9.28.2015

O TEMPLO DO PASSADO




Jolt e Raol trabalhavam no laboratório. Massir estava sozinho, na cabina de rádio. A substituição de um cristal de silício e três fios consertados restabeleceram o contato. Massir ouviu a voz dos homens, fraca e cortada de parasitas. Esta voz dizia: 
«... considerada como perdida... F. 1313... perdida.... pesquisas abandonadas... F. 1313... abandonadas... » 
Quebrara-se o último elo. Massir sentiu-se só, mais só do que os companheiros, aos quais escondia verdade, arcando ele com todo o peso da cruel certeza. 
Suspirou, verificou a série de pilhas que asseguravam o funcionamento do aparelho e, com um toque do polegar, pôs em movimento o fio sem fim onde registara o seu apelo. «F. 1313 acidentado – impossível determinar a posição – Instrumentos inutilizados – três sobreviventes – F. 1313 acidentado...» 
Irrisórios e frágeis, estes fragmentos de frase voavam  sobre as ondas, procuravam o caminho por entre as tempestades cósmicas, saltavam dos astros mortos para os planetas povoados de monstros surdos, com uma probalidade pequena, minúscula, de fazer vibrar o tímpano de metal dum recetor. 
Como os náufragos de outrora, que deitavam garrafas ao mar. Garrafas que se encontravam dois ou três séculos mais tarde ou nunca mais. 
Relanceou ainda os pinázios e os nós das correias que imobilizavam os aparelhos, afastando-se ao encontro dos outros. 

In STEFAN WUL
O Templo do Passado
(Págs. 53-54)



A MAGIA DO ROMANCE




A MAGIA DO ROMANCE


No deserto de onde sou e venho
Encontrarmo-nos é interdito, 
E públicas falas franzem o cenho
Se uma mulher, por não velada, for
A confidente da amada, cujo fito
Íntimo é das pétalas a flor... 

Porém, somos um caso de exceção:
Pus burca, só para visitar-te, 
E serei vendedora de arte.  

Trago comigo uvas orvalhadas, 
Estampas medievais, versículos
Com iluminuras bem pintadas,  
Figos, mel... além do chá prà infusão. 




E o brocado das almofadas
Foi testemunha das almas aladas
Rendidas, ternas e enlaçadas,
Que em espiral se soltaram do chão!  

Joaquim Castanho

9.21.2015

REGRESSO A ZERO

  


        "Espantado pelas técnicas evoluídas que lhe eram reveladas por tudo o que aprendia, Jâ estremeceu ao pensar que a única superioridade da civilização terrestre era talvez constituída pelos seus trabalhos pessoais sobre a função Z. Encarou os múltiplos aperfeiçoamentos que a resolução do problema de Stero poderia acrescentar ao poder científico dos seus inimigos. E esgotou-se a trabalhar para tentar estabelecer cálculos aceitáveis, embora falsos, cuja verificação absorvesse meses de estudo aos sábios do satélite. 


A sua solidão naquele país estranho era penosa. Não tinha ninguém em que pudesse confiar. Tem era simpático, mas Jâ desconfiava das suas possíveis reações quando lhe dissesse que não era um proscrito, mas sim um espião ao serviço da Terra. Quanto a Nira, que no entanto parecia ser-lhe dedicada de corpo e alma, a verdade era que não podia ter confiança nela. Era uma criatura demasiadamente fraca, e a sua total falta de instrução faria dela um peso morto. Decidiu continuar a sua luta solitária. 
Que diziam as últimas instruções que recebera da terrestre Flora que o tinha beijado na sua prisão? Primeiro: tentar, por todos meios, ocupar um alto posto no Governo da Lua. Segundo: recolher todas as instruções possíveis quanto aos meios previstos para atacar a Terra. Terceiro: tentar organizar um vasto sistema de sabotagem, destinado a aniquilar de um só golpe o poder ofensivo dos lunares. Quarto: em caso de fracasso da ordem número três, voltar à Terra tão discretamente quanto possível, para informar sobre as observações feitas. 
Em caso de impossibilidade (instrução nº 5), estudar a hipótese de atrair à causa terrestre os nativos da Lua, descendentes de exilados, contra os quais o Governo terrestre nada tinha. Fazer encarar – em caso de necessidade – aos exilados de há mais de 50 anos, a possibilidade de uma amnistia. Dividir dessa maneira a opinião dos lunares e organizar um golpe de Estado." 

