4.29.2004

Na próxima sessão da Comunidade de Leitores de Portalegre, a realizar na Biblioteca Municipal de Portalegre, sobre o livro de Franz Kafka, O PROCESSO
RETRATO DE UM HOMEM EM CORPO INTEIRO
JOSÉ MARTINS DOS SANTOS CONDE

CORAGEM!
“É preciso vencer a angústia e os medos, para
recuperar a coragem de viver e, sobretudo,
de viver um projecto de qualidade.”
In AS CHAVES DA VIDA



Homem que pautou toda a sua vida por princípios e valores, cujas ideias-sentimento (resumidas por si mesmo em nove, e a saber: calma, paz, alegria, coragem, compreensão, solidariedade, justiça, integração e amor universal), chaves de conduta intelectual e moral que sem dúvida lhe vincaram inclusive a actividade de professor (norteada por três preocupações maiores: 1 - fazer o acompanhamento assíduo das turmas, nunca tendo excedido o número de três faltas por ano lectivo; 2 - perspectivar a História numa permanente ligação com o mundo actual; 3 - aprender a História fazendo-a, levando sempre os seus alunos a apreciar o contacto com as fontes), de autor e de cidadão, nasceu a 6 de Julho de 1934, na aldeia de Santa Madalena, freguesia de Vila Fernando, concelho e distrito da Guarda, e faleceu em Portalegre, na sua residência, em 16 de Agosto de 2003, José Martins dos Santos Conde, além de nos legar uma obra vasta e variada, abrangendo desde a poesia ao ensaio, passando pela monografia e artigos avulsos, contribuiu também com o seu exemplo e dedicação aos outros e à sociedade para a revolução ética e necessária do nosso dia a dia, sublinhando como a vida é um tirocínio perfeito onde aprender é mudar, talvez em excelsa demonstração daquilo que sempre foram as suas principais características: flexibilidade de espírito e ambientação imediata.
Humanista, filósofo, frade, teólogo, historiador, docente, tradutor, jornalista, poeta, chefe de família, companheiro e amigo, indivíduo enraizado no meio mas igualmente cidadão do mundo, cujo pensamento eivado de influências diversas, como culturalmente universais, caso das perspectivas existenciais de Satre, como budistas, cristãs e ameríndias, raiando as essências profundas desde o Ioga e Lao-Tsé até à imagética de Florbela Espanca ou Vergilio Ferreira, revelando um ecletismo apurado e exigente, todavia simultaneamente tolerante e apoiado na moral científica, consciente da problemática regional, jamais deixou de registar, divulgar e descodificar os valores da nossa região em pessoas e coisas, de fazer o levantamento de conflitos ou situações, de procurar dar-lhe uma explicação ou resposta, bem como de partilhar informação objectiva, interessante e peculiar acerca dela, tentando fintar o destino ao provincianismo paupérrimo e desolador que nos acomete desde os tempos imemoriais.
Senhor de DUAS VIDAS que abriu e fechou com as chaves da determinação, pensamento e moral insuspeitáveis, depois de ter palmilhado as veredas da formação mística, cursado humanidades e teologias (Seminário de Vila Nova de Gaia – de 1946 a 1952; Seminário Maior de S. Alfonso, em Valhadolid/Espanha – entre 1952 e 1960, onde fez “profissão perpétua” como frade redentorista; Institut Catholique de Paris – em 1967), sofrido os tormentos da repressão vocacional num esgotamento nervoso com 14 anos de tratamento adiado, que transformaram um jovem líder libertário amante de poesia, literatura e música, discípulo de Guerra Junqueiro e Gomes Leal, num borrego dócil e cabisbaixo que seguia atrás do rebanho politicamente correcto, cuja tortura o levou até a leccionar Português e Latim no Seminário de Vila Nova de Gaia onde começara os estudos, mas também a aproximar-se de Portalegre, via Castelo Branco, onde no seminário local leccionou Filosofia Antiga, Literatura e Arte (de 1964/67) e aprendeu Ioga, que o ajudou a recuperar a autoestima, confiança e gosto pela vida real, pontos de partida fundamentais que inspiraram a lutar pela autenticidade e estabelecer contacto (carta e telefone) com Angelina Pires de Sousa Gomes, natural de Portalegre, enamorando-se, e com a qual veio a contrair matrimónio em 22 de Setembro de 1968 (na Igreja e S. Lourenço, com copo de água no Café-Restaurante Amaia), renascendo assim outro mas bastante mais próximo da sua vocação primária, posto que é partir de então que se licencia em História (Universidade de Coimbra, 1979), conclui o curso de pós-graduação de História Cultural e Política (Universidade Nova de Lisboa, 1992) ou defende a tese de mestrado (1995), cria família própria (três filhos: Paulo, José e Ana Raquel) e inicia a sua carreira literária, publicando primeiramente O Ensino Primário no Distrito de Portalegre (1983 – edição da Assembleia Distrital de Portalegre, em colaboração com Dionísio Cebola, Director Escolar do Distrito de Portalegre), a que se seguiram Rostos e Gostos do Norte Alentejano (publicado em vários semanários, desde 1983), Escritores do Distrito e Portalegre (publicado no jornal Fonte Nova, desde 1984), Luís Gomes – Perfil e Obras de Um Portalegrense (edição de O Semeador, em 1985), Diálogos do Fim de Século (publicado no jornal Notícias de Elvas, desde 1987) António Silvestre, Artista em Ponte de Sor (Folheto comemorativo, Ponte de Sor, em 1987), Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica (edição da ESSL – Escola Secundária de S. Lourenço, em 1987), Teatro de Portalegre (edição do autor, em1987), Um Minuto de Olhos Fechados (poemas publicados no Notícias de Elvas, desde 1987), José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo (Edições Colibri, em 1998), Luzia, o Eça de Queiroz de Saias (edição do autor, em 1990), As Chaves da Vida (publicado pela ESSE – Artes Gráficas, Lda, Lisboa, em 2002), Duas Vidas – Poemas (conjunto de versos de 1962 a 1999, editado por Produções Gráficas UNP, Lda, Lisboa, em 2003, cujo lançamento acontecerá durante as Festas da Cidade, com apresentação/leitura de Joelle Ghazarian e Júlio Henriques, e espectáculo de Ana Raquel Conde, numa performance de interactividade multidisciplinar de música, som, vídeo, gestos, movimento e palavras) e, para publicação, Beatriz Emília Rente – Glória de Portalegre nos Palcos Nacionais (rubrica inserida na revista Miradouro, mas que, segundo vontade expressa do autor, só será publicado em livro se a Câmara Municipal de Portalegre tomar a seu cargo iniciativa e custos, o que caso contrário nunca acontecerá), Instantâneos (com publicação prevista para este ano, espécie de fragmentos que retratam o alter-ego do autor, repartindo-o por momentos, situações e relatos avulso) ou Pronomes (Marvão – 2002, conjunto de quadros burlesco-satíricos, onde se descrevem com ironia e graça algumas figuras típicas do quotidiano português).
