9.30.2004

NEW KITSCHENET


Hoje caprichei na ementa:
Fiz smilles de souflé
Com emotions a acompanhar.

É que já ninguém abraça de puré
Nem põe beijos a fritar!


NÃO HÁ CRIME NO ANOITECER

Caprichadas de silêncio antecipado
As palavras do lago plenas de sigilo
Constrangidas pelo parado das águas
Reflectem: são pausas, folhas, paus
Retratos invertidos de quem passa.

Ao fundo a cidade lança seu soslaio de Sé
Entre as góticas frondes verdes do jardim
Nas vésperas de um outono que se esqueceu
De cumprir o calendário das estações.

E granito antes das rosas; cal, sempre cal, após elas.
Mas a espraiar-se no lusco-fusco o ocaso
Distancia-se imaginável por detrás do casario
Apenas enraivecendo
Irisando
Apodrecendo de laranja o horizonte azul.


É preciso reconhecer o privilégio de estar só
Ser ínfimo perante a grandeza do dia
Para escutar a lentidão da luz a esvanecer-se
A dissolver o intermitente negro sobre o céu
No curvilíneo e estonteante esvoaçar das andorinhas.

Na planura quieta do espelho a água
Esverdeia pouco a pouco de anoitecendo.
Não serve de nada fingir que a tarde tarda
Nem lembrar porque se esqueceu o meio-dia.
Não está certo sermos quem não somos
Ou esconder o rosto nas sombras do querer ser:
A frescura da luz que refresca está em si
Mesma e igual é esta cinza de aço baço
Como mapa de sonoridades caladas por descobrir.

Ouvir-me na luz que se esconde não é crime
Nem pedir palavras aos silêncios antecedidos,
Porque escorrendo as sombras são apenas sombras
Nadas incapazes de sobrecarregar os espectros temidos.

Esplanada de "O Tarro", 30.10.04 - 19:20 horas


"INDEFERIDO!!..."


só quando me esqueço de ser sou quem sou
e não o outro que caminha a ver-se acompanhado
de si mesmo lado a lado fintando as sombras:


- Não, não peças silêncio às luzes da cidade
que lançam seus olhos de noite de rua em rua!


CARAMELO EM LEITE CREME


Permito-me compreender quem és
Arrisco-me a ser outro no agora
Aqui dos sonhos por revestir de velas
Mágoas, anseios, crenças, ilusões, pés.

Permito-me ser 59 minutos da tua hora...
Mas quando aí caído entregue todo assim
Eis-me permitido mas perdido sem mim,
Pois naquele minuto único só queres olhar as estrelas!


ZÁS!


A terra é redonda. Pimba!
E o sol está de veludo
Escoando-se no limiar das horas.
Creio no todo-poderoso imenso líquido
Que me animala os ossos e o teu ventre.
Sejamos cruéis como somente nós
E desenhemos nas transversais abertas
Pequenas soleiras onde os velhos gastem a bisca
Os dias e as pantufas são iguais, tal e qual
Recordando os tempos de guerra e senhas
(prò pão).


Ouvi dizer que me não amas - bem
Parva foste, esse direito era só teu.
Agora, será mais fácil suspender-me
Atirar-me de uma nota musical qualquer
Suicidar-me num assobio de rompante
Que procurar o ninho de teus (a)braços.
(São sinas; é prò pão!)

Num dos quadros da minha sala
Tenho um toquê que parece.
Se alguma mosca me atenteia
Ele Pula da Tela pla PaPá-la...

- Zás.



LIBRETO

Jamais seremos outros em nós mesmos
Que é posto a cada um o saber sabido,
Como se fôramos o ainda somos de sermos
Aquilo que apenas nós tivéramos crido.
Jamais esperaremos por nós em idos ermos
De calar a sofreguidão ao sonho tido,
Já que ser é um todo que se quer nos termos
De quem se não atém de rés e ao meio sentido.


