9.21.2010

A apresentação pública do livro A SACERDOTISA DAS ÁGUAS, terá lugar na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, quinta-feira, dia 23 de Setembro, Lua Cheia, pelas 21 horas, com a presença da autora, Placídia Amaral, e Joaquim Castanho.






A Roda do Ano Gira e Chega a Recompensa



"Chamo pela Dama abençoada, rainha da colheita,
dadora da vida e da abundância desde antes de o tempo
começar. Concedei-me a vossa alegria e beleza,
poder e prosperidade, peço-vos."
– Do ritual de celebração do Equinócio de Outono,
a 21 de Setembro.


Talvez que a única coisa que perdure para lá da leitura global das obras seja tão-só o detalhe, o pormenor relevante, aquele peculiar sentimento reservado de quem se achou a fazer a coisa exacta no momento preciso e pouco mais se exigiu, ou permitiu, fazer, uma vez que assim alegremente atingiu o delével êxtase de quem se realizou numa tarefa para a qual estava talhado de há muito. Ler é ver, e ver é interpretar, porquanto é disso que eclode a análise, o veículo de excelência para a comunhão e empatia entre quem se encontra nas margens opostas da comunicação: o codificador e o receptor, o emissor e o descodificador, se para tanto quisermos gizar o X da questão.
Porém, A Sacerdotisa das Águas não é somente mais um livro sobre o ministério da expressão viva do conhecimento milenar, transmitido de tias para sobrinhas que se sucedem atravessando os séculos como anfitriãs do templo da ilha encantada lusitana, onde a Grande Senhora do Ocidente determina a ordem e faz cumprir a tradição e o costume, cujo principal fundamento é servir-nos e não tornar-nos seus incondicionais escravos. É, sobretudo, uma viagem ao nosso consciente e inconsciente colectivo, na tentativa de desbravar o futuro lusitano através da mais antiga das ferramentas que o entendimento humano produziu: a crença. Acreditar que é possível viver o momento presente independentemente daquilo por que passámos como indivíduos ou como povos; acreditar que somos capazes de aceitar a realidade tal como ela é e se nos apresenta no aqui e agora; acreditar que é possível dançar com a vida como se ela fosse o nosso par num tango eterno e imorredoiro; acreditar que somos suficientemente inteligentes e maduros para aceitar o eu-humano que cada um de nós é; e, finalmente, que não obstante todas as falhas e erros que nos identificam e particularizam ainda continuamos a ter confiança em nós mesmos como se apenas, em nossas rascunhadas biografias, tivéssemos testemunhado o êxito e o sucesso. Isto é, traça a rota e o rumo para quem esteja interessado em despertar para o conhecimento através da expressão de si próprio, lendo na água que maioritariamente é, conhecendo-as para conhecer-se.












"Sempre a vida cumpriu o seu ciclo e levou de novo à vida
na eterna cadeia da vida. Em honra das Antigas Deusas,
testemunho a contemplação da minha vida
e a colheita das lições deste ano."
– Idem

Não só porque nos transporta entre as diversas dimensões da realidade, nuanças dessa Realidade Maior de que são simples sombras e reflexos, sujeitos à refracção distorcida dos sentidos, como igualmente nos alerta para os conflitos que dilaceram a alma humana, e baseiam as relações interpessoais, estipulam a exigência de abundância e propriedade, veiculam a falta de auto-estima e deterioram a saúde. Dá lições sem o intuito didáctico e a intenção pedagógica explícita, mas possibilitando que cada qual colha da experiência narrativa quanto precise; e mostra escondendo de novo, deixando outro tanto por dizer que é numericamente igual àquilo que ficou dito. Logo, garantindo que não pode provocar qualquer mal (a uns) sob a pretensão de fazer o bem (a outros). O que, no mínimo, é algo suis generis do ponto de vista da funcionalidade da criação literária, porquanto se entrosa numa narrativa mística e fantástica sem ressaibos evangélicos e missionários, ou demais sublinhados das cartilhas e catecismos característicos da romanização como do paganismo plebeu.
E fá-lo poeticamente, relatando a vida de uma mulher, órfã de mãe desde os três anos, que começou a sua instrução de aprendiz de sacerdotisa aos seis, de druidesa aos treze, para sete anos depois se tornar madrasta de sua sobrinha Aurora e rainha-sacerdotisa, culminando no final da vida como Grã-Sacerdotisa no Templo da Ilha, gémea da mítica Albalon, situada nos recessos das terras lusitanas, que todos reconhecemos existir, mas curiosamente ninguém cartografa a localização exacta, porque quem sabe o caminho guarda segredo de qual é ele, e aqueles que não o sabem nem percorreram, o vão inventado e imaginando, dizendo ser ele em qualquer parte, quiçá distraídos, mas tão distraídos, que não se dão conta que "há momentos na vida em que o silêncio são doces palavras que ecoam no coração" (p. 286), sem se atropelarem na pronúncia.







