10.12.2015

Apollinaire





"Sou a Lorette
Toutinegra negra
Sempre a pipilar baixinho
Senhor largue os livros que eu dou-lhe carinho."

In GUILLAUME APOLLINAIRE
A Mulher Sentada
(Costumes e Maravilhas do Tempo – Crónica de França e da América)
Trad. Luiza Neto Jorge
(Pág. 59) 

A MÃO ESQUERDA DAS TREVAS, de URSULA K. LeGUIN




URSULA K. LeGUIN
A Mão Esquerda das Trevas

"– Que lugar é este? – inquiriu, olhando em volta. 
– O refúgio no interior da tempestade de neve – informou Hode. – Nós, os que nos suicidamos, permanecemos aqui. Agora, poderemos reatar os nossos votos. 
– Não quero ficar aqui – retorquiu Getheren, aterrorizado. – Se me tivesses acompanhado às terras do sul, poderíamos continuar juntos sem que os outros soubessem da transgressão. Mas preferiste quebrar os nossos votos, destruindo-os juntamente com a tua vida. E agora não consegues pronunciar o meu nome. 
E era verdade. Hode moveu os lábios repetidamente, mas não pode repetir o nome do irmão. 
De súbito, precipitou-se para ele e segurou-lhe a mão esquerda, porém Getheren desprendeu-se e correu, agora para o sul, não tardando a deparar-se-lhe uma muralha de neve que tombava com intensidade. Assim que a transpôs, voltou a cair de joelhos, perdendo as faculdades de movimento. 
No nono dia após a partida em direção ao Gelo, foi encontrado no seu Domínio por habitantes do Lar Orhoch, situado a nordeste de Shath, os quais o não reconheceram, pois Getheren apresentava o rosto ulcerado pela congelação e estava impossibilitado de pronunciar palavra. Não obstante, foi-se restabelecendo satisfatoriamente, à parte a mão esquerda, que teve de ser amputada. Apressou-se a negar que fosse Getheren, com o alguns afirmavam quando julgaram descortinar traços similares aos do rapaz que abandonara o Lar de Shath devida à perseguição dos companheiros, e asseverou que se chamava Ennoch e procedia das terras do sul. 
Certo dia em que percorria a planície de Rer, Ennoch, que entretanto, envelhecera, encontrou um homem da sua região natal e perguntou-lhe como se apresentava o panorama geral no condomínio de Shath. O outro replicou que tudo definhava gradualmente e ficou assombrado quando o interlocutor se identificou como sendo Getheren de Shath, explicando o que lhe sucedera no Gelo e quem encontrara lá. Por fim, recomendou ao outro: 
– Quando regressares, comunica que recuperei o nome e a minha sombra. 
Poucos dias mais tarde, adoeceu e expirou. O viajante transmitiu as suas palavras aos habitantes de Shath, e consta que a partir dessa data o Domínio voltou a prosperar como dantes." 

In URSULA K. LeGUIN
A Mão Esquerda das Trevas
Trad. Eduardo Saló
(Págs. 23-24)  

O MUNDO DE ROCANNON, de URSULA K. LeGUIN




URSULA K. LeGUIN
O Mundo de Rocannon
Trad. Eurico da Fonseca

Como se pode diferenciar a lenda do facto nesses mundos que estão a tantos anos de distância ? – planetas sem nome, a que a sua gente chama apenas O Mundo, planetas sem história, onde o passado é feito de mito e onde um explorador ao voltar descobre que as suas ações de alguns anos atrás se tornaram nos atos de um deus. O irracional obscurece esse abismo do tempo atravessado pelas nossas naves que se deslocam à velocidade da luz, e nas trevas a incerteza e desproporção crescem como ervas daninhas. 
Ao termos de contar a história de um homem, um vulgar cientista da Liga, que foi a um desses mundos mal conhecidos e sem nome não muitos anos atrás, sentimo-nos como um arqueólogo entre ruínas milenárias, procurando abrir caminho entre maciços de folhas asfixiadas, flores, ramos e trepadeiras para alcançar a súbita e brilhante geometria de uma roda ou de um cunhal polido, entrando agora numa porta vulgar e ensolarada para encontrar no interior as trevas, o tremular impossível de uma chama, o refulgir de uma joia, movimento meio deslumbrante de um braço de mulher. 
Como se poderá distinguir o facto da lenda, a verdade da verdade?
Através da história de Rocannon, a joia, o refulgir azulado por um momento, regressa." 

In URSULA K. LeGUIN
O Mundo de Rocannon
(Pág. 5)   

