1.28.2011




Última Conferência

2
Fevereiro 2011
Fundação Calouste Gulbenkian
Auditório 2 18h00

Resumo da conferência

Poucas áreas do conhecimento trazem mudanças fundamentais tão rapidamente como a Ciência e a Medicina. A conferência proferida pela Doutora Judy Illes incidirá sobre as possibilidades (cada vez maiores) de se adquirirem assinaturas do “self” – dos genes ao cérebro – através do uso da ressonância magnética funcional bem como de outras neurotecnologias modernas.
Quais serão as implicações dos novos avanços para a compreensão das pessoas enquanto seres biológicos, para o bem-estar do cérebro e para a sociedade? As respostas a estas questões residem no delicado equilíbrio entre o conhecimento, a autonomia, os valores e a privacidade.

Judy Illes é Directora do Programa de Neuroética no Stanford Center for Biomedical Ethics. A sua investigação está focada nos desafios éticos, legais sociais e políticos nas neurociências.


Judy Illes is Professor of Neurology and Canada Research Chair in Neuroethics at the University of British Columbia. She is Director of the National Core for Neuroethics at UBC, and faculty in the Brain Research Centre at UBC and at the Vancouver Coastal Health Research Institute. She also holds affiliate appointments in the School of Population and Public Health and the School of Journalism at UBC, and in the Department of Computer Science and Engineering at the University of Washington in Seattle, WA. USA.

Illes' research focuses on the ethical, legal, social and policy challenges specifically at the intersection of the neurosciences and biomedical ethics. This includes studies on functional neuroimaging in basic and clinical research, regenerative medicine, dementia, addiction, and the commercialization of cognitive neuroscience. She also leads a robust program of research and outreach devoted to improving the literacy of neuroscience and engaging stakeholders on a global scale.

Illes is an internationally recognized author, lecturer, and mentor. She is a co-founder and Executive Committee Member of the Neuroethics Society, a member of the Dana Alliance for Brain Initiatives, and a former member of the Internal Advisory Board for the Institute of Neurosciences, Mental Health and Addiction (CIHR) and of the Institute of Medicine, Forum on Neuroscience and Neurological Disorders. Illes is editor of the American Journal of Bioethics (AJOB)-Neuroscience, co-Editor of Neuroethics: Defining the Issues in Theory, Practice and Policy (Oxford University Press, 2006) and the Oxford Handbook of Neuroethics (Oxford University Press, Forthcoming, 2010). Illes was co-Chair of the Committee on Women in Neuroscience (C-WIN) for the Society for Neuroscience (SfN) from 2005–2008, and now serves as Chair of the new Committee on Women in World Neuroscience (WWN) for the International Brain Research Organization (IBRO).

Tradução simultânea

INFORMAÇÕES:
Rita Rebelo de Andrade SERVIÇO DE CIÊNCIA
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna, 45 A – 1067-001 LISBOA
T. 21 782 35 25 E. scienceandart@gulbenkian.pt
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Videodifusão http://live.fccn.pt/fcg

1.27.2011


Millicent Gaika foi atada, estrangulada, torturada e estuprada durante 5 horas por um homem que dizia estar “curando-a” do lesbianismo. Por pouco não sobrevive

Infelizmente Millicent não é a única, este crime horrendo é recorrente na África do Sul, onde lésbicas vivem aterrorizadas com ameaças de ataques. O mais triste é que jamais alguém foi condenado por “estupro corretivo”.

De forma surpreendente, desde um abrigo secreto na Cidade do Cabo, algumas ativistas corajosas estão arriscando as suas vidas para garantir que o caso da Millicent sirva para suscitar mudanças. O apelo lançado ao Ministério da Justiça teve forte repercussão, ultrapassando 140.000 assinaturas e forçando-o a responder ao caso em televisão nacional. Porém, o Ministro ainda não respondeu às demandas por ações concretas.

Vamos expor este horror em todos os cantos do mundo -- se um grande número de pessoas aderirem, conseguiremos amplificar e escalar esta campanha, levando-a diretamente ao Presidente Zuma, autoridade máxima na garantia dos direitos constitucionais. Vamos exigir de Zuma e do Ministro da Justiça que condenem publicamente o “estupro corretivo”, criminalizando crimes de homofobia e garantindo a implementação imediata de educação pública e proteção para os sobreviventes. Assine a petição agora e compartilhe -- nós a entregaremos ao governo da África do Sul com os nossos parceiros na Cidade do Cabo:

https://secure.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/?vl

A África do Sul, chamada de Nação Arco-Íris, é reverenciada globalmente pelos seus esforços pós-apartheid contra a discriminação. Ela foi o primeiro país a proteger constitucionalmente cidadãos da discriminação baseada na sexualidade. Porém, a Cidade do Cabo não é a única, a ONG local Luleki Sizwe registrou mais de um “estupro corretivo” por dia e o predomínio da impunidade.

O “estupro corretivo” é baseado na noção absurda e falsa de que lésbicas podem ser estupradas para “se tornarem heterossexuais”, mas este ato horrendo não é classificado como crime de discriminação na África do Sul. As vítimas geralmente são mulheres homossexuais, negras, pobres e profundamente marginalizadas. Até mesmo o estupro grupal e o assassinato da Eudy Simelane, heroína nacional e estrela da seleção feminina de futebol da África do Sul em 2008, não mudou a situação. Na semana passada, o Ministro Radebe insistiu que o motivo de crime é irrelevante em casos de “estupro corretivo”.

A África do Sul é a capital do estupro do mundo. Uma menina nascida na África do Sul tem mais chances de ser estuprada do que de aprender a ler. Surpreendentemente, um quarto das meninas sul-africanas são estupradas antes de completarem 16 anos. Este problema tem muitas raízes: machismo (62% dos meninos com mais de 11 anos acreditam que forçar alguém a fazer sexo não é um ato de violência), pobreza, ocupações massificadas, desemprego, homens marginalizados, indiferença da comunidade -- e mais do que tudo -- os poucos casos que são corajosamente denunciados às autoridades, acabam no descaso da polícia e a impunidade.

