10.29.2003

Conta-me um conto...

“Macondo era então uma aldeia de vinte casas de barro e taquara, (...) O mundo
era tão recente que muitas coisas careciam de nome e, para mencioná-las,
era preciso apontar com o dedo.” – in CEM ANOS DE SOLIDÃO, de G.G. Márquez


Se para algumas pessoas ler é já de si uma actividade que implica tortura e sacrifício, para muitas de entre estas é ainda mais constrangedor fazê-lo em conjunto. São demasiadas as que sucumbiram ao prazer solitário e onanista da leitura (e até da criação literária). Nem sempre foi assim! Segundo rezam as crónicas, que não têm que ser verdade ou mentira, terá a escrita nascido da oralidade e na impossibilidade desta...
As Mil e uma noites, A Odisseia, O Amadis de Gaula, o D. Quixote, livros que remontam à nossa ancestralidade ficcional, eram contados aos serões por pessoas que anteriormente os tinham também ouvido contar, e assim semeavam entre os restantes os germes do sonho e da fantasia. Se o faziam profissionalmente ou por puro prazer não consta das relações tributárias, embora houvesse quem andasse de terra em terra espalhando o seu testemunho acerca dos casos fantásticos que vivera!
Mais tarde, e porque quem conta um conto acrescenta-lhe sempre um ponto, as estórias avolumaram-se, ganharam corpo e personalidade, e exigiram dos homens consenso, unificação e identidade. Ao cada um conta de maneira diferente implantaram o seu teor e puseram fim no regabofe fazendo com que alguém lhe traçasse escritura. Ao acto social da literatura acrescentou-se o não menos social acto do registo. Se este facto sucedeu há pouco menos de dois mil anos entre nós, visto constar que na China, Assíria, Egipto, etc., terá acontecido bastante antes, a oralidade e convívio à volta de um enredo remetem-nos ainda para o tempo das cavernas. Não sabemos ao certo quando é que um sacana qualquer para deslumbrar a sua amada ou meter macaquinhos na cabeça do chefe da tribo se pôs a papaguear pinderiquices que tanto assustam como arrebatam, mas o que é certo é que o fez, embora a TV e a rádio não tenham dado a devida cobertura ao acontecimento.
Ora, ainda este vício andava de gatas e já havia quem lhe pusesse asas no dorso como os que inventavam antídotos para lhe combater o mal e contágio nas massas... Uns tinham razão porque os outros a não tinham, como aos outros lhe assistia porque a uns lhe faltava! Se muitos foram obrigados a beber a cicuta, pagando com a dor e a morte, todo o prazer que as estórias e a palavra lhe concederam durante a vida, não menos quantos houve que lhe invejaram o dom e os mandaram para os trabalhos forçados, masmorras e degredos! No entanto, do que ninguém duvida, quase todos sabemos quem foi Sócrates mas ninguém se lembra do nome do presidente da Câmara da Lisboa de há 200 anos atrás, embora entre um e outro haja tantos milénios de distância quer no tempo como de quilómetros no espaço que habitaram...
Actualmente, numa sociedade circunscrita ao poder da imagem, acesso total à informação, vertiginoso ritmo de vida, expansão da cultura facilitista, solicitação e usufruto dos prazeres imediatos, que tende a dispensar os benefícios da leitura (criação de imagens, mobilidade, flexibilidade e enriquecimento vocabular, facilitação do processo de aprendizagem, contacto e apreensão de emoções exteriores, relacionamento de conhecimentos adquiridos com novos sentidos, construções sintácticas e significados, por exemplo), esse acto deveras social da leitura está a irradicar-se dos nossos hábitos, principalmente se não forem tomadas precauções adultas para contrariar o modus vivendi actual. Entre elas cabe a criação de comunidades de leitores, tal como vão surgindo um pouco por todo o país, na tentativa de reabilitar obras e autores que marcaram ou marcam os nossos tradicionais modos de ser e estar, enquanto cidadãos do e para o mundo.
A Comunidade de Leitores de Portalegre convida, portanto, nesta perspectiva, à leitura do romance “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel García Márquez, com que iniciará a sua actividade em sessão a realizar no mês de Novembro, cuja data precisa será atempadamente divulgada, a fim de que também nós, portalegrenses, possamos ajudar a inventar o futuro reerguendo do passado uma modalidade sócio-cultural que contribuiu em grande parte na formação da cidade que nos acolhe ou em que vivemos.
Há diversas maneiras de contarmos contos uns aos outros e esta é outra entre tantas mais de inscrevermos os nossos passos na resenha da actualidade. A melhor forma de mudar o mundo é começarmos por modificar-nos a nós mesmos, tomando novas atitudes perante hábitos antigos, costumes e consciência participativa na evolução da democracia. A mais-valia de Gabriel García Márquez, quer como jornalista, quer como romancista galardoado pelo Nobel, é inegável e tem entre nós bastantes adeptos, leitores assíduos dos seus títulos, ou mesmo que lhe acompanharam o percurso profissional. Creio que foi uma boa escolha, que encorpará o nosso grupo de leitores com variadas visões deste romance, tal como da obra em geral, e que poderá pôr em contacto pessoas que de há muito têm um gosto comum, bem assim de suscitar naqueles que ainda o não conheçam apetência para o fazerem.
Por conseguinte, aqui fica a nota de boas-vindas e votos de que se divirtam com a saga mirabulante de Aureliano Buendía, que possui todos os ingredientes para guiar-nos através de uma aventura ao realismo fantástico do século passado... E com óptimo cicerone!
grokare@hotmail.com


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