Porque jamais o receio de ser nos fará calar
Esta sã certeza que cada um no outro tem
Em sermos somente nossos e de mais ninguém.

E da vida. Que se quer por nós representar
Ao haver-nos dado como exemplos da zarzuela
"La Cancion del Olvido", e a dor daquela!


A MISSIONÁRIA DO FUTURO


Estais ambos na vida.
És uma professora... E ele, um menino triste.
Então ensina-o. Ensina-o a amar-te.
A ver-te. A esperar-te.

E aí sentirás que ficou cumprida
A missão que em ti existe.


CULPA IMPERATIVA


Ignorando a ignorância
De quem caminha sobre o próprio corpo
Vai o cerne da tolerância
Ignorando como está morto.

Vai o epílogo, o fim.
Vai o exílio, o cabo.
Vai a cauda sem fim
Sem saber que começa no rabo.

Vai, como qualquer cantor de rua...
Vai, vai, vai sob o sol da sina tua.


Vai - vai! - na ignóbil estrada negra
Como quem desafia o atrito,
Como quem destila a regra
De corromper o próprio grito.

Vai o desejo, e na secura
Vai o fio (Ariane)infinito
Que liga o agora ao aqui,
Une o agora ao para ti.

Vai: repito! E repetindo esqueço
Que nem esquecer-te mereço!


VIAGEM DE ROTEIRO
(ENTRE FACTOS E CONJECTURAS)

Quis-me numa hora de recato
Saber-me a sonhar sem sentido.
Havia pedras, árvores e mato,
E uma charneca e um regato
Onde nunca tinha ido.

Era terra de remotos contornos
Com azeitonas, conservas e pão
Madeiras, resinas e vigas de betão;
Solos férteis e tempos mornos
Ao florir da esteva e manjericão.

Porém nesse sonho havia
Algo que me preocupava e impelia
Na urgência do magnético destino tido.
É que fora onde fora sem querer
Esquecendo-me aliás de dizer
Que eu também o houvera querido...
Pois o maior dos saberes dos mais antigos,
É o de entre conjecturas escolher
Que os "factus" são nossos amigos!


CONDOMÍNIO FECHADO


Há vozes intemporais na fluidez
Do líquido estar esquecido de nós?
O que se ouve murmurar antes e após
Do escorrer da solidão e languidez?

São cumplicidades morninhas do olhar
A fremir promessas, ânsias e segredos
Que nos iniciam na arte de interrogar
Aos porquês o por quê de nossos medos?

São inspirações de folha silvestre?
São inscrições de grafito rupestre?
São desalinhos no croquis do querer?
Não, são apenas gritos roucos na planície
Do ser impondo que de vez que se inicie
A flor, certidão inequívoca do "crer é poder".


1.
abrevia solidão como quem tece
a saga dum silêncio amortizado
a distância incendiada dos corpos
a alma indizível do desejo proferido:

ainda é hora. Tens a boca escolhida
nos lábios do tempo literal solícito
aberto, descosido, integral ao verbo
e és espera de quem se aporta e se alerta.

Contudo, nos esgares sucumbidos
desferes um coração que me acerta.

2.
podendo dizer por que calas os lábios
colados contra o tempo num só golpe
a destreza na planura intensa, língua vil
abre o ovo do silêncio, vá!, vá!, parte-o
assim com a gema do dizer inconformado:

sê exemplar. Escuta a luz silvestre
dança nos subúrbios do silêncio
desvenda o ventre ao umbigo da tarde.

Reconhece, que é bom ter amigos, desenhar
intempéries num sentimento possível
mudar o mundo e as consciências com eles
destroçar a nudez crua e anónima dos nomes.
É benéfico aventurar os nossos destinos
nos espelhos partidos em que nos consomes...

- mas não desistimos!

MILAGRE

Eu escrevia de borla para os jornais, e curei-me.
Graçazadeus!!... Aleluia, Senhor! Aleluia!!...