Se enquanto colaborador de diversos títulos da imprensa regional – colaborou na revista Miriam (de índole teológica, entre 1960 e 1967), nos jornais Fonte Nova (de 1984 a 1988), O Distrito de Portalegre (e 1985 a 1989), Notícias de Elvas (1987 a 1989), O Arraiano (de Elvas, em 1990), e na revista cultural portalegrense Miradouro, em 1989, ou como tradutor (traduziu do italiano, francês e castelhano cinco livros de divulgação teológica, publicados em 1969/70) – a sua atitude não foi a de profundo empenhamento, já enquanto professor se não pode dizer o mesmo, posto que no campo profissional excedeu sobremaneira as exigências do ensino, quer no sector privado, onde leccionou Língua e Literatura Portuguesa (nomeadamente no Seminário de Cristo Rei – Vila Nova de Gaia, Colégio La Salle – Abrantes, Colégio Municipal de Serpa Pinto – Angola, e Salas de Estudo “Renascença”, do qual foi também director em 1970/72, entre 1960 e 1972), quer no ensino oficial, que marcou multidisciplinarmente, onde ingressou em 1972 para leccionar Português e Latim em Malange, Benguela, Bailundo e Batalha, até 1977, e a partir daí como professor de História (Escolas Secundárias de S. Lourenço e Mouzinho da Silveira - ESMS, em Portalegre, e D. Dinis, em Lisboa), não se limitando contudo a ministrar conhecimentos mas sim também a participar activamente em Conselhos Directivos (Escolas Secundárias de Vila Teixeira da Silva e ESMS – 1974/75 e 1978/9, respectivamente), ora fazendo estágios (Estágio do 10º Grupo A, na Escola Secundária D. Dinis, em Lisboa, em 1979/80), ora enquanto orientador de estágio (zona sete, distritos do Alentejo, em 1984/85 e 1985/86), ora como director de turmas ou delegado de grupo (p.e. na ESMS, durante os anos lectivos de 198/81, 1981/82 e 1982/83, e na ESSL, em 1986/87 e 1987/88), bibliotecário (ESSL, nos anos lectivos de 1986/87, 1987/88, 1990/91 e 1991/92), professor de Português e Mundo Actual (Centro de Formação Profissional do Instituto do Emprego), planificador de visitas de estudo nacionais e internacionais, assim como definiu e orientou actividades de pesquisa em bibliotecas e arquivos.
Adepto do riso vital e da ironia mansa, jocosa, apaixonada de prazer e de alegria, consciente da sua pequenez na imensidade do Universo, mas também da importância que tem para o seu equilíbrio o tudo está relacionado com tudo, os elementos naturais e as pequenas coisas e seres, despojado de egoísmo messiânico fundamental, embora cada um dos seus livros possua valor intrínseco e interesse pontual, é em Luís Gomes – Perfil e Obra de um Portalegrense, Chaves da Vida e Duas Vidas que melhor se notam a pujança discursiva e acutilante de um espírito universal e convicto do papel reservado ao homem no planeta e o deste para a humanidade e vida. Desencantado mas lúcido, tranquilo, fluente, mas igualmente rigoroso e objectivo, o seu discurso espelha a determinação, segurança e coragem de uma pessoa habituada a encontrar-se consigo mesmo sem subterfúgios nem esquizofrenias. Ali, onde no olhar de quem se reinventou quotodianamente entre a moral e a ética, entre o pedagogo e o chefe de família, entre o historiador e o poeta, entre o passado e o (então) presente, entre o religioso e o social, com que sublinhou figuras esquecidas que se empenharam na prossecução do bem público com capacidade de entrega ao trabalho e ao dever, na defesa intransigente dos valores em que acreditavam (José Maria Grande – Figura Nacional do Liberalismo) ou personagens primeiríssimas no panorama das literaturas femininas europeias, enaltecendo-lhe a sensibilidade profunda e vibrátil, destruindo preconceitos e restabelecendo a verdade que circunscreveu Luzia, o Eça de Queiroz de Saias, ou ainda assentando a importância histórica dos tradicionais festejos dos caixeiros no Dia da Espiga (A Festa dos Aventais – Festa Popular, Regionalista, Republicana e Laica), bem como tecendo a panorâmica da actividade dramática em Portalegre através dos tempos (Teatro em Portalegre), cresceu uma personalidade exemplar e um cidadão modelo. Porque quem como ele soube o que é a fraternidade universal, reconheceu que a solidariedade significa estar com os outros, pagar a sua parte de obrigação ou de soldo, navegar no mesmo barco e prosseguir a mesma viagem, em igualdade de circunstâncias e sentimentos, se edificou no sacrifício e abdicação, retirando das horas amargas lições de luta, franqueza e galhardia, e enfrentou com riso e temperança os dissabores com que a mediocridade adversa bastas vezes lhe foi atreita, como no caso do concurso ao Ensino Superior Politécnico, em que foi preterido em favor de um estagiário sem a mínima prova dada, e denunciou apropriações autorais (soneto de Luís Gomes reciclado por José Régio, in Fonte Nova nº 31, de 29 de Maio de 1985), e jamais deixou de crer na democracia e liberdade, nem de ser firme na salvaguarda da vida, como valor essencial do Universo, de proteger os animais (v. g. os cães Becas e Pixy) e a natureza da inconsciência e do terrorismo humano, guardar o património artístico e histórico da humanidade, apoiar os criadores da beleza, pugnar pelo aumento de paz, justiça e verdade n mundo... Enfim, um homem que sempre esteve à altura da sua nobreza, e que até no leito de morte soube legar aos que lhe sobreviveram o melhor da sua existência, incutindo-lhes esperança numa última e derradeira palavra: «coragem!» - tal e qual como lhes disse. Coragem, de coração, praticando com os seus aquilo que a muitos ensinou!
Joaquim Castanho