"Às boas estações que se foram e às boas estações que estão para vir.
Abençoadas sejam.
À deusa! Que inspire e renove seu meneio de fábula que envolve e revele o encantamento mundo.
Abençoada seja.
À Deusa! Que traga paz e realização a todos os seus filhos.
Abençoada seja.
À Deus! Que proteja os seus seguidores e me traga prosperidade e felicidade. Que alegres se encontrem, alegres se separem e alegres se reencontrem de novo!
Abençoados sejam."
– Idem

9.17.2010

O Mito de Lylwine


"Acendo três velas à Tripla Deusa-Mãe, a Grande Dama dos três aspectos. Gloriosa Virgem, deusa da juventude e novos inícios, aurora e sempre plantada. Grande Mãe, deusa da magia e da abundância, do amor e do conhecimento. Sombria Idosa, sábia deusa da noite, da morte e do renascimento. Acolho A Deusa em todas as suas formas." – do Ritual da Lua Cheia.

Tal como no Crescente Fértil da antiguidade sumérica, o único critério válido, para definir quem é, ou não, um autêntico escritor, ou escritora, não são os prémios alcançados, as condecorações tribais, os elogios dos clãs organizados e corporações, a divulgação feita pelos mass media da época, mas o reconhecimento daqueles que ao lê-los mantêm actual – e actuante! – o ditado sumérico, que explicita e indicia, que "um escriba cuja mão se move acompanhando a boca / é de facto um escriba" (Samuel Noah Kramer, in A História Começa na Suméria, p. 149). E os ecos dessa novidade podemos efectivamente encontrá-los em A Sacerdotisa das Águas, ao constatar que as druidesas continuam, quando "a roda do ano gira e chega a recompensa", a escolher tudo o que lhes acontece – quiçá, seguindo os conselhos de Adamur!... – aurorescendo para as Luas Cheias depois das serenas conversas de circunstância entre amigas, sobre os temas femininos mais populares (filhos e homens e tarefas do lar), combatendo os eclipses sangrentos, sentindo-se gratas pelo momento que vivem e sem perder tempo a olharem para trás, a não ser que isso lhes propicie a imagem da Deusa enviando-lhes o raio telúrico, para iluminar-lhes "o ventre por dentro numa faiscação de labaredas vermelhas" (p. 147), estipulando assim, é certo, e grosso modo, que nunca em vão há-de acontecer a morte das velhotas mais idosas dos povoados, como a da avó Túlia que "acordara morta" (p. 149) uma manhã, e fora enterrada três dias depois, no cumprimento da regra. Sobretudo porque a autora deste romance, contempla os desígnios e preceitos escribalistas, dando à mão os trejeitos da fala, que nem sempre se conduz pelas normas da conjugação e da gramática, recuperando e improvisando verbos para acções como o exigem os conteúdos, no seu aurescimento do dizer imediato e espontâneo, para expressar, por exemplo, um simples e comum passamento desta para melhor, às personagens, velando-as sim, mas revelando-as igualmente, ficando portanto reforçada a certeza de poder escolher legitimamente ser escritora, além de médica, uma vez que lhe aconteceu ter escrito um livro, cujo interior traduz e revela a essência semântica de quanto o ditado persa, ou sumérico, indica como condição sine qua non de identificação e estilo, o movimento da mão que dá a tonalidade ao discurso. (Lunar, convém salientar!)
O mito, enquanto história tradicional ou lendária, que respeita, geralmente, as entidades sobre-humanas e lida com eventos que não têm uma explicação natural, convicção não provada que é aceite sem espírito crítico, se declara invenção fantástica, procura compreender os fenómenos ou ocorrências estranhas sem se socorrer de razões científicas, nem mesmo das do chamado senso comum. Apela mais para a emoção do que para a razão, e data de tempos bastante remotos em que as explicações racionais não eram ainda possíveis, nem sequer desejadas, e foi veiculado e conservado pela tradição oral, conforme a mitopoese o exige no quadro ou fundo de consciência colectiva. No romance de Jean M. Auel, O Clã do Urso das Cavernas, não lembro bem se seria também órfã de mãe desde os três anos, se começara a instrução com seis anos terminando-a aos treze, sete anos depois, há realmente o protagonismo de uma loira que monta cavalos e leões, e conhece os mistérios da existência com um heroísmo que tem tanto de feminil como de guerreiro. É provavelmente a mesma personagem mitológica que encontramos neste romance, talvez adaptada a mais recentes épocas e noutro contexto ambiental e geográfico, ou, ao contrário, podemos ver nela uma versão da feminilidade céltica retornada dos territórios nórdicos europeus, incluindo os insulares, a que a miscigenação continental não "deturpou" as marcas tipológicas?
Em resumo, a literatura, ainda que esporadicamente reflicta os mitos profundos e ancestrais, provocando o típico ondear cíclico e concêntrico de uma pedrada na água, avivando-os, enobrecendo-os, revelando-os, mistura sempre ervas já conhecidas, conceitos tradicionais, moendo-as (e moendo-os) no graal da fantasia, juntamente com outros novos, a fim de confeccionar novos unguentos para moléstias milenares, das quais, a maior, é a descrença nos princípios fundamentais da vida. É o que este livro faz, e é exactamente nisso que ele se propõe como uma obra essencialmente literária, embora, claro está, a magia lhe solte as peias na cavalgada dos entendimentos... Será?

