8.07.2011


OS AMANTES

Amor, é falso o que dizes,
Teu bom gosto é contrafeito;
Tenta novos infelizes,
Que eu inda trago no peito
Mui frescas as cicatrizes.

Teu mel é mel azedo,
Não creio em teu agasalho;
Mostras-me em vão o rosto ledo;
Já estou muito escaldado,
Já d’águas frias tenho medo.

Teus prémios são pranto e dor;
Choro os mal gastados anos
Em que servi tal senhor;
Mas tirei dos teus enganos
O sair bom pregador.

Fartei-te assaz a vontade;
Em vãos suspiros e em queixas
Me levaste a mocidade;
E nem ao menos me deixas
Os restos da curta idade.

És como os cães esfaimados
Que, comendo os troncos quentes,
Por destro negro esfolados,
Levam nos ávidos dentes
Os ossos ensanguentados.

Bem vejo aljava dourada
Os ombros nus adornar-te;
Amigo, muda de estrada,
Põe a mira em outra parte,
Que daqui não tiras nada.

Busca algum fofo morgado
Que, solto já dos tutores,
Ao domingo penteado,
Vá dizendo à-toa amores,
Pelas pias encostado;

Que em sisuda casa honrada,
De papéis nunca avarento,
Dá com mão refalseada
Escritos de casamento
Ora à filha ora à criada.

Genealógico comparado
Lhe concede, a peso de oiro,
Em castelo imaginado,
Cabeça de fusco moiro
Sobre escudo golpeado.

Árvores de geração,
Em pergaminho enrolado,
Provas inegáveis são;
É um ramo desgraçado
De antigos reis de Aragão.

Dando ao mochila o lazão,
De Fílis a escada emboca,
Sempre em ar de proteção:
Alvo palito na boca,
Branda varinha na mão.

Zomba dos falsos brasões
Que não são no berço achados;
E diz à moça as razões
De ter no teliz bordados
Dois cães e quinze leões.

As histórias lhe declara
Daquelas guerras felizes;
E mostra, com mão avara,
Os ossos de dez narizes
Que seu quinto avô cortara.

Aturde a moça boçal
Com cem quintas, cem comendas;
E armando um mapa geral
Das suas imensas rendas,
Vai-se sem lhe dar real.

Mas, se a teus farpões doirados
Não achas digno consumo,
E os julgas mal empregados
Nestas cabeças de fumo,
Nestes peitos altanados,

Busca algum novel basbaque,
Que por pobre não saía,
Mas já mete o bairro a saque,
Depois de que engenhosa tia
Lhe armou duma saia um fraque;

Que gravezinho namora
Com brando e risonho aspeito:
Ponta de lenço de for,
Molho de flores no peito,
Prenda de certa senhora;

Que um trapo a seu jeito ordena,
Temendo o pó das calçadas;
E antes de entrar na novena,
Com cuspo, pelas escadas
Vai dando aos sapatos crena.

De gelo as pedras cobertas
(Como às vezes me fizeste),
Alta noite, e horas certas,
Quando o rígido nordeste
Deixou as ruas desertas,

Oiça duros assovios
Percursores de alto insulto;
Retalhem-no ventos frios,
Ladrem ao postado vulto
Cem noturnos cães vadios.

De paisanos salteado,
Ronda sem fé e sem lei,
De espadas velha cercado,
E ao som «da parte d’el-rei!»
Por força desembuçado,

Membrudo cabo vermelho
O apalpe, ante os mais senhores;
Acha uma escova e um espelho,
Dezoito escritos de amores
E um sujo lencinho velho.

Tiram teus acesos raios
Também na gentalha vil,
De crestados peitos baios,
Que começando em barril,
Vão, por aumento, a lacaios.

Busca algum que, da cocheira,
Quando o patrão não sai fora,
Com os olhos na trapeira,
Limpando a sebe namora
Desgrenhada cozinheira.

Que de noite à sua porta,
Com famosos tangedores
Que o Talaveiras conforta,
Lhe manda ternos amores
Sobre as asas da comporta;

A quem a suja donzela,
Por almoço do costume,
Manda em sórdida tijela
O primitivo chorume
Da desflorada panela.

E se não te satisfaz
Com tanta conquista brava
Que nesta canalha fazes,
E ainda a funesta aljava
Pejada de setas trazes,

Não tens velhas presumidas,
Que em fim de mês fingem dores
Só às moças concedidas?
E têm de compradas cores
As roxas faces tingidas?