4.20.2004

UM POETA NASCEU


Quando alguém vir
Parir
Um coração
Quando alguém vir
Uma flor a abrir
E dela sair
Um fruto são
Quando alguém vir
Uma luz acesa
Que nas trevas se acendeu
Foi de certeza
Que um poeta nasceu!


NO SILÊNCIO DAS NOITES PERDIDAS


Corpos adormecidos,
Pontas de cigarros,
Jarras partidas,
Copos entornados,
Flores ressequidas.
Almas esquecidas
No silêncio das coisas mortas.
Camas desfeitas,
Sonhos vazios.
Rostos amalgamados
- Sem sorrir.
Corações ignorados
- Sem ódio nem amores.
Comprimidos de todas as cores
- Para dormir.
Memórias cansadas
Por nada pensar.
Mundos nunca encontrados.
Luzes apagadas,
Sangues viciados.
No silêncio das noites curtidas
- Vidas perdidas!


A REVOLTA DO POETA

Sobre nuvens
Ele voa
Dentro do sonho
Ele vai
Ouve-se o grito
Que da garganta lhe não sai
E ouvem-se por resposta
Gargalhadas
Descontroladas,
Descabidas,
Saindo de bocas
Ainda mais perdidas
Numa onda
Ele navega
E troveja
Escorrega
E naufraga.

O meu coração é um relógio
Que bate em compasso
As horas felizes
E as horas tristes
Ninguém dorme em meu regaço
Não há calor que o aconchegue
Não há pé que o agarre
Nem há peso que ele não carregue
Há um mar de sangue
Há um horizonte de angústia
E sofrimento
Há bondade
E há maldade
E há tormento
Ele vê e ele sente
O mundo mudado
Punhal que se lhe espeta
É a revolta do poeta!


Maria Isabel Gaspar
AGORA

A meus pais

pensamentos nostálgicos
toca a flauta no monte
é esta a hora


a água corre na mente
breves são os silêncios
a felicidade ignora


o tempo corre no espaço
é d’aço mas cansa
e morre agora

Maria Isabel Gaspar

4.08.2004

Viva, pessoal! Como vêem a Ana já aderiu ao reino da literatura viva, e ainda não tinha visto tudo para manifestar a sua predilecção... è assim: tiro e queda! Se quiserem colaborar, ponham as vossas dicas através do e-mail grokare@hotmail.com e estarão editadas num pulo! Força... A poesia, a prosa, o romance é de todos... E a LIBERDADE TAMBÉM! Celebremos Abril JÁ!!!!

4.07.2004

ola sou a ana! ainda não vi mas gostei.

4.03.2004

PORTUGUÊS SUAVE


Perto da alvorada um barco parte.
Solitário. Altivo. Mastro desvirgindo
Desflora plúmbeos anjos fugindo
Dum luso quadro de engenho e arte.