MARAGARITA E O MESTRE, de MIKHAIL BULGAKO




MIKHAIL BULGAKOV 
Margarita e o Mestre

"O comportamento do gato deixou Ivan tão estupefato que o poeta ficou pregado ao solo junto a um armazém de mercearias, à esquina. E mais atónito o deixou ainda o comportamento da condutora. Assim que viu o gato tentando subir para o elétrico, a mulher gritou, tremendo de raiva: 
– Aqui não são permitidos gatos! Rua! Saia ou chamo a milícia! 
A condutora e os passageiros mostraram-se estupefatos não tanto pela situação em si – um gato subindo para o elétrico! – que não seria muito de estranhar, mas sobretudo pelo facto de o gato querer pagar a passagem! 
O gato, como se verificou, não era solvente como um animal disciplinado. Ao primeiro grito da condutora, parou, desceu do estribo e sentou-se na paragem, alisando os bigodes com a moeda. Mas quando a condutora tocou a campainha e o elétrico se pôs em andamento, o gato procedeu como qualquer pessoa que é expulsa de um transporte público mas que, no entanto, tem, forçosamente, de chegar ao seu destino. Deixando que o elétrico e os dois atrelados avançassem, o gato saltou para a parte de trás do último atrelado, cravou as unhas num tubo de borracha que passava pelo lado exterior e lá foi, poupando assim o preço da viagem. 
Preocupado com o miserável gato, Ivan quase perdera o principal culpado – o professor. Felizmente ainda não conseguira fugir. Ivan avistou a boina cinzenta no mais denso da multidão no cruzamento com a Bolshaya Nikitskaya ou com a Rua Herzen. Num abrir e fechar de olhos Ivan chegava lá. Mas o sujeito escapou-se-lhe. O poeta tentou caminhar mais depressa; rompeu mesmo, em trote, empurrando os outros transeuntes. Mas não conseguia aproximar-se nem um centímetro sequer do professor. 
Perturbado como estava, Ivan, no entanto, admirava-se com a fantástica velocidade da caçada. Vinte segundos haviam decorrido e já Ivan Nikolayevich, depois de passar pela Porta Nikitsky, ficava ofuscado pelas luzes da Praça Arbat. Mais uns segundos e mergulhou em qualquer ruela escura com passeios esburacados onde caiu e magoou um joelho. Mais outra rua movimentada e brilhantemente iluminada – a Rua Kropotkin – depois de uma viela, a seguir a Ostozhenka e mais uma viela, medonha, imunda e fracamente iluminada. E foi aqui que, por fim, Ivan Nikolayevich perdeu o homem que perseguia tão desesperadamente. O professor desaparecera. 
Ivan ficou desconcertado, mas não por muito tempo, porque, de súbito, soube que o professor deveria estar no nº 13 e precisamente no apartamento 47. 
Entrando de rompante, Ivan Nikolayevich voou até ao segundo andar, encontrou imediatamente o apartamento e tocou a campainha, impaciente. Não teve de esperar muito tempo. A porta foi aberta por uma rapariguita dos seus cinco anos que imediatamente se retirou para qualquer parte, sem fazer quaisquer perguntas ao visitante. 
No salão imenso, pessimamente conservado, fracamente iluminado por uma minúscula lanterna de carbono, encontrava-se uma arca enorme, chapeada de ferro. Da parede pendia uma bicicleta sem pneus. E numa prateleira, por sobre os cabides para a roupa, estava um boné de inverno com as compridas abas para as orelhas pendendo. Atrás de uma das portas, uma ressonante voz de homem declamava com irritação qualquer coisa em verso num aparelho de rádio."

In MIKHAIL BULGAKOV 
Margarita e o Mestre
Tradução de Jorge Feio
(Págs. 77 e 78)  

MISSÃO EM SIDAR, de STEFAN WUL




STEFAN WUL
MISSÃO EM SIDAR
Trad.  Engº Gomes dos Santos

O primeiro livro de Ficção Científica (FC) que li foi o Admirável Mundo Novo; o segundo, O Planeta dos Macacos; e o terceiro, A Guerra dos Mundos. Porém, o autor de FC com que melhor e mais facilmente concordei, foi com Robert A. Heinlein... E, presentemente, retomei a leitura de Stefan Wul, que iniciei há anos atrás com A Pré-História do Futuro, mas que não é leitura que vou propor, que é, isso sim!, mais propriamente MISSÃO EM SIDAR, livro que estou a ler na tradução do Engº Gomes dos Santos. É uma novela ímpar que vale bem a pena duas ou três horinhas do nosso dia, pela sua lição de vida, pela sua fantasia, pela sua temática, e pelo seu evidente humanismo que é observado exatamente em dois robots que, em parte, também são protagonistas essenciais desta narrativa. 

"Lionel compreendeu que Marcial nada sabia sobre os Xressianos. 
– E se... – começou ele. 
Lembrando-se subitamente que Marcial não podia ouvi-lo devido à sua dupla enfermidade, ergueu a cabeça do companheiro de modo a que este pudesse ler nos seus lábios. 
– São aparelhos Xressianos – repetiu. – E se a ocupação Xressiana tiver sido antecipada! É bem possível! Há meses que não tenho notícias oficiais. 
– Não há tempo a perder – disse Marcial.  – Temos de nos meter ao caminho o mais depressa possível. Vou ser obrigado a mentir aosindígenas a fim de os fazer aceitar a minha partida. 
Os sidarianos pulavam excitados e interpelavam-se em frases entrecortadas pelo nervosismo, enquanto os cogumelos voadores desapareciam por trás da crista das montanhas. 
No momento em que Marcial se preparava para lhe falar, um enorme silvo encheu o céu, ao mesmo tempo que um novo aparelho fazia a sua aparição. Com o seu corpo circular e o reator vermelho-vivo circundado por um aro metálico, assemelhavam-se, com efeito, com um cogumelo. 
– ... Venenoso! – disse Lionel. É talvez a palavra que convém. 
Em vez de seguir os outros, o aparelho efetuou uma grande volta em torno da aldeia. 
Aproximava-se progressivamente do solo seguindo uma espiral imaginária. O barulho tornou-se ensurdecedor. Os sidarianos tapavam os ouvidos e saltavam em todas as direções como um rebanho tresmalhado. 
Alguns esconderam-se nas casas. A maioria fugiu ao acaso para a montanha. Viam-se saltar de rocha em rocha como cabras montesas e descer a toda a velocidade a vertente que ladeava a aldeia pelo lado sul. 
O aparelho estava tão próximo que a sua sombra onscurecia a praça. Duvidando de súbito das boas intenções dos Xressianos, Lionel agarrou no saco mortuário e na cabeça de Marcial, apanhou de passagem a arma e correu para fora da aldeia. Escondeu-se a duzentos metros por trás de um silvado." 
(Pág. 86)   

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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