10.31.2015

Grupos de Encontro




"Mas qual é a necessidade psicológica que atrai as pessoas para os grupos de encontro? Creio que é uma fome de qualquer coisa que a pessoa não encontra no seu ambiente de trabalho, na sua igreja, e com certeza também não na sua escola ou universidade nem mesmo, infelizmente, na moderna vida familiar. É uma fome de relações próximas e verdadeiras, onde sentimentos e emoções se possam manifestar espontâneamente, sem primeiro serem cuidadosamente censurados ou dominados; onde experiências profundas – deceções e alegrias – se possam mostrar; onde se arrisquem novas formas de comportamento e se levem até ao fim; onde, numa palavra, a pessoa atinja a situação onde tudo é conhecido e aceite, e assim se torne possível uma maior evolução. Parece ser esta a fome poderosa que se espera satisfazer através das experiências de um grupo de encontro." 



in CARL ROGERS
Grupos de Encontro
Trad. Joaquim L. Proença

AS HORAS DE IRAZ




AS HORAS DE IRAZ
L. Sprague de Camp
Trad. de Eurico da Fonseca

INTRODUÇÃO 

Que significam as iniciais "S. F."? Para os cultores tradicionais da Ficção Científica só há uma interpretação possível: "Science-Fiction" – um género literário em que não existem limites no tempo e no espaço. Tradicionalmente, também a S. F. deve produzir uma explicação científica – ou aparentemente científica – das coisas e dos factos que nela se descrevem ou sugerem. Mas o que é a ciência? Como prever o desenvolvimento científico? 
«Há mais coisas no céu e na terra do que imaginamos» – disse Shakespeare. Limitar a Ficção Científica ao campo da "ciência oficial" não é um processo lógico. Bem pelo contrário. Como poderia um homem do século XVI – mesmo um cientista do século XVI, mesmo um génio como Leonardo da Vinci – prever o aparecimento da fotografia, do cinema, do telefone, da rádio, da televisão, [do computador], uma vez que a ciência de então era fundamentalmente mecanicista, identificando a química com a magia e considerando a eletricidade com um fenómeno curioso, apenas curioso? 
Poderá amanhã a magia integrar-se na ciência? Poderá o domínio das coisas da natureza (e o seu conhecimento) seguir caminhos absolutamente diferentes dos que hoje são tidos por lógicos? Essa é a interrogação a que pretende responder a nova S. F. – a Speculative-Fiction. Alguns dirão que ela se situa muito perto da fantasia. Mas a distinção é fácil. Os contos de fadas distraem e encantam. Não encerram mensagens. 
Depois das obras de Bradbury – que são pura ficção especulativa e que ninguém confundirá com a simples fantasia – a Coleção Argonauta tem publicado outras, que bem ilustram os novos rumos da S.F.: a curiosa e simbólica Estrada da Glória, de Robert Heinlein; a célebre Agência de Mágicos (Magc, Inc.) do mesmo autor (volume em que se inclui o texto fundamental: Waldo). Agora tem-se As Horas de Iraz, obra magnífica de um magnífico autor: L. Sprague de Camp. A ironia e o simbolismo juntam-se a cada passo de uma narrativa que decorre no mundo onde as nossas almas teriam existido, antes de descerem ao mundo mecânico em que vivemos. Mas a análise crítica de Sprague de Camp une esses dois mundos, nos seus defeitos e nas suas qualidades.    

