9.22.2004

O estilo simples, directo e conciso, apregoado pela enorme maioria dos escribas da nossa praça, não existe, embora alguns deles intentem convencer-nos de que escrevem com rigor, sem adjectivos, em frases curtas e rudimentares (gramaticalmente falando: sujeito / predicado / complementos). O que é uma pura e descarada mentira! Sobretudo porque aquilo que eles conseguem sempre oferecer-nos, não é dar-nos a realidade factual mas a sua visão (dis/torcida) dela, entregando-nos a parte pelo todo, posto que as mais das vezes a dita seja a pior delas, ou aquela em que o seu enviesado e restrito vocabulário superiormente se nota.
Quando ainda no princípio do ano (entre Março e Junho) 2000 Carlos Augusto Lacerda edita em versão digital Miséria e Grandeza do Amor de Benedita, de João Ubaldo Ribeiro, muito antes que a edição em suporte papel viesse a estar disponível para o grande público, pondo o primeiro capítulo de borla e os restantes a pagar, ou quando Pedro Rosa Mendes faz a pré-publicação da sua Baía dos Tigres, e lhe atribui, não só uma paginação fragmentária cuja intencionalidade explícita é a de dar-lhe a semelhança e versatilidade das janelas de linkagem, mas também um mapa que proporciona a interactividade, facilitando assim que os leitores assumam e escolham percursos de conteúdo no âmago da estória, tal como quando Mário Prata se propõe escrever o primeiro livro on-line onde cada leitor pode espreitar o que o escritor vai escrevendo, intitulado Os Anjos de Badaró, e à medida que o faz, mas igualmente discutir com ele o enredo, a caracterização das personagens e adequação de cenários, desfechos e encadeamentos idiomáticos e universos imagéticos, está a dar-se início à complexidade digital de alcançar o estilo simples, directo e conciso pela primeira vez na história da literatura portuguesa!
Ou seja, são de tal forma infinitos os caminhos da senhora nossa língua, tão pejados de contraditórias formações, que até para se produzir o ideal de escrita, este se consiga cada vez mais a praticar menos esta, destruindo conceitos e figuras intocáveis, derivadas dos medievos pergaminhos, da retórica confabulativa, eivada dos efeitos secundários (poéticos e metafóricos) do discurso desviante, logo literário, que exigiam e impunham aos textos nunca eles serem o que em verdade eram, ou sendo-o, que o fossem com que ninguém visse, se apenas o lessem conforme as indicações sintácticas e semânticas enunciadas, retirando-lhe o esoterismo inicial que sem dúvida encerrariam, cuja descodificação estaria sempre e unicamente acessível a quem estivesse familiarizado com o “glossário” (regional ou específico) utilizado na sua barroca elaboração.
À semelhança do que acontece quanto à biodiversidade e sustentabilidade biológicas ou naturais, poderemos afirmar que é bastante mais útil à humanidade qualquer escaravelho banal e insignificante do que os mais bem pagos e sofisticados jogadores de futebol, porquanto os segundos nada produzem nem acrescentam de valorativo às espécies terrenas, mas antes pelo contrário muito destroem (ou destruem, conforme afiançam os purismos maníaco-depressivos dos gramáticos da lusofonia) ou ajudam a destruir, e aos primeiros a deligência e primor artístico é tão elevado, que até a bola com que brincam são eles que a fabricam, familiarmente conhecida pela maçã de bush – e que os escaravelhos nos perdoem. De onde se chegou ao fim da Era dos interesses avulsos individuais e parasitários. Perdeu-se o canto da cigarra e (re)nasceu o canto da formiga, da barata e do coleóptero. Dos que trabalham a palavra como obreiros de uma nova utopia. Dos que resistem às avalanches do descrédito na criação de um mundo melhor pela restauração do antigo. Dos que elaboram a sua diversão e sustento, clube, casa e família, com os frutos do quotidiano e gente que os rodeia, habitat e cultura emergente, por maiores merdas que estes sejam. Terminou a apologia do herói, do desbravador narcísico e megalómano, do que intenta dar novos universos ao universo das (palavras) apenas com a brutidade interior, para dar lugar à voz colectiva, quer local como global, representativa desse ser e estar, ser e fazer, ser e seres, que é a escrita que se partilha, mas não só na e para a leitura, como também na feitura, porquanto cada um pode criar com os seus, entre os seus e para todos, a qualquer hora e independentemente do lugar onde esteja.