No próximo dia 9 de Outubro, no Restaurante Leitão, em Caia, realizar-se-á mais um encontro dos ex-alunos da Escola Industrial e Comercial de Portalegre, actual Escola Secundária de S. Lourenço, conforme o acontecido em anteriores anos. O preço de inscrição é de 30 euros e será homenageado o professor Duarte Lima, conhecido entre todos por professor Du. Os interessados podem fazer a marcação através do mail deste blog ou na loja da Mariazinha, no Centro Comercial Fontedeira, em Portalegre. Até lá, e saudações

9.28.2004

Houve grande dificuldade em agraciá-lo, o que se agravou substancialmente nas exigências gráficas da nomenclatura, por parte do funcionário do registo civil. Dessas, e talvez porque o escrivão fosse acérrimo defensor dos jogos da sorte, do tipo totobola, em que a garantia de êxito expedicionário cai de dupla nas nossas mãos, e como hesitasse na postura ou impostura do hífen, para garantir-lhe perfeição onomástica, assestou-lhe com um portentoso bisado homófono, e caligrafou com esmerado empenho e mordedura aprimorada de língua, no livro dos wellcomes a este mundo, demonstrando que estava ali para servir os clientes sob o beneplácito pretexto funcionário da rés pública: Benvindo Bem-Vindo, em gótico garrafal e de bonito efeito.
«Apelidos: família da mãe?»
«Esmeralda», respondeu de pronto a avó.
«E do pai?»
«Incógnito», afiançou a mesma, respondendo em compenetrado e místico êxtase, a fim de inculcar algum ar de tradição à solenidade do momento.
Na falta de pai, a mãe e avó acataram o manuscrito com galhardia e decoraram-lhe o nome completo para futuras utilizações. Disseram-no ao ouvido do recém-nascido como quem segreda a localização dum tesouro salomónico ou o sésamo código de afortunado cofre. Soletraram-no diversas vezes de si para consigo, como quem reza a Santa Bárbara em vista de infernal trovoada, mas foi a veterana matriarca quem melhor legendou o momento, interpretando-o à luz do progresso da família e de como ele iria condicionar a posteridade dela.
«Até parece nome de fidalgo. Nós só temos dois», comentou Isabel Esmeralda para Madalena Esmeralda sua filha, e mãe do privilegiado rebento, rematando o considerando com a formulada mágica do seu contentamento: «Benvindo Bem-Vindo Esmeralda Incógnito. Isto sim, que é um nome!»
«Quando tiver dezoito anos há-de tirar a carta, mãe», vaticinou Madalena, a garantir que o nome era propício e prometia conduzir os destinos da estirpe das esmeraldas (perdidas).
«Pois há-de», confirmou a preciosa e precoce anciã, que aos trinta frescos já era avó e empresária de sucesso.
Começara na vida mais nova que a filha, mal fizera treze primaveras, numa sexta-feira de traições em que o pai a vendera por uma pipa de tinto à taberneira de Casal Parado, e esta a metera na cama do caixeiro viajante que lhe fornecia os brioches de que tanto gostava, e lhe transformavam cada pequeno almoço num ritual de prazer e bem-aventurança, inspirando-lhe os negócios para o resto do dia. Fora breve na iniciação, que o operador era de rompantes misteres e andava precisado de carne nova, a quem doessem as suas fracas posses, pois se atinha como macho dos antigos de muita parra e pouca uva, e sentia mais prazer na dor e no gemido do que no acto compartido.