In STEFAN WUL
Regresso a Zero
(Págs. 108-109)   

9.17.2015

ARMADILHA EM ZARKASS



Capítulo I

Pelo que sabemos, existe somente uma raça capaz de rivalizar com o Homem. Todos o compreenderam já: trata-se dos Triângulos. 
Para dizer a verdade, pouco se sabe destes seres. Nunca foram vistos em carne e osso (se é que eles têm mesmo carne revestindo ossos). Chamam-lhes Triângulos em virtude da forma das suas naves, essas grandes asas deltoides que vagueiam na constelação de Centauro e por vezes fazem incursões para os lados de Plutão, nos confins do nosso sistema. 
Não sei quais são as bases em que apoiam os sábios para afirmarem que os Triângulos vêm de Arcturus. Será bem esperto aquele que conseguir provar o contrário. 
Tentou-se outrora comunicar com eles por meio dos sinais clássicos e simples do Código Preliminar, o abecedário das relações com as raças desconhecidas. Nunca se dignaram dar resposta. 
Quatro ou cinco vezes tentaram os nossos foguetões alcançar os aparelhos. Mas não conseguiu apanhá-los, mantendo-se sempre a uma distância de 217 km. E porquê duzentos e dezassete quilómetros? Este número corresponde talvez a uma medida fixa do seu sistema, medida adotada como limite de prudência em relação a nós, Homens. A esta distância, desaparecem muito simplesmente com a brevidade de uma bolha de sabão que rebenta.
Supõe-se que eles passam pelo subespaço. Nisso parecem muito mais fortes do que nós. 
A partir de então cruzámos com eles sem os saudar. Penso que não dão qualquer importância a isso: mas há já quarenta anos que dura o arrufo. 
Pensa-se que esta situação não se pode prolongar. Há pouco tempo os habitantes de Zarkass tomaram uns ares fanfarrões e puseram-se a falar de uns aliados potentes e misteriosos. 
Não conhecem Zarkass? É o planeta número sete de Alfa-Centauro, com uma atmosfera parecida com a nossa, sendo a espécie dominante vagamente humanoide. Teoricamente livres, os zarkassianos estão, praticamente, sob o nosso protetorado. É por isso que as suas fanfarronices e os seus ares misteriosos nos não agradam nada. E nós sabemos pelos nossos agentes que os Triângulos aterram com regularidade em Zarkass desde há três meses. Nestas condições não é difícil adivinhar quais são os aliados dos zarkassianos.  
Que os Triângulos nos ignorem, enfim! Que se passeiem à vontade nos nossos dois sistemas, é demais! Embora isso seja muito desagradável...  mas que nos comam as papas na cabeça para concluírem acordos com Zarkass, isso é que não. 

Mas vejo agora que ainda não me apresentei: 
Chamo-me Laurent; nasci em Fobos há vinte e oito anos. Neste momento, estou em missão geológica em plena selva zarkassiana. Ora os meus conhecimentos de geologia chegam só para distinguir um tijolo duma pedra-pomes! 
Na realidade a minha missão é muito especial. A geologia serve somente de pretexto. Há quinze dias que patinho no lodo, correndo risco de apanhar febres. Finjo que coleciono pequenos calhaus, mas estou à espera. 
Mas à espera de quê? Do Triângulo que deve daqui a pouco despenhar nas colinas de Chatang, com toda a aparência dum acidente estúpido. Mas eu sei muito bem que os raios emitidos pelos nossos satélites desempenharão um papel muito importante nesse acidente. Que raios? Não me perguntem nada sobre isso. Não sou mais forte em eletrónica do que em geologia. Não me confiaram esta missão devido aos meus conhecimentos científicos, mas em razão do meu caráter enérgico e decidido, das minhas qualidades físicas de excelente animal de combate, por ser um duro... 
Obrigado! 
Quanto à eletrónica, forçoso vos será dirigirem-se ao ruivo grandalhão, que está além em baixo. É aquele que tem as botas mergulhadas no ribeiro e anda a apanhar seixos redondos. Dá-se a esse trabalho para enganar os carregadores indígenas.  

in STEFAN WUL
ARMADILHA EM ZARKASS
(Págs. 7, 8 e 9)

9.10.2015

MALTRATAR E ABANDONAR ANIMAIS É CRIME






MALTRATAR, ABANDONAR OU OBRIGAR A PASSAR FOME E SEDE OS ANIMAIS DEVE SER DENUNCIADO POR TODOS E TODAS

As pessoas que constatem casos ou situações em que os animais estejam a ser vítimas de agressão, abandono ou descuido no seu bem-estar, e que possam constituir crime, devem denunciá-los à GNR - Guarda Nacional Republicana -, através da linha SOS Ambiente e Território, ligando para o número azul 808 200 520, bem como através do site desta instituição. De salientar ainda, que a partir de julho, está igualmente ativa a campanha MAUS TRATOS A ANIMAIS SÃO CRIME, da PSP - Polícia de Segurança Pública -, no âmbito da qual esta entidade de segurança criou um email ( defesanimal@psp.pt ) e um número de telefone 21POLÍCIA ( 217654242 ), para os quais se podem (e devem) fazer igualmente denúcias ou pedir esclarecimentos acerca do assunto.