Leva no bojo um nome escrito –
Que mal se vê, que mal se soletra –
E por vela enrolado manuscrito
Que vírgil mão em seus dedos aperta.


Foi homem e rei ao seu leme
Que mais que homem foi também nação;
E em cada vez que o cordame geme
Lhe estremece a voz, o fado e o coração


No peito uma madrugada sustenida
Que ao vaivém das ondas o ritmo bate
Levando-lhe também a própria vida...



OUTRO REINO PARA INÊS

É preciso amar as sombras que me falam de ti
Ou as nuvens quando estas ganham formas
Que em tudo se assemelham às tuas ausências;
É preciso. E ser lesto no referir dos olhos
Amoras silvestres de ouvir os gestos
Falar às fontes de teus lábios gomosos lineares
Ou descer pela seda ondeada castanho-escuro escorreita
De teus cabelos partidos ao meio dos sonhos iguais.



É preciso esconder as mãos nas ânsias de ser,
Meter os dedos nos refegos e costuras de existir
E saber que continuar é uma metafísica adiada,
Uma ontologia auspiciosamente pejorativa preterida
Como se de uma vergonhosa mania íntima se tratasse,
Sem recear as curvas derrapantes ou as agulhas marginais,
As culpas assumidas e as projecções perversas,
Os fundamentalismos intolerantes ou as crostas
Sempre demasiadamente rígidas das dores alheias.



Porque é preciso a cada hora minuto segundo reconverter
A ausência saudade em espaço quando imagem acabada
Suficiência compensatória do quanto é irremediável viver
Não sei onde, não sei porquê, mas saber é bastante
É bom ouvir o telefone de “ podes ser tu a tocar “
Retinir insistentemente insistes em esconder o nome
No alô impessoal, profano, thriller mal contado
À beira dos dedos com unhas roídas até à pele de veludo
Acariciante dos gomos sensuais e meigos em leque dispersos
Pelos gestos indomáveis da fala sublinhando iluminuras.



Sei isso e muito mais que tu também não esqueces
Nunca jamais seremos outros em nós ainda que importe
A conjuntura, o carro novo, a mobília a prestações.
E quando é preciso as coisas acontecerem, acontecem
Ninguém pode mudar a lei porque a lei é a Lei
Não uma decisão da assembleia que calhou votar assim
Tão-só assim, precisamente não doutra lei mas daquela.



É não estares aqui ou eu aí o único órgão que me pesa
Nunca os pés, as pálpebras, a língua também entaramelada.
A sonolência é outra coisa não parecida com languidez,
Mas pode ser um despertar para o reino do sonho
Navegar entre as tuas coxas naufragar e naufragar
Não importa esquecendo, esquecendo, esquecendo sempre,
Até ao fim do gesto morno de estender os ombros e gritar.



Gostava de pensar que me esperas os olhos postos na porta
A respiração suspensa a cada sombra que se aproxima
Um formigueiro na espinha e as espáduas que fremem
Embalam expectante fantasia no perfil convergente à ombreira
« Eu vou voltar!... » - A certeza cresce ainda cresce
Não repete, não pára, não fica aí como se fosse estádio
Mas paragem à tona fluente terna dos absolutos possíveis.



PÃO E VINHO

Fazer um poema não é como fazer um filho.
Não é partir uma vidraça. Nem é olhar uma cria
Enquanto brinca nas ruas do crescer
Nas escolas do crescer
Nas rampas do crescer
Nas pistas do crescer
Nas balizas do crescer
Nas passerelles do crescer
Nas discotecas do crescer
Nas tabernas do crescer
Nas avenidas do crescer
Nas câmaras do crescer
Nas camas do crescer
Nas bolsas do crescer
Nas reformas do crescer.


Não é. Mas comer uma azeitona de Elvas também não;
E todavia, ambas as coisas dão imenso gosto e prazer.
1.

Cor-de-laranja acentuadamente acordado de mansinho….
Sim, por ti, meu amor grego de unhas pintadas
Por acaso úrsulas caminhantes de areia pisada
Calcada por aqueles que te amam sem saber
Mendigo angélico, vem a meu canto burguês
Vem que eu te amo… A correr como quem descasca bananas
A olhar o céu – sim, é assim que quero amar o mundo
Usando plenamente todos os poros que abundam
A minha cheirosa pele, segundo diz o meu amor.


Quero beber todo o sangue humano do mundo!
Quero lamber as lágrimas dos anjos-que-não-sabem-que-são-anjos.
Quero quebrar o silêncio morto das fantasias impúdicas.
Oh, meu anjo bíblico, porque não sabem eles o que perdem?
Porque desconhecem o poder das contracções ritmicamente acentuadas
A atmosfera pressionando o corpo dos que não têm medo de mostrar quem são?
Sabeis? Sabeis que, mel-de-abelhas-casmurras, correr, correr
Correr de encontro ao mal é como comer biscoitos com manteiga?...
Ris?? Ri. Ri! Ri!!! Sente as cócegas cornucopiantes de amarelo-torrado
Correntes de ar com perfumes não usados por humana gente.
Ri; imortaliza-me! Faz-me vibrar de medo, medo morto
Morto muito morto, capaz de se desfazer ao toque
Ao suspiro da princesa cabelo-cor-de-mel, coitadinha que chora
Que chora… Não, ela não perdeu o sapatinho de falso cabedal
Porque nessa festa ela não foi, e nem sequer foi convidada!
Ah, e também não acordou pelo beijo do seu príncipe encantado:
Quando adormeceu no sofá, frente à TV, com a pantufa no colo
(Coitadita, faltou à festa…) só acordou quando o lobo-mais-que-mau
(Trrriiiimmm-Trrriiiiim) lhe tocou à porta a pedir a contagem da luz!...