(Excerto de AS PISTOLEIRAS E O BANDEIRINHAS, conto de actualidades primárias sem efeitos secundários, politécnicos e universitários)

9.22.2004

O estilo simples, directo e conciso, apregoado pela enorme maioria dos escribas da nossa praça, não existe, embora alguns deles intentem convencer-nos de que escrevem com rigor, sem adjectivos, em frases curtas e rudimentares (gramaticalmente falando: sujeito / predicado / complementos). O que é uma pura e descarada mentira! Sobretudo porque aquilo que eles conseguem sempre oferecer-nos, não é dar-nos a realidade factual mas a sua visão (dis/torcida) dela, entregando-nos a parte pelo todo, posto que as mais das vezes a dita seja a pior delas, ou aquela em que o seu enviesado e restrito vocabulário superiormente se nota.
Quando ainda no princípio do ano (entre Março e Junho) 2000 Carlos Augusto Lacerda edita em versão digital Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, muito antes que a edição em suporte papel viesse a estar disponível para o grande público, pondo o primeiro capítulo de borla e os restantes a pagar, ou quando Pedro Rosa Mendes faz a pré-publicação da sua Baía dos Tigres, e lhe atribui, não só uma paginação fragmentária cuja intencionalidade explícita é a de dar-lhe a semelhança e versatilidade das janelas de linkagem, mas também um mapa que proporciona a interactividade, facilitando assim que os leitores assumam e escolham percursos de conteúdo no âmago da estória, tal como quando Mário Prata se propõe escrever o primeiro livro on-line onde cada leitor pode espreitar o que o escritor vai escrevendo, intitulado Os Anjos de Badaró, e à medida que o faz, mas igualmente discutir com ele o enredo, a caracterização das personagens e adequação de cenários, desfechos e encadeamentos idiomáticos e universos imagéticos, está a dar-se início à complexidade digital de alcançar o estilo simples, directo e conciso pela primeira vez na história da literatura portuguesa!
Ou seja, são de tal forma infinitos os caminhos da senhora nossa língua, tão pejados de contraditórias formações, que até para se produzir o ideal de escrita, este se consiga cada vez mais a praticar menos esta, destruindo conceitos e figuras intocáveis, derivadas dos medievos pergaminhos, da retórica confabulativa, eivada dos efeitos secundários (poéticos e metafóricos) do discurso desviante, logo literário, que exigiam e impunham aos textos nunca eles serem o que em verdade eram, ou sendo-o, que o fossem com que ninguém visse, se apenas o lessem conforme as indicações sintácticas e semânticas enunciadas, retirando-lhe o esoterismo inicial que sem dúvida encerrariam, cuja descodificação estaria sempre e unicamente acessível a quem estivesse familiarizado com o “glossário” (regional ou específico) utilizado na sua barroca elaboração.
À semelhança do que acontece quanto à biodiversidade e sustentabilidade biológicas ou naturais, poderemos afirmar que é bastante mais útil à humanidade qualquer escaravelho banal e insignificante do que os mais bem pagos e sofisticados jogadores de futebol, porquanto os segundos nada produzem nem acrescentam de valorativo às espécies terrenas, mas antes pelo contrário muito destroem (ou destruem, conforme afiançam os purismos maníaco-depressivos dos gramáticos da lusofonia) ou ajudam a destruir, e aos primeiros a deligência e primor artístico é tão elevado, que até a bola com que brincam são eles que a fabricam, familiarmente conhecida pela maçã de bush – e que os escaravelhos nos perdoem. De onde se chegou ao fim da Era dos interesses avulsos individuais e parasitários. Perdeu-se o canto da cigarra e (re)nasceu o canto da formiga, da barata e do coleóptero. Dos que trabalham a palavra como obreiros de uma nova utopia. Dos que resistem às avalanches do descrédito na criação de um mundo melhor pela restauração do antigo. Dos que elaboram a sua diversão e sustento, clube, casa e família, com os frutos do quotidiano e gente que os rodeia, habitat e cultura emergente, por maiores merdas que estes sejam. Terminou a apologia do herói, do desbravador narcísico e megalómano, do que intenta dar novos universos ao universo das (palavras) apenas com a brutidade interior, para dar lugar à voz colectiva, quer local como global, representativa desse ser e estar, ser e fazer, ser e seres, que é a escrita que se partilha, mas não só na e para a leitura, como também na feitura, porquanto cada um pode criar com os seus, entre os seus e para todos, a qualquer hora e independentemente do lugar onde esteja.
