11.27.2003

Ainda não foram escolhidas as obras para a próxima sessão da CLP embora já existam algumas preferências apontadas, cuja maioria assenta no Amada de Toni Morrison. Portanto seria justo que o pessoal se aprontasse com a opção, a fim de dar tempo para a leitura, o que se demonstra dia a dia cada vez mais difícil, visto que este livro é "seriamente" volumoso...
Mas há, no entanto, outra sugestão: que tal fazer uma sessão diferente? Em vez de se ler uma só obra, não se poderia, por exemplo, levar cada um de nós um livro que estivesse relacionado com a temática do Dia da Cidadania e que gostávamos de indicar como exemplar nesse sentido?... Houve, em tempos, uma espécie de encontros entre pessoas que se apresentavam através de um livro de que tivessem gostado sobremaneira... Pois bem, esta ideia, não seria a de nos apresentarmos uns aos outros, pois já nos conhecemos bem (ou quase), mas sim a de envolver a temática com a mais-valia da preferência de cada membro, apontando para a problemática em causa... Que tal? Vamos nessa? Se sim ou não, o importante é comunicá-lo. grokare@hotmail.com está ao vosso dispor. Ok?

11.18.2003

“Nunca mais me esqueceu a manhã virginal da Madeira, e as cores
que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha
entreaberta saindo do mar diante de mim, a escorrer azul e verde...”
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas

Se considerarmos o muito que se tem dito acerca da Pérola do Atlântico, das paisagens, praias, clima, produtos naturais e situação geográfica, já não é tão efusiva a literatura sobre as suas gentes. Ou por outra: não era. Porque agora, talvez estabelecendo uma equiparidade que faltava, Gabriel Raimundo, jornalista e escritor com créditos acumulados em diversos órgãos de comunicação social regional, autor a quem se devem algumas das mais interessantes páginas da nossa literatura de emigração, qual bússola inquieta sempre apontando para um Norte que é inclusive outro traço essencial para a caracterização da nossa nacionalidade, cujos títulos (Na Estranja – 1979; Gritos de Guerra – 1980; Natal Crítico – 1980; Construtores de Pontes, Usinas e Maisons – 1981; Rafael, o Montanhês – 1981; Vidas Desvitaminadas – 1982; Cantares de Amigo – 1982; A Batalha de Pedra – 1984; Tear de Tomates – 1984; A Diáspora em Letra Viva – 1988; Tarrafal, Meu Amor Verdeano! – 1993; Sonhos no Zimbro – 1994; Estórias para Brancos e Negros – 1994; Mundo Mareado – 1997; Alentejo 2000, Novos Tempos – 200, por exemplo), repartidos por crónica, ficção, poesia e entrevista, reflectem e atestam, não só uma invulgar flexibilidade genérica, como também a preocupação constante em relatar o perfil apaixonado, andarilho e viageiro da alma lusitana, por quem diz que “é andando, teimando e a cantar que um homem acerta o passo e desata a língua”, e vai ainda além no reportar das intimidades familiares, ou da solidariedade entre o português e portuguesa na luta pela sobrevivência e pela criação de um Portugal cada vez melhor.