Isto é uma catástrofe humana. Mas a Luleki Sizwe e parceiros do Change.org abriram uma fresta na janela da esperança para reagir. Se o mundo todo aderir agora, nós conseguiremos justiça para a Millicent e um compromisso nacional para combater o “estupro corretivo”:

https://secure.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/?vl

Está é uma batalha da pobreza, do machismo e da homofobia. Acabar com a cultura do estupro requere uma liderança ousada e ações direcionadas, para assim trazer mudanças para a África do Sul e todo o continente. O Presidente Zuma é um Zulu tradicional, ele mesmo foi ao tribunal acusado de estupro. Porém, ele também criticou a prisão de um casal gay no Malawi no ano passado, e após forte pressão nacional e internacional, a África do Sul finalmente aprovou uma resolução da ONU que se opõe a assassinatos extrajudiciais relacionados a orientação sexual.

Se um grande número de nós participarmos neste chamado por justiça, nós poderemos convencer Zuma a se engajar, levando adiante ações governamentais cruciais e iniciando um debate nacional que poderá influenciar a atitude pública em relação ao estupro e homofobia na África do Sul. Assine agora e depois divulgue:

https://secure.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/?vl

Em casos como o da Millicent, é fácil perder a esperança. Mas quando cidadãos se unem em uma única voz, nós podemos ter sucesso em mudar práticas e normas injustas, porém aceitas pela sociedade. No ano passado, na Uganda, nós tivemos sucesso em conseguir uma onda massiva de pressão popular sobre o governo, obrigando-o a engavetar uma proposta de lei que iria condenar à morte gays da Uganda. Foi a pressão global em solidariedade a ativistas nacionais corajosos que pressionaram os líderes da África do Sul a lidarem com a crise da AIDS que estava tomando o país. Vamos nos unir agora e defender um mundo onde cada ser humano poderá viver livre do medo do abuso e violência.

Com esperança e determinação,

Alice, Ricken, Maria Paz, David e toda a equipe da Avaaz

Leia mais:

Mulheres homossexuais sofrem 'estupro corretivo' na África do Sul:
http://oglobo.globo.com/mundo/mat/2009/12/09/mulheres-homossexuais-sofrem-estupro-corretivo-na-africa-do-sul-915119997.asp

ONG ActionAid afirma que "estupros corretivos" de lésbicas na África do Sul estão aumentando:
http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/lifestyle/2010/03/22/243215-ong-actionaid-afirma-que-estupros-corretivos-de-lesbicas-na-africa-do-sul-estao-aumentando

Acusados de matar atleta lésbica são julgados na África do Sul:
http://www.estadao.com.br/noticias/internacional,acusados-de-matar-atleta-lesbica-sao-julgados-na-africa-do-sul,410234,0.htm

1.20.2011

Pelas Cândidas Candidaturas, Lutar, Lutar

MOTE
Da doença em que ardeis
Eu fora vossa mezinha
Só com vós serdes a minha.

VOLTAS

É muito para notar
Cura tão bem acertada,
Que podereis ser curada
Somente com me curar.
Se quereis, Dama, trocar,
Ambos temos a mezinha:
Eu a vossa, e vós a minha.

Olhai que não quer Amor
(Por que fiquemos iguais),
Pois meu ardor não curais,
Que se cure o vosso ardor.
Eu cá sinto vossa dor
E se vós sentis a minha,
Dai e tomai a mezinha.