10.28.2015

DANIEL DRODE




A SUPERFÍCIE DO PLANETA
Daniel Drode
Trad. Mário Henrique Leiria

"Hoje renunciei a atravessar a margem; custa a suportar este tempo bizarro em que o futuro e o passado estão juntos num mesmo plano com o presente. Chego a crer com satisfação que este tempo é simples, mas não me adapto a ele; sem dúvida é lógico, mas não para mim. Para dizer a verdade, já não vejo qual será a minha condição normal. O sistema aparece-me agora, num retrocesso a que a continuação da minha vida me força, aparece-me cada vez menos atraente. 
No começo da tempestade que rola sobre a minha ilha, tive um pesadelo que atribuí ao calor. Contudo estava acordado. Sim, engano-me ao pensar num sonho, isto tinha antes a consistência da visão. Uma visão, eis a palavra.  
A maquinação mostrou-se-me sob a forma de um engenho das eras bárbaras. Tudo o que existia com a finalidade de reduzir a espessura da vida subterrânea: a neutralização dos écrans visuais, a fechadura das portas, etc., imaginei-me, para produzir estes acidentes, um cilindro de carrilhão. Triste mecânica entre muitas outras, que fazia soar o tempo do alto dos campanários em forma de tabernáculo. Uma minuciosa desordem de pontas que batiam uma nota a intervalos regulares. 
O que nos criou devia ser a imagem destes cilindros: complicado mas preciso. Esgoto toda a comparação se acrescentar que uma mosca errando à volta do cilindro não compreendia a maquinação porque a música a atordoava – do mesmo modo éramos entorpecidos pela visão. Então, porquê não supor mais malignidade no detalhe? 
Mergulho no detalhe: o écran do fone não se teria apagado num dado instante, de um modo irreversível, mas de maneira brusca: ele teria funcionado em intermitências, ora. E isto com o fone e com a porta. Estas paragens e regressos ao movimento alternando-se confundiam-se na sua consequência: o recurso à visão, único elemento indefetível. 
Se pretender um corolário mais vasto tenho medo de mim mesmo. Assim – assombrosa possibilidade! – pode ser que tivesse conhecido Rana pelo écran e que em seguida a tivesse esquecido. É-me permitido crer, do mesmo modo, que o fone tivesse sido desligado sem que isso deixasse em mim um traço de despeito. Com tanta certeza, avançarei nisto: a porta ser aferrolhada nalguns momentos."
(Págs. 130/131)   

SIMONE DE BEAVOIR




"«Os nivelamentos são sempre por baixo», explicava-me ele. «Não conseguirás fazer subir a massa: acabarás somente por suprimir as elites.»"

In SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros 

SIMONE DE BEAUVOIR




In SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros 

"Ela sorriu:
– Gosto de chocolate e de bicicletas bonitas. 
– É melhor que nada.
Olhou de novo os seus dedos; ficara de repente com um ar triste. 
– Quando era pequena, acreditava em Deus, era magnífico; havia qualquer coisa que me era exigida a cada instante; então parecia-me que eu devia de facto existir. Era uma necessidade. 
Sorri-lhe com simpatia. 
– Creio que o seu problema é imaginar que as suas razões de viver deviam cair do céu já prontas: somos nós que as temos de criar!"

In SIMONE DE BEAUVOIR
O Sangue dos Outros
(Pág. 95)

DOSTOIEVSKI




"Todos somos responsáveis por tudo perante todos."

DOSTOIEVSKI

10.20.2015




"A geração é uma situação como a classe ou uma nação e não uma disposição." 

in SIMONE DE BEAUVOIR
A Força da Idade
Trad. Maria Auta Monteiro Costa
(Pág. 364) 

