5.22.2015

A FACE OCULTA DE KENNEDY



A Face Oculta de Kennedy
Seymour M. Hersh
Trad. Clarisse Tavares
469 Páginas. 

Kennedy era sexista, mulherengo, vingativo, despótico, drogado, arrivista e (potencialmente) homicida. Fidel Castro, se JFK não tivesse sucumbido no atentado de Dallas, em 22 de Novembro de 1963, a mais negra sexta-feira americana, provavelmente ainda hoje estaria (por razões pessoais) sobre a mira dos “mafiosos” do presidente, que nunca lhe perdoou o fracasso da Baía dos Porcos/Operação Mangusto. E um homem que, a intervalos regulares de seis horas, dava a si mesmo injeções, mas que os mass media transformaram num mito, não só para os seus compatriotas, como também para uma das partes acinzentadas do mundo a preto e branco dos imperialismos: o mundo ocidental, tal como o reconhecemos hoje.

Oriundo de uma família bem instalado no establishment, cujo lema era NÃO SE IRRITEM – DESFORREM-SE, capazes de tudo para atingirem os seus objetivos, ou de optarem pelo errado desde que conveniente e lucrativo, viciados em sexo e poder, racistas, que passaram mais de metade da vida a fazer dinheiro e outro tanto dela a ocultá-lo (do fisco), inculcaram-lhe na formação e crescimento que, como ele mais tarde vai admitir, confirmar e executar, a única teoria política prática e eficaz é a da perseguição da vitória, e que para esta se alcançar apenas são precisas três coisas fundamentais: a primeira, é dinheiro; a segunda, dinheiro; e, a terceira, mais dinheiro – que devem temperar-se com a falta de escrúpulos, quer em consegui-lo, quer em desbaratá-lo, como sempre acrescentava o patriarca e patrono familiar se a oportunidade se lhe deparava. Pelo que “o mais duradouro legado de John Kennedy como trigésimo quinto presidente dos Estados Unidos não foi o mito de Camelot nem a trágica imagem de jovem e simpático líder, abatido no auge da sua carreira. Foi a guerra do Vietname, uma guerra que, na década após a sua morte, mataria muitos milhares de jovens que ele tinha inspirado, deixando ainda muito outros à beira da insurreição.”

Enfim, um livro que saiu 30 anos atrasado e nos deixa a pensar no poderíamos saber hoje das políticas e gestos governamentais de Bill Clinton e George W. Bush, se não tivéssemos que esperar outros tantos anos, até que os podres de ambos possam vir a lume, ser publicados e públicos, digamos, postos à disposição do processo histórico em curso, que é onde se avaliam, sem perceções motivadas nem simpatias corporativistas, as ações dos homens e dos povos sobre o seu tempo e de como eles contribuíram (ou não) para consolidar o futuro. 

Joaquim Castanho




“Não sou um homem vulgar e, por outro lado, já me contei tantas vezes nos meus contos que não sabia que mais dizer.”

In GIOVANNI PAPINI
Palavras e Sangue
Trad. Mário Quintana
(Pág. 188) 

PALAVRAS E SANGUE, de GIOVANNI PAPINI

      



“–  Perdoe – interrompi, com a minha costumada grosseria. – A senhora concede-me com demasiada facilidade elogios de que não faço caso, e ainda não me deu sequer a entender o que deseja de mim.

A desgraçada olhou-me de novo com olhos espantados.

– Tem razão – retorquiu. – Perdoe-me. Sou mulher e escritora. Veja, em poucas palavras, o que me sucede: como sabe, nada mais faço senão escrever e, em geral, os argumentos dos meus contos ocorrem-me espontaneamente, enquanto leio ou passeio, ou quando estou na cama sem dormir, à noite ou pela manhã. Mas, de algum tempo para cá, tenho notado que, entre tantos argumentos que trago em laboração no papel ou na minha cabeça, somente alguns são capazes de se desenvolver e, o que é mais estranho, esses argumentos têm algo em comum – principalmente o facto mais importante, isto é, referem-se todos a uma mulher e esta mulher, por mais que me esforce por modificá-la e desfigurá-la, parece-se precisamente comigo.

– Por favor! – exclamei num tom de menosprezo. – E que acha a senhora de estranho em tudo isso? A todos os escritores, inclusive os de talento shakespeariano, ocorre sempre o mesmo. A literatura é um espelho. Fazemos os personagens moverem-se, mas não conhecemos nem representamos mais que a nós mesmos. O estranho é que a senhora não tivesse notado isso antes.”