Luís Vaz de Camões

Andamos mais ou menos todos ao mesmo. Os que estão no poleiro tentam frustrar os outros, aqueles que os querem substituir nesse condomínio (fechado). Então os segundos copiam e imitam os primeiros, o que, indubitavelmente, os torna a todos iguais, pelo que deixa de importar quem sejam os que lá estejam ou os que para lá queiram ir. Incluindo os que se outorgam diferentes, tão diferentes, que até reivindicam serem iguais. Uns mais, claro está, outros menos, escuro fica, se a ONG se arrebita e o orçamento estica.
Mas tinto com branco dá palheto, se a taça se renova em verter inflamações a eito, nas articulações e esqueleto da nação, cujas fundações já gastas e corroídas pelos anos de amargura no vinagre das descobertas, põe o torna-viagem com um pé na chegada, outro na partida, empenando os quereres à rapaziada da galhofa nos banquetes da corte, nas arruadas prò boneco ou no diz-que-disse do bota-abaixo.
Portanto, conforme às peripécias do DNA lusitano, e suas tergiversões adversas, de quem em Alter se põe Real, eis que se uns copiam os demais, é o produto de ambos o que resulta, não a cópia mal-amanhada dos primeiros nos segundos, e vice-versa. É da física. Ou da química. Mas com toda a certeza é, é da matemática. E também da indústria – etílica e do café com leite, onde o galão pontua por meio quartilho. O que não é para descurar e vai da leitaria Garrett ao Cais do Sodré, como reiterava o estribilho da canção.
Principalmente agora, que já ninguém teme o bicho-papão da Guerra Fria, porventura efeitos (indiretos) do aquecimento global e das alterações climáticas, nem uma hipotética implementação do comunismo em Portugal – ai te arrenego: foices canhoto! –, com o sinal da cruz interrogo-me, pergunto-me, acerca de quais serão os benefícios que pode trazer ao país a recandidatura presidencial daquele que sem-dúvida contribuiu para alargar e aprofundar o buraco financeiro do BPN, via SLN e Oliveira e Costa, tendo lucrado com isso à velocidade de 140%, coisa que nem nas SCUTS se vai praticando sem autuação. Sim, que mais-valia reside na recondução ao cargo de pessoas que já provaram desconhecer as consequências das suas “ações” sobretudo desde que com elas aforre dividendos políticos, financeiros ou populistas?
Por outro lado, não basta epitetar de «medíocres» os portugueses que não estão de acordo connosco ou não subscrevem as nossas ideias, para que no momento seguinte fiquem e subscrevam, uma vez que se assim fora ainda não haveria escravos alforriados, considerando que a classificação foi lançada sobre eles com abundância e prodigalidade mal tentaram aprender a ler, sob a desculpa de que queriam louvar o Senhor através dos evangelhos, posto que sendo batizados neles não se podia evitar que também os propalassem semeando a Boa Nova. Isto para não olvidar igualmente aqueles e aquelas que tendo sido profs de profissão desbarataram a fé ao preço da palavra mijona, se encomendaram ao Acaso quando tinham responsabilidades sociais e educativas, hipervalorizando o saber fazer e o saber aprender/ensinar, e subvalorizando as suas componentes basilares que agora tanta falta nos fazem, o saber estar e o saber ser, prevenindo assim para a democratização e para a cidadania, coisas raras enfim, nas novas gerações, essas mesmas onde grassa a violência e a revolta suburbana, esquecendo que também eles seguiram o exemplo de quem os educou, faltando-lhe neste entremez quanto careciam a quem os tutelou, quem definiu e aplicou as diferentes políticas económicas, sociais e educativas que desde, pelo menos, 1987 têm vindo a ser gizadas e executadas por gente igualmente «medíocre», como se de simples planos de lavoura se tratassem. Não é Sr. Professor? Então sim, leva jeito: filho de peixe sabe nadar – Iô!!!!....
Aconselha o povo que é sábio para que não atire pedras ao ar quem tem telhados de vidro, até de telha mourisca que sejam, nos algarves de arribação, que os granitos se vêm das alturas muito pior hão de fazer que os granizos tempestuosos, e a esses não há cultura que resista, folhinha verde que aguente, maçaroca que fique de pé, fruta que não seja tocada. Apodrecida. Ou prestes a isso, que elas [as pedradas] não matam mas moem.
Por mim, tanto se me fazia que os portugueses entrassem num barco sem fundo como os jesuítas do Marquês, acontece todavia, que sou um deles, e daqueles que para uma junta médica me levam agora um quarto de quanto ganho, obrigando-me a poupar 25% da pensão, que é para aprender a respeitar as surpresas, e deixar-me de pensar que quando alguém já está tão abaixo do nível de pobreza nada de pior lhe pode acontecer, pois é mentira, que ainda lhe podem rapar o pouco que tem com uma destas, a dar provas do que é o apregoado Estado Social, esse que é defendido por todos os candidatos e praticado por ninguém. Provavelmente é a ver se uma pessoa desiste… de viver! O que tem lógica, sim senhora, para essa gente que já desistiu da democracia há muito, e a quem normalmente chamam políticos como eufemismo para outras classificações menos politicamente corretas.
Aliás, se averiguarmos quanto às datas e tempos de espera/demora que precederam esta extorsão ao abrigo da lei, poderemos facilmente deduzir que desta vez nem sequer foi a legislação e os legisladores, mas as eleições, e os rostos com nome que estiveram ligados ao processo, pois é preciso muita pontaria na baixeza para (em quatro meses) acertar precisamente na data em que entrariam em vigor as novas normas legais, demonstrando mais uma vez que o problema em Portugal não está nos Papas mas nas papinhas que os papistas vão cozinhando às gentes que não têm outro remédio senão engoli-las – e cara alegre!
Sendo caso este para atualizarmos quanto o Luís Vaz recomendou à Dama de seus ardores, a propósito da dívida, do défice, das dificuldades quotidianas e da crise: “Eu cá sinto vossa dor / E se vós sentis a minha, / Dai e tomai a mezinha .” O que me faz espécie… E como é que o Luís sabia que isso me ia acontecer? Ele há coisas levadas do Camões!

1.14.2011

BORIS GROYS VISITING TIME:THE RENEGOTIATION OF TIME THROUGH TIME-BASED ART
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN 19 JANEIR0 2011 18.00

A Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com o Centro de Filosofia das Ciências
da Universidade de Lisboa, promove um ciclo internacional de conferências intitulado Image in Science and Art.

No próximo dia 19 de Janeiro (quarta-feira) terá lugar no auditório 2 da Fundação Gulbenkian, às 18.00, a conferência Visiting Time: the Renegotiation of Time through Time-Based Art, proferida por Boris Groys*.
___________________________
Resumo da conferência:
Na nossa cultura temos dois modelos diferentes que nos permitem sincronizar o tempo de contemplação e o tempo da obra de arte em si: a imobilização da obra de arte e a imobilização do espectador. A imobilização da imagem no espaço expositivo, do texto no livro, de textos e imagens no ecrã do computador ou, por outro lado, a imobilização do espectador no teatro, no cinema, nos concertos, em frente à televisão, etc. Ambos os modelos falham, porém, no caso da chamada arte baseada no tempo, por exemplo, quando as imagens em movimento são transferidas para o espaço de exposição (museus, galerias, etc.). Neste caso, as imagens estão em movimento, mas os espectadores também continuam a mover-se. É óbvio que isso causa uma situação em que as expectativas contraditórias de uma visita a um cinema ou de uma visita a um museu, entram em conflito – o visitante é enviado para uma vídeo-instalação num estado de dúvida e desamparo. O tempo começa, pois, a ser experimentado, conceptualizado e tematizado de formas novas, através da renegociação da relação entre o tempo de contemplação e o tempo do processo contemplado.

Boris Groys é Professor de Estética, História de Arte e Teoria de Media na Hochschule fur Gestaltung. É também Global Distinguished Professor no Departamento de Estudos Russos e Eslavos na New York University. Dos livros que publicou destaca-se The Total Art of Stalin.


Ciclo de Conferências Image in Science and Art
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN AUDITÓRIO 2 18.00

Tradução simultânea

INFORMAÇÕES:
Rita Rebelo de Andrade SERVIÇO DE CIÊNCIA
FUNDAÇÃO CALOUSTE GULBENKIAN
Av. de Berna, 45 A – 1067-001 LISBOA
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Da Culpa Colectiva e da Melancolia Poética (quase) Ancestral
O Nosso Mundo

Eu bebo a Vida, a Vida, a longos tragos,
Como um divino vinho de Falerno!
Pousando em ti o meu amor eterno
Como pousam as folhas sobre os lagos…

Os meus sonhos agora são mais vagos…
O teu olhar em mim, hoje, é mais terno…
E a Vida já não é o rubro inferno
Todo fantasmas tristes e pressagos!