A apresentação pública do livro A SACERDOTISA DAS ÁGUAS, terá lugar na Sala Polivalente da Biblioteca Municipal de Portalegre, quinta-feira, dia 23 de Setembro, Lua Cheia, pelas 21 horas, com a presença da autora, Placídia Amaral, e Joaquim Castanho.

9.16.2010

As Sacerdotisas da Eternidade e da Vida, ou guerreiras por sacerdócio

O Alcance do Fogo

Trindade santa

Salvai,

Protegei,

Rodeai,

O lar,

A casa,

A família,

Esta vigília,

Esta noite,

Oh, esta vigília,

Esta noite,

E todas as noites,

Cada uma das noites,

Amem.

De Carmina Gadelica


E três vezes seus igualmente são os prodígios da palavra – nomeação/convocação, disposição/composição e realização/visionamento – druida que se há-de diluir na brisa das florestas, soutos e montados, cidades das árvores e do sonho vegetal, cuja raiz está na terra, ramos, folhas e flores estão no ar, são cor e energia do fogo, sobretudo nos equinócios, e destes no de Outono a que estamos prestes, e têm por seiva a água cristalina e pura das levadas profundas, sob a tutela da Tripla Deusa-Mãe, celebrada nos vales e montes deste nordeste alentejano, estabelecendo enfim quanto da existência só tem lugar no seu reino, material se matéria, espiritual se espírito ou cultural se cultura, que são iguais àqueles estádios em que a alma também se manifesta quer como corpo, quer como mente ou como ideia, por assim dizer, em tese, antítese e síntese, ou ser, não-ser e devir conforme a nomenclatura dos gregos antigos, dialéctica comum aos instrutores de sacerdotisas, neste caso do romance com o nome de Adamur, aquele que "aprendeu a arte de entrar e sair desta realidade, quando tal se torna necessário"(p. 32), capaz de abstracção, pois "viaja pelas dimensões e materializa-se quando e onde quer"(p.72), porquanto nunca desdenhou nem esqueceu que só se pode compreender o Criador procurando compreender as criaturas, como afiançou S. Columbano.

Os druidas combinavam as funções de sacerdotes com as de magistrados, sábios e médicos, colocando-se em relação aos povos das tribos celtiberas, de maneira bem semelhante à que os brâmanes da Índia, os magos da Pérsia e os sacerdotes do Egipto se colocavam diante de seus respectivos povos, delegando porém os seus poderes e funções em diversas estirpes de sacerdotisas que formavam e iniciavam dentro dos preceitos convenientes à governação dos castros e dos reinos. Lylwine, como também a tia-avó Gardwina, foram instruídas por Adamur para terem absoluta confiança em si mesmas, aceitar o ser humano que em si há e descomplicar todos os assuntos que dissessem respeito ao corpo, à alma e à cultura de Pinhel, a citânia em que habitavam. É uma tarefa hercúlea, como se deve calcular, sobretudo para a sobrinha, filha de Aurora e Galatar, que não pode esquecer que "uma rainha, é mais que uma vulgar mulher. Uma sacerdotisa é mais que uma simples rainha. Mas uma Sacerdotisa-Rainha está muito para além das leis dos homens e das leis da magia e do rituais – ela é uma deusa na terra"(p.105), qual "caminho de perfeição e sacrifício"(p.106) abrindo-se "em urgências de êxtase, como terra seca e ardente, para receber a água da vida"(p.121).

