que tivessem de intervir pessoalmente.

Lá vai a Antónia arrastada
nas vagas da multidão,
sempre pasmada, a olhar...

Chegou já noite a casa,
bateu-lhe o pai, a gritar.


A CIGARRA E A FORMIGA


Vinha a formiga cansada
do dia de árdua labuta,
séria, nervosa, apressada;

eis quando na rua escuta
o som do canto de alerta
que uma cigarra executa.

A curiosidade a desperta:
Pára também uns momentos,
movida por sentimentos
de uma natureza incerta.

De tédio, suor, frustração
lhe falava aquele insecto
e de sonhos (certos sonhos)
que movem o coração,

de tão belos, tão sedutores projectos
fáceis de realizar, dizia aquela,
se todos nós quisermos...

Mas a formiga interpela:
«Como podes criticar
a vida que nós levamos?
Passas a vida a cantar!

Nós é que nos esforçamos!
Para versos não temos tempo,
todo o dia trabalhamos.

Que os versos não dão sustento
e, se há pão para cantares,
é graças ao nosso alento.

Mais valia trabalhares!»

Teve a cigarra um sorriso
simples, claro, sem vaidade,
e retorquiu com aviso:

«Tu disseste uma verdade
mas, para fazer verdade inteira,
falta-te a outra metade...

que a vida não é só canseira,
luta cega pelo pão de cada dia;
faz-nos falta, é bom, o pão...
mas não basta, para nos dar alegria.

Com esta actual feição
nem eu nem tu nascemos;
e mutação em mutação

como larvas, ninfas, vivemos,
antes de insectos perfeitos;
e a forma que agora temos

não nos deixa satisfeitos
-- que ainda não somos livres,
e nos oprimem os peitos

leis que não são invencíveis...
os mundos novos que canto
não são coisas impossíveis,
basta união para tanto!

A suar as estopinhas
se passa o dia inteiro,
arrastando grãos, palhinhas

para dentro do formigueiro;
e quem tem tempo prà arte, prò desporto,
prà cultura, são os donos do celeiro!

Lá vais andando absorta,
contando o teu dinheiro...
menos viva do que morta,
sempre p'lo mesmo carreiro...

Se este formigueiro fosse
uma real comunidade,
todo o trabalho era doce:

variávamos de actividade,
cinzelando corpo e mente
segundo a nossa vontade.»

Falam animadamente
as duas p'la tarde fora...
Vai-se juntando mais gente
tem outra vida a rua, agora.


PELA RESSURREIÇÃO DA RUA


Lembro-me ainda muito bem
do primeiro mês de Maio
em liberdade.

As ruas tinham outra vida
nesses dias de revolta,
a gente não passava só
faziam-se rodas na estrada
«Eu sou o João Madeira,
tipógrafo.
Muito prazer em conhecê-lo.»

E sonhava-se em voz alta.

Mas foi sol de pouca dura:
depois das mudanças feitas
nas salas dos ministérios,
voltámos às coisas sérias
-- o trabalho, a família, o mês
de férias.

E as ruas voltaram a ser
passadeiras rolantes.

Mas eu escrevo isto
para que as gentes se não esqueçam
daqueles dias das rodas no largo,
na calçada;
e parem um pouco quando ouvirem
alguém cantar dançar
falar em voz alta
na rua.


HINO À ESFINGE


Ó Esfinge dura do Egipto antigo,
se tu não fosses tão grande e distante
como o mundo,
os chacais já te teriam comido
e enterrado os ossos na areia.


OS ADOCICADOS AMANTES



Os adocicados amantes
dão-se as mãozinhas suadas
e sorriem teatrais
embalados no bailado
da bolinha de sabão
de dois lugares.

Com tanta atenção
esboçam a dança
dos vitelos malhados
sorvendo em êxtases
melados, melados
o muco um do outro.

O amor requentado
dos pares de lapas
colados com força.


NOS EXAMES


Estava nos exames.
Ela, serena, perguntava
coisas que eu achava infames,
coisas que eu baralhava.

