10.03.2012





A ILHA DA PAIXÃO
(a meus amigos portugueses)

Sempre que me perguntam: – «Qual o seu livro preferido»? Respondo: «A Ilha dos Demónios» – Margarida La Rocque. Voltam a perguntar: – «E porquê?»
Sem hipocrisias ou disfarces, muito comuns entre nós, escritores, enfrento toda a minha criação literária, a começar por Floradas na Serra e a percorrer contos, romances, teatro, ficção científica.
– «Sim, escolho a figura de Margarida La Rocque», porque para mim ela é um símbolo: o da força da paixão que desencadeia determinadas mulheres que se transformam em perseguidas-perseguidoras. É a paixão feminina em seu paroxismo.
Eu não teria a pretensão de dizer, como Flaubert disse de Madame Bovary – «Margarida Rocque sou eu.» Confesso que A Ilha dos Demónios foi escrito quando eu vivia em grande sofrimento. Como acontece a muitas pessoas, desci em vida aos infernos. E Margarida foi, por esse motivo, o livro de maior violência interior, por mim escrito. Nele analisei a paixão feminina em todo o seu desvario. Se Madame Bovary deu um tipo de neurose, hoje chamado pelos clínicos de bovarismo, Margarida é a “neurose da paixão”. Àquela época em que se passa o romance, a meio do século XVI, as angústias emocionais eram vividas em imagens. Os demónios de Margarida também afligiam outras personagens do tempo, quando as mulheres baixavam os véus ao confessionário, para confessar que estavam grávidas do demónio. Há várias explicações para os duendes que circulam em torno de Margarida. A lebre falante seria seu subconsciente? A Dama Verde seu ciúme? O Cabeleira a grande cabeça sem corpo, o desejo oculto de uma escapada ébria para o sobrenatural, que a livrasse de suas obsessões? São conjeturas válidas. Mas eu não arriscaria dizer que a interpretação foi minha. Sem dúvida, escrito em 1948, o livro precedeu, de mais de vinte anos, o realismo fantástico dos latino-americanos, escritores entre os quais sobressai um Garcia Marquez. Já era, entretanto, o realismo fantástico em toda a sua plenitude. Com o correr do tempo, A Ilha dos Demónios – Margarida La Rocque – foi ganhando mundo. Tornou-se livro traduzido até no Oriente; agora entra no Canadá e na Itália.
Um dos aspetos curiosos: a discussão entre frades de um convento, no rio: Margarida La Rocque podia receber a absolvição?
Outro, também estranho: Às quatro da madrugada o telefone toca, à mesa-de-cabeceira.
– É Dinah Silveira de Queiroz?
– Sim… o que quer?
– Não posso dormir pensando no seu livro. Agora minha vingança é… que a senhora não dormir também.
Dormi mansamente. Acho que até sorria, dormindo. Seria má? Não, o primeiro desejo de um escritor é do que acreditem em seus personagens ou fantasmas.
Ainda um resto de confissão: se não houvesse escrito este livro, com toda a certeza iria, sem resultados, frequentar psicanalistas. Todo o amargor que senti se foi com ele. E dele saí plácida e livre de angústias, para sempre.
Oferecendo-o ao público português, que tanto estimo e admiro, eu desejo que ele saia da experiência do romance em paz e ternura. Ternura e paz que muito merece da amiga

                                                           DINAH SILVEIRA DE QUEIROZ



PREFÁCIO do livro A ILHA DOS DEMÓNIOS (Margarida La Rocque)
Dinah Silveira de Queiroz
Edição «Livros do Brasil» Lisboa

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