12.16.2010



Em Resposta a Natércia (1)


Deixa-te disso, amiga, não me pregues (2).
Amor é para mim uma quimera;
Em meu peito deserto não prospera
Mais que a lei da razão, que tu não segues.

Bem percebo essas máximas sublimes
Que ostenta a gente fraca, e que despreza
Quem tem força, quem doma a natureza,
E quem não quer passar de erros a crimes (3).

Faze embora elogios à inconstância
Ama vinte, se queres, não me importa;
Eu para criticar já estou morta…
Não conheces a minha tolerância?

Sou de composição muito esquisita:
Não creio nos amores desta terra,
E declaro aos amantes maior guerra,
Quando de amor minha alma necessita (4).

Quem vês tu que mereça ser amado?
Qual do culto do Amor digno hierofonte (5)
Não terá, co’as fraquezas de inconstante,
Os augustos mistérios profanado?

Amor em mim não é qual o tu sentes,
Um clamor, um tumulto dos sentidos;
Eu tenho esses escravos submetidos
A leis mais elevadas, mais decentes.

Sinto amor como a terra toda sente
As forças que a mantêm, forças diversas;
Amor me faz fugir de almas perversas,
Por amor busco eu em vão uma inocente (6).

De opiniões cobardes governados,
Os homens hão de rir destas doutrinas,
Hão de rir os peraltas e as meninas:
Queres que adore um desses malcriados?...


(Sozinha no Bosque)

Sozinha no bosque
Com meus pensamentos,
Calei as saudades,
Fiz trégua a tormentos.

Olhei para a lua,
Que as sombras rasgava,
Nas trémulas águas
Seus raios soltava.

Naquela torrente
Que vai despedida
Encontro, assustada,
A imagem da vida.

Do peito em que as dores
Já iam cessar,
Revoa a tristeza,
E torno a penar.


(Como Está Sereno o Céu)

Como está sereno o céu,
Como sobe mansamente
A lua resplandecente,
E esclarece este jardim!

Os ventos adormeceram;
Das frescas águas do rio
Interrompe o murmúrio
De longe o som de um clarim.

Acordam minhas ideias,
Que abrangem a natureza,
E esta noturna beleza
Vem meu estro incendiar

Mas se à lira lanço a mão,
Apagadas esperanças
Me apontam cruéis lembranças,
E choro em vez de cantar.


(1) Natércia é o nome poético da viscondessa de Balsemão, D. Catarina de Sousa e Lencastre. Esta carta escrita, provavelmente, pouco tempo depois da saída do convento de Chelas, em 1777, no tempo em D. Leonor era cortejada por mais de um fidalgo da corte, responde a outra da amiga, em que esta, pelo que se deduz, proclamava os direitos do amor, a santidade da paixão, segundo as doutrinas do tempo, que prepararam seguidamente os ideais românticos. E as duas representam, em consonância, as duas correntes da época: uma, o filosofismo; a outra, o sentimentalismo.
(2) Pregues – manobra de persuasão, ou tentes convencer.
(3) De erros a crimes – D. Leonor que nesse tempo afectava espírito filosófico, considerava o excesso da paixão como um erro que pode levar ao crime. É curioso verificar que a sua amiga se colocava no polo oposto, o que suscita o elevado interesse por esta carta, enquanto item para a história da cultura do romantismo português.
(4) A atitude filosófica racionalista era uma violência ao coração de Alcipe, conforme se nota nestes versos em que a razão está a subjugar o coração.
(5) Hierofonte – sacerdote.

D. Leonor de Almeida – A futura Marquesa de Alorna nasceu em Lisboa, em 1750. Como era da família dos Távoras, foi em 1758 reclusa no mosteiro de Chelas, com sua mãe e uma irmã, D. Maria de Almeida, tendo sido o pai, por sua vez, internado no Forte da Junqueira.
Como a vida não corria, não obstante, e de todo em todo, mal para as jovens prisioneiras, que se entretinham com o aprendizado das artes e o usufruto da música e da dança, D. Leonor começou a interessar-se pelos filósofos portadores das ideias de liberdade: Locke, Voltaire, Rousseau, D’Alembert, etc. Essas leituras e a formação reclusa, a sua história pessoal e familiar, contribuíram para a gestação de uma pequena alma revolucionária, que passou a exprimir-se, sobretudo, através da composição poética, o que, elevou notoriamente a afluência ao convento, para admirar o prodígio, nomeadamente dos melhores espíritos da época, entre os quais os poetas Correia Garção, Filinto Elísio, Domingos Maximiano Torres, e demais tentaculares promessas desta geração.
A jovem Alcipe, nome que deram à nova poetisa, tomou-se de alta admiração por Filinto Elísio, que lhe ensinava latinidade e mantinha agradável idílio com a sua irmã. Em 1777 abriu-se-lhes o convento e D. Leonor veio a casar, seguidamente, com um oficial prussiano, o Conde de Oeynhausen, residente em Portugal, o qual acompanhou mais tarde a Viena, em 1780, onde se familiarizou com o estudo da literatura alemã, o que a mudou consideravelmente, transformando a antiga discípula dos filósofos da liberdade numa política tradicional e nacionalista ferrenha, que chegou mesmo a desafiar, por carta, o próprio Napoleão. Porém, dava-se nela aquele desequilíbrio, enfim, naturalmente sinal dos tempos, porquanto se demonstrara incapaz de se submeter às realidades, mentalmente indisciplinada, andando em brigas constantes com credores, o que além de muitos dissabores, lhe acarretou diversas situações difíceis.
Pina Manique considerava-a perigosa e mandou-a sair de Portugal. Fixou-se então em Inglaterra, de onde regressou em 1814. Acolhia os novos com deferência e dava-lhes conselhos literários, como sucedeu com Alexandre Herculano, que deveu “à ilustre senhora” os primeiros passos na literatura alemã. E faleceu em 1839.
O estilo da Marquesa de Alorna é um estilo de transição do classicismo (tipo horaciano) para o romantismo (incipiente), grandemente influenciado pelos autores ingleses e alemães, em que apontam temas de melancolia vaga, o «novo mal» da época, como ela afirmou, em que as «as almas sensíveis» liam poesias ao luar, sob as ramadas, atacando o despotismo em nome da liberdade.

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