A vida não me sorria...
Sabia-me a boca a sal;
e a cada pergunta fria
que ela, formal, me fazia,

mostrava-me irracional.

(Feito durante as orais de Geografia,
na capa do livro desta disciplina.)


A ALCATEIA


Era uma vez um lobinho,
um pequeno lutador
que enfrentava sozinho
o rebanho, a caçadeira, o cão pastor...

A serra livre morrera:
tinha sido rodeada
por rede electrificada,
e chamavam ao lobo agora fera.

Ali já não há lugar
para os seres selvagens:
deixam-se domesticar
ou buscam outras paragens.

Mas em toda a parte é o mesmo,
e o nosso lobinho errante
vagueia p'lo mundo a esmo
sempre do seu lar distante...

No meio de uma jornada
de neve e frio e negrura
soube vencer a amargura
e forçar a solidão;

encontrou por entre o gelo
um lobinho seu irmão,
também sozinho e cansado
e fizeram uma união;

nunca mais se separaram,
seguiram o mesmo caminho.
E foi assim que toparam,
um aqui e outro além,
mais um e outro lobinho.

Foi crescendo a alcateia!

Lúcio Castanho
Nos wolksvagens da desgraça...

...um código que até Da Vinci contestaria!

Consta que o carro do povo dos tempos bíblicos terá sido o burro... Sobretudo se considerarmos que foi nele que a Senhora se deslocou a Belém para ter o menino! Seria?... Não seria?... O facto é que até meados do século passado ainda o era, embora o populacho o tenha substituído por besta maior, mais zurrante, potente, lesta e acomodatícia: o carocha. Ou os "wolksvagens" do progresso. E a tradição manteve-se não obstante o câmbio de alimália, para gáudio dos apologista do eterno retorno, ou aqueles que se empenham em regressar à terra tal e qual vieram ao mundo: ignorantes, brutos e bravos que nem uma vara de bronquicéfalos. Os marialvas da repetição tradicional. Os que zurzem o fado da bandeirola para exorcizar o medo de serem encavados por qualquer sem-abrigo ao cruzar da esquina. Os que se acoitam no espírito corporativista da capa (e espada) para executar a sua perversão. Com idem para os que da inveja pela sua moralidade - famosa, a do burro, como todos sabeis, se desenrolada para prazer de quem passa!... - espremem o pedal, carregado com a virilidade de quem por outro meio a desconhece, a fim de granjear os favores do sexo oposto, ou mesmo do mesmo, posto que quem come no que é seu não merece (es)conjuras.
Portanto, a primeira importante viagem que Jesus Cristo terá feito, ainda no ventre materno, do que não restam as menores dúvidas, foi num carocha 127 daquelas eras, de passo lento mas aturado, sábio inventor da subida em Z para melhorar a marcha se carregado, desovando bonicos na passagem como regalo aos que ficavam, outro sintoma de galhardia pelas tradições do pagar portagem, ou pagamento por franqueio e infiltro, no pleno respeito pelos passados antigos que já quando eram novos estavam velhos e errados e imprestáveis. (Excepção feita, é claro, para o esterco de burro, que sempre podia ser utilizado na fertilização e benfeitoria das terras onde deixava franquia... Aliás, mérito conhecidíssimo até dos plantadores de pinhais e outras monoculturas, tendentes a destruir a biodiversidade imprescindível.)
Segundo parece há quem prefira, dentro das instituições que deviam ser a vanguarda da evolução da espécie, do ambiente e da cultura ou das ideias, manter o status quo a contribuir com a sua dedicação, tempo, vantagem económica e inteligência para se desarreigar das práticas obsoletas, numa apologia ao erro, convictos assim de o tornarem menos erróneo só pelo facto de o fazer perdurar, popularizando-o inclusive, cuidando de alicerçar-se na sargentice, para justificar as suas práticas australopitecas. Tal como o comer à unha e à dentada, modo tradicional de usar o único talher que deus nos deu, tão válido antes como depois das propinas, insistem em reiterar as práticas de caserna medievais transpondo-as para os nossos dias, através daquilo que, no sufrágio da mandriice e do laxismo intelectual, é