Vá, chora... Chora. Chora! Chora!!!... Vejo o grande fio cor-de-marfim
Enrolado na menina que descobriu quem está dentro dela... Feliz!
Estendida na estrada negra alcatroadamente enfeitada de traços brancos
Ora contínuos, ora descontínuos, com ou sem relevo, como tudo na vida
E de todas as cores vividas por todas as pessoas que querem saber todas as coisas
Coisas que todas as canetas sabem rabiscar, rabiscos em todas as direcções
Todas as maneiras possíveis de preencher e ser-se preenchido
Tal como todos os seres, humanos a orgasmiar que nem lobos na floresta
Sábios do sadismo de amar para enlouquecer o seu eu e o mundo em que vivem.
Amo-me! Amo-me! Quero agora! Quero possuir-me aqui e agora, já
Neste autocarro em que mais trinta pessoas viajam comigo, púdicas
Efémeras, pujantes na frigidez do prazer que acorda todas as manhãs
Todas, para acariciar o mundo deslizando, caminhando nele... Silêncio!!!
Quero lacrimar meu sangue sofrido aqui e ali, sofrido além e acolá
Tal como todos os homens se fertilizam com a mente, vasta, vasta, vasta.
Sufoco de prazer sem ninguém saber, ninguém ver, ninguém sentir...
Porque não querem ver, não querem saber, não querem querer!
Repito: não querem sentir o mundo onde apoiam seus pés...
Senti-lo tal e qual ele é, sem ilusões... estúpidos carnívoros!
Amantes da quase apaixonante carnificina na ilusão do mundo
Ilusão sem limites que apenas os humanos vêem com portas
Portas bem fechadas para o ar respirável dos duendes (feios
Feios, feios – como eu vos amo, meu deus!... ) lindos de tão feios
Não entrarem pelas portas fechadas, bem fechadas, até ao trinco
Mel mundano que adocica nos cabelos cor-de-milho-ainda-verde
De Melinda, princesa extraditada, Rapunzel ibero-lusitana...


Mas nas portas lêem-se cartazes: “ABRIR SÓ NO MUNDO DOS SONHOS
Letreiros anunciadores dos estúpidos carnívoros
Abri, abri, abri as portadas, que a rainha louca quer entrar!
E o povo grita: “Loca! Loca! Sois uma putanita loquita!
Sois uma devassa com os parafusos a menos e desaparafusados!”

No entanto, lamenta-a: “coitadita, pobre doida tresloucada!...”
Mas eu transbordo na fluidez dos prazeres corporais e mentais
Desejo, desejo como nunca desejei nada na vida, entrar por aquela porta
Na liquefacção do meu corpo resultante das altas temperaturas
Com que chicoteio todas as minhas subalternas veias
Quais nuvens de ameixas lançadas do céu pelos magos celestes
Fumadores de orações incensadas, garota da minha pátria
God save the queen” dito em desejo, desejo, desejo carnal
De entrar no mundo da loucura extasiante ao descontrolo oblíquo
Amavelmente riscado e pintado com cores que ninguém entende!...


Eis a porta dos sete orgasmos! Sim, sete cornucopiantes flagélicos
Ablascentes e floridos absolutamente mortíferos imortalizantes orgasmos!
O primeiro... (continua)



2.

Não sei o que está dentro de mim... É algo que explode de vez em quando
E quando isto acontece, choram-me lágrimas, lágrimas que levam consigo
O cheiro a carne humana, a carne humana raivosa, carne sufocada
Inebriada por cheiros de aqui e acolá, coroada pelo amor dos deuses
Rasgada pelas unhas do cão suculento e amarelo-torrado
Que passeia na vida sem saber, sem saber porquê nem para quê...


Amo o Heitor, mas ele sufoca-me! Prometi ajudá-lo. Ele vai precisar
É de mim daqui a alguns anos... Daqui a alguns anos irei ajudá-lo!
Ele merece. Ele amou-me. Deu-se-me todo... Deu-se sem limites!
Quero cuidar dele; quero fazê-lo adormecer no meu colo,
Quero dar-lhe o banho salgado e duro e cruel de minhas lágrimas
E com meu sangue íntimo fosforescente hei-de pintar nele o arco-íris!
Quero tanto que ele seja feliz... Mas eu sei que não mereço a infelicidade,
E é tão difícil sermos ambos felizes, que só tentar, é de si demasiado insano!


Olho para trás... Tudo quanto ele me provocou
Tudo quanto ele em mim libertou ou despertou
Tanto amor, tanta raiva, tanta pena, tanta amizade
Tanta curiosidade pela vida, a enorme vontade e olhar o mundo
De tirar o melhor que há em mim, a grande força do sexo
O de querer amar para reproduzir e criar esses rebentos...
Eu quis ter filhos dele! Ser mãe dos filhos dele...
E quis morrer por e para ele, com ele... quis que nos fundíssemos num só ser!