A Vida, meu Amor, quero vivê-la!
Na mesma taça erguida em tuas mãos,
Bocas unidas, hemos de bebê-la!

Que importa o mundo e as ilusões defuntas?...
Que importa o mundo e seus orgulhos vãos?...
O mundo, Amor!... As nossas bocas juntas!...

In Livro de Soror Saudade, Florbela Espanca


Mais ou menos de acordo com as irregularidades documentadas pelas instituições públicas, nomeadamente as que mais devem às utilizações externas e seus utilizadores, estamos todos de acordo: elas não prestam, estão em contínuo abuso de poderes, abordam as suas funções como se fizessem favores pessoais, afugentam aqueles com quem antipatizam e adulam os seus correligionários, nomeadamente os indivíduos da mesma cor política, do mesmo clube de quadrilhice, que frequentam a mesma paróquia ou com quem estabeleceram afinidades sexuais mais ou menos explícitas. É indubitável. Porém, depois com aquele tipo de descaramento que nem já os ciganos exibiam, no tempo em que o seu principal desporto era fazerem ciganices, vêm-nos pedir os votos, a colaboração, os pareceres e “aventuras” estatísticas, justificando a opção pelo programa e intenção de purgresso. São uma boa cambada, essa é que é essa, se dirá e dirão todos quantos não mamam da mesma teta, ou mamando sabem muito bem que isso é um roubo que estão a fazer aos demais, sejam eles seus conterrâneos, seus concidadãos, seus compatriotas, seus familiares, ou simplesmente seres da mesma espécie, dita humana, pese embora a animalidade grasse nela como em bem poucas outras espécies desse reino – o animal.
Portugal já passou por uma crise idêntica, em 83, dizem agora aqueles que querem branquear a situação degradante em que nos encontramos. Mentira, afirmam quantos não se deixam enganar pela intenção ilusionista e malfazeja dos mamões desta man/mada orçamental, escrita por linhas PEC. E ainda mal começámos a remover as frutas podres, as reinetas ronhosas, os elementos prejudiciais, os oportunistas e anibalistas do nosso infortúnio, eis que os usuais detentores da razão imaculada se levantam proclamando injustiça social, descriminação sobre quem é esperto e expedito, vociferando que o mal não está em ser-se rico, mas no contrário; nem em ser amigo do alheio, sobretudo se esse alheio estiver totalmente alheio das suas responsabilidades, consciência cívica, maturidade e participação democrática. Pois bem, o mal não está em sermos um país de ricos, mas num país de ricos que fizeram fortuna à custa dos seus concidadãos, normalmente defraudando-os, humilhando-os e difamando-os – os pobres. É por isso que falar de FMI e FEE os incomoda tanto? Lérias! E Medina Carreira que o diga, se não é verdade que desde 1960 que andamos de candeias às avessas sob o signo económico da torna baldia…
Portanto, não há quem se admire da utilização dada à crise: serve para despedir quantos ainda se mantinham a trabalhar, embora fizessem qualquer coisa útil, ou até produzissem bens e serviços vários – e necessários. Os outros podem ficar, esclarecem as administrações locais, regionais e centrais. Não fazem nada de jeito mas fazem número, o que dá sempre jeito, incluindo nas manifestações do regime. Servem o défice, estimulam a incompetência dos gestores públicos e governantes, desculpabilizam as más políticas quando acertam na aplicação e a boas quando falham na execução. E trazem os sindicatos, bares circundantes e restaurantes adjacentes bem-dispostos.
Do outro lado da barricada – ou será gralha… terá o cronista querido dizer “burricada”’? – há ainda quem se insurja contra a carestia. “Que está tudo a aumentar, que não pode ser, que não é comportável", e demais atoardas similares. Parece que é a primeira vez que isso acontece, pela admiração geral e trejeitos complementares… Não, não é! Talvez seja a primeira vez que obriga alguns a pensarem nisso, pois que era coisa que só acontecia aos outros, aos mais desfavorecidos, contudo foi o pão nosso de cada dia desde há muito tempo. Alguns não conheceram mesmo dias melhores. Andaram sempre em empregos de caca, OTJ e OTL, os POC e cursinhos da formação profissional, sem jamais saírem da cepa torta da precariedade. E não contam, esses? Contam. Pelo menos para quem sabe contar sem ser pelos dedos de carteirista por conta do Estado.
Portugal é assim, portanto, algo que se nos entranhou no mais recôndito da dúvida, que estranhamos, como à Coca-Cola do Fernando, mas a que não conseguimos pôr cobro. É uma doença crónica com oito séculos de História… E como Florbela, os seus sonhos, esses monumentais e instigadores de dar novos mundos ao mundo, são agora mais vagos, quais fantasmas tristes e pressagos, onde a antigas naus pousam como folhas sobre os lagos, muito distantes dos oceanos feéricos e desconhecidos, tenebrosos e habitados por aventesmas, mostrengos e Adamastores.
Os nossos maiores medos hoje estão entre nós, dentro de nós, não vêm de fora nem do nosso desconhecimento acerca do mundo, convivem connosco e ensombram-nos de desgraça: são a injustiça e a corrupção, a instabilidade financeira e a sabotagem estrutural, nomeadamente a que diz respeito ao desenvolvimento humano. Já nos desacreditámos tantas vezes que nem quando nos mentimos deixamos de ter esperança. Sabemos que nos estamos iludir, que nos mentimos descaradamente, sem remorso nem pudor, porém mantemo-nos fixos naquela fisga de aventura e ousadia onde tudo é alucinação. É como um vício, um vício de jogador que quase sempre perde, que perdeu todos os seus bens e valores, mas continua a jogar quanto lhe resta porque acha que a sorte lhe baterá à porta, na derradeira esperança, e então recuperará tudo quanto perdeu, aos poucos, de uma só vez. Enfim, será resgatado. Ele sabe que isso não existe. Nós sabemos que isso é impossível. Todavia, não nos submetemos à realidade e continuamos a acreditar. Pode ser num milagre, num salvador, num encoberto e desejado, chamado Sebastião ou não, que o que importa não está à vista mas nas profundidades recônditas e inauditas da alma – e da gesta lusitana. É a lusitania, ou mania de ser lusitano…
É uma melancolia colectiva, subscrita desde a ancestralidade afonsina, no alcantilado da história. Da História, que a letra grande enaltece a gesta… Talvez a rematar mais uma dinastia, um período sem modelo patriarcal, nem geração ínclita, propensa ao desgaste dos recursos como dos valores patrióticos. Em que essa geração, posta em sossego no aconchego do poder e benesses da corte, quer perpetuar os seus privilégios, ainda que sacrifique o futuro, aniquile o sentido de sustentabilidade do restante povo.
Devemos esperar o quê de uma situação nacional deste cariz? Nada. E porquê? Porque já chegámos ao nosso mundo, esse que também era o de Florbela, cheio de bocas unidas por uma língua líquida, a verter-se em ondas no acidulado oceano em que já naufragaram quase todas as soberanias.