Exactamente. Mas não apenas. Sobretudo porque em seu socorro acorreram as novas tecnologias da comunicação, apesar dos conservadorismos das pitonisas românticas nos quererem convencer que o cheiro do papel melhora os conteúdos, o apalpar das metáforas entesa os espíritos, o carregar com volumes bíblicos robustece os crânios e o devorar amarelecidas folhas nos engorda os tutanos da sapiência outonal com os santos ventos, ou flatulências celestiais e divinatórios. E principalmente se em conta tivermos que a única forma desejável e ecológica da transmissão de ideias e valores é a narrativa, que não pode ser peso para o abate de outros seres vivos, árvores e quejandos, sejam elas plantadas para isso ou não, tenham como destino o aliviar económico das opções sociais ou as fogueiras incendiárias das monoculturas, visto que nestas coisas da ficção, da lógica e da humanidade, não serão nunca os objectivos que justificam os meios, mas sim estes que reconhecem a validade dos fins, sendo parte integrante do engenho e arte, que o mesmo é dizer, que por mais bonita que seja a segunda, se separada estiver da racionalidade, sustentabilidade, utilidade e adequação do engenho, então nada vale, nada significa e ainda menos reconhecimento público tem.
Não obstante periga-lhe o futuro, e corre riscos de extinção a narrativa ficcionista, se não alterar a sua conduta face aos suportes e auditório que serve. Principalmente se se não apetrechar dos convenientes meios técnicos (e-book) para circular entre as gentes e os modos, estabelecendo uma nova apetência entre os que, por incrível que tal pareça, sempre lhe devotaram grande admiração mas foram solicitados por outras formas expressão, assaz cativantes e mais facilmente consumíveis: o cinema. O áudio visual e multimédia. Produtos esses que, quase sempre baseados em obras literárias de autores consagrados, os treinaram para a leitura rápida em écran, e os capacitou assim a ler para além do simples soletrar, fazendo-o parágrafo a parágrafo e não linha a linha como fariam se limitados a fazê-lo do papel, porquanto a rigidez e fixação deste formato, obriga os olhos a um esforço de adaptação, muitas vezes insuportável, como no caso das paginações em letra miúda e entrelinhamento apertado dos livros de bolso, onde a evolução da leitura se faz morosamente e com sacrifício, o que a onera em tempo e custos ou lhe dificulta a compreensão.
Porque o que está em causa já não é a morte do livro mas sim o fenecer das literaturas, sobretudo das que se veiculam através de línguas pouco utilizadas comercialmente, como o português, o holandês, o austríaco ou o russo. Até há pouco quase todos (editores, livreiros e alfarrabistas, autores, professores, críticos, tradutores, ensaístas, bibliotecários, linguistas, líricos, jornalistas e ardinas) se aperceberam e debruçaram sobre o problema (baixos índices de leitura, com crescente agravamento), mas ninguém se preocupou com a solução. Não houve cão nem gato que não bradasse aos céus a iletracia, incúria e desleixe das nossas gentes perante os principais instrumentos da nossa identidade cultural (língua e literatura), todavia não fizeram absolutamente nada para inverter o mar de crise em que durante anos e anos navegámos. Puseram-na a ferros no acordo ortográfico e ensino, criaram uma rede nacional de bibliotecas, patrocinaram programas de rádio e TV, instituíram-lhe um Instituto (português do livro e da leitura), inventaram motivações, subsídios e prémios vários, tiveram inclusive um nobel para poder figurar nos anais da universalidade, mas agir em conformidade e de maneira a alterar o actual status quo é mentira. Procuraram o problema e encontraram-no; deram-lhe honras de primeiro plano e fidalguia; mas quedaram-se pelo diagnóstico e análise dos sintomas, lamentos de velhos do Restelo e viagras das feiras do livro, embora jamais se tenham preocupado deveras em achar-lhe igualmente solução. Enfim, foram lusófonos até nisso: nos consertos de arame e peças piratadas para remediar o funcionamento de toda e qualquer engrenagem que se avarie – aquém e além mar!

