6.18.2011


Que saudades que eu já tenho do Ministério de antanho!


(Cantiga feita nos grandes campos de Roma)

Por estes campos sem fim,
onde a vista assi se estende,
que verei, triste de mim,
pois ver-vos se me defende?

Todos estes campos cheos
são de saudade e pesar,
que vem para me matar
debaixo de céus alheos.
Em terra estranha e no ar,
mal sem meo e mal sem fim,
dor que ninguém na entende
até quam longe se estende
o vosso poder em mim!

(Sá de Miranda, 1481-1558)

Aplaudo veementemente a decisão de Passos Coelho em extinguir o Ministério da Cultura, não só porque nunca fez nada de positivo e meritório de louvor sobre a cultura, como nunca passou de um elementar e básico sorvedouro dos dinheiros públicos que depois esbanjou a alimentar clientelismos, compadrios e propaganda (mal) encapotada. Finalmente os portugueses têm aquilo que merecem. E de nada lhes valerá virem depois rabiar e lamuriarem-se, que desde a campanha eleitoral que estavam avisados quanto ao destino da cultura na legislatura que se segue. Aliás, se não fossem o que são, brutos e ignorantes, incivilizados e cábulas, trambiqueiros e medíocres, incultos, falsos, maliciosos, déspotas, vingativos e iletrados nunca teriam votado no PSD. E votaram!
Todavia, preferia que esta pasta, a da cultura, estivesse mais perto da modernidade e do conhecimento do que do folclore e da propaganda. Vê-la adstrita ao ministério e sob tutela de Nuno Crato, onde convivem já – e muito bem! – a Educação, o Ensino Superior e a Ciência, seria um sintoma de reforma social além do da reforma administrativa anunciada com o atual organograma do Estado sob a alçada governativa. Ou será que a cultura não tem nada a ver com conhecimento, ensino superior e educação, e vice-versa? Ou será que na versa do vice a educação, ensino superior e ciência não têm nada a ver com a cultura? Há muito tempo que me tenho ando a lembrar, e sentir mesmo algumas saudades, de Roberto Carneiro... Pois, agudizam-se.
Há males que vêm por bem. A cultura portuguesa só é bem vista se for lamechas, maneirista e pacóvia, e vale mais não a termos nem quaisquer pretensões nesse campo ainda romano, por via jesuítica ou judaico-cristã, do que imaginarmos as potencialidades de um cluster nacional que nos catapultasse para a ribalta da atualidade, como sucedeu com a Itália desde a renascença, a França desde o iluminismo, a Inglaterra desde os Beatles ou o Brasil desde o Rio. Depois, que faríamos ao «que pensas, porco? Na lavadura» com que o artesanato e os naïfs gostam de classificar e definir a cultura? Já Sá de Miranda, quando fez a cantiga em epígrafe, encontrando-se em Roma, diante da extensa campina romana, deixou de ver a excelsa beleza da paisagem, porque lhe ficaram os olhos embargados e obscurecidos pela nostalgia do amor e da saudade.
Ora este obscurecimento da realidade e do mundo visível é muito próprio do lirismo português. E tendo eu sempre aqui vivido, salvo raros momentos de curta viagem, não será de estranhar a ninguém que sinta saudades do tempo em que a educação era igualmente cultura, pelo menos no condomínio, fechado ainda como impunham os assaltos e demais vilanagens da ralé sobre a coisa pública, e em que se supunha fazerem alguma vizinhança, embora com muita coscuvilhice e desmandos entre as comadres, sobretudo nos bailaricos joaninos ou na retouça dos desfiles... Não eram grande amigas, ao que consta. Nunca o foram, nem se espera que alguma vez o venham ser. Mas, enfim, pagavam a renda a meias!

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