4.03.2004

DISTRACÇÕES

Esquecidas no tempo
num saco sem fundo
algures num espaço desequilibrado,
sentadas, as palavras
revelaram-se solidárias
libertaram-se
vaguearam de mãos dadas
e pensaram serenamente
ARMARAM-SE
SITIARAM

invadiram milhões de páginas
anónimas
dissolutas
esquecidas
que ganharam vida
Lutaram contra prefácios ocos
derrubaram frases vazias
desordenaram batalhões de ideias
detalhadas
Assaltaram parágrafos
e arrasaram capítulos
Venceram a lassidão


E o autor, aspirante a poeta
criticou

claudicou.



Zélia Marchão


ESCRITA DOMÉSTICA


Por cima dos telhados oblíquos
pairam frases gramaticalmente harmoniosas
pelos canais de telhas gastas de adjectivos
deslizam palavras simples e melodiosas
das goteiras, sílabas caem-me gradualmente
nas mãos em concha
E numa página em branco
construo metáforas
tentando disfarçar o pensamento
De vez em quando um salpico de pretérito
invade um espaço ou outro
Das chaminés, em espirais enfeitiçadas
fluem, subindo, preposições desordenadas
pousando a pouco e pouco na roupa do estendal
E o vento chega, forte, para baralhar
toda a ortografia
Desejo que a neve traga
as pontuações certas
Porque, neste inverno, presumo que
não se construam textos seriamente delineados
Talvez, quem sabe, o ferro de engomar
quente, escaldante de realidade
alguma coisa, ainda, possa salvar
Cada peça é moldada por dedos de tinta
acariciando as linhas de lã
para simplesmente se aculturar com todo
o tipo de verbos alinhados, metodicamente, na gaveta
Por fim, após um banho quente de diversão
prosas de cetim arrepiam-me a pele
perfumada de poemas
que se soltam de primaveras melódicas, passadas.

Zélia Marchão

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La vida es un tango y el que no baila es un tonto

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Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

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Também pode alcançar o céu

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