5.22.2015

PALAVRAS E SANGUE, de GIOVANNI PAPINI

      



“–  Perdoe – interrompi, com a minha costumada grosseria. – A senhora concede-me com demasiada facilidade elogios de que não faço caso, e ainda não me deu sequer a entender o que deseja de mim.

A desgraçada olhou-me de novo com olhos espantados.

– Tem razão – retorquiu. – Perdoe-me. Sou mulher e escritora. Veja, em poucas palavras, o que me sucede: como sabe, nada mais faço senão escrever e, em geral, os argumentos dos meus contos ocorrem-me espontaneamente, enquanto leio ou passeio, ou quando estou na cama sem dormir, à noite ou pela manhã. Mas, de algum tempo para cá, tenho notado que, entre tantos argumentos que trago em laboração no papel ou na minha cabeça, somente alguns são capazes de se desenvolver e, o que é mais estranho, esses argumentos têm algo em comum – principalmente o facto mais importante, isto é, referem-se todos a uma mulher e esta mulher, por mais que me esforce por modificá-la e desfigurá-la, parece-se precisamente comigo.

– Por favor! – exclamei num tom de menosprezo. – E que acha a senhora de estranho em tudo isso? A todos os escritores, inclusive os de talento shakespeariano, ocorre sempre o mesmo. A literatura é um espelho. Fazemos os personagens moverem-se, mas não conhecemos nem representamos mais que a nós mesmos. O estranho é que a senhora não tivesse notado isso antes.”

In GIOVANNI PAPINI
Palavras e Sangue
Trad. Mário Quintana
(Pág. 100)   
  

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