In GIOVANNI PAPINI
Palavras e Sangue
Trad. Mário Quintana
(Pág. 100)   
  

OS BONS MOMENTOS DAS MÁS COISAS

crónica da semana


OS BONS MOMENTOS DAS MÁS COISAS

"«Se uma nação conta ser ignorante e livre», disse Jefferson, «espera o que nunca foi e nunca será... As pessoas nunca podem estar em segurança sem informação. Onde a Imprensa é livre, e cada homem capaz de ler, tudo está salvo.»"

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(Pág. 78)

Portalegre, enquanto cidade e enquanto capital de distrito, não pode prescindir de um órgão de comunicação social confiável e de qualidade, e que traduza os seus anseios de desenvolvimento e aspirações de progresso, assim como promova e gere a discussão ou debate público acerca deles, uma vez que "ó rama, ó que linda rama" costumeiro dos atuais (e anteriores), pode fomentar o bailarico (das vaidades e narcisismos avulsos – é certo), ou divulgar as romarias das confrarias do pacóvio para entreter mentes doídas e com soletração custosa e esforçada, por algum tempo, mas não muito, pois, mais tarde ou mais cedo, estes e estas morrem, ou acordam, acabando por reconhecer como estavam a ser enganados e enganadas, pelas pílulas dos "sonhos felizes" que os obrigaram a engolir, manipulando-lhes o gosto com ninharias e bagatelas, que são, indubitavelmente, na sua matriz, outros palimpsestos de outras tantas nascidas, ainda na Idade Média, do obscurantismo inquisitorial que grassou nesta região, implementado na modalidade do troca-por-troca pelo foral com D. João III.  

Até porque ninguém já desconhece que um relógio parado também pode estar certo, ainda que só duas vezes ao dia, e, se o ocultarmos da vista, daqueles e daquelas a quem queremos convencer da sua exatidão, nas restantes, mostrando-lho apenas nas horas referidas dois ou três dias seguidos, fazem-nos o merecido manguito pela marosca, com o típico «pois sim» para nos calar, mas ficando a murmurar entre si, o não menos tradicional «vai lá, vai... escolhe outro!», como epílogo generalizado que concedem aos grandes e espectaculares dramas houdinianos, ou dos clássicos sobretudos azuis com forros de seda vermelha, que, por tão recentes e tão triste memória, ainda se espanejam vivazes no nosso (in)consciente coletivo.

Ou seja, acabaram-se finalmente os tempos da justificação dos meios pela bondade dos fins, tanto em política como na engenharia social, pelo que não será a convicção de precisarmos de órgãos de informação regional, que vamos engolir qualquer um que ande a monte dos princípios éticos, deontológicos e constitucionais, ou nos trate pela bitola do "pra quem é bacalhau basta", porquanto a diversidade de meios disponíveis (televisões, rádios, Internet) com que o poderemos vir a comparar é múltipla e variada, e a escolha de cada um e cada uma, por isso mesmo, se vai tornando também cada vez mais apurada e fundamentada, exigente e rigorosa, sustentada na exatidão do doa a quem doer, se é verdade tem que se dizer.   

O que nos obriga a concluir, parafraseando Thomas Jefferson (13.01.1743 – 04.07.1826, presidente norte-americano, natural da Virgínia e redator principal da Declaração de Independência dos EUA, em 04.07.1776), que se pretendem que uma cidade seja livre e emancipada dentro da atual conjuntura europeia e mundial, não podem esperar que ela seja ignorante e ignorada, porque isso é impossível, por mais que as forças do obscurantismo medievo o intente, porquanto quase todas e todos sabem ler suficientemente bem, fazendo-o com frequente galhardia e assertivamente, e já ninguém se entretém com os "bonecos polaroide" de atirar poeira para cima dos factos, com ou sem c atrás do T que, de santíssimo nada tem, nem serve de ferro para trindade nenhuma, a não ser a do atraso, miséria e desertificação (crescentes). Ser ignorante, malformado e perverso já não garante diploma de herói, nem nas tascas mais pícaras, quer dizer, típicas. Desculpar as más coisas por algum momento menos mau ou bom que (hipoteticamente) proporcionaram, enfim, já não cola... E ainda bem!

Joaquim Castanho  

5.21.2015

NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS

crónica da semana




NÃO SE FAZEM OMELETES SEM OVOS

Se defendemos um desenvolvimento que promova a afirmação das potencialidades criativas e intelectuais do ser humano, em declarada harmonia com o meio social e ambiente, então temos a obrigação de pugnar por um ensino que valorize as qualidades pessoais de cada um, e de cada uma, no sentido de lhes reforçar o equilíbrio físico, material e psíquico, bem como a autonomia, a responsabilidade, consciência cívica e emancipação basilares, e essenciais, ao desempenho dos seus direitos de cidadania e participação democrática.