Neste caso particular, odisseia de um madeirense que regressa à sua ilha onde outra Penélope ou Palmira o aguarda criando os filhos numa perspectiva de vida mais desafogada, recheada de peripécias sentimentais, encontros e desencontros camonianos, dissabores e desenrascanços típicos do navegar lusófono, acrioulados de lisbonês ou francemandeirês, num discurso contido mas vivo, sério mas jocoso, que aquilata para a faceta cosmopolita da nossa personalidade, marcada pelo compasso donjuanino de pola lei e pola grei com que o homem português segurou o leme e marcou o seu destino, Gabriel Raimundo descreve, em Emigrante da Madeira Reencontra o Paraíso, a saga do humilde e inocente pecador Manel de Porto da Cruz, cujo primeiro emprego continental é o de adjunto de merceeiros de secos e pingados, ali ao Martim Moniz, numa Lisboa diferente da actual mas já bastante vincada pelo quotidiano multicultural e pluralismo de hoje, pois estava-se então “muito antes do 25 de Abril, que não se sabia se viria a acontecer, como depois se verificou”, duas vezes emigrado, ilhéu aqui e português em França, trabalhador sempre que anseia regressar à sua terra natal com o estatuto de empresário.
Romance meticuloso, embora curto – 120 páginas, mais ou menos –, demonstra bem quanto é verdade que para dizer tudo não é preciso escrever muito nem obrigar o leitor a peregrinações pormenorizadas e excessivas, tem contudo um alcance histórico e literário que transcende a sua reduzida extensão: sintetiza numa única vida toda a diáspora portuguesa. Principalmente aquela (ou a daqueles) de quem a História menos falou: a dos obreiros de um povo composto por gente que se aventurou no mundo para ser alguém – e o conseguiu.
Para no-lo apresentar e falar dele, estará no próximo dia 25 de Novembro, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal e Portalegre, o seu autor, talvez cumprindo o mesmo destino de outros conterrâneos que de terra em terra foram desvendando novos mundos ao mundo. Serranos, transmontanos, minhotos, beirões, madeirenses, açoreanos, homens e mulheres de qualidade e valor, que com engenho e galhardia souberam edificar este “reino” que tanto sublimamos e pelo qual pelejamos dia a dia, acentuando com a língua a identidade pátria numa Europa una que ora se constitui. Lá estaremos, porque certamente jamais iremos permitir esquecer de quanto todos somos grande parte daquilo que fomos.
Sobre os Cem Anos de Solidão, aqui ficam as minhas considerações:
Ainda não pude averiguar a realidade da existência do personagem Aureliano Buendía, logo te informo das descobertas;
Quando os soldados fazem a revista à casa dos Buendía à procura do sindicalista, é-lhes oferecido um peixinho, mas no final da obra diz-se que estes foram escondidos dos soldados. Incongruência, lapso, ou propositado?
Mais profundo é o tema do incesto, entre irmãos e, sobretudo, entre tia e sobrinho. Será um fantasma, uma reflexão ou?
O papel do capitalismo, sob a forma da exploração bananeira, da mentira da sua existência, e da desgraça que causou à população, afinal, qual é?
O destino trágico da família, como que traçado, afinal esta escrito nos manuscritos, numa referência a alguns contos de J. L. Borges, face aos avanços da investigação sobre o genoma humano, será mesmo inevitável?
A forma de encarar o sexo como uma necessidade inultrapassável, mas ao mesmo tempo um caminho para o amor pleno.
O papel dos mitos, como o de Moisés, descoberto pelas águas, por exemplo, será um reinventar dos mitos?
A personagem, deliberadamente ou não, esquecida de Santa, que é, apenas realçada no final da obra, será um exemplo das mulheres dedicadas à casa e que, passando despercebidas, têm um papel fundamental na vida de muitas pessoas?