Foi ele quem despertou os sentimentos mais puros e mais humanos
Em mim ele é especial, só por isto, terá de ser especial...
Ele vê para além dos traços do mundo, para além dos pêlos da pele
Portanto, mesmo que amanhã ele não venha como prometeu
A minha casa, mesmo que nunca mais me telefone
Nem com ele converse, mesmo que a morte nos procure antes e nos encontrarmos
Eu amo-o e sei, tenho a certeza, de que ele me ama também,
Que nos amamos de e para sempre, porque meu coração e alma não têm limites!


Por isso amo muitas pessoas, muitas... E entre elas, amo nem mais nem menos
Amo diferente! Se todas despertaram algo diferente em mim, para quê compará-las?
Amo homens, mulheres, gordos, magros, feios, bonitos, lindos, horríveis
Bem cheirosos, fedorentos, altos, baixos, cabeçudos, carecas, brilhantes
Sombrios, bem vestidos, maltrapilhos, velhos, novos, mansos, rebeldes
Com ou sem adjectivo – tudo nomes e renomes concebidos pelos outros...
Pois que para mim todos têm outros nomes, que os identificam no que em mim são!


Deixa ver as pessoas que amo... Amo o Heitor!
O Heitor para mim é água, água pura, cristalina, etérea
Impossível de aprisionar em qualquer recipiente, água que é vida,
Que tal como ele, que em si mesmo a transporta, com tudo o que ela tem
Amor, ódio, tristezas, alegrias, e vive-os! Ele é o homem
Literalmente vivo, não os homens ditos vivos mas que passeiam pela crusta
Terrestre, mortos, inteira e eroticamente mortos! Ele não; ele está vivo e passeia
Passeia e está louco... Porque quem vive é louco! É a própria loucura!


Sim... Acabei agora mesmo de o descobrir: quem vive é louco
À semelhança do que afirma o ditado massai acerca do Heitor
Que “primeiro a loucura, depois a sabedoria” assim dito verdade pura
Também o Heitor vive, no seu coração e de quem o rodeia, vive
E põe flores onde nunca ninguém admitiu a hipótese de haver vida
Ele põe flores, flores loucas, as magníficas flores das loucuras!...

3.


A vida pesa nos ombros de quem a leva pesada...
Naquilo que as pessoas vêem e não olham
Aquilo que quero perante ti e mim
Ás escuras, no trampolim dos tecidos fluorescentes
Que a vida murcha nas flores atiradas à sombra
Que sombra minha abrange os outros?
Que sombra minha abrange o mundo?
Iluminação dos dentes brancos, com carapinha emaranhada
De terra vermelha africana
Luz de mim e ti
Escolhas perante cruzamentos de olhos moldados em ti
Escolhas do Mundo vestido de castanho em pó
Amavelmente cai em Terra...
Tenta...
Trémula...
Vivida...
Fujo dos olhos que me traem por trás dos ombros...
Fujo do mundo que me quer derrotar...
Fujo de mim...dos limites que delineei...
Ou que me delinearam por ser humana
Por ser Mulher
Por amar os cornos da Vida Terrestre
A cinza cresce nos meus músculos
Não consigo respirar...
O mundo sufoca-me e não me deixa crescer
Poros da minha pele amuralhados pela realidade
Realidade?
Passas-me o pão todos os dias de manhã?
Poros da minha pele obstruídos pelas minha visões...humanas..
Sinto-me enlouquecer a cada segundo que passa
Sinto a descoordenação mental, a desarticulação de tudo
O que me compõe como ser
Sinto a quebra do lápis com que escrevo a vida
Poros obstruídos por tudo o que olho e não vejo.
Não vejo...
Limites que me impõem...
Impõem como me impuseram o leite materno á nascença...
Outras formas de comunicar?
Não sei!...pressinto-as?
Não sei!
Sinto a vida? Sinto a morte?
Sinto a morte como um encontro final e completo comigo mesma...
Só lá me encontrarei com a minha verdadeira alma..
Alma
Alma que me persegue e eu fujo...
Fujo do seu encontro...
Fujo da morte... mentalmente...
Fujo do que me persegue e que amo...
Amo a morte.
Amo a morte da vida...
Amo as palavras que me compõem
Amo o que me persegue e não controlo
Amo o descontrolo que compõe as linhas de minha mão.
Verdades escondidas no corpo?
Devaneios na pele que nos fronteiriza com o mundo?
Assim quero viver...
Tremo só de pensar que vivo aqui, comigo...
Tremo de ódio? Prazer?
Já não me interessa nomear sentimentos...
Já não me interessam nomear as coisas que vejo...
Não gosto de nomeações..
Vou inventar uma língua que não nomeia coisas


LI
DISTRACÇÕES

Esquecidas no tempo
num saco sem fundo
algures num espaço desequilibrado,
sentadas, as palavras
revelaram-se solidárias
libertaram-se
vaguearam de mãos dadas
e pensaram serenamente
ARMARAM-SE
SITIARAM

invadiram milhões de páginas
anónimas
dissolutas
esquecidas
que ganharam vida
Lutaram contra prefácios ocos
derrubaram frases vazias
desordenaram batalhões de ideias
detalhadas
Assaltaram parágrafos
e arrasaram capítulos
Venceram a lassidão


E o autor, aspirante a poeta
criticou

claudicou.