Cuja boca pestilente,
Ante um espelho ensaiada,
Torcendo-se destramente,
Aprende a abrir a risada
Por onde inda resta um dente?

Que há sessenta anos donzelas
(Caso raras vezes visto!),
Têm títulos de capelas
E um hábito de Cristo
Para quem casar com elas?

Busca alguma de bom caco,
Que, pela fenda da saia
Marinhando o braço fraco,
Fisga o lenço de cambraia,
Afastando o de tabaco;

Que em festival sociedade
Até o rapé reprova,
Chamando-lhe porquidade;
E vai fartar-se na alcova
De simonte e de cidade.

Amor, faze estas postas;
Vai-lhe das lágrimas rindo,
Já que de lágrimas gostas,
E não andes perseguindo
A quem te virou as costas.

Porém se da plebe escura
Em pouco o triunfo prezas,
E queres fina ternura,
Extremos, delicadezas,
Os freiráticos procura,

Gentes de mais alta esteira,
Ternos, finos corações,
Que em fechada papeleira
Vão guardando em batalhões
As cartas de sua freira.

Em chegando a condutora
Que os sacrilégios ateia,
Um destes de gosto chora,
Lambe com respeito a obreia,
Por ter cuspo da senhora.

Posto na insípida grade,
Em almíscar perfumado,
Todo amor, todo saudade,
Comendo, em doce babado,
Os sobejos de algum frade,

Ao sublime estilo guinda
A sua discrição notória,
A que logo a freira linda,
Revolvendo na memória
Os dois livros de Florinda,

Responde: «Os conceitos sigam
Os holocaustos do altar,
Pois são – e as chamas o digam –
Pedir, quem pode mandar,
Preceitos que mais obrigam».

Entretanto, um chantre velho,
A quem a rodeira engoda
E que, em fechando o Evangelho,
Vai meter dentro da roda
O seu cachaço vermelho,

Freirático por fadário,
Tão gulosos como amante –
Condessinhas pelo armário,
E sobre a deserta estante
Manjar branco e o breviário;

Que em podre filosofia,
Sectário da antiga lei,
Os «universais» sabia,
E, armado do a parte rei,
Tudo a eito distinguia,

Arranca oleoso escarro;
Diz à rodeira um conceito
Daqueles que já tem sarro;
Mete os óculos no peito,
Trono de amor e catarro.

Pois já que estes peitos vão
Franca entrada oferecer-te,
Amor, carrega-lhe a mão:
Aprendam a conhecer-te
Mas paguem caro a lição:

Mete num cárcere a dama;
Do bom chantre os calcanhares
Vão curtir gota na cama;
E o secular cruze os mares
Que foi descobrir o Gama.

E se queres empregar
As tuas setas de prova,
Quando alva lua raiar,
Vai sobre a Ribeira Nova
As asas equilibrar:

Brancos vestidos tomados,
Descobrindo as saias altas,
Entre as nuvens os toucados,
E com esbeltos peraltas
Os braços entrelaçados –

Verás ser aceito logo
Teu riso enganoso e brando.
Não esperam por teu rogo;
E em tu do alto assoprando,
Verás chamejar o fogo,

Que alvos dedos delicados
A furto se vão beijando;
Enquanto os pais, descuidados,
A loja nova admirando,
Pararam embasbacados!

Verás sisudo estrangeiro
Contando grossos tostões
Ao refinado brejeiro,
Correio de corações
Que se compram por dinheiro;

Verás moça rebocada,
Na cabeça lenço sujo,
Rota capa sobraçada,
Recebendo do marujo
Um copo de limonada.

E enquanto escuto os gemidos
Que arrancas de tantos seios,
Deixa que em montes erguidos
Veja os naufrágios alheios,
Enxugando os meus vestidos.

Se até nos teus estimados
Ervados setas se embebem,
Se, do teu riso enganados,
Com bocas sedentas bebem
Veneno em vasos doirados!

Vão pé ante pé, guiados
Por peitada cozinheira;
Mas, vendo os pais levantados,
Dentro da enrolada esteira
Ficam num canto emboscados.

Quando alta noite sussurra
Rijo, sibilante vento
Que as grossas portas empurra,
E acorda o velho avarento
Com os cuidados na burrar;

Deixando a cama, ligeiro,
Corre portas e janelas
Registando o quarto inteiro,
Em ceroilas e chinelas,
Com pistola e candeeiro.