conhecido por praxes. Em vez de reivindicar o ensino gratuito, a melhoria de estruturas, técnicas como de conteúdos, equipamentos e quadros docentes, demonstrando à sociedade portuguesa quanto ganharia com isso, porquanto num futuro próximo as despesas orçamentais com a segurança social, a justiça, o parque prisional e segurança pública, a requalificação e formação profissional, a saúde e a cidadania, seriam bem menores do que actualmente são, desde que o nível de formação do povo português aumentasse, pondo-o em consonância com os níveis de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países nórdicos, por exemplo.
Não se augura nada de bom para um país quando a sua classe estudantil abdica do seu papel reformador e se entrincheira nas surrobecas eclesiásticas para marcar a diferença com o povo que a sustenta. E muito menos quando ela se escora na tradição para manter no activo um passado inoperante, falacioso, estéril, que põe em risco a sustentabilidade nacional, quer na soberania como na identidade cultural, e nos remete para o fundo de todos os rankings de desenvolvimento, nomeadamente o da qualidade de vida.
Creio que é chegada a altura de os meninos deixarem de ir de burro para nascer. Sobretudo de se deixar de entender o conhecimento (diplomado ou não) como um Z para subir na escala social. A tradição, veículo assaz asnático de perenizar tudo, independentemente do seu valor, quer seja bom ou mau, desejável ou sociopata, é o único entrave para a aquisição de novas práticas, pelo que mantê-la quando desnecessária e prejudicial, se torna um crime de lesa democracia: institui patamares de diferença entre iguais, contrariando não só o espírito da Carta dos Direitos do Homem, como impondo pela força uma Lei que apenas não está escrita e aprovada por decreto, graças à sua universal insensatez e desumanidade.
Afiança a sabedoria popular, que é de experiência feita, que "o amor dos burros começa aos coices e acaba em cacos". O carocha do nazismo imperou pelas exigências das sociedades de produção e consumo, mas foi atirado para o ferro-velho com a implementação da sociedade de informação, que por sua vez gerou a do conhecimento e educação. Recolher os cacos desse amor asinino e vesti-los de preto, não é um factor de júbilo para ninguém, e antes um sinal de luto (nacional e europeu). Admoestar e excluir quem não lhe presta culto e vassalagem, um crime pelo qual o tempo, esse mesmo com que se tenta justificar a tradição, a breve trecho nos fará pagar. Caro. E com onerosas dívidas para gerações futuras, herança que perdurará como um código genético dos vencidos da modernidade.
Evoluir, crescer, é sobretudo contrariar e soltarmo-nos das amarras da tradicional miséria (deontológica, emocional, ética, imagética, cognitiva e económica) em que nascemos e estávamos. A mudança requer rupturas, cortes exímios com o passado, principalmente nos formatos em que ele se demonstrou ineficaz, abusivo, inútil e contraproducente à humanização da humanidade. A tradição académica, como todos os rituais guerreiros de iniciação e manutenção do espírito de caserna, monástico, de ordem e ordenança, é um deles: um formato que enfermiça e disforma qualquer formatura. Pôr-lhe fim, apenas o coup de grace, o golpe de misericórdia que a sua agonia suscita e implora de há muito. É lamentável que a beca da tradição, qual capa que outrora servia aos estudantes para lhe ocular a miséria franciscana, ou esconder e tapar o fato puído e remendado, sirva hoje para encapotar a miserabilidade do espírito estudantil, como uma tentativa de eternizar a praxis da sua ignorância. Não é concebível que alguém pretenda aprender e conhecer mais abrigando-se sob o capote da tradição, cuja é desde sempre, a subscrita reafirmação das ignorâncias. De todas elas, incluindo daquelas que se aprestam nas protecções de Drs.

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