O PALIMPSESTO, de CHARLES BAUDELAIRE




CHARLES BAUDELAIRE
Paraísos Artificiais


O PALIMPSESTO

«Que é o cérebro humano senão um palimpsesto imenso e natural? O meu cérebro é um palimpsesto e o vosso também, leitor. Inúmeras camadas de ideias, de imagens, de sentimentos caíram sucessivamente sobre o vosso cérebro, tão suavemente como a luz. Cada uma parecia sepultar a anterior. Mas, na realidade, nenhuma pereceu.» Todavia, entre o palimpsesto que se apresenta, sobrepostas uma na outra, uma tragédia grega, uma lenda monástica e uma história de cavalaria, e o palimpsesto divino criado por Deus, que é a nossa incomensurável memória, há a diferença de que no primeiro existe como que um caos fantástico, grotesco, uma colisão entre elementos heterogéneos, ao passo que no segundo a fatalidade do temperamento põe forçosamente uma harmonia entre os elementos mais díspares. Por mais incoerente que seja uma existência, a unidade humana não é perturbada. Todos os ecos da memória, se se pudessem acordar simultaneamente, formariam um concerto, agradável ou doloroso, mas lógico e sem dissonâncias. 
Muitas vezes, viram acender-se no cérebro todo o teatro da sua vida passada. O tempo foi aniquilado, e alguns segundos bastaram para conter uma quantidade de sentimentos e imagens equivalentes a anos. E o que há de mais singular nesta experiência, que o acaso preparou mais de uma vez, não é a simultaneidade de tantos elementos que foram sucessivos, é a reaparição de tudo o que o próprio ser já não conhecia, mas que é no entanto obrigado a RECONHECER como seu. O esquecimento é apenas momentâneo; e em tais circunstâncias solenes, na morte talvez, e pelo ópio, todo o imenso e complicado palimpsesto da memória se desenrola de uma só vez, com todas as suas camadas sobrepostas de sentimentos defuntos, misteriosamente embalsamados naquilo a que chamamos esquecimento. 
Um homem de génio, melancólico, misantropo, querendo vingar-se da injustiça do seu século, lança um dia ao lume todas as suas obras ainda manuscritas. E como lhe censurassem este terrível holocausto feito ao ódio, que, aliás, era o sacrifício de todas as suas próprias esperanças, respondeu: «Que importa? O que era importante, era que estas coisas fossem CRIADAS; foram criadas, logo SÃO.» Atribuía a toda a coisa criada um caráter indestrutível. Como esta ideia se aplica, mais evidentemente ainda, a todos os nossos pensamentos, a todas as nossas ações, boas ou más! E se nesta crença há qualquer coisa de infinitamente consolador, no caso em que o nosso espírito se volta para essa parte de nós próprios que podemos contemplar com complacência, não há também qualquer coisa de infinitamente terrível, no caso futuro, inevitável, que o nosso espírito se voltará para essa parte de nós próprios que só podemos enfrentar com horror? No espiritual, tal como no material, nada se perde. Do mesmo modo que toda a ação, lançada no turbilhão da ação universal, é em si irrevogável, abstraindo dos seus resultados possíveis, todo o pensamento é inapagável. O palimpsesto da memória é indestrutível. 
«Sim, leitor, inúmeros são os poemas de alegria ou de desgosto que se gravaram sucessivamente no palimpsesto do vosso cérebro, e como as folhas das florestas virgens, como as neves indissolúveis do Himalaia, como a luz que cai sobre a luz, as suas camadas incessantes acumularam-se e, cada uma de sua vez, são recobertas de esquecimento. Mas à hora da morte, ou na febre, ou nas indagações do ópio, todos esses poemas podem reganhar vida e força. Não estão mortos, dormem. Crê-se que a tragédia grega foi expulsa e substituída pela lenda do monge, e a lenda do monge pelo romance de cavalaria; mas não é assim. À medida que o ser humano avança na vida, o romance que, mancebo, o deslumbrava, a lenda fabulosa que, criança, o seduzia, murcham e obscurecem por si mesmos. Mas as profundas tragédias da infância – braços de crianças arrancados para sempre dos pescoços das mães, lábios de criança separados para sempre dos beijos das irmãs, – vivem sempre escondidas, sob as outras lendas do palimpsesto. A paixão e a doença não têm química com poder bastante para queimar essas imortais impressões.»           

CHARLES BAUDELAIRE
Paraísos Artificiais
Trad. José Saramago
(Págs. 154/5/6)
Capítulo VIII 
VISÕES DE OXFORD

A POMBA




PATRICK SÜSKIND
A Pomba

"Há perguntas cuja resposta se adivinha na própria ocasião em que perguntam. E há pedidos cuja perfeita inutilidade se torna óbvia quando se pedem de viva voz e se olha a outra pessoa nos olhos. Jonathan olhou para os olhos enormes e sombrios da senhora Topell e soube instantaneamente que tudo era em vão, improfícuo, desesperado. Soubera-o antes, enquanto balbuciara a sua pergunta soubera-o, sentira-o no corpo, na queda do nível da adrenalina no sangue, ao consultar o relógio: dez minutos! E pareceu-lhe  que também caía e se afundava como se estivesse sobre um pedaço de gelo mole, prestes a derreter-se. Dez minutos! Quem seria capaz de coser aquele tremendo buraco em dez minutos? Ninguém. Absolutamente ninguém. E não se podia remendar o buraco na coxa. Era preciso pôr um reforço por baixo, e isso significava despir as calças. Mas aonde ir, entretanto, buscar outras calças, em plena secção de produtos alimentares do Bom Marché? Despir as calças e ficar ali em cuecas...? Inútil. Completamente inútil." 

in PATRICK SÜSKIND
A Pomba
Trad. Teresa Balté
(Pág. 63)



"O hábito cria raízes e toma a forma de instinto."