Fico por aqui, pois a mensagem alonga-se, e fico à espera de novidades!
Abraço,
João Paulo

11.12.2003

BOM DIA COMUNIDADE!!...

“Quando se consegue alguma coisa que se deseja, é muito bom deixá-la onde está.”
W. Churchil

Eu devia começar por referir a minha indignação sobre o holocausto dos animais e das circunstâncias que rodearam ou foram consequentes à temática do recente “Planeta Azul”, bem como de salientar que o Dia Europeu Sem Carros não serve para fazer macacadas políticas, mas sim para meditar e reflectir sobre os efeitos do excesso de carbono na atmosfera, e de como esta elevada comparticipação na composição do ar afecta o nosso metabolismo, que está “programado” para recebê-lo em percentagens de oxigénio, azoto e carbono, muito diferentes daquelas que é obrigado a receber actualmente. Ou por outra: se fosse um cidadão empenhado e informado como deve ser qualquer indivíduo adulto europeu, responsável por si e pelos seus familiares, conterrâneos, patriotas, continentais e irmãos de espécie – a que se convencionou chamar humanidade –, eu estaria moralmente obrigado a manifestar o meu repúdio e não subscrição dessas duas atitudes humanas que colocam o homem com um QI (Quociente de Inteligência) muito inferior ao de qualquer galinha, bicho doméstico sobre o qual rezam as crónicas e más-línguas populares enaltecendo-lhe singularmente a sua estupidez natural, desinteresse estético, a ditadura política ou carismática do galo, e o gregarismo primário, quase resumido ao cantar de pôr ovo, arrulhar de ensinar pintos a conhecer grãos comestíveis, esgaravatar na vida e esganiçar-se com alarido se acossadas. Mas não irei fazê-lo, dado que esses acontecimentos são indignos de figurar lado a lado com iniciativas de portalegrenses que negam a baixeza geral e demonstram que há outros caminhos e veredas passíveis de serem trilhados pelos que querem fugir à bestialidade: o da leitura de obras literárias, gerando com ela convívio, debate, troca e partilha de saberes ou afectos, conhecimentos diversos, confrontos de projectos de sociedade e teorias comunitárias, aprofundamento da democracia e valorização pessoal – enfim, o manifesto interesse na criação de uma Comunidade de Leitores em Portalegre.
E o que é uma Comunidade de Leitores? Confesso que não sei!... Podia responder que é cozido e assado, ou que existem em Portugal diversas deste ou daquele estilo, como podia salientar que se fosse eu a idealizá-la teria esta ou aquela particularidade que a identificaria face às demais existente pelo país fora. Todavia, se o fizesse estaria simplesmente a fazer demagogia barata e prognóstico de intenções... e a comportar-me como qualquer cocó que quer poleiro e milho fresco.
Portanto, embora reconheça que é uma acção cultural que teve enunciados anteriores e cuja originalidade é tão grande aqui, onde em períodos recentes e distintos aconteceu pelo menos duas vezes ( uma na Biblioteca Municipal de Portalegre sob a coordenação de Inês Pedrosa, e outra na Escola Superior de Educação com a responsabilidade projectiva de um grupo de alunos do curso de Jornalismo e Comunicação), como em qualquer outra parte do planeta, trazendo a lume modalidades, enquadramentos, autores, obras e quoruns emblemáticos de outras tantas maneiras de abordar o conceito e realizar a ideia, estou em crer que finalmente existe na cidade um conjunto de pessoas interessadas na iniciativa e essencialmente empenhadas em levá-la por diante, se atender sobretudo ao que me disseram aquelas com quem pessoalmente contactei acerca dela.
Nesta perspectiva, talvez entusiasmado por uma motivação antiga e por demais conhecida da maioria dos portalegrenses, ouso salientar o meu agrado perante o facto, assim como apresentar publicamente a minha candidatura a integrá-la como qualquer outro leitor que, por diferentes motivações ou expectativas, a ela pertença e se não importe – ou tolere – a colaboração de quem é subversivamente indisciplinado em termos de leitura, e pavoneia o seu diletantismo nestas páginas. Mas que gosta de ler! E que aprendeu o significado da palavra sonho nos romances que sua avó lhe leu nas tardes estivais à sombra de um limoeiro ou nos contos que lhe narrava à lareira, nas noites de Inverno. Que assimilou três coisas distintas e as uniu numa só, a que mais tarde veio a reconhecer como próximo daquilo que as enciclopédias definem como literatura, entrelaçando as pontas da esperança, da liberdade e fantasia, fazendo com elas aquele tapete voador que as mil e uma leituras lhe emprestaram à realidade, mas que ao invés de evasão lhe propuseram novos problemas e questões, inquietudes e preocupações, sensibilidade e dispares técnicas de abordagem a ela. E assim aprendeu que dizer amo-te, tanto pode dito usando só duas palavras como com milhentas páginas delas, resmas e resmas de obras, ou pode ser dirigida a inúmeros seres e universos, desde as coisas á natureza, dos cosmos à simples formiga, à miss universo como à ervinha minúscula dada por inútil, que ninguém hesita em arrancar dos seus canteiros... Porque...
Porque não desconheço a palavra gratidão e sei dizer, obrigado companheiros! Obrigado comunidade! Obrigado aventureira do além e lá na eternidade esperas por mim, à sombra dos limoeiros celestes, a fim me contares todas as histórias que não tiveste tempo de contar-me aqui na terra... E obrigado palavra, que inventaste para todas as coisas e seres a certeza de eternidade!

11.08.2003

O grande carnaval

“Pessoa chata é aquela que, quando se lhe pergunta como está, vai contando, contando...”
Bert Taylor