A SEBENTA






A SEBENTA

In illo tempore – No tempo em que eu andava em Coimbra, ainda a boa e imortal sebenta reinava em todo o seu esplendor! Eu nem fazia sequer ideia, ao chegar a Coimbra, do que vinha ser isso da sebenta; – mas industriado logo a tal respeito, vim a saber que era uma espécie de folhinha litografada, formato 8.º, que saía todos os dias compendiando a explicação do lente; que se chamava sebenteiro o que a redigia; que custava sete tostões por mês cada uma; que eram sempre três em cada ano, visto as cadeiras em cada ano serem três; e, finalmente, que, enquanto o lente explicava a lição para o dia seguinte, só o sebenteiro ouvia o lente, e que os mais, todos, e eu portanto, podiam muito bem ler o seu romance, fazer o seu bilhetinho e passá-lo, ou comentar os que vinham dos outros, – ou então, se preferíssemos, dormir ou fazer versos!

Não havia nada melhor! Além disso, algumas metiam também as suas piadas; outras davam caricaturas; – e sebenteiro havia que amenizava por tal forma aquela estopada, que até dava versos para o fado no fim da sebenta, e convocava os condiscípulos, em anúncios, para troupes* aos caloiros, ou outras pândegas!

As sebentas tinham em geral oito páginas, e cada um ia pelas suas ao cair da noite, e eram duas por noite; – mas, se o lente se tinha alargado na prelecção, ou o sebenteiro era maçador, às tais oito páginas acresciam outras, – e a esse suplemento, que era sempre amaldiçoado, chamava-se o resto!

(...)

Está pois a ver-se que a sebenta era uma instituição universitária; – mas ainda assim, coisa curiosa, cheirava sempre a contrabando; e tudo quanto de mais difícil podia desafiar na aula a habilidade de um cábula, se era chamado à lição, cifrava-se em manejar a sebenta com habilidade, de modo a que o lente a não visse... Ele bem sabia que ela estava lá; mas, enfim, era preciso esconder essa impostura, – e isso era um trabalhinho de prestidigitação, em que, se alguns eram eminentes, outros, coitados, eram uma lástima!

Bom estudante, em geral, era, pois, o que manejava a sebenta com habilidade, – e alguns havia de tal modo peritos que a sugavam sem lhe deixar uma gota, e o lente nem percebia... Olho na sebenta, olho no lente, passando-a através do livro se era preciso voltar as folhas, parecia até que nem tinha sebenta; e os outros menos habilidosos, esses, ou a extractavam em pedacinhos de papel onde só figura de apontamentos, ou então, resumiam nas margens o texto das páginas, e, deixando as margens fora de um livro, ou em geral de um folheto qualquer que se pudesse enrolar em forma de batuta, cantavam a sebenta como uns papagaios, – e ia-se a ver não sabiam palavra!

... Por me dizia uma vez o Manuel do Marco da Feira, dono de uma litografia, ao ouvir a Cabra tocar para as aulas no dia seguinte, que era o primeiro dia do ano lectivo:

– «Bem! Começa-se a estudar amanhã a maneira de se não estudar!»




* Caloiro, propriamente, é o estudante de preparatórios; mas também se dá este nome ao novato, isto é, ao estudante do 1º ano de qualquer Faculdade. Os novatos cortam o cabelo e fazem troça dos caloiros; e os do 2º ano (estes principalmente) fazem o mesmo aos novatos, e também aos caloiros. O novato repetente não é troçado nem troça.

A brincadeira das troupes é muito estúpida, e eu em poucas entrei. A mim cortou-me uma o cabelo à Porta de Minerva, uma vez que eu ia para casa ao anoitecer e não levava lunetas porque se me tinham partido esse dia no Seminário, numa refrega com os formigões (seminaristas) – e por isso só a vi quando lhe estava nas unhas, e o tesourão em cima da minha cabeça e à roda de mim a malta silenciosa dos embuçados, todos de moca para se eu resistisse.
(...) (...)

in TRINDADE COELHO, In Illo Tempore, pág. 145 e segs.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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