1.11.2011


Incrível! No fim de semana mais de meio milhão de nós assinamos a petição para salvar as abelhas. Vamos conseguir 1 milhão pela proibição - assine agora, depois encaminhe para todo mundo

Caros amigos,



As abelhas estão morrendo em todo o mundo, colocando em perigo a nossa cadeia alimentar. Os cientistas culpam os agrotóxicos e quatro governos europeus já os proibiram. Se conseguirmos que os EUA e a União Europeia se unam à proibição, outros governos ao redor do mundo poderão seguir o exemplo e salvar da extinção milhares de abelhas. Assine a petição e encaminhe este apelo urgente:



Silenciosamente, bilhões de abelhas estão morrendo, colocando toda a nossa cadeia alimentar em perigo. Abelhas não fazem apenas mel, elas são uma força de trabalho gigante e humilde, polinizando 90% das plantas que produzimos.

Vários estudos científicos mencionam um tipo de agrotóxico que contribui para o extermínio das abelhas. Em quatro países Europeus que baniram estes produtos, algumas populações de abelhas já estão se recuperando. Mas empresas químicas poderosas estão fazendo um lobby pesado para continuar vendendo estes venenos. A única maneira de salvar as abelhas é pressionar os EUA e a União Europeia para eles aderirem à proibição destes produto letais - esta ação é fundamental e terá um efeito dominó no resto do mundo.

Não temos tempo a perder - o debate sobre o que fazer está esquentando. Não se trata apenas de salvar as abelhas, mas de uma questão de sobrevivência. Vamos gerar um zumbido global gigante de apelo à UE e aos EUA para proibir estes produtos letais e salvar as nossas abelhas e os nossos alimentos. Assine a petição de emergência agora, envie-a para todo mundo, nós a entregaremos aos governantes responsáveis:

https://secure.avaaz.org/po/save_the_bees/?vl

As abelhas são vitais para a vida na Terra - a cada ano elas polinizam plantas e plantações com um valor estimado em US$40 bilhões, mais de um terço da produção de alimentos em muitos países. Sem ações imediatas para salvar as abelhas, muitas das nossas frutas, legumes e óleos preferidos poderão desaparecer das prateleiras.

Nos últimos anos, temos visto um declínio acentuado e preocupante a nível global das populações de abelhas - algumas espécies já estão extintas e semana passada ficamos sabendo que algumas espécies nos EUA chegaram a 4% da população normal. Cientistas vêm lutando para obter respostas. Alguns estudos afirmam que o declínio pode ser devido a uma combinação de fatores, incluindo doenças, perda de habitat e utilização de produtos químicos tóxicos. Mas cada vez mais novos estudos independentes produzem fortes evidências que os culpados são os agrotóxicos neonicotinóides. A França, Itália, Eslovênia, e até a Alemanha, sede do maior produtor do agrotóxico, a Bayer, baniram alguns destes produtos que matam abelhas. Porém, enquanto isto, a Bayer continua a exportar o seu veneno para o mundo inteiro.

Este debate está esquentando a medida que novos estudos confirmam a dimensão do problema. Se conseguirmos que os governantes europeus e dos EUA assumam medidas, outros países seguirão o exemplo. Não vai ser fácil. Um documento vazado mostra que a Agência de Proteção Ambiental dos EUA já sabia sobre os perigos do agrotóxico, mas os ignorou. O documento diz que o produto da Bayer é "altamente tóxico" e representa um "grande risco para os insetos não-alvo (abelhas)".

Temos de fazer ouvir as nossas vozes para combater a influência da Bayer sobre governantes e cientistas, tanto nos EUA quanto na UE, onde eles financiam pesquisas e participam de conselhos de políticas agrícolas. Os reais peritos - apicultores e agricultores - querem que estes agrotóxicos letais sejam proibidos, a não ser que hajam evidências sólidas comprovando que eles são seguros. Vamos apoiá-los agora. Assine a petição abaixo e, em seguida, encaminhe este alerta:

https://secure.avaaz.org/po/save_the_bees/?vl

Não podemos mais deixar a nossa cadeia alimentar delicada nas mãos de pesquisas patrocinadas por empresas químicas e os legisladores que eles pagam. Proibir este agrotóxico é um caminho necessário para um mundo mais seguro tanto para nós quanto para as outras espécies com as quais nos preocupamos e que dependem de nós.

Com esperança,

Alex, Alice, Iain, David e todos da Avaaz

Leia mais:

Itália proibe agrotóxicos neonicotinóides associados à morte de abelhas:
http://www.ecodebate.com.br/2008/09/22/italia-proibe-agrotoxicos-neonicotinoides-associados-a-morte-de-abelhas/

O desaparecimento das abelhas melíferas:
http://www.naturoverda.com.br/site/?p=180

Alemanha proíbe oito pesticidas neonicotinóides em razão da morte maciça de abelhas:
http://www.ecodebate.com.br/2008/08/30/alemanha-proibe-oito-pesticidas-neonicotinoides-em-razao-da-morte-macica-de-abelhas/
Campos silenciosos:
http://www2.uol.com.br/sciam/reportagens/campos_silenciosos_imprimir.html

1.09.2011


Há Bens Que Vêm Por Mal

Já claro vejo bem, já bem conheço
Quanto aumentando vou ao meu tormento;
Pois sei que fundo em água, escrevo em vento,
E que o cordeiro manso ao lobo peço;

Que Aracne (1) [sou], pois já com Palas (2) teço;
Que a tigres em meus males me lamento;
Que reduzir o mar a um vaso intento,
Aspirando a esse Céu que não mereço.