Zélia Marchão


ESCRITA DOMÉSTICA


Por cima dos telhados oblíquos
pairam frases gramaticalmente harmoniosas
pelos canais de telhas gastas de adjectivos
deslizam palavras simples e melodiosas
das goteiras, sílabas caem-me gradualmente
nas mãos em concha
E numa página em branco
construo metáforas
tentando disfarçar o pensamento
De vez em quando um salpico de pretérito
invade um espaço ou outro
Das chaminés, em espirais enfeitiçadas
fluem, subindo, preposições desordenadas
pousando a pouco e pouco na roupa do estendal
E o vento chega, forte, para baralhar
toda a ortografia
Desejo que a neve traga
as pontuações certas
Porque, neste inverno, presumo que
não se construam textos seriamente delineados
Talvez, quem sabe, o ferro de engomar
quente, escaldante de realidade
alguma coisa, ainda, possa salvar
Cada peça é moldada por dedos de tinta
acariciando as linhas de lã
para simplesmente se aculturar com todo
o tipo de verbos alinhados, metodicamente, na gaveta
Por fim, após um banho quente de diversão
prosas de cetim arrepiam-me a pele
perfumada de poemas
que se soltam de primaveras melódicas, passadas.

Zélia Marchão

4.02.2004

escuta o olhar da sonhadora
ela vê para além do visível
ela ouve para além do audível
e sente para além do sensível
está tudo escrito no brilho apaixonado dos seus olhos
todas as noites a sonhadora vai à janela
e olha para as estrelas
ela sabe que há uma que um dia brilhará mais
nesse mesmo dia, as suas asas estarão prontas para voar
para a levarem a essa estrela...
... a TAL

não deixes que a chama se apague

Philipa B. Antunes
No lusco-fusco
a quietude eu busco
Encerra-se o dia
com as gentes e sua rotina
de soldada cortina
Saúdo a noite que se aproxima
Tão clara
E olho para cima:
o meu ser se anima
a minha ferida se sara
Porquanto é Dia!

Philipa B. Antunes
ROMANCE CLANDESTINO


O menino, com sua mão frágil
No papel desenhou a floresta,
Desenhou a cabana,
E num repente ágil
Colocou dentro desta
A mais linda cigana.

Depois pintou um príncipe
Chamado de João,
Que lhe bateu à porta
Pedindo com brandura
Um pouco de água e pão,
E que ao ver a formosura
Se lhe prostra em oração.

« Levanta-te e entra »,
Lhe disse a cigana linda
« Pois te esperava e certa
Estava de ainda chegares
Antes de a tarde finda. »


Brilharam doces seus olhares
Para logo seus brilhos se apagarem.
« Mas senhora!, como poderei
Depois sair sem morrer
De saudade? »


E após se beijarem,
Cigana e filho de rei,
Nela entraram sem querer
Saber da dura verdade.


João ao palácio não quis
Jamais voltar até que seu pai
A todos ordenou encontrá-lo.
A seus exércitos diz:
« Tragam-no vivo e dai
A morte a quem tentou raptá-lo. »

Os soldados cumpridores
Batem montes,
Batem vales e rios,
Perguntam aos pastores,
Perscrutam horizontes
E inquirem doutores.
Sofrem os tempos de calores,
Calores e frios.

E é quando um dia
À volta da floresta se juntam
Como soubessem só poderem estar além
Que um velho guia
Informa os generais do rei
Haver nela dois amantes que andam
Felizes a brincar ao “ pai-e-mãe “
Sem se importarem com a lei.

Então, o menino pára.
“ Desenhar, para quê?... “
Se aqueles que ele tanto amara
Por sabê-los como seu pai e sua mãe,
Tão iguais para quem os vê,
Têm que vir a sofrer também
A imposição da corte e seus porquês
“ Como se foram Pedro e Inês... “

Se... Mas não! Não!!
Ninguém lhe iria levar a melhor!
E num gesto rápido e exigente
Pega na tesoura do papel.
Com ela vai ao desenho saído de sua mão
Com tanto carinho e calor,
E num corte lacrimoso e tremente
Retira à floresta a cabana
Em que estão o príncipe e a cigana
E corre a escondê-la no sótão.


O rei e seus generais
Percorrem a floresta de lés a lés;
Atiçam os cães, erguem os punhais,
Cansam os cavalos, ferem os pés.
Mas de nenhum têm sinal!
Nasce-lhes aos poucos a desilusão.
Corre-lhes a vida mais que mal,
E abrem as bocas de espanto: “ Onde estão!!...
Onde estão?!... “


Depois o menino, suspirou e sorriu.
Feliz, contente com seu feito
Segredou a si, em inocente jeito:
« Pschiu!... Ninguém viu. Ninguém viu!... »


ODISSEIA III


EUFALO...
( Eu falo do lado de lá do lá )
Partiu um dia
À procura de sua mãe.

E no calo
Da linguagem – EUCALO,
O calo da alegria –
Levava uma mulher de ninguém.

Percorreu montes e rios.
Fez viver flores onde
Se torrava a erva pelos frios
Havia a veste do pária e do conde.

Fez o riso e a dor
No seio pequeno novo
Correu como se fosse amor
De penetrar EULOUVO.

