4.02.2004

ROMANCE CLANDESTINO


O menino, com sua mão frágil
No papel desenhou a floresta,
Desenhou a cabana,
E num repente ágil
Colocou dentro desta
A mais linda cigana.

Depois pintou um príncipe
Chamado de João,
Que lhe bateu à porta
Pedindo com brandura
Um pouco de água e pão,
E que ao ver a formosura
Se lhe prostra em oração.

« Levanta-te e entra »,
Lhe disse a cigana linda
« Pois te esperava e certa
Estava de ainda chegares
Antes de a tarde finda. »


Brilharam doces seus olhares
Para logo seus brilhos se apagarem.
« Mas senhora!, como poderei
Depois sair sem morrer
De saudade? »


E após se beijarem,
Cigana e filho de rei,
Nela entraram sem querer
Saber da dura verdade.


João ao palácio não quis
Jamais voltar até que seu pai
A todos ordenou encontrá-lo.
A seus exércitos diz:
« Tragam-no vivo e dai
A morte a quem tentou raptá-lo. »

Os soldados cumpridores
Batem montes,
Batem vales e rios,
Perguntam aos pastores,
Perscrutam horizontes
E inquirem doutores.
Sofrem os tempos de calores,
Calores e frios.

E é quando um dia
À volta da floresta se juntam
Como soubessem só poderem estar além
Que um velho guia
Informa os generais do rei
Haver nela dois amantes que andam
Felizes a brincar ao “ pai-e-mãe “
Sem se importarem com a lei.

Então, o menino pára.
“ Desenhar, para quê?... “
Se aqueles que ele tanto amara
Por sabê-los como seu pai e sua mãe,
Tão iguais para quem os vê,
Têm que vir a sofrer também
A imposição da corte e seus porquês
“ Como se foram Pedro e Inês... “

Se... Mas não! Não!!
Ninguém lhe iria levar a melhor!
E num gesto rápido e exigente
Pega na tesoura do papel.
Com ela vai ao desenho saído de sua mão
Com tanto carinho e calor,
E num corte lacrimoso e tremente
Retira à floresta a cabana
Em que estão o príncipe e a cigana
E corre a escondê-la no sótão.


O rei e seus generais
Percorrem a floresta de lés a lés;
Atiçam os cães, erguem os punhais,
Cansam os cavalos, ferem os pés.
Mas de nenhum têm sinal!
Nasce-lhes aos poucos a desilusão.
Corre-lhes a vida mais que mal,
E abrem as bocas de espanto: “ Onde estão!!...
Onde estão?!... “


Depois o menino, suspirou e sorriu.
Feliz, contente com seu feito
Segredou a si, em inocente jeito:
« Pschiu!... Ninguém viu. Ninguém viu!... »


ODISSEIA III


EUFALO...
( Eu falo do lado de lá do lá )
Partiu um dia
À procura de sua mãe.

E no calo
Da linguagem – EUCALO,
O calo da alegria –
Levava uma mulher de ninguém.

Percorreu montes e rios.
Fez viver flores onde
Se torrava a erva pelos frios
Havia a veste do pária e do conde.

Fez o riso e a dor
No seio pequeno novo
Correu como se fosse amor
De penetrar EULOUVO.

Eu louvo tudo quanto é belo!
( A mãe assim... Os seios livres e tomados...
A boca sugando... ) A língua?... O selo?...
A conquista de sermos conquistados.

E Eulouvo casou com Eufalo.
Fez um lindo par!
Inda hoje, Eucalo
Diz que a cerimónia foi amar.


CÂNTICO CLARO
( Dedicado a Portalegre)

O teu olhar parecia dizer:
“ Aquele que me amar está perdido. “
Mas mesmo assim
Do interior de mim
Ecoava um cântico muito antigo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “

A minha certeza é única:
Sou ponte entre aqui e além.
Que minha fala é a túnica
Do romeiro que se chama Ninguém.

Enquanto viver estou
Contigo nos morros, nas praias;
E dançarei até que o voo
Das gaivotas se liberte das saias,
Dos batuques, dos sambas
Dos corais, dos cantares de amigo.
Que isto de cruzar cordas bambas
Só foi verdade por um crer:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “


E se sou zambo ou mestiço
Foi porque Deus quis partilhar
Comigo seus poderes de criador
Ao trocar a guerra pelo amor.


Por isso, quando ouço cantar
O gaio, o canário, o carriço
Faço-me ao Porto e dou-me ao mar
Que combate o amarelo outoniço.
E então sou tão eu de mim – eu,
Com todas as minhas correntes
As minhas veias, o meu céu
O multicolor das minhas gentes
Livres e capazes e ousadas e objectivas e transparentes,
Que cresço nos milhões de bocas
Mostrando suas línguas loucas.