Quero achar paz em um confuso Inferno;
Na noite, no Sol puro da claridade;
E o suave Verão no duro Inverno.

Busco em luzente Olimpo escuridade
E o desejado bem no mal eterno,
Buscando amor em vossa crueldade.

Luís Vaz de Camões

Seja dito, em abono da verdade, que de quanto tem sido afirmado durante esta (pré-)campanha eleitoral para as presidenciais, sobre as razões e negócios das figuras presidenciáveis na sorrelfa da legitimidade, é bem o espelho daquilo que somos, como país e como pessoas: não nos importamos nem surpreendemos com nenhuma esperteza saloia que esses indivíduos possam ter praticado, pois cada um de nós era bem capaz de ter feito o mesmo se tivesse tido oportunidade para isso, o que indicia que todos nós, aqueles que ainda somos honestos e francos, incorruptos e íntegros, é porque nunca estivemos em condições de poder agir conforme esses dois fizeram, ou outros que tais, que vão desde os deputáveis aos presindenciáveis, passando pelos ministeriáveis.


Sabemos agora que o passado não interessa, não possui a mínima importância para as eleições que aí vêm. Aquilo que uns fizeram como professores para depois colherem como primeiros-ministros, e de cujos proventos resultaram diversas «eleições», é lana caprina, bem como o que aqueloutros criaram como escritores seja de somenos se depois vier a ser utilizado como deputados. É extra ética e muito menos legítimo no futuro, do que seja o que for que tenham praticado, ou feito, no presente em relação ao ato dos portugueses quando vierem a decidir sobre o seu futuro – votando. Ou nosso futuro, vetando-o, e vedando-o – qual coutada de caça aos coitados – como território plausível só para aqueles de entre todos e todas as portuguesas que já nem se importam, no mais uma menos uma do tanto lhes faz.
É pedir ao lobo o cordeiro manso… Digamos, pensemos, concluímos, que o que conta é não o que os candidatos foram mas sim aquilo que querem e prometem vir a ser… Então, para que é que a Constituição admite que as pessoas com menos do que uma certa idade não possam concorrer às eleições? Porque não têm cadastro? Porque nunca trambicaram sob os auspícios abonatórios do erário público nem do favorecimento político? Se sim, poderemos concluir, sem qualquer margem de erro, que o melhor político para o mais importante cargo público, de acordo com as exigências de perfil ou habilitações para os órgãos colegiais de um órgão de soberania, é aquele que pior tiver sido no caminho gizado até lá chegar, cujo currículo equivalha ao pior cadastro, enfim, uma espécie de berlusconni para toda a vida!




Suponho que muitos portugueses haverá por esse mundão adentro que também estejam cansados de querer achar paz em um tão confuso Inferno, mas como igualmente devem ser vítimas do seu medo, reféns dessa inquietude que é o receio de perder o pássaro que está em sua mão, pelos dois que a voar vislumbra nesse Céu que não merecem, não mereço, não merece ninguém, que o Céu não foi feito para os comuns mortais, então admitem preferir um mal que conhecem a um bem desconhecido, legítima preferência, aliás perfeita, como nos casamentos disfuncionais e adúlteros a quem o divórcio assusta mais que o sofrimento num estado civil indubitavelmente desgastante – e estigmatizado.
Neste caso as divergências entre esquerda e direita, moderados e radicais, são apenas falácias com a finalidade de ludibriar o cidadão e o eleitorado. O que está em causa não são políticas nem projetos de sociedade, mas a idoneidade de quem nos represente e garanta o cumprimento da Constituição da República Portuguesa, nomeadamente no capítulo da harmonia entre os restantes órgãos de soberania que, como ninguém esquece, são só mais três: a Assembleia da República, o Governo e os Tribunais. Ora, refutar as questões sobre as ações lucrativas com inegável favorecimento e elevado teor tóxico para a banca portuguesa, de que isso não interessa e o que importa é o programa eleitoral deste ou daquele candidato, é tapar o Sol com a peneira e pretender a escuridade a enegrecer e conspurcar o puro Olimpo, quer dizer, aquele lugar cimeiro de uma nação onde só devem entrar os mais incorruptíveis, os mais sábios e os mais bem-intencionados dos seus cidadãos.





Além de ser uma forma de esconder a desonestidade que vinga entre as gentes e os agentes do mercado de valores em Portugal, esclarecendo que os acionistas não são todos iguais, e de acordo com o número de ações que disponham, pois uns podem comprar a 1€ aquelas ações a que outros só podem chegar por 2€, o que é, mesmo assim, uma vantagem muito grande em relação ao que os comuns compradores têm acesso, sendo ou não membros da Assembleia Geral, por 3€, no mínimo. Ou seja, há ações para quem emite ações a um preço, para quem aquele que as emite pretender favorecer, seja quem lhe der na gana ou a quem dever favores, e ações para o mercado, todas a preços diferentes e de acordo com o grau de desonestidade de quem integra as operações. É obra!
Mas, se calhar, estou enganado… A oferta de ações baratinhas que alguns gestores fazem aos seus amigos, não passam de presentes envenenados para detonar no futuro, a fim de frustrar e obscurecer a imagem cultivada de pessoa séria, com valores e cumpridora da palavra dada, a quem tentar romper o status quo de pobreza franciscana a que votou os seus contemporâneos, enquanto teve oportunidade de o fazer que, neste caso, vem desde 1987. Afinal, isto de Portugal ser um país onde há de tudo mas não para todos, é uma frase que ficou das palavras de ordem de atrasados e redundantes tempos, que ainda está em vigor, de óptima saúde e com genica suficiente para gerar outros tantos filhos e nobres guerreiros para contra a razão lutar, lutar, lutar!
Ah, calino: E viva a República!