Que tremer de coração,
Que semblantes enfiados
Os amantes não terão,
Que os colos levantados
Ouvindo o rumor estão!

Da janela debruçada,
Desenvolve degraus falsos
Pálida dama assustada,
Os mimosos pés descalços,
A madeixa ao vento dada.

Pois se estes teus escolhidos,
Por cabedais, por figura,
Das Nises favorecidos,
Maldizem sua ventura
E descem arrependidos,

Como hei de eu crer-te, que apenas
Vi de longe tranças de oiro?
Debalde outro engano ordenas
A quem de te vão tesoiro
Nunca teve mais que penas.

Do teu rol meu nome risca;
Em peito inda não cortado
Cevados anzóis arrisca;
Mas com peixe já sangrado
Não gastes a tua isca.

De meu pranto rociadas
Penduro as fatais cadeias,
Ao som de meus ais forjadas;
Arranco das rotas veias
Cruas setas despontadas.

Sangue inocente espargiram;
Mas à ideia me não tragas
Uns olhos que, enxutos, viram
Estas desgraçadas chagas
Que em teu serviço se abriram.

Dei-te os cuidados e os dias,
De tudo já foste dono;
Restam só melancolias.
Que glória te dá um trono
Posto sobre cinzas frias?

Teus golpes de mim que esperam?
Dá folgo aos escravos mancos
Que em teu carro entorpeceram;
Deixa em paz cabelos brancos,
Que entre teus ferros nasceram.




In Nicolau Tolentino (1740-1811), Os Amantes

8.06.2011


NA ESCÁPULA*

Um grupo de redatores, de secretários, saídos do escritório, descia lentamente a Avenida do Neva. Era o aniversário de Struchkov e ele levava todo o grupo a casa.
– Vamos já encher a barriga, amigos! – Sonhava em voz alta o herói da festa. – E de bela comida! A minha mãe preparou um destes pastelões… Eu é que fui buscar a farinha, ontem à noite. E há conhaque… Bom conhaque. Ela já deve estar de esperar por nós.
Struchkov morava em cascos de rolha. Andaram, andaram muito tempo, até que chegaram. Entraram no vestíbulo. O odor de pastelão e de pato assado chegava-lhes ao nariz.
– Sentem o cheiro? – Perguntou Struchkov com risadinhas de satisfação. – Tirem os abafos, meus senhores, e ponham-nos em cima da arca. Mas onde está Katrina? Ó Katrina! Já cá estão todos. Akulina, vem ajudar estes senhores a despirem as peliças.
– O que é isto? – Inquiriu um dos convidados.
Uma escápula estava espetada na parede, uma escápula enorme, da qual pendia um boné novo de pala cintilante e ornado com uma roseta**. Os funcionários entreolharam-se e empalideceram.
– É o seu boné – murmuraram. – Ele está cá!
– Sim, está cá – gaguejou Struchkov. – Com Katrina… Saiamos, meus senhores. Vamos até ao café e lá esperaremos que ele se retire.
Cada abotoou a sua peliça e dirigiu-se em passo lento para o café.
– Cheirava a pato em tua casa porque o patola está lá – chalaceou o arquivista adjunto. – Foi o Diabo que o trouxe. Demorar-se-á?
– Não. Nunca se demora mais que duas horas. Tenho fome. Começaremos por tomar vodka e comer anchovas… Depois outra rodada e em seguida o pastelão. A minha mulher faz bons pastelões. E teremos sopa de couve…
– Compraste anchovas?
– Duas caixas, quatro qualidades de enchidos… A minha mulher também deve estar com fome. Ele chegou sem prevenir!
Ficaram hora e meia no café. Para dizer que tomavam alguma coisa, serviram-se de chá e voltaram a casa de Struchkov. Entraram no vestíbulo. Cheirava ainda mais a comida. Através da porta entreaberta da cozinha, os senhores funcionários lobrigaram o pato e uma tijela de pepinos. Akulina tirava qualquer coisa do forno.
– Ainda não temos sorte, amigos!
– Que há?
Os estômagos contraíram-se de dor. A fome é impiedosa e um gorro de marta pendia da maldita escápula.
– É o do Prokatilov – andiantou Struchkov. – Saiamos, meus senhores. Esperaremos em qualquer parte. Aquele não se demora muito tempo.
– E um porcalhão destes tem uma mulher tão linda! – Proferiu na sala uma voz de baixo profundo.
– Bem-aventurados os pobres de espírito, Excelência – respondeu uma voz feminina.
– Saiamos – gemeu Struchkov.
Voltaram ao café e pediram cerveja.
– Prokatilov é um tipo influente – comentou o grupo, para Struchkov. – Demoram-se uma hora em tua casa e esse valer-te-á dez anos de felicidade. O bem-estar, meu caro! Porque te hás de irritar? Não há razão para tal.
– Não preciso de conselhos. Não é disso que se trata. O que me aborrece é achar-me tão cheio de fome.
Ao fim de meia hora, tornaram à residência de Struchkov. O gorro continuava pendurado na escápula. De novo tiveram de se retirar.
Já passava das sete horas quando finalmente o prego foi aliviado das suas funções e eles puderam aturar-se ao pastelão. Estava seco, a sopa de couve morna, o pato esturricado. A carreira de Struchkov estragara tudo! Mas comeram com apetite.
Tchekov (1883-1884)


*Escápula é um prego de cabeça dobrada em ângulo reto, normalmente utilizado para dele se dependurarem objetos.
**Insígnia de funcionário.

8.02.2011

O CORREDOR
Jean Reverzy
Tradução de José Manuel Calafate

“Está ainda por surgir uma nova ciência que se ocupará da aproximação entre seres vivos, dos seus contatos, dos seus retraimentos, dos movimentos dos seus corpos e dos seus membros. Ciência que será a da solidão do homem e, por isso mesmo, a do próprio homem: este o motivo por que ainda não tentou ninguém.”
Jean Reverzy



De início, no vestíbulo bastante escuro distingui, à esquerda, para lá duma porta de vidrinhos, toalhas brancas estendidas e talheres de metal; à direita destacavam-se um cabide, algumas prateleiras carregadas de conchinhas e bibelôs e muitos outros móveis cuja utilidade me era desconhecida. Então, chamei: mas ninguém me respondeu e hesitei aventurar-me mais longe, numa semiobscuridade riscada de raios que se entrecruzavam diante de mim… É mais audacioso ordenar o mundo por palavras do que por olhares. Por isso, sem repetir o meu apelo, perscrutei o fundo do vestíbulo que prolongava o voo duma escadaria, onde julguei distinguir uma forma clara e palpitante cujos contornos pouco a pouco se foram precisando: eram as pernas duma mulher calçando pantufas a rebentar nas costuras, que descia silenciosamente os degraus. Avancei então mais um passo e distingui a bainha de um vestido negro e dum avental branco e amarrotado, depois as mãos e finalmente o busto e o rosto de uma criada que pousou suavemente sobre o parquete e veio ao meu encontro. Sorri-lhe e, erguendo o braço para lhe dar a entender que era inútil aproximar-se mais, pedi um quarto com vista para o mar. Ela sorriu também mas não pareceu compreender-me e, sempre caminhando para mim, levou a mão ao rosto onde os dedos pareceram querer modelar os lábios a fim de que o seu sorriso correspondesse ao meu.

Nota biográfica: Jean Reverzy nasceu em Lião, em 1914, e morreu na mesma cidade, em Julho de 1959. Formou-se em medicina. Em Agosto de 1940 foi demitido do seu internato pela sua atitude não conformista em face dos ocupantes e colaboracionistas. Entrou no movimento da Resistência, esteve preso e acabou a Guerra nos FTP. A partir de 1945 dedicou-se à medicina num bairro operário. A sua atividade literária iniciou-se em 1954, com o romance Le Passage, que obteve o prémio Théophraste-Renaudot. Depois escreveu Place des Angoisses e O Corredor.
Renovador da técnica do romance moderno, que muitos comparam a Alain Robbe-Grillet, embora haja notáveis diferenças entre ambos, dele afirmou André Wurmser, em Les Lettres Françaises: «Completamente ensimesmado na solidão e no silêncio do homem é, com efeito, um sonho; a realidade acarreta o convívio, a palavra, a simpatia, a antipatia, as relações sociais. Tal é – em meu parecer – a moral a tirar desta espantosa narrativa (O Corredor) que um excelente escritor teve a coragem de realizar».
Referindo-se ao mesmo romance, escreveu Maurice Nadeau, no France-Observateur: «Jean Reverzy iguala-se, de uma assentada, pelas suas intenções e a sua ambição, aos maiores: pensa-se em Joyce, em Kafka, em Beckett».
Eis quem era o grande romancista, infelizmente falecido aos 45 anos.

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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