1.25.2005

Nos wolksvagens da desgraça...

...um código que até Da Vinci contestaria!

Consta que o carro do povo dos tempos bíblicos terá sido o burro... Sobretudo se considerarmos que foi nele que a Senhora se deslocou a Belém para ter o menino! Seria?... Não seria?... O facto é que até meados do século passado ainda o era, embora o populacho o tenha substituído por besta maior, mais zurrante, potente, lesta e acomodatícia: o carocha. Ou os "wolksvagens" do progresso. E a tradição manteve-se não obstante o câmbio de alimália, para gáudio dos apologista do eterno retorno, ou aqueles que se empenham em regressar à terra tal e qual vieram ao mundo: ignorantes, brutos e bravos que nem uma vara de bronquicéfalos. Os marialvas da repetição tradicional. Os que zurzem o fado da bandeirola para exorcizar o medo de serem encavados por qualquer sem-abrigo ao cruzar da esquina. Os que se acoitam no espírito corporativista da capa (e espada) para executar a sua perversão. Com idem para os que da inveja pela sua moralidade - famosa, a do burro, como todos sabeis, se desenrolada para prazer de quem passa!... - espremem o pedal, carregado com a virilidade de quem por outro meio a desconhece, a fim de granjear os favores do sexo oposto, ou mesmo do mesmo, posto que quem come no que é seu não merece (es)conjuras.
Portanto, a primeira importante viagem que Jesus Cristo terá feito, ainda no ventre materno, do que não restam as menores dúvidas, foi num carocha 127 daquelas eras, de passo lento mas aturado, sábio inventor da subida em Z para melhorar a marcha se carregado, desovando bonicos na passagem como regalo aos que ficavam, outro sintoma de galhardia pelas tradições do pagar portagem, ou pagamento por franqueio e infiltro, no pleno respeito pelos passados antigos que já quando eram novos estavam velhos e errados e imprestáveis. (Excepção feita, é claro, para o esterco de burro, que sempre podia ser utilizado na fertilização e benfeitoria das terras onde deixava franquia... Aliás, mérito conhecidíssimo até dos plantadores de pinhais e outras monoculturas, tendentes a destruir a biodiversidade imprescindível.)
Segundo parece há quem prefira, dentro das instituições que deviam ser a vanguarda da evolução da espécie, do ambiente e da cultura ou das ideias, manter o status quo a contribuir com a sua dedicação, tempo, vantagem económica e inteligência para se desarreigar das práticas obsoletas, numa apologia ao erro, convictos assim de o tornarem menos erróneo só pelo facto de o fazer perdurar, popularizando-o inclusive, cuidando de alicerçar-se na sargentice, para justificar as suas práticas australopitecas. Tal como o comer à unha e à dentada, modo tradicional de usar o único talher que deus nos deu, tão válido antes como depois das propinas, insistem em reiterar as práticas de caserna medievais transpondo-as para os nossos dias, através daquilo que, no sufrágio da mandriice e do laxismo intelectual, é conhecido por praxes. Em vez de reivindicar o ensino gratuito, a melhoria de estruturas, técnicas como de conteúdos, equipamentos e quadros docentes, demonstrando à sociedade portuguesa quanto ganharia com isso, porquanto num futuro próximo as despesas orçamentais com a segurança social, a justiça, o parque prisional e segurança pública, a requalificação e formação profissional, a saúde e a cidadania, seriam bem menores do que actualmente são, desde que o nível de formação do povo português aumentasse, pondo-o em consonância com os níveis de desenvolvimento humano semelhantes aos dos países nórdicos, por exemplo.
Não se augura nada de bom para um país quando a sua classe estudantil abdica do seu papel reformador e se entrincheira nas surrobecas eclesiásticas para marcar a diferença com o povo que a sustenta. E muito menos quando ela se escora na tradição para manter no activo um passado inoperante, falacioso, estéril, que põe em risco a sustentabilidade nacional, quer na soberania como na identidade cultural, e nos remete para o fundo de todos os rankings de desenvolvimento, nomeadamente o da qualidade de vida.
Creio que é chegada a altura de os meninos deixarem de ir de burro para nascer. Sobretudo de se deixar de entender o conhecimento (diplomado ou não) como um Z para subir na escala social. A tradição, veículo assaz asnático de perenizar tudo, independentemente do seu valor, quer seja bom ou mau, desejável ou sociopata, é o único entrave para a aquisição de novas práticas, pelo que mantê-la quando desnecessária e prejudicial, se torna um crime de lesa democracia: institui patamares de diferença entre iguais, contrariando não só o espírito da Carta dos Direitos do Homem, como impondo pela força uma Lei que apenas não está escrita e aprovada por decreto, graças à sua universal insensatez e desumanidade.
Afiança a sabedoria popular, que é de experiência feita, que "o amor dos burros começa aos coices e acaba em cacos". O carocha do nazismo imperou pelas exigências das sociedades de produção e consumo, mas foi atirado para o ferro-velho com a implementação da sociedade de informação, que por sua vez gerou a do conhecimento e educação. Recolher os cacos desse amor asinino e vesti-los de preto, não é um factor de júbilo para ninguém, e antes um sinal de luto (nacional e europeu). Admoestar e excluir quem não lhe presta culto e vassalagem, um crime pelo qual o tempo, esse mesmo com que se tenta justificar a tradição, a breve trecho nos fará pagar. Caro. E com onerosas dívidas para gerações futuras, herança que perdurará como um código genético dos vencidos da modernidade.
Evoluir, crescer, é sobretudo contrariar e soltarmo-nos das amarras da tradicional miséria (deontológica, emocional, ética, imagética, cognitiva e económica) em que nascemos e estávamos. A mudança requer rupturas, cortes exímios com o passado, principalmente nos formatos em que ele se demonstrou ineficaz, abusivo, inútil e contraproducente à humanização da humanidade. A tradição académica, como todos os rituais guerreiros de iniciação e manutenção do espírito de caserna, monástico, de ordem e ordenança, é um deles: um formato que enfermiça e disforma qualquer formatura. Pôr-lhe fim, apenas o coup de grace, o golpe de misericórdia que a sua agonia suscita e implora de há muito. É lamentável que a beca da tradição, qual capa que outrora servia aos estudantes para lhe ocular a miséria franciscana, ou esconder e tapar o fato puído e remendado, sirva hoje para encapotar a miserabilidade do espírito estudantil, como uma tentativa de eternizar a praxis da sua ignorância. Não é concebível que alguém pretenda aprender e conhecer mais abrigando-se sob o capote da tradição, cuja é desde sempre, a subscrita reafirmação das ignorâncias. De todas elas, incluindo daquelas que se aprestam nas protecções de Drs.

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