Portanto, “laurear” os bons alunos e as boas alunas pelos excelentes resultados que obtiveram nas suas licenciaturas ou mestrados, não significa sancionar ou menosprezar os que não conseguiram alcançar semelhantes níveis, mas antes sugerir-lhes que não devem acomodar-se a eles, conformar-se com a mediania, pois é sempre possível atingir melhores resultados, aperfeiçoar as suas performances cognitivas, e práticas, tal como alguns e algumas fizeram, e lhes trouxe reconhecido mérito e correspondente bolsa com isso. Clarificar-lhes o acesso a mais cidadania e possibilidades de participação na (e da) sociedade. No ambiente. E na qualidade de vida.

Pelo que, embora com anos de atraso, importa registar a notável valia da iniciativa do IPP – Instituto Politécnico de Portalegre – em atribuir diploma e bolsa por mérito aos cinco melhores alunos de 2011/2012, no passado dia 06 (e a saber: Cristina Mira Luís – Educação Básica; Andreia Pereira – Produção Enológica; Anette Reintjes – Enfermagem Veterinária; João Löbe Guimarães – Jornalismo; e Joana Reis, de Higiene Oral), conforme noticia o semanário Alto Alentejo de 13.05.2015, pág. 5, e só lamentamos o facto de terem sido apenas cinco, e não vinte ou trinta como seria o ideal, porque tal significaria terem existido outros tantos alunos e alunas a preencher os critérios estipulados pelo ministério, em outros tantos cursos que o estabelecimento de ensino em causa ministraria com reconhecido sucesso e serventia social. Principalmente porque premiar os melhores é contribuir para melhorar a média dos demais, bem como apetrechar as comunidades onde estes alunos e estas alunas estão inseridos, e inseridas, com potencialidades/ferramentas significativas para o seu desenvolvimento social, humano, ambiental e económico. 

Sobretudo se lhe abrirem as portas para que ponham em prática (profissionalmente) o seu aprendizado, em vez de lhe invejarem o valor da bolsa que, por mais dois ou três tantos que fosse, nunca lhes pagariam o investimento em propinas e tempo, estudo e dedicação, que despenderam para consegui-las, ou de os exportarem para países estrangeiros como ultimamente tem acontecido, pois que esse sim seria um diploma de verdade e uma bolsa efetiva que lhes proporcionavam, e nos contemplaria também com uma autêntica valia favorecendo a intervenção ativa dos cidadãos e cidadãs, nas suas mais diversas formas de organização e autonomia, em prol do desenvolvimento, que tanta falta nos faz, numa capital de distrito a braços com a crescente desertificação, elevado envelhecimento populacional, fraca empregabilidade e incipiente tecido empresarial, baixo rendimento per capita e incaraterística contribuição para o PIB Regional. 

Porque essas é que devem ser as grandes preocupações das mesas de café e órgãos de comunicação do mesquinho burgo, onde o «que bom pra eles» vigora ainda sentenciando, porquanto são estas questões as que podem moldar o nosso presente e o nosso futuro, e que devem deixar o recatado remanso dos gabinetes da superficialidade do establishment político e administrativo, para vir a terreiro e em celebração de mais um Dia da Cidade onde se homenageia e elogia toda uma panóplia de inutilidades e insignificâncias como se fazia no tempo da outra senhora a quem "o botas" pôs a casa, e telefonia, para poder escutar os Serões Para Trabalhadores ou estanciar nos “equipamentos turísticos” da FNAT. Porque ainda não há ovo em pó que dê para fazer uma açorda de jeito, nem omelete comestível, por melhor que ele sirva qualquer doçaria… Ou há?!  



Joaquim Castanho        

5.11.2015

FUGIR AO TEMA



crónica da semana:

FUGIR AO TEMA


Confesso que o objetivo de hoje, por ser uma segunda-feira de rapapés, a que antigamente chamavam dia de sapateiro, logo atreito a muita martelada na sola, era o de escrever sobre cidadania. Mas meti baixa-ética, pelo que vou falar doutra coisa qualquer. O rendimento é subsuficiente, os amigos são uns batidos e o empreendedorismo, com as bases enunciadas, é pouco prometedor. Além do mais, os mecenas andam a treinar manguitos para estarem em forma nas próximas legislativas.

