1.22.2004

UM CANTO NA HISTÓRIA (DAS ESTÓRIAS)

“E nisto o rouxinol começou com os seus trilos.
– É ele! – exclamou a rapariguinha. – Oiçam, oiçam! E está mesmo ali.
E apontou para um passarinho cinzento, pousado em cima de um ramo.”


Numa altura em que a legislação sobre direitos autorais se apresta a alteração, quiçá corrigindo algumas incoerências que vigoram sobre o assunto, a Comunidade de Leitores de Portalegre (CLP) incentiva a sua actividade com uma proposta fora da polémica, visto que a escolha recai numa obra que há muito perdeu a pertinência dos ditos: o conto de Hans Christian Andersen, considerado como o primeiro na modalidade com abordagem ecológica – O Rouxinol do Imperador.
Mas talvez a preferência não seja tão ingénua com se supõe... Escolher um conto, um género cuja simplicidade em quase nada reflecte os tempos actuais, onde predominam as complexas questões da pedofilia e do segredo de justiça, o palimpsesto político do aborto e o referendo ilegal para o Tratado de Constituição Europeia, das greves e congelamento de salários da função publica, da retoma da economia e do défice democrático, da coesão social e da cidadania, aliás exemplarmente enunciado na última edição da Fonte Nova através do texto de Fernando Mano, é, ou pode ser, quase uma pincelada de inocência sobre as matérias publicáveis e em alternidade com elas.
Que surpreende pelo desprendimento tanto como pela acutilância, pelo floreado estilístico como pela sentença judiciosa acerca da dicotomia progresso tecnológico vs natureza, e que põe em evidência a atitude humana face à utilização e usufruto das máquinas, mas que inclusive nos propõe alguma reflexão sobre a necessidade de sonhar a beleza se queremos manter acesa a utopia da sanidade – mental e física. Até porque numa Europa em construção se perdermos a capacidade de ser felizes com as pequenas coisas como o canto das aves, é bem provável que fiquemos amputados da melhor forma de a reconhecer: na sua fantasia e cultura, milenar e reconhecidamente influente na civilização global que ora eclode.
Este sonho peregrino, que acalentou alquimistas na procura da pedra filosofal, como os gentis-homens na busca do Santo Gral, esclareceu as mentes juvenis à sombra dos embondeiros como os remansos dos cavaleiros andantes sob as ramagens dos carvalhos nas clareiras das florestas e das missões superiores, nos convés dos vapores como nos bancos dos combóios, na fuga às matemáticas dos currículos como no refúgio do quarto durante as festas sociais da família, e impregnou de irreverência o espírito abúlico das classes serviçais, dos mais fracos e geniais em sua modéstia de conhecer os mistérios indizíveis do paradeiro dos cantadores insubstituíveis, para os elevar à categoria de seres capazes de navegar ainda além de todas as Taprobanas, numa minúscula epopeia que é o segredo do encontro do homem consigo mesmo, aquele que resiste a perder-se no exclusivo desgaste do dia a dia. Ou salteou com algo de sublime a agressividade do seu compromisso com a sobrevivência...
Porque em matéria de sonho é sempre a realidade quem leva a palma! Portanto, e não obstante os boatos de fragilidade e reticente continuação, a CLP veio para ficar, assentando a tónica na periodicidade quinzenal, tendo já agendada, para além desta sessão, que decorrerá no dia 27 deste mês, terça-feira, às 17:30 horas, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal, também outra, mas de âmbito tematicamente mais alargado, que circunscreverá a Literatura Infantil, tentando assim determinar a pedra-de-toque daquilo que em princípio a todos foi comum e se alicerça no verbo que se fez génese, ao edificar o ser que a palavra não evita.
Mais: é bem provável que cada sessão venha a ter o aperitivo do vídeo sempre que haja algum filme baseado na obra sobre a qual ela recai, como é o caso de O Rouxinol do Imperador, possibilitando assim constatar quanto da disparidade nos suportes se avizinham e usufruem da mesma técnica e resultados narrativos, posto que é de há muito consciente entre nós que a complementar audiovisual cabe absolutamente na polissemia literária.
Concluindo, apraz-me convidar todos quantos já tenham lido, estejam a ler ou pretendam fazê-lo, a vir partilhar com a CLP as suas impressões sobre o conto citado, e testemunhar o deslumbramento dos imperadores face a um canto singelo mas universalmente reconhecido, deveras elogiado por intelectuais e artistas, mas cuja morada era sobretudo conhecida da menina que levava as sobras do palácio à sua avó. Que negava solidão das gerações e ditava com seu gesto que a esperança dos adultos se cimenta nos corações da criança que não adormeceu. Que está vigilante aos trilos das aves no crepúsculo da História!

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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