(1) Aracne – imagem arquetípica da aranha, ou aquela que vai laboriosamente tecendo com os fios da sua teia a rede com que apanhar as incautas moscas, seu alimento.
(2) Palas – ou deusa Minerva, precisamente aquela que transformou a bordadeira Aracne em aranha por a ter desafiado, a ter invectivado a tecerem ao desafio.

1.08.2011


A Boa Nova!

O anibalismo, enquanto expressão renovada do moribundo chicoespertismo nacional, corrente filosófica e ideológica que vigorou em Portugal desde o tempo da Outra Senhora até ao encerramento da Oliveira e Costa, Betumes & Sucatas Várias, com implantes e tentáculos extensivos à bolsa e ao bolso de cada português (menos avisado), foi supervisionado pela redacção do Fala Barato e pitonisas adjacentes durante a sua primorosa desova de noventa, ano primeiro da década, que em Março, por exemplo, no seu nº 25, concluía A Fechar: «Em 19 de Julho de 1987, dia em que ganhou as últimas eleições, Cavaco Silva prometeu solenemente que tiraria Portugal da cauda da Europa. Promessa que tarda a cumprir, já passaram 929 dias e Portugal lá continua. Na cauda.» Ora, isto é um facto, não é opinião nenhuma, infelizmente, e é histórico. E também faz parte da saudade que os portugueses sentem daqueles tempos, em que o nosso país era dado como exemplo de qualquer coisa para os demais planetários e continentais.
Passaram-se anos e anos, de 87 a 2007, foram vinte, e daí a 2011 ainda abicha mais quatro. A sina portuga teve o seu reinado, longo mas merecido. Mais do que permitia a força humana, lá inflanou o estandarte, em que os anibalistas se empenharam e revezaram a erguer bem alto e vicejante, e eis que finalmente a inequívoca promessa do seu arauto e mentor se cumpriu: Portugal saiu da cauda da Europa, içou-se renovado, e entrou-lhe cu adentro, como um touro ibérico, um Miúra de primeiras águas, sempre faz para que as suas promessas não caiam em preservativo roto. Então que admiração é essa acerca da caca económico-social que nos assola?
O Fala Barato, nunca primou por acertar nos palpites e vatícinios, contudo devemos reconhecer-lhe a excepção, que taluda é, pois quem tanto porfiou nos resultados está enfim de parabéns, posto que o investimento lhe rendeu como sorte grande a quem joga todas as semanas e nem a terminação lhe teria ainda cabido entretanto, o que confirma plenamente quanto o povo diz a esse respeito: que não há mal que sempre dure, nem bem que nunca se acabe.
Portanto levantai hoje de novo o esplendor da esperança, que o anibalismo cumpre sempre o prometido, cumpriu e cumprirá, e depois não venham cá dizer como disseram sobre a crise, que foram apanhados de surpresa e que ninguém podia imaginar uma "catástrofe" desta natureza, tão prolongada e duradoura, e deixando tamanhas sequelas, que haverá certamente quem logo se apreste lampeiro e sorridente a mandá-los a todos bardamerda. E mais não digo, que quem tem aquilo que pediu, não lhe assiste direito a reclamação, seja por livro como por queixa verbal, porquanto ninguém duvida que esteja bem servido e melhor agasalhado.

1.02.2011


Entre as Germaníadas do Napumoceno

"A leitura do testamento cerrado do Sr. Napumoceno da Silva Araújo consumiu uma tarde inteira. Ao chegar à 150ª página o notário confessava-se já cansado e interrompeu mesmo para pedir que lhe levassem um copo d’água. E enquanto bebia pequenos golinhos, desabafou que de facto o falecido, pensando que fazia um testamento, escrevera antes um livro de memórias. Então o Sr. Américo Fonseca, dizendo estar habituado a longas leituras em voz alta, ofereceu-se para continuar a ler e o notário aceitou de bom grado porque a sua voz, de princípio forte e sonora a impor solenidade ao acto, fora enfraquecendo a pouco e pouco e tanto Carlos Araújo como as próprias testemunhas já faziam um grande esforço de ouvido para perceberem os murmúrios que lhe saíam da garganta. Mas Carlos sorrindo olhava o notário.
Logo de início, quando vira a enormidade do documento lacrado, sugerira não valer a pena perder tempo a ler todo aquele calhamaço, afinal estava-se quase em família, de qualquer modo entre gente que merecia toda a confiança, propunha por isso dar-se o testamento como conhecido, ele em casa faria calmamente uma leitura atenta e cuidada até porque era sua intenção respeitar escrupulosamente todas as vontades do defunto. Porém, o notário opusera-se firmemente a esta facilidade, a lei é a lei, existe para ser cumprida e se ela manda ler tudo há que ler tudo do princípio ao fim na presença de testemunhas e só por esta razão estavam presentes os Srs. Américo Fonseca e Armando Lima que afinal testificariam com as suas assinaturas terem acompanhado toda a leitura do documento. E aclarando a garganta iniciara a leitura às 14.45 mas pelas 16.10 confessava-se cansado e já estava sem voz. O Sr. Fonseca leu até às 17.20, após o que o Sr. Lima, sorrindo com humildade, pediu que lhe deixassem também ler um bocadinho. Coube-lhe por isso ler a parte manuscrita, mas numa letra tão miudinha que ele se engasgou por diversas vezes com as palavras e teve de voltar atrás e assim só cerca das 18.30 foi possível aos intervenientes aporem as respectivas rubricas em cada lauda do aludido testamento e ao notário ordenar o seu arquivamento no maço dos documentos competentes.