Eu louvo tudo quanto é belo!
( A mãe assim... Os seios livres e tomados...
A boca sugando... ) A língua?... O selo?...
A conquista de sermos conquistados.

E Eulouvo casou com Eufalo.
Fez um lindo par!
Inda hoje, Eucalo
Diz que a cerimónia foi amar.


CÂNTICO CLARO
( Dedicado a Portalegre)

O teu olhar parecia dizer:
“ Aquele que me amar está perdido. “
Mas mesmo assim
Do interior de mim
Ecoava um cântico muito antigo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “

A minha certeza é única:
Sou ponte entre aqui e além.
Que minha fala é a túnica
Do romeiro que se chama Ninguém.

Enquanto viver estou
Contigo nos morros, nas praias;
E dançarei até que o voo
Das gaivotas se liberte das saias,
Dos batuques, dos sambas
Dos corais, dos cantares de amigo.
Que isto de cruzar cordas bambas
Só foi verdade por um crer:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “


E se sou zambo ou mestiço
Foi porque Deus quis partilhar
Comigo seus poderes de criador
Ao trocar a guerra pelo amor.


Por isso, quando ouço cantar
O gaio, o canário, o carriço
Faço-me ao Porto e dou-me ao mar
Que combate o amarelo outoniço.
E então sou tão eu de mim – eu,
Com todas as minhas correntes
As minhas veias, o meu céu
O multicolor das minhas gentes
Livres e capazes e ousadas e objectivas e transparentes,
Que cresço nos milhões de bocas
Mostrando suas línguas loucas.


Quem me invoca é Sagres e Vera Cruz; o resto é pó.
Minhas testemunhas são duas numa só.
Que Santa Cruz continue a ser onda e clamor
Ventos de liberdade a soprar por Timor.


Mas que ninguém me pergunte porquê,
Nem me peça segredos que não sei,
Ou me ofereça outro castigo.
Que meu ser é o mar que se navegou.
É o corpo indígena que se amou.
Que me curtiu e salvou
Educou e fez crescer
E o querer com que digo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “


Lisboa, 23 de Maio de l999


A CAUSA DAS COISAS

1.

Vê como o sol, embora o não queiramos
Nasce todos os dias!... – quem lho teria ordenado?
Talvez o sonho daquela criança que todos amamos,
Que escreve e desenha, e esconde romances no sobrado!

Talvez o silêncio morninho do olhar
Ou a mão que afaga descontraída
Para em cada letra de brincar
Inventar a palavra vida...


Talvez a necessidade
Que o mundo tem de ter cor...
Talvez a verdade...

Ou, porque não!?... O amor.



2.

Quem diz da voz o lugar imprevisto?
Quem diz da boca a fonte?
Dos olhos a mágoa de partir
Num amo, logo insisto,
Numa vida em que o ser não desconte
Anos como paga de existir?!


Quem se debruça da janela
Recolhe a pétala, afasta a madeixa...
Quem doma o sonho fraterno
Lhe monta o dorso, lhe põe a sela,
E quer correr na brisa que desleixa
De ser livre e não eterno?


Quem pelos jardins corre ligeiro
Anda de bicicleta, atira flechas
Faz castelos e nos acorda pela manhã,
Ou se quer no lugar primeiro
Duma vida a que acendemos mechas
De ternura, para que se não torne vã?


Quem é capaz de ainda chorar
Por nós, nos pede pão, dá lições
De abrir as mãos sem fazer batota,
E à montra dum comércio quer parar
Para com quaisquer dez tostões
Comprar gelados, bater à porta?


Quem?! Quem nos diz da simplicidade
Ser tão bela como a confiança?
Ou se surpreende com a verdade...
Quem?
Quem?
Quem?

A criança.


PASSEIO EXISTENCIAL

( Av. da Liberdade )

No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!


Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!

As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...


Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...


E os olhos cerram, descem, descem...

E os olhos cerram, descem, descem...


Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...

Mas os olhos cerram, descem, descem...

Mas os olhos cerram, descem, descem...


Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »


ENCONTRO FINAL

Quem sabe do amor
A palavra certa?


Exacta.


Secreta.


O nome.


O dia.


A hora?




Quem se busca?
Descobre a luz exígua.
Multidão

Cruzam-se olhares
melhor dizendo, pensares
de almas fugidias
de um hábito de dias.
É a multidão!
E lá em cima, tranquilo
o Homem do Leme observa
um oceano de cores
sentimentos inequívocos
vários sentidos perdidos...
aromas, cheiros, perfumes
O que será?
Deliciosa sensação
preenche-me o espírito
bebo tal utopia
embriago-me nela
perco-me, encontro-me,
volto a perder-me
Procuro uma brisa,
uma direcção, que me leve
ao cume daquela montanha
de sentidos flutuantes,
de melodias penetrantes
que trespassam almas e corpos...
Descubro-me num sonho
(ser realista!)
com tons musicais, transcendentes
Caleidoscópio de emoções,
universo de visões,
miragens, viagens,
já não sei para onde vou
já não sei quem sou
tantas vidas a passar
são ondas de um outro mar
são vagas de uma maré
ou destino, ou fé
ou aquilo em que se possa
num segundo
acreditar!!

Helder Faria

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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