Porque há uma estrondosa diferença entre ser-se democrata e lutar-se pela democracia. E não é só conceptual: a segunda exclui a primeira, e esta não admite a segunda; ou seja, é totalmente adversa à imposição de algo superior sobre aquilo que é inferior. Aliás, quem lutar contra ou favor do quer que seja em termos e moldes democráticos, respeitando o adversário na sua dignidade e integridade, na sua diferença e nos seus direitos, liberdades e garantias, perde irremediavelmente e à partida, pois os adversários, que não são minimamente democratas, nem se sentem obrigados a respeitar as normas éticas da participação e da cidadania, vão utilizar essa vantagem competitiva a seu favor, deitando os democratas ao tapete por KO, e logo no primeiro round. Quero eu dizer, que ainda mal pusemos os butes no ringue eleitoral, e já malhámos com os costados no sobrado... Nas sondagens, no acesso aos órgãos de comunicação social, nas mesas de voto, onde só ficaremos representados quase por favor, e em muito diminuído número. 

Simplesmente, a democracia, é o conjunto de leis, instituições, regras de condutas e maneiras de estar democráticas, o que significa não-autoritárias, que um povo constituiu como desejáveis para se conduzir interna e externamente, quer no seu imo nacional como no relacionamento conjuntural e planetário sociopolítico. Ora, todos os partidos do espectro político e legislativo (com assento na Assembleia da República) português, são veteranos da luta pela democracia, exceto o Bloco de Esquerda, fundado há pouco tempo, e muito depois do 25 de Abril-MFA-Povo-Unido-Jamais-Será-Vencido, todavia empenhado intrinsecamente em seguir de perto o mais veterano deles todos, o PCP, cujas origens remontam à arqueologia da democracia portuguesa, ou aos primórdios da clandestinidade. Embrulhados que estamos no celofane europeu, não será fácil deteriorar-se nem ficar fora do prazo de validade, a democracia, tal e qual como a conhecemos, nas suas vertentes clássicas e de após II Grande Guerra. Pelo que, manter e querer usar a semiótica, discurso e estratégias de luta pela mesma, é autêntica manobra de diversão e de empata-progresso; no entanto, qualquer força política que pretenda confirmar-se legalmente democrática através de eleições, executando apenas as suas aptidões democráticas, sujeita-se a ser considerada intrusa e persona non grata nelas. O que é, suis generis, um handicap de notória significação para o efetivo esclarecimento dos resultados.

Enfim, essa ou essas forças (outsiders), vão ser uma espécie de povo judeu para os demais partidos do establishment, ainda hitlerianos, ainda autoritários, arreigados às lutas de barricada como de antimotim, que abdicarão de guerrear entre si e, ante a ameaça que vem de fora, as elegerão como inimigos número-um, e alvos abater, ou sob o desígnio (nacional) excomungáveis, nem que para isso tenham que fazer aumentar o abstencionismo. Como? Não cultivando a cidadania, a atitude democrática, a liberdade de expressão, o esclarecimento das bases, a participação ativa e consciente, a responsabilidade e emancipação populares. Bem como promovendo o ruído, o bairrismo fanático ou intensificando a toxicidade da propaganda. E, diga-se em abono da verdade, somos obrigados a reconhecer que estão a sair-se muitíssimo bem!

Chiça! Lá estou eu a fugir ao tema...   



Joaquim Castanho

5.10.2015

1984 na opinião de Aldous Huxley




“O 1984 de George Orwell constituía a projeção amplificada no futuro de um presente que continha o Estalinismo, e de um passado imediato que testemunhara a floração do nazismo. O Admirável Mundo Novo foi escrito antes da subida de Hitler ao poder supremo na Alemanha e quando o tirano russo ainda não compassara a sua marcha. Em 1931, o terrorismo sistemático ainda não era o fato obsessivo nosso contemporâneo que se havia tornado em 1948, e a ditadura futura do meu mundo imaginário era, em boa parte, menos brutal do que a futura ditadura tão brilhantemente descrita por Orwell. No contexto de 1948, 1984 parecia terrivelmente convincente. Mas, no fim de contas, os tiranos são mortais e as circunstâncias mudam. A recente evolução na Rússia, e avanços recentes no campo da ciência e da tecnologia retiraram ao livro de Orwell uma parte da sua horrenda verosimilhança. Uma guerra nuclear tiraria certamente todo o sentido às predições de qualquer pessoa. Mas, sustentando neste momento que as Grandes Potências podem abster-se algum tanto de nos destruírem, é lícito dizer que tudo se apresenta agora como se todas as vantagens pareçam mais a favor de algo como o Admirável Mundo Novo do que algo como 1984.