E após isso feito, todos os presentes apertaram a mão que contrafeito Carlos lhes estendia e apresentaram-lhe as suas mais sentidas condolências. Carlos fez das tripas coração e inventou forças para um sorriso e um porra para toda esta merda!, e agradecendo a todos pela maçada disse que dadas as circunstâncias teria que ser a tal Maria da Graça a pagar as despesas e achava bem que as testemunhas não ficassem sem receber a tarde perdida. Mas enquanto vestia o casaco deixou-se ir abaixo um momento e não conseguiu engolir um que se foda no inferno o velho danado!, que o Sr. Fonseca repreendeu com gravidade, mostrando-lhe, com um tímido sorriso, que aquelas palavras e modos desabridos não se coadunavam nem com o homem que ele era e que todos conheciam, nem com o luto carregado que ele trazia. De qualquer modo o falecido não se esquecera do sobrinho, sempre lhe deixava qualquer coisa, no fim das contas um óptimo lugar para o repouso na velhice. Por isso não lhe ficava bem ultrapassar o respeito devido a um tio defunto de quem de todas as formas sempre era herdeiro. Mas Carlos quase que o deixou com as palavras na boca, parecia agora mais pálido pela repreensão e dizendo que já perdera tempo de mais para o que ganhara acenou-lhes um até depois e correu para casa, merda para o luto, vestiu-se à civil."
– In O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano de Almeida


Quem a correr gosta dificilmente será correspondido, que o cru apressado muito cozido lhe ficará.








Se atendermos à disposição da estrutura narrativa, poderemos constatar, como está sempre presente em O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, que essa lembrança, esse registo tão comum a O Que Diz Molero, de Dinis Machado, cuja leitura continuamente nos reporta para o texto do qual a obra é apenas o palimpsesto mal esgalhado, se manifesta sobretudo pela duplicação do narrador, posto que sendo um é também dois, ou aquele propriamente dito, o omnisciente que tudo sabe e tudo vê, incluindo o interior das personagens, extensão particular do autor e sua consciência psicossocial, e o protagonista/personagem que (se d)escreve (n)a sua autobiografia, por Napumoceno ser e em caligrafia se ter feito aparecido e reconhecido no enredo como na narrativa. Porém, com uma impregnação suplementar do discurso narrativo brasileiro, literatura em que Germano de Almeida labirintara – obrigado Mia! –frequentemente, porquanto tinha/tem uma encorpada biblioteca de obras brasileiras, essencialmente romanescas, nas quais terá bebido copiosamente para a sua formação, o que faz dele, um português dos três costados, ou seja, de influência intercontinental, ou europeia, africana e brasileira, logo, sul-americana. O fato desta ser a sua primeira obra, mais ou menos notável, ou digna de nota, faz com que essa característica se evidencie sobremaneira, sendo efeito quase direto dessa aprendizagem de escrita que é a leitura, o contato com as obras dos demais na joeiração de um discurso próprio. Digamos, assim, que para além da pequena odisseia de Napumoceno, que viajou igualmente de ilha em ilha num arquipélago “desconhecido” para "nós outros", qual Ulisses doméstico, com gradual subtileza na observação do real, teve os seus encantos e desencantos derradeiros e até trágicos, impulsivos, como o que originou Maria da Graça, sua filha e herdeira; golpes de sorte, rasgos de genial negociante, empreendedorismo e iniciativa, como a compra por engano de 100 000 guarda-chuvas, fruto do acrescento de um zero na encomenda, ou guarda-sóis, uma vez que raramente havia precipitação em S. Vicente, e que originou ou foi a principal causa da sua fortuna, também ela parte integrante dessa navegação entre amores e desamores, uns reais, outros ideais, que faz dele o personagem de quem se fala para que melhor se mostre, o dito cujo, que até com a sua própria morte ironizou e do testamento fez pilhéria.
Ora, essa apresentação de personagens, não é tipicamente portuguesa, aonde a carambola nunca foi uma técnica muito praticada, a não ser pelo já citado Dinis Machado n’O Que Diz Molero, pois está mais próxima da literatura sul-americana, como no de muitos brasileiros (Machado de Assis, Graciliano Ramos, p.e.) –, em que os franceses usariam as cartas, como foi feito em As Cartas de Soror Mariana Alconforado, e os ingleses o diário de bordo, para descrever e evidenciar uma paixão arrebatadora e pecaminosa, do ponto de vista da escolástica medieval– ou até, em Gabriel García Márquez, como se exemplifica em Crónica de Uma Morte Anunciada ou Cem Anos de Solidão, entre as sagas individuais e familiares para o desbravamento de uma nova cultura – que, no caso cabo-verdiano, se intitula mulata e se expressa em crioulo. Diz respeito a uma poética narrativa, muito semelhante à imagética, e não à descrição ficcional e fantasiosa da novela, do conto e do romance. Porém, é o que ele, Germano, faz. Inventa a história como se estivesse a recordá-la, lendo-a (ao mesmo tempo que nós, leitores, o fazemos), tendo por base um documento do foro judicial, o testamento, que se deturpa e alonga na oralidade sem sair contudo do registo autobiográfico do livro de memórias, até se dissolver na confissão intimista, documento existencialista esse, que se ultrapassa a si próprio na forma, no âmbito e modalidade, revelando um talento inaudito para a escrita romanesca, o que lega, onde o legado, vai muito além daquilo que é físico, material e herdável, digamos, testamentável.







Além das peripécias conhecidas sobre a feitura da novela e sua edição, ao que consta, ter sido elaborada para oferecer a uma rapariga, que dela gostou a ponto de o aconselhar a publicá-la, objetivo para o qual se viu obrigado a criar uma editora, a Ilhéu Editora, começando com a módica impressão de 300 exemplares, mas que passados poucos anos já estava na nona edição, perfazendo mais de 10 mil exemplares vendidos, só para as ilhas cabo-verdianas, aquilo que sobretudo importa sublinhar da leitura desta obra, do ponto de vista do leitor afecto a um grupo de leitura, é que a ficção romanesca de natureza pícara pode sempre colonizar novos discursos, incluindo os veiculados pela Revista Claridade, se apostar e der ênfase às modalidades humorísticas, enfim, parodiar, personagens e costumes, com vista a esclarecer os leitores e povos alvo, no sentido pedagógico, que a sua realidade nada tem de definitiva e imutável, não é destino marcado mas fruto de uma educação que se tornou modus vivendi através do reforçamento positivo e da imitação popular. Sim, é a história da vida de um louco, de um misógino sem a mínima consideração pela vida dos seus semelhantes e compatriotas, com demarcado défice de cidadania, e a quem se devia acrescentar por epitáfio o seguinte excerto, de O Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão: "É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo."
Sim, e poderíamos depois dizer que a sua leitura, afinal, teve um resultado socialmente útil e humanamente desejável. Como remate de conversa!

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