In DANIEL DRODE (Prémio Júlio Verne 1959)
A Superfície do Planeta
Trad. Mário Henrique Leiria
(Pág. 24)



"No diário de Delacroix, um provérbio sobre os críticos que se permitem eles próprios criar: «O que persegue duas lebres, nenhuma alcança.»"

In ALBERT CAMUS
Primeiros Cadernos
Caderno nº 6 - Abril 1948 / Março 1951
(Pág. 450)

10.12.2015

Apollinaire





"Sou a Lorette
Toutinegra negra
Sempre a pipilar baixinho
Senhor largue os livros que eu dou-lhe carinho."

In GUILLAUME APOLLINAIRE
A Mulher Sentada
(Costumes e Maravilhas do Tempo – Crónica de França e da América)
Trad. Luiza Neto Jorge
(Pág. 59) 

A MÃO ESQUERDA DAS TREVAS, de URSULA K. LeGUIN




URSULA K. LeGUIN
A Mão Esquerda das Trevas

"– Que lugar é este? – inquiriu, olhando em volta. 
– O refúgio no interior da tempestade de neve – informou Hode. – Nós, os que nos suicidamos, permanecemos aqui. Agora, poderemos reatar os nossos votos. 
– Não quero ficar aqui – retorquiu Getheren, aterrorizado. – Se me tivesses acompanhado às terras do sul, poderíamos continuar juntos sem que os outros soubessem da transgressão. Mas preferiste quebrar os nossos votos, destruindo-os juntamente com a tua vida. E agora não consegues pronunciar o meu nome. 
E era verdade. Hode moveu os lábios repetidamente, mas não pode repetir o nome do irmão. 
De súbito, precipitou-se para ele e segurou-lhe a mão esquerda, porém Getheren desprendeu-se e correu, agora para o sul, não tardando a deparar-se-lhe uma muralha de neve que tombava com intensidade. Assim que a transpôs, voltou a cair de joelhos, perdendo as faculdades de movimento. 
No nono dia após a partida em direção ao Gelo, foi encontrado no seu Domínio por habitantes do Lar Orhoch, situado a nordeste de Shath, os quais o não reconheceram, pois Getheren apresentava o rosto ulcerado pela congelação e estava impossibilitado de pronunciar palavra. Não obstante, foi-se restabelecendo satisfatoriamente, à parte a mão esquerda, que teve de ser amputada. Apressou-se a negar que fosse Getheren, com o alguns afirmavam quando julgaram descortinar traços similares aos do rapaz que abandonara o Lar de Shath devida à perseguição dos companheiros, e asseverou que se chamava Ennoch e procedia das terras do sul. 
Certo dia em que percorria a planície de Rer, Ennoch, que entretanto, envelhecera, encontrou um homem da sua região natal e perguntou-lhe como se apresentava o panorama geral no condomínio de Shath. O outro replicou que tudo definhava gradualmente e ficou assombrado quando o interlocutor se identificou como sendo Getheren de Shath, explicando o que lhe sucedera no Gelo e quem encontrara lá. Por fim, recomendou ao outro: 
– Quando regressares, comunica que recuperei o nome e a minha sombra. 
Poucos dias mais tarde, adoeceu e expirou. O viajante transmitiu as suas palavras aos habitantes de Shath, e consta que a partir dessa data o Domínio voltou a prosperar como dantes." 