À luz do que apurámos recentemente acerca do comportamento animal, em geral, e sobre o comportamento humano, em particular, torna-se claro que o controlo do comportamento indesejável por intermédio do castigo é menos eficaz, no fim de contas, do que o controlo por meio do reforço do comportamento desejável mediante recompensas, e que o governo por meio do terror funciona, no conjunto, pior do que o governo  efetuado pela condução não-violenta do ambiente, das mulheres e das crianças, como indivíduos. A punição trava temporariamente o comportamento indesejável, mas não suprime definitivamente a tendência da vítima a sentir-se bem ao comportar-se desse modo. Além disso, os derivados psicofísicos do castigo podem ser justamente tão indesejáveis como os atos pelos quais um indivíduo foi castigado. A psicoterapia é largamente consagrada às consequências debilitantes ou antissociais das sanções sofridas no passado.

A sociedade descrita em 1984 é uma sociedade controlada quase exclusivamente pelo castigo. No mundo imaginário da minha própria fábula, o castigo não é frequente e é, de um modo geral, suave. O controlo quase perfeito exercido pelo governo é realizado pelo reforço sistemático de comportamento desejável, por numerosas espécies de manipulação quase não-violenta, tanto física como psicológica, e pela estandardização genética. As crianças geradas em proveta e o controlo centralizado da reprodução não são talvez impossíveis; mas é perfeitamente claro que, durante muito tempo ainda, continuaremos a ser uma espécie vivípara que se reproduz ao acaso. A estandardização genética com fins práticos pode ser posta de lado. Continuará a haver nas sociedades o controlo pós-natal – pela repressão, como no passado, e, numa extensão cada vez maior, pelos métodos mais eficazes da recompensa e da manipulação científica.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao Admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(pág. 17/18/19)

Para as minhas filhas com amor, de Pearl S. Buck




“A emoção, o sentimento, a perceção e o discernimento, são tudo formas de combustão baseadas na imutabilidade. Nada existe de novo debaixo do sol – afirmou há milhares de anos um velho sábio – e tal afirmação continua a ser tão verdadeira atualmente como então. O que hoje existe existiu sempre e sempre existirá na Terra: o que se altera é a forma, não a essência. É a essa essência aquilo que temos de aprender e de aceitar como verdade permanente antes de nos decidirmos a transformar o seu tipo de expressão. A essência é a verdade que uma geração passa a outra e que a nova geração tem que receber se se decidir a optar pelo progresso. Os cientistas conhecem perfeitamente este processo, pois cada um deles baseia a sua nova descoberta naquilo que outro cientista já aprendeu.”

In PEARL S. BUCK
Para as Minhas Filhas Com Amor
Trad. Virgínia Motta

(pág. 18)

5.09.2015

Huxey, e a democracia





“A sobrevivência da democracia depende da aptidão de grandes maiorias para fazerem escolhas de modo realista à luz de uma informação sólida. Uma ditadura, pelo contrário, mantém-se censurando ou deformando os factos, e apelando, não para a razão, não para o interesse próprio esclarecido, mas para a paixão e para o preconceito, para as poderosas «forças ocultas», como Hitler lhes chamava, presentes nas profundidades inconscientes de cada espírito humano.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes
(pág. 105)

Huxley e a cultura




“Qualquer cultura que, no interesse da eficiência ou em nome de qualquer dogma político ou religioso, procura estandardizar o indivíduo humano, comete um ultraje contra a natureza biológica do homem.”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes

(pág. 53)

A ANORMALIDADE DA NORMALIDADE



“(…) Como é que os indivíduos foram afetados pelos progressos técnicos dos anos recentes? Eis a resposta dada a esta interrogação por um filósofo-psiquiatra, Dr. Eric Fromm:

«A nossa sociedade ocidental contemporânea, a despeito do seu progresso material, intelectual e político, conduz cada vez menos à saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor do indivíduo; tende a transformá-lo num autómato que paga o seu fracasso humano com as doença mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um frenesim pelo trabalho e pelo chamado prazer.»

As nossas «doenças mentais cada vez mais frequentes» podem achar expressão em sintomas neuróticos. Estes sintomas são evidentes e extremamente perigosos. Mas, «guardemo-nos», diz o Dr. Fromm, «de definir a higiene mental como prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos inimigos, mas nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida, que porfiam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vítimas de doença mental encontram-se entre aqueles que parecem mais normais. «Muitos daqueles que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de existência, porque as suas vozes humanas foram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem lutam, ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico.» São normais, não no que pode chamar-se o sentido absoluto da palavra; são normais somente em relação a uma sociedade profundamente normal. O seu perfeito