9.10.2004

Amo-te... És belo como o Sol
Profundo como a Noite e o Mar.

Procuro-te, no céu estrelado,
E à noite, vens até mim.
Trazes contigo o vento a sussurrar
Promessas de alegria sem fim
Em ondas de mar salgado.
Azul de estrelas. E sonhado.

Os teus braços, os teus olhos, a tua pele,
Falam de ti, e me prometem que serão meus
Se eu os quiser
E se os souber merecer.

A tua vida é como um arco-íris
Como uma rosa em flor.
É como um jardim onde semeias flores por toda a parte
Resquícios de choro, palavras de arte.

Desejo-te,
És como o mar
E o frio da noite
Que procuro nos dias de Inverno.

Quero-te bem,
Amo-te.
Por seres mais belo que todas as coisas,
Porque dentro de ti
Há esse Sol,
Essa alegria
Que desperta.
E que empresta a toda a existência
A beleza que só tu tens: Esse Sol
Faz do mundo,
Um sonho,
Onde o desejável se torna possível.
E o teu olhar
Faz do meu Sonho
O teu mundo.
Esse teu jardim
Cheio das mais belas flores,
Dos mais doces frutos,
Onde me perco e me procuro
E me encontro
No sonho mais encantador
No perfume mais adocicado
No olhar mais sensível
Na voz mais profunda
No corpo mais meigo,
Que já conheci... adoro-te muito...
Vamos lutar um pelo outro para que dê certo.


Na voz mais profunda
No corpo mais meigo,
Que já conheci...adoro-te

Muito iremos lutar um pelo outro, até dar certo!...

sonho

A sonhar escrevi um livro
mas não o consegui ler:
dediquei-o um amor difícil de obter...

Um dia ele partiu.
Fiquei com saudades.
Partiu e não voltou;
Chamava-se felicidade,
destruiu meu coração,
deixou-me a sofrer
na solidão da prisão...
A penar... a padecer...
Hoje vivo com medo
de um passado recente,
vejo por entre grades
a alegria de muita gente.
Agora sozinha e abandonada,
de mim ninguém tem dó.
Esqueceram meu passado.
Foi um amor k terminou.
Foi uma esperança perdida.
Foi uma folha arrancada
Do livro da minha vida!


NÁDIA JOANA ANTUNES

9.01.2004

No dia 27 de Agosto, pelas 17:30 horas, foi inaugurada, no Museu das Tapeçarias de Portalegre, uma exposição de fotografia de Aldrich Malzbender, centrada na temática "Ciganos do Alentejo", que foi suplementada com uma apresentação/leitura de alguns poemas de cariz alententejano, cujo reportório tinha, entre outros (por exemplo, António Patrício, Manuel da Fonseca, Florbela Espanca, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Sebastião da Gama, etc., etc.), dois poemas de Joaquim Castanho, elemento da nossa Comunidade de Leitores, que aqui ficam, divulgados.


AUTO DA VISITAÇÃO

1.

Chiam travões, bate uma porta
E a tarde perde a calma monótona.
A mosca abandona a migalha sobre a mesa;
Há ainda a bolsa do casqueiro
A corna das azeitonas
Um pichel destapado
Uma rodilha sobre o oleado
Um corcho de cortiça
Um cântaro com a asa partida.


« Quem será? » ... os patrões foram a banhos,
O gado está no curral,
O carteiro já veio esta semana.
A terra não pode com amanhos,
As searas foram vendidas;
Crescem olhos tamanhos – quem será??

2.

Ressalva-a, emenda a voz
Estende os braços ao rés do tempo
Ao degrau da entrada, à sombra
Do umbral a moldura faz.