Qualquer planeta em que não exista vida é porque lhe falta água líquida que a gere e sustente, multiplique e purifique, e ela só acontece com a rebentação delas, tal e qual como as que antecedem o nascimento dos bebés de todos os mamíferos, entre os quais, o humano. Portanto, porque lhe é essencial, tem que ser cuidada, respeitada e celebrada com o "sigilo secreto" daquelas que foram eleitas para lhe ministrar culto e rituais, porque só elas estão aptas à tradução dos sinais e dos símbolos imprescindíveis à governação das citânias, as Sacerdotisas das Águas, porque são dominadoras do cálice e da espada, da taça e do ceptro, da concha e da pérola, da boca e da língua, do ventre e do falo, em cuja síntese imediata reside a urgência (fogo) da eternidade.

9.15.2010


Reminiscências do mundo celta no mundo de todos nós

"A Trindade em Toda a Parte

A Trindade que está sobre a minha cabeça,

A Trindade que está sob o meu passo,

A Trindade que está sobre mim aqui,

A Trindade que está sobre mim ali,

A Trindade que está em pleno ar,

A Trindade que está no céu,

A Trindade que está no grande oceano,

A Trindade dominante, permanecei em mim."

De Poems of the Western Higlanders

Desde tempos imemoriais que as regiões interiores portuguesas, numa larga faixa a que hoje se convencionou chamar (trans)fronteiriça, possuem a acentuada marca da presença e cultura célticas, redundando esse facto aos idos do apogeu da sua expansão intercontinental, nos séculos VI e V a.C., em que os celtiberos (celtas mais lusitanos) instalados na Península Ibérica "governavam" um vasto território em forma de Y, cuja base subia pelas margens do Guadiana, e os braços se estendiam desde a Galiza atlântica até para lá da Serra de Albarracin, onde nasce o nosso rio das Tágides camonianas. Terão sido Eras de afortunada felicidade e enlevo, sobretudo para quantos, os arregimentados pelo sistema de sociedade matriarcal, professavam fé na Mãe-Divina, anterior ao grande dilúvio, que os hititas "transmitiram" ao Egipto, por exemplo, depois de a terem "recolhido" dos povos pré-babilónicos do Éden (ou Paraíso) entre o Tigre e o Eufrates, a terra dos seguidores da estrela, dos quais alguns ganharam fama entre nós e ficaram conhecidos por Reis Magos, curiosa coincidência histórica com as revelações do inconsciente colectivo, cujo produto nos povoa o imaginário com a presença fantástica e maravilhosa dos druidas e sacerdotisas silvestres, a que, aliás, a portalegrense Maia das cachopas– corruptela do védico Marya, que significa jovem – não pode negar originária ancestralidade, nem as principais festas (e romarias) populares das aldeias e vilas vizinhas um justo fundamento, ou as diversas artes muita da sua motivação criadora, nomeadamente na ficção narrativa de Prosper Mérrimée, que lhe deve a sua femme fatal, de que Bizet em boa hora se serviu exaustivamente para criar a sua ópera Carmen.

Ou seja, como tudo aquilo que fomos se reflecte no quanto agora somos, e a nós, os alentejanos plantados nas faldas serranas entre a foz do Xévora (Djebora), ali ao Guadiana, e as Portas de Ródão, eis-nos prova de todas as culturas que por aqui passaram e nos assistiram à formação por via da ancestralidade, também nos não será estranha e indiferente a saga das Sacerdotisas das Águas, que ainda devem murmurar as suas preces à Lua nas correntes das cinco ribeiras que nascem das entranhas de São Mamede, espelhando a prata de cada uma das três fases por que passa: Crescente, Cheia e Nova – conforme o entendimento dos antigos, que melhor acreditavam no que viam do que no que supunham, depositando fé e adoração na Deusa-Lua celebrando-a sempre que os seus treze ciclos lho propunham.

E esse é tão-só um filão explorável do nosso imaginário colectivo em que pode eclodir a ficção romanesca, deste como de outros tempos, à semelhança do que sucede em A Sacerdotisa das Águas, obra ímpar de Placídia Amaral, que lhe reside no âmago, precisamente na Ribeira de Nisa. Portanto, para seu próprio interesse e bem, não deve perder os próximos capítulos deste enredo (que promete). De acordo?

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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