11.18.2003

“Nunca mais me esqueceu a manhã virginal da Madeira, e as cores
que iam do cinzento ao doirado, do doirado ao azul-índigo – nem a montanha
entreaberta saindo do mar diante de mim, a escorrer azul e verde...”
Raul Brandão, in As Ilhas Desconhecidas

Se considerarmos o muito que se tem dito acerca da Pérola do Atlântico, das paisagens, praias, clima, produtos naturais e situação geográfica, já não é tão efusiva a literatura sobre as suas gentes. Ou por outra: não era. Porque agora, talvez estabelecendo uma equiparidade que faltava, Gabriel Raimundo, jornalista e escritor com créditos acumulados em diversos órgãos de comunicação social regional, autor a quem se devem algumas das mais interessantes páginas da nossa literatura de emigração, qual bússola inquieta sempre apontando para um Norte que é inclusive outro traço essencial para a caracterização da nossa nacionalidade, cujos títulos (Na Estranja – 1979; Gritos de Guerra – 1980; Natal Crítico – 1980; Construtores de Pontes, Usinas e Maisons – 1981; Rafael, o Montanhês – 1981; Vidas Desvitaminadas – 1982; Cantares de Amigo – 1982; A Batalha de Pedra – 1984; Tear de Tomates – 1984; A Diáspora em Letra Viva – 1988; Tarrafal, Meu Amor Verdeano! – 1993; Sonhos no Zimbro – 1994; Estórias para Brancos e Negros – 1994; Mundo Mareado – 1997; Alentejo 2000, Novos Tempos – 200, por exemplo), repartidos por crónica, ficção, poesia e entrevista, reflectem e atestam, não só uma invulgar flexibilidade genérica, como também a preocupação constante em relatar o perfil apaixonado, andarilho e viageiro da alma lusitana, por quem diz que “é andando, teimando e a cantar que um homem acerta o passo e desata a língua”, e vai ainda além no reportar das intimidades familiares, ou da solidariedade entre o português e portuguesa na luta pela sobrevivência e pela criação de um Portugal cada vez melhor.
Neste caso particular, odisseia de um madeirense que regressa à sua ilha onde outra Penélope ou Palmira o aguarda criando os filhos numa perspectiva de vida mais desafogada, recheada de peripécias sentimentais, encontros e desencontros camonianos, dissabores e desenrascanços típicos do navegar lusófono, acrioulados de lisbonês ou francemandeirês, num discurso contido mas vivo, sério mas jocoso, que aquilata para a faceta cosmopolita da nossa personalidade, marcada pelo compasso donjuanino de pola lei e pola grei com que o homem português segurou o leme e marcou o seu destino, Gabriel Raimundo descreve, em Emigrante da Madeira Reencontra o Paraíso, a saga do humilde e inocente pecador Manel de Porto da Cruz, cujo primeiro emprego continental é o de adjunto de merceeiros de secos e pingados, ali ao Martim Moniz, numa Lisboa diferente da actual mas já bastante vincada pelo quotidiano multicultural e pluralismo de hoje, pois estava-se então “muito antes do 25 de Abril, que não se sabia se viria a acontecer, como depois se verificou”, duas vezes emigrado, ilhéu aqui e português em França, trabalhador sempre que anseia regressar à sua terra natal com o estatuto de empresário.
Romance meticuloso, embora curto – 120 páginas, mais ou menos –, demonstra bem quanto é verdade que para dizer tudo não é preciso escrever muito nem obrigar o leitor a peregrinações pormenorizadas e excessivas, tem contudo um alcance histórico e literário que transcende a sua reduzida extensão: sintetiza numa única vida toda a diáspora portuguesa. Principalmente aquela (ou a daqueles) de quem a História menos falou: a dos obreiros de um povo composto por gente que se aventurou no mundo para ser alguém – e o conseguiu.
Para no-lo apresentar e falar dele, estará no próximo dia 25 de Novembro, na Sala Polivalente 1 da Biblioteca Municipal e Portalegre, o seu autor, talvez cumprindo o mesmo destino de outros conterrâneos que de terra em terra foram desvendando novos mundos ao mundo. Serranos, transmontanos, minhotos, beirões, madeirenses, açoreanos, homens e mulheres de qualidade e valor, que com engenho e galhardia souberam edificar este “reino” que tanto sublimamos e pelo qual pelejamos dia a dia, acentuando com a língua a identidade pátria numa Europa una que ora se constitui. Lá estaremos, porque certamente jamais iremos permitir esquecer de quanto todos somos grande parte daquilo que fomos.

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