Pestaneja quando eu chegar!
Diz do trigo a colheita sólida
Do fruto a amora brava,
O suco revertendo do olhar,
Posto lá na linha da planície
Mais perto do mar do céu
Que barcos sonhos navegam
Na desvendação do futuro.


Deixa uma calça arregaçada sobre
As fivelas de couro com sola de pneu
O boné dependurado do trinco;
A porta a esconder-se na penumbra.


À telefonia... Essa, que soe baixo
Que a hora é de sesta.


Tem para mim um sorriso
De quem percebe porquê o sol

Tão quente, a fralda de fora.


Depois enxota uma mosca
Enrola um cigarro
E volta a entrar como se nada fosse...

« Maria!?! É o teu filho que chegou.
Partimos a melancia maior!! »

OS CONTRABANDISTAS

1.

apelo do caminho


São gestos simples duma criança os pés
Os ombros, as mãos abertas.
Mesmo uma falripa sobre a testa
Um suspensório a arrastar na areia...
Uma pedra a bater na latada,
Um chamamento de mãe contrariada.


Ah, e o enigma da estrada
Que nunca termina na curva
Como fora previsto!

2.


Contrabandeio.
É essencial de mim, português
A navalha, o relógio, o isqueiro!
Por vezes, a caneta
Ind’assim me não esqueça
Daquilo que me vai na alma.

Seguem-se os dias aos dias
Na formação do ontem de amanhã
E há um povo que não se cansa
De afiar o ânimo no esmeril da solidão
De correr seca e meca à procura
De escorregar pelas ladeiras lamacentas da ilusão.
3.

talego

Esse resto tão pouco...
Tão cintilante o sol
Capilar sobre a vereda
Abrigo da tarde
Entre pinheiros
Agudos sonidos dos cartaxos,
Os ombros vincados ambos
A bolsa no lamaçal das costas.


4.

recrutamento

Revejo o adro. A tarde arde.
Posando em fila circular as botas ferradas
Esperam a fotografia imediata dum capataz.
Aos velhos e crianças apenas é concedido o número
E não o nome. Esses ficarão meia-lua perdida – olhos da calçada –
Por suas bocas serem a jarra em que não há semente.


Arde a tarde e a esperança do corpo
Consumindo a fome que em casa se passa.
Arde o silêncio na competição dos olhos
Na ânsia de saber quem vai desta jornada.
Arde a silhueta do cavaleiro desembocado da rua
O matraquear dos cascos, o cintilar das esporas...


Chapéu no sobrolho, chicote apontado
Divide e escamoteia, joeira e não ouve:
“ A jorna já sabem. É pegar ou largar! “


« Mãe: não valho nada!!... » Ainda que quisesse
Pegar na foice e suar o que faltava, a cabeça curvada
Quem daria ao filho daquele que entre cavalos partiu
O sol a sol do pão, desde que o sonhasse ou soubesse?


Revejo-te adro. E àquele dia, mãe
Em que num ai, reconheceste também
Ser sempre o caminho do filho
Seguir as pegadas do pai!


5.

prisão

Pela fresta da entreaberta porta soam ferraduras
Crinas nervosas agitam o medo, bater de cascos.
Um latido de cão sem coleira à porta da taberna...
As fitas mosqueiras que dedos ronceiros suspendem...
O suspeito ar de caso nas alvas fachadas...
Uma criança descalça atravessando o escaldante empedrado...

E um gesto de Agosto na supressão de mais uma boca.




6.

referente

A mesma criança do outro poema
Tenta passar de novo a rever-se
No espelho do sonho e surpresa.


Fecha o triângulo e surge
As guitas do pião escorrendo dos bolsos
Os gestos tímidos dum esgar de mel
Os olhos perdidos em tamanhas cores.


Adiará a infância para melhor tempo
Que a mãe já reclama a presença
Dum homem na casa.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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