O destino dos portugueses, sabe-se agora, graças à descoberta de alguns génios e talentos antes encerrados no limbo do anonimato, é de natureza cíclica e dependente sobretudo de modas, tal e qual como o mau tempo, as férias em ilhas do terceiro mundo ou a tendência outonal para as tonalidades castanhas e amarelas, não esquecendo as mini-saias em amarelo torrado que assentam muito bem no café-com-leite. Mais ou menos todos os anos, por esta altura, os órgãos de comunicação social repetem a dose das greves, propinas e reivindicações estudantis, os problemas da justiça e as questões orçamentais, Fátima e a divina comédia papal da sucessão, o atraso dos portugueses face ao resto da Europa, a fuga aos impostos e a generalizada corrupção, os nóbeis e as consequências globais do 11 de Setembro, as acções sindicais em torno da legislação laboral, os aumentos salariais e as actualizações das reformas ou pensões. Digamos que é a altura de fazer a cartinha prò Pai Natal a encomendar o presente, visto que o passado não valeu grande coisa e o futuro se avizinha contaminado pela qualidade dos tempos anteriores a ele. Às vezes, mais esporadicamente e à má fila, entrevista-se o presidente da república e aproveita-se a oportunidade para anunciar os próximos candidatos ao cargo!
Vindos de fora, em alguns rasgos periclitantes, repentinos e sincopados das agências noticiosas internacionais, sabe-se que o mundo pula e avança todavia, ressentidos do impasse a que somos obrigados, dizemos que é muito bem-feita e que não temos nada com isso... O que em certa medida é verdade (ou infelizmente verídico), e à semelhança dos governos que quando se propõem a enfrentar as dificuldades a primeira coisa que fazem é atribui-las à oposição, tal como o marido impotente afirma que a culpa do seu fraco desempenho se deve exclusivamente à fealdade da esposa, conformamo-nos com a ideia de que se estamos atrasados em termos científicos, económicos, culturais, de desenvolvimento humano e coesão social, a responsabilidade não é nossa mas sim desses países avançados que não esperam por nós, não nos puxam e acarinham, e ainda por cima disparam a aprovar textos fundamentais para o progresso sem sequer nos perguntarem como redigi-los, a exemplo vivo do que foram os casos do Pacto Para o Desenvolvimento do Milénio, a Carta dos Direitos da Natureza ou a Constituição Europeia.
Alguns, deveras optimistas e crentes nos poderes das águas santas e sulfurosas das nossas safras serranas, cientes de que somos um país de intelectuais e cujos 1300 cursos do sistema hão-de dar frutos sábios, nem que seja por enxerto genético que garanta evidenciada melhoria nas biologias e matemáticas, não duvidam minimamente do nosso poder de remendeiros com engenho e arte, e aceleram a coisa destruindo jardins e derrubando árvores a fim e fazer parques de estacionamento para os seus popós mais dos dos funcionários públicos que os servem, contribuindo assim com outra imaginativa e genuína interpretação de desenvolvimento sustentado para a terminologia da gaia ciência e progresso mundial. Exemplo vivo daquilo que um sistema educativo pode fazer por nós e pelo nosso futuro, eis que se aprontam a obrar catacumbas onde esconder as suas armas de destruição maciça à base de monóxido de carbono, quais apóstolos das grandes certezas universais baseadas no antropocêntrico sentimento comum a quem lida com o erário público, que é o desde que estejamos bem os demais que se lixem!
Por outro lado, e fazendo jus nas medidas de contenção da despesa ou cortes no investimento público, aplicando os respectivos tabefes na cultura e defesa ambiental, pondo de rastos e a pedir por portas iniciativas que valorizavam a região e sensibilizavam a população mundial para os graves problemas da nossa actualidade, como era o caso do Festival Ambiente – Encontros de Imagem e Som do Norte Alentejano, financiam-se e patrocinam-se obras intragáveis de promoção pessoal, teses de doutoramento, palimpsestos de cordel para empalar ceguinhos, que se não fossem os prefácios e introduções a dar-lhe sustância, caíam na gorpelha dos nunca abertos nem desfolhados... Como? Porquê? A quem assiste o direito de tirar o pão da boca e qualidade de vida de aqueloutros que também são homens mas não investem na regra dos dois pesos e duas medidas? Por onde andam a consciência cívica e democrática daqueles que, não por falta de conhecimentos, de estatuto social ou habilitações, deviam ser os primeiros a pugnar e a corrigir as desigualdades ou atropelos de cidadania?...
Eu respondo que não sei, e não serei o único a dar tamanha resposta. Contudo, tenho uma certeza porém: é que o carnaval é só em Fevereiro do ano que vem! É que, acreditem ou não, o calendário e o bom senso não se mudam de um dia para o outro, e se César Augusto o fez quanto aos meses do ano, aumentando-os, teve também que reduzi-los no número de dias... Que o mesmo é dizer, que quando os meios são restritos e as necessidades diversas, as prioridades residem naquilo que é essencial.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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