In URSULA K. LeGUIN
A Mão Esquerda das Trevas
Trad. Eduardo Saló
(Págs. 23-24)  

O MUNDO DE ROCANNON, de URSULA K. LeGUIN




URSULA K. LeGUIN
O Mundo de Rocannon
Trad. Eurico da Fonseca

Como se pode diferenciar a lenda do facto nesses mundos que estão a tantos anos de distância ? – planetas sem nome, a que a sua gente chama apenas O Mundo, planetas sem história, onde o passado é feito de mito e onde um explorador ao voltar descobre que as suas ações de alguns anos atrás se tornaram nos atos de um deus. O irracional obscurece esse abismo do tempo atravessado pelas nossas naves que se deslocam à velocidade da luz, e nas trevas a incerteza e desproporção crescem como ervas daninhas. 
Ao termos de contar a história de um homem, um vulgar cientista da Liga, que foi a um desses mundos mal conhecidos e sem nome não muitos anos atrás, sentimo-nos como um arqueólogo entre ruínas milenárias, procurando abrir caminho entre maciços de folhas asfixiadas, flores, ramos e trepadeiras para alcançar a súbita e brilhante geometria de uma roda ou de um cunhal polido, entrando agora numa porta vulgar e ensolarada para encontrar no interior as trevas, o tremular impossível de uma chama, o refulgir de uma joia, movimento meio deslumbrante de um braço de mulher. 
Como se poderá distinguir o facto da lenda, a verdade da verdade?
Através da história de Rocannon, a joia, o refulgir azulado por um momento, regressa." 

In URSULA K. LeGUIN
O Mundo de Rocannon
(Pág. 5)   

MARAGARITA E O MESTRE, de MIKHAIL BULGAKO




MIKHAIL BULGAKOV 
Margarita e o Mestre

"O comportamento do gato deixou Ivan tão estupefato que o poeta ficou pregado ao solo junto a um armazém de mercearias, à esquina. E mais atónito o deixou ainda o comportamento da condutora. Assim que viu o gato tentando subir para o elétrico, a mulher gritou, tremendo de raiva: 
– Aqui não são permitidos gatos! Rua! Saia ou chamo a milícia! 
A condutora e os passageiros mostraram-se estupefatos não tanto pela situação em si – um gato subindo para o elétrico! – que não seria muito de estranhar, mas sobretudo pelo facto de o gato querer pagar a passagem! 
O gato, como se verificou, não era solvente como um animal disciplinado. Ao primeiro grito da condutora, parou, desceu do estribo e sentou-se na paragem, alisando os bigodes com a moeda. Mas quando a condutora tocou a campainha e o elétrico se pôs em andamento, o gato procedeu como qualquer pessoa que é expulsa de um transporte público mas que, no entanto, tem, forçosamente, de chegar ao seu destino. Deixando que o elétrico e os dois atrelados avançassem, o gato saltou para a parte de trás do último atrelado, cravou as unhas num tubo de borracha que passava pelo lado exterior e lá foi, poupando assim o preço da viagem. 
Preocupado com o miserável gato, Ivan quase perdera o principal culpado – o professor. Felizmente ainda não conseguira fugir. Ivan avistou a boina cinzenta no mais denso da multidão no cruzamento com a Bolshaya Nikitskaya ou com a Rua Herzen. Num abrir e fechar de olhos Ivan chegava lá. Mas o sujeito escapou-se-lhe. O poeta tentou caminhar mais depressa; rompeu mesmo, em trote, empurrando os outros transeuntes. Mas não conseguia aproximar-se nem um centímetro sequer do professor. 
Perturbado como estava, Ivan, no entanto, admirava-se com a fantástica velocidade da caçada. Vinte segundos haviam decorrido e já Ivan Nikolayevich, depois de passar pela Porta Nikitsky, ficava ofuscado pelas luzes da Praça Arbat. Mais uns segundos e mergulhou em qualquer ruela escura com passeios esburacados onde caiu e magoou um joelho. Mais outra rua movimentada e brilhantemente iluminada – a Rua Kropotkin – depois de uma viela, a seguir a Ostozhenka e mais uma viela, medonha, imunda e fracamente iluminada. E foi aqui que, por fim, Ivan Nikolayevich perdeu o homem que perseguia tão desesperadamente. O professor desaparecera. 
Ivan ficou desconcertado, mas não por muito tempo, porque, de súbito, soube que o professor deveria estar no nº 13 e precisamente no apartamento 47. 
Entrando de rompante, Ivan Nikolayevich voou até ao segundo andar, encontrou imediatamente o apartamento e tocou a campainha, impaciente. Não teve de esperar muito tempo. A porta foi aberta por uma rapariguita dos seus cinco anos que imediatamente se retirou para qualquer parte, sem fazer quaisquer perguntas ao visitante. 
No salão imenso, pessimamente conservado, fracamente iluminado por uma minúscula lanterna de carbono, encontrava-se uma arca enorme, chapeada de ferro. Da parede pendia uma bicicleta sem pneus. E numa prateleira, por sobre os cabides para a roupa, estava um boné de inverno com as compridas abas para as orelhas pendendo. Atrás de uma das portas, uma ressonante voz de homem declamava com irritação qualquer coisa em verso num aparelho de rádio."

