1.20.2005

EXPOSIÇÃO DE CANTEIROS DE GÁFETE
de 1 a 14 de Fevereiro de 2005


Sem qualquer auxílio além da sua imaginação, boa vontade, ferramentas de trabalho, braços e fôlego, os canteiros de Gáfete, desde as infâncias remotas, tanto suas como da península ibérica, quiçá por vocação e necessidade, ousam transformar a pedra rude, áspera, milenar e rupestre, em formas raras, belas, exóticas, simbólicas, úteis e decorativas, dos nossos e de todos os tempos. Assim, o desafio a que a PROMETEU se propôs, foi tão somente o de dar a conhecer uma arte ancestral, iniciada no paleolítico mas que se manteve sempre a par do crescimento evolutivo do homo sapiens, que afinal se revelou pródigo, usando-a em marcações territoriais como em altares e objectos adstritos aos rituais religiosos, no fabrico de utensílios de uso comum, doméstico, pecuário e agrícola (gamelas, balaustres, pilastras, colunas, martelos, pesos, moedas, capitéis, fontes, pias, tulhas, arcas, celeiros, nichos, pilheiras, obeliscos, túmulos, etc.), como nos da caça, desportivos e bélicos (dardos, discos, pontas de lança e de setas, facas, machados, maças, balas, etc.), ou na heráldica e estatuária divinas e profanas, através da "voz" dos seus intérpretes mais representativos da região, que não só a praticam com esmero e mestria, como igualmente são os seus dilectos devotos desde as célticas eras. Aliás, caso para dizer, que transformaram a pedra na coisa amada por virtude de tanto cinzelar, dando-nos dela a forma desejada para que todos a possamos admirar, numa apropriação da forma do soneto de Camões, já que a alma nos anda formatada pelos mesmos desígnios pátrios!...

António Louro Baptista, socialmente conhecido por "António Camilo", casado, com dois filhos, de 70 anos de idade, além de natural de Gáfete, onde também sempre residiu e aprendeu a profissão com os antigos mestres, é autor de vasta obra e continua a produzir laboriosamente as suas peças, que habitualmente vende e expõe em diversos certames da especialidade.

António Louro Zacarias, a quem os conterrâneos por afinidade à avó apelidam de António Teresa, viúvo, com dois filhos, de 76 anos de idade, exerce a profissão desde os 14, e embora tenha emigrado para a Suécia durante duas décadas, onde trabalhou numa fábrica de produção e montagem auto, bem como 18 meses na feitura de lancis e pavimentação, continua a trabalhar a pedra com criatividade e determinada desenvoltura.

Arlindo Carrilho Abreu, ex-encarregado de uma das maiores empresas do sector na região, de 60 anos e reformado por motivos de saúde, foi emigrante na Suiça em 1974/75, casado e com um filho, com obras espalhadas pelo Japão e Estados Unidos da América, exerceu a profissão de canteiro desde os treze anos, arte que terá aprendido com os antigos profissionais da região.

João Coelho Aires Garcia, fogueiro fabril em pré-reforma, natural de Gáfete mas residente em Portalegre, de 57 anos, divorciado e com duas filhas, iniciou-se como canteiro aos 12, profissão que exerceu até aos 26, e que terá aprendido sob os auspícios de seu pai, também profissional de renome, a quem se devem alguns exemplares expostos nesta cidade, inclusive o escudo heráldico do Banco Pinto Sotto Mayor, na sua ex-sede à da Rua 19 de Junho.

Joaquim do Crato, nome pelo qual é familiarmente conhecido Joaquim Baptista Garcia, viúvo, com quatro filhos, 3ª Classe de escolaridade, começou na profissão de canteiro aos 18 e, embora a tenha igualmente exercido na região da Beira Alta, nomeadamente em Freixedas, de 1970 a 1978, sempre residiu em Gáfete onde nasceu há 78 anos.

Outro Canteiro de Gáfete, cuja obra já foi por diversas vezes exposta e onde se evidenciou a sua exímia expressividade globalista, de motivos religiosos, naturais e artísticos, singularmente cinzelados.

Viriato Mafaldo, a quem se deve a autoria do símbolo ou brasão no posto da antiga Guarda Fiscal de Portalegre, ao Bonfim, tem 79 anos e trabalha na arte de canteiro desde os 11. Casado, com dois filhos, sempre residiu em Gáfete onde foi empresário do sector, pelo que chegou a ter várias pessoas a trabalhar por sua conta, disseminando a cantaria por diversas regiões portuguesas.

Para trabalhar as diferentes pedras, das variedades presentes nesta exposição (v.g. o granito amarelo de Gáfete, o azul de Alpalhão, o negro de Arronches, mármore, impala e calcário), não mais foram precisas que as tradicionais ferramentas de sempre, como a maceta, o ponteiro, o escopro, os palhetes, as brocas, a picola ou bojarda, e os esquadros, num verdadeiro hino à ancestralidade, gizando futuras formas em matérias tão antigas como a própria Terra. Talvez muitos dos seus segredos tenham assim sido desvendados... mas, do que não restam dúvidas, é que outros tantos foram forjados em seu lugar, nesse rendilhar constante e agreste de um suporte que só com o poder de enorme persistência, mestria e engenho se pode enfim domar, extorquindo-lhe a ganga bruta até delinear a beleza diamantina prevista (e desejada).
A inauguração, que decorrerá dia 1, terça-feira, pelas 18 horas, constará de um momento musical com António Eustáquio (guitarra portuguesa) e Miguel Monteiro (guitarra clássica), e beberete.

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