1.02.2011


Entre as Germaníadas do Napumoceno

"A leitura do testamento cerrado do Sr. Napumoceno da Silva Araújo consumiu uma tarde inteira. Ao chegar à 150ª página o notário confessava-se já cansado e interrompeu mesmo para pedir que lhe levassem um copo d’água. E enquanto bebia pequenos golinhos, desabafou que de facto o falecido, pensando que fazia um testamento, escrevera antes um livro de memórias. Então o Sr. Américo Fonseca, dizendo estar habituado a longas leituras em voz alta, ofereceu-se para continuar a ler e o notário aceitou de bom grado porque a sua voz, de princípio forte e sonora a impor solenidade ao acto, fora enfraquecendo a pouco e pouco e tanto Carlos Araújo como as próprias testemunhas já faziam um grande esforço de ouvido para perceberem os murmúrios que lhe saíam da garganta. Mas Carlos sorrindo olhava o notário.
Logo de início, quando vira a enormidade do documento lacrado, sugerira não valer a pena perder tempo a ler todo aquele calhamaço, afinal estava-se quase em família, de qualquer modo entre gente que merecia toda a confiança, propunha por isso dar-se o testamento como conhecido, ele em casa faria calmamente uma leitura atenta e cuidada até porque era sua intenção respeitar escrupulosamente todas as vontades do defunto. Porém, o notário opusera-se firmemente a esta facilidade, a lei é a lei, existe para ser cumprida e se ela manda ler tudo há que ler tudo do princípio ao fim na presença de testemunhas e só por esta razão estavam presentes os Srs. Américo Fonseca e Armando Lima que afinal testificariam com as suas assinaturas terem acompanhado toda a leitura do documento. E aclarando a garganta iniciara a leitura às 14.45 mas pelas 16.10 confessava-se cansado e já estava sem voz. O Sr. Fonseca leu até às 17.20, após o que o Sr. Lima, sorrindo com humildade, pediu que lhe deixassem também ler um bocadinho. Coube-lhe por isso ler a parte manuscrita, mas numa letra tão miudinha que ele se engasgou por diversas vezes com as palavras e teve de voltar atrás e assim só cerca das 18.30 foi possível aos intervenientes aporem as respectivas rubricas em cada lauda do aludido testamento e ao notário ordenar o seu arquivamento no maço dos documentos competentes.


E após isso feito, todos os presentes apertaram a mão que contrafeito Carlos lhes estendia e apresentaram-lhe as suas mais sentidas condolências. Carlos fez das tripas coração e inventou forças para um sorriso e um porra para toda esta merda!, e agradecendo a todos pela maçada disse que dadas as circunstâncias teria que ser a tal Maria da Graça a pagar as despesas e achava bem que as testemunhas não ficassem sem receber a tarde perdida. Mas enquanto vestia o casaco deixou-se ir abaixo um momento e não conseguiu engolir um que se foda no inferno o velho danado!, que o Sr. Fonseca repreendeu com gravidade, mostrando-lhe, com um tímido sorriso, que aquelas palavras e modos desabridos não se coadunavam nem com o homem que ele era e que todos conheciam, nem com o luto carregado que ele trazia. De qualquer modo o falecido não se esquecera do sobrinho, sempre lhe deixava qualquer coisa, no fim das contas um óptimo lugar para o repouso na velhice. Por isso não lhe ficava bem ultrapassar o respeito devido a um tio defunto de quem de todas as formas sempre era herdeiro. Mas Carlos quase que o deixou com as palavras na boca, parecia agora mais pálido pela repreensão e dizendo que já perdera tempo de mais para o que ganhara acenou-lhes um até depois e correu para casa, merda para o luto, vestiu-se à civil."
– In O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, de Germano de Almeida


Quem a correr gosta dificilmente será correspondido, que o cru apressado muito cozido lhe ficará.








Se atendermos à disposição da estrutura narrativa, poderemos constatar, como está sempre presente em O Testamento do Sr. Napumoceno da Silva Araújo, que essa lembrança, esse registo tão comum a O Que Diz Molero, de Dinis Machado, cuja leitura continuamente nos reporta para o texto do qual a obra é apenas o palimpsesto mal esgalhado, se manifesta sobretudo pela duplicação do narrador, posto que sendo um é também dois, ou aquele propriamente dito, o omnisciente que tudo sabe e tudo vê, incluindo o interior das personagens, extensão particular do autor e sua consciência psicossocial, e o protagonista/personagem que (se d)escreve (n)a sua autobiografia, por Napumoceno ser e em caligrafia se ter feito aparecido e reconhecido no enredo como na narrativa. Porém, com uma impregnação suplementar do discurso narrativo brasileiro, literatura em que Germano de Almeida labirintara – obrigado Mia! –frequentemente, porquanto tinha/tem uma encorpada biblioteca de obras brasileiras, essencialmente romanescas, nas quais terá bebido copiosamente para a sua formação, o que faz dele, um português dos três costados, ou seja, de influência intercontinental, ou europeia, africana e brasileira, logo, sul-americana. O fato desta ser a sua primeira obra, mais ou menos notável, ou digna de nota, faz com que essa característica se evidencie sobremaneira, sendo efeito quase direto dessa aprendizagem de escrita que é a leitura, o contato com as obras dos demais na joeiração de um discurso próprio. Digamos, assim, que para além da pequena odisseia de Napumoceno, que viajou igualmente de ilha em ilha num arquipélago “desconhecido” para "nós outros", qual Ulisses doméstico, com gradual subtileza na observação do real, teve os seus encantos e desencantos derradeiros e até trágicos, impulsivos, como o que originou Maria da Graça, sua filha e herdeira; golpes de sorte, rasgos de genial negociante, empreendedorismo e iniciativa, como a compra por engano de 100 000 guarda-chuvas, fruto do acrescento de um zero na encomenda, ou guarda-sóis, uma vez que raramente havia precipitação em S. Vicente, e que originou ou foi a principal causa da sua fortuna, também ela parte integrante dessa navegação entre amores e desamores, uns reais, outros ideais, que faz dele o personagem de quem se fala para que melhor se mostre, o dito cujo, que até com a sua própria morte ironizou e do testamento fez pilhéria.
Ora, essa apresentação de personagens, não é tipicamente portuguesa, aonde a carambola nunca foi uma técnica muito praticada, a não ser pelo já citado Dinis Machado n’O Que Diz Molero, pois está mais próxima da literatura sul-americana, como no de muitos brasileiros (Machado de Assis, Graciliano Ramos, p.e.) –, em que os franceses usariam as cartas, como foi feito em As Cartas de Soror Mariana Alconforado, e os ingleses o diário de bordo, para descrever e evidenciar uma paixão arrebatadora e pecaminosa, do ponto de vista da escolástica medieval– ou até, em Gabriel García Márquez, como se exemplifica em Crónica de Uma Morte Anunciada ou Cem Anos de Solidão, entre as sagas individuais e familiares para o desbravamento de uma nova cultura – que, no caso cabo-verdiano, se intitula mulata e se expressa em crioulo. Diz respeito a uma poética narrativa, muito semelhante à imagética, e não à descrição ficcional e fantasiosa da novela, do conto e do romance. Porém, é o que ele, Germano, faz. Inventa a história como se estivesse a recordá-la, lendo-a (ao mesmo tempo que nós, leitores, o fazemos), tendo por base um documento do foro judicial, o testamento, que se deturpa e alonga na oralidade sem sair contudo do registo autobiográfico do livro de memórias, até se dissolver na confissão intimista, documento existencialista esse, que se ultrapassa a si próprio na forma, no âmbito e modalidade, revelando um talento inaudito para a escrita romanesca, o que lega, onde o legado, vai muito além daquilo que é físico, material e herdável, digamos, testamentável.







Além das peripécias conhecidas sobre a feitura da novela e sua edição, ao que consta, ter sido elaborada para oferecer a uma rapariga, que dela gostou a ponto de o aconselhar a publicá-la, objetivo para o qual se viu obrigado a criar uma editora, a Ilhéu Editora, começando com a módica impressão de 300 exemplares, mas que passados poucos anos já estava na nona edição, perfazendo mais de 10 mil exemplares vendidos, só para as ilhas cabo-verdianas, aquilo que sobretudo importa sublinhar da leitura desta obra, do ponto de vista do leitor afecto a um grupo de leitura, é que a ficção romanesca de natureza pícara pode sempre colonizar novos discursos, incluindo os veiculados pela Revista Claridade, se apostar e der ênfase às modalidades humorísticas, enfim, parodiar, personagens e costumes, com vista a esclarecer os leitores e povos alvo, no sentido pedagógico, que a sua realidade nada tem de definitiva e imutável, não é destino marcado mas fruto de uma educação que se tornou modus vivendi através do reforçamento positivo e da imitação popular. Sim, é a história da vida de um louco, de um misógino sem a mínima consideração pela vida dos seus semelhantes e compatriotas, com demarcado défice de cidadania, e a quem se devia acrescentar por epitáfio o seguinte excerto, de O Elogio da Loucura, de Erasmo de Roterdão: "É que estes, calcando o pudor aos pés, subornam qualquer panegirista adulador, ou um poetastro tagarela, que, à custa do ouro, recita os seus elogios, que não passam, afinal, de uma rede de mentiras. E, enquanto o modestíssimo homem fica a escutá-lo, o adulador ostenta penas de pavão, levanta a crista, modula uma voz de timbre descarado comparando aos deuses o homenzinho de nada, apresentando-o como modelo absoluto de todas as virtudes, muito embora saiba estar ele muito longe disso, enfeitando com penas não suas a desprezível gralha, esforçando-se por alvejar as peles da Etiópia, e, finalmente, fazendo de uma mosca um elefante. Assim, pois, sigo aquele conhecido provérbio que diz: Não tens quem te elogie? Elogia-te a ti mesmo."
Sim, e poderíamos depois dizer que a sua leitura, afinal, teve um resultado socialmente útil e humanamente desejável. Como remate de conversa!

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