In MIKHAIL BULGAKOV 
Margarita e o Mestre
Tradução de Jorge Feio
(Págs. 77 e 78)  

MISSÃO EM SIDAR, de STEFAN WUL




STEFAN WUL
MISSÃO EM SIDAR
Trad.  Engº Gomes dos Santos

O primeiro livro de Ficção Científica (FC) que li foi o Admirável Mundo Novo; o segundo, O Planeta dos Macacos; e o terceiro, A Guerra dos Mundos. Porém, o autor de FC com que melhor e mais facilmente concordei, foi com Robert A. Heinlein... E, presentemente, retomei a leitura de Stefan Wul, que iniciei há anos atrás com A Pré-História do Futuro, mas que não é leitura que vou propor, que é, isso sim!, mais propriamente MISSÃO EM SIDAR, livro que estou a ler na tradução do Engº Gomes dos Santos. É uma novela ímpar que vale bem a pena duas ou três horinhas do nosso dia, pela sua lição de vida, pela sua fantasia, pela sua temática, e pelo seu evidente humanismo que é observado exatamente em dois robots que, em parte, também são protagonistas essenciais desta narrativa. 

"Lionel compreendeu que Marcial nada sabia sobre os Xressianos. 
– E se... – começou ele. 
Lembrando-se subitamente que Marcial não podia ouvi-lo devido à sua dupla enfermidade, ergueu a cabeça do companheiro de modo a que este pudesse ler nos seus lábios. 
– São aparelhos Xressianos – repetiu. – E se a ocupação Xressiana tiver sido antecipada! É bem possível! Há meses que não tenho notícias oficiais. 
– Não há tempo a perder – disse Marcial.  – Temos de nos meter ao caminho o mais depressa possível. Vou ser obrigado a mentir aosindígenas a fim de os fazer aceitar a minha partida. 
Os sidarianos pulavam excitados e interpelavam-se em frases entrecortadas pelo nervosismo, enquanto os cogumelos voadores desapareciam por trás da crista das montanhas. 
No momento em que Marcial se preparava para lhe falar, um enorme silvo encheu o céu, ao mesmo tempo que um novo aparelho fazia a sua aparição. Com o seu corpo circular e o reator vermelho-vivo circundado por um aro metálico, assemelhavam-se, com efeito, com um cogumelo. 
– ... Venenoso! – disse Lionel. É talvez a palavra que convém. 
Em vez de seguir os outros, o aparelho efetuou uma grande volta em torno da aldeia. 
Aproximava-se progressivamente do solo seguindo uma espiral imaginária. O barulho tornou-se ensurdecedor. Os sidarianos tapavam os ouvidos e saltavam em todas as direções como um rebanho tresmalhado. 
Alguns esconderam-se nas casas. A maioria fugiu ao acaso para a montanha. Viam-se saltar de rocha em rocha como cabras montesas e descer a toda a velocidade a vertente que ladeava a aldeia pelo lado sul. 
O aparelho estava tão próximo que a sua sombra onscurecia a praça. Duvidando de súbito das boas intenções dos Xressianos, Lionel agarrou no saco mortuário e na cabeça de Marcial, apanhou de passagem a arma e correu para fora da aldeia. Escondeu-se a duzentos metros por trás de um silvado." 
(Pág. 86)   

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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