Exactamente. Mas não apenas. Sobretudo porque em seu socorro acorreram as novas tecnologias da comunicação, apesar dos conservadorismos das pitonisas românticas nos quererem convencer que o cheiro do papel melhora os conteúdos, o apalpar das metáforas entesa os espíritos, o carregar com volumes bíblicos robustece os crânios e o devorar amarelecidas folhas nos engorda os tutanos da sapiência outonal com os santos ventos, ou flatulências celestiais e divinatórios. E principalmente se em conta tivermos que a única forma desejável e ecológica da transmissão de ideias e valores é a narrativa, que não pode ser peso para o abate de outros seres vivos, árvores e quejandos, sejam elas plantadas para isso ou não, tenham como destino o aliviar económico das opções sociais ou as fogueiras incendiárias das monoculturas, visto que nestas coisas da ficção, da lógica e da humanidade, não serão nunca os objectivos que justificam os meios, mas sim estes que reconhecem a validade dos fins, sendo parte integrante do engenho e arte, que o mesmo é dizer, que por mais bonita que seja a segunda, se separada estiver da racionalidade, sustentabilidade, utilidade e adequação do engenho, então nada vale, nada significa e ainda menos reconhecimento público tem.
Não obstante periga-lhe o futuro, e corre riscos de extinção a narrativa ficcionista, se não alterar a sua conduta face aos suportes e auditório que serve. Principalmente se se não apetrechar dos convenientes meios técnicos (e-book) para circular entre as gentes e os modos, estabelecendo uma nova apetência entre os que, por incrível que tal pareça, sempre lhe devotaram grande admiração mas foram solicitados por outras formas expressão, assaz cativantes e mais facilmente consumíveis: o cinema. O áudio visual e multimédia. Produtos esses que, quase sempre baseados em obras literárias de autores consagrados, os treinaram para a leitura rápida em écran, e os capacitou assim a ler para além do simples soletrar, fazendo-o parágrafo a parágrafo e não linha a linha como fariam se limitados a fazê-lo do papel, porquanto a rigidez e fixação deste formato, obriga os olhos a um esforço de adaptação, muitas vezes insuportável, como no caso das paginações em letra miúda e entrelinhamento apertado dos livros de bolso, onde a evolução da leitura se faz morosamente e com sacrifício, o que a onera em tempo e custos ou lhe dificulta a compreensão.
Porque o que está em causa já não é a morte do livro mas sim o fenecer das literaturas, sobretudo das que se veiculam através de línguas pouco utilizadas comercialmente, como o português, o holandês, o austríaco ou o russo. Até há pouco quase todos (editores, livreiros e alfarrabistas, autores, professores, críticos, tradutores, ensaístas, bibliotecários, linguistas, líricos, jornalistas e ardinas) se aperceberam e debruçaram sobre o problema (baixos índices de leitura, com crescente agravamento), mas ninguém se preocupou com a solução. Não houve cão nem gato que não bradasse aos céus a iletracia, incúria e desleixe das nossas gentes perante os principais instrumentos da nossa identidade cultural (língua e literatura), todavia não fizeram absolutamente nada para inverter o mar de crise em que durante anos e anos navegámos. Puseram-na a ferros no acordo ortográfico e ensino, criaram uma rede nacional de bibliotecas, patrocinaram programas de rádio e TV, instituíram-lhe um Instituto (português do livro e da leitura), inventaram motivações, subsídios e prémios vários, tiveram inclusive um nobel para poder figurar nos anais da universalidade, mas agir em conformidade e de maneira a alterar o actual status quo é mentira. Procuraram o problema e encontraram-no; deram-lhe honras de primeiro plano e fidalguia; mas quedaram-se pelo diagnóstico e análise dos sintomas, lamentos de velhos do Restelo e viagras das feiras do livro, embora jamais se tenham preocupado deveras em achar-lhe igualmente solução. Enfim, foram lusófonos até nisso: nos consertos de arame e peças piratadas para remediar o funcionamento de toda e qualquer engrenagem que se avarie – aquém e além mar!

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