Quem me invoca é Sagres e Vera Cruz; o resto é pó.
Minhas testemunhas são duas numa só.
Que Santa Cruz continue a ser onda e clamor
Ventos de liberdade a soprar por Timor.


Mas que ninguém me pergunte porquê,
Nem me peça segredos que não sei,
Ou me ofereça outro castigo.
Que meu ser é o mar que se navegou.
É o corpo indígena que se amou.
Que me curtiu e salvou
Educou e fez crescer
E o querer com que digo:
“ Enquanto viver
Estou contigo. “


Lisboa, 23 de Maio de l999


A CAUSA DAS COISAS

1.

Vê como o sol, embora o não queiramos
Nasce todos os dias!... – quem lho teria ordenado?
Talvez o sonho daquela criança que todos amamos,
Que escreve e desenha, e esconde romances no sobrado!

Talvez o silêncio morninho do olhar
Ou a mão que afaga descontraída
Para em cada letra de brincar
Inventar a palavra vida...


Talvez a necessidade
Que o mundo tem de ter cor...
Talvez a verdade...

Ou, porque não!?... O amor.



2.

Quem diz da voz o lugar imprevisto?
Quem diz da boca a fonte?
Dos olhos a mágoa de partir
Num amo, logo insisto,
Numa vida em que o ser não desconte
Anos como paga de existir?!


Quem se debruça da janela
Recolhe a pétala, afasta a madeixa...
Quem doma o sonho fraterno
Lhe monta o dorso, lhe põe a sela,
E quer correr na brisa que desleixa
De ser livre e não eterno?


Quem pelos jardins corre ligeiro
Anda de bicicleta, atira flechas
Faz castelos e nos acorda pela manhã,
Ou se quer no lugar primeiro
Duma vida a que acendemos mechas
De ternura, para que se não torne vã?


Quem é capaz de ainda chorar
Por nós, nos pede pão, dá lições
De abrir as mãos sem fazer batota,
E à montra dum comércio quer parar
Para com quaisquer dez tostões
Comprar gelados, bater à porta?


Quem?! Quem nos diz da simplicidade
Ser tão bela como a confiança?
Ou se surpreende com a verdade...
Quem?
Quem?
Quem?

A criança.


PASSEIO EXISTENCIAL

( Av. da Liberdade )

No fundo do amor está o amor.
À volta, no cimo, estão diversas coisas
Que às vezes nos entretêm: os nomes,
Principalmente, os nomes!
Somos todos iniciados na técnica de compreender
Que Outono é quando as folhas caem!


Podíamos passar por entre elas...
Ser-lhes a invocação imediata...
Enfim! Sermos díspares parcelas
Desse jogo infinito, a concordata...
...Um tratado! Caminhamos..., elas caem,
O sol vem recortante, capilar,
E os olhos descem e cerram, descem
Para dentro em busca do seu começar!

As pombas rodam, rodam as árvores,
Codificam-se os gestos e as cores
E faz imenso vento ruissussurrante
Mexendo as vestes, os cabelos
Os endereços, os remetentes, os selos
A imagética do corpo tonificante
E o chiar dos pneus, o tilintar eléctrico
A voz anunciante, o nome métrico.
Se nos liquidamos as pombas saem
Do quadro – é melhor deixá-las ficar
Como se fossem paz à volta do amor
Coisas, nomes principalmente, a rodar
A voar!...


Estamos num jardim: um qualquer!
Faz menção de sermos homem e mulher
( É que podíamos!... Deveras! ) Ou avenida!
Porque não sonhos?... O sonho também!
Um saco deles! Bagagem de mistério...
Um livro... Um quarto de aluguer...
Pessoas amorfas que vão e que vêm
E que arrastam consigo toda a vida,
E um odor a incesto e adultério...


E os olhos cerram, descem, descem...

E os olhos cerram, descem, descem...


Deixámos os lábios que sabem a amizade:
Deixámos as roupas que usam o desejo:
Deixámos o sangue que cozinha prazer:
Deixámos as mãos que esculpem carinho:
Deixámos a palavra que recita a verdade:
Deixámos a despedida que encontra o beijo:
Deixámos o sol que encanta o crescer:
Deixámos o vento que murmura caminho:
Mas os olhos cerram, descem, descem...

Mas os olhos cerram, descem, descem...

Mas os olhos cerram, descem, descem...


Há, então, um pestanejar: o sonho agita-se.
E os olhos cerrados, descidos, perguntam:
« Para onde vais? » - somos feitos assim!
E cada um pensa e contrai-se.
Fecha-se. Circula. E as respostas ecoam:
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »
« À procura de mim » « À procura de mim »


ENCONTRO FINAL

Quem sabe do amor
A palavra certa?


Exacta.


Secreta.


O nome.


O dia.


A hora?




Quem se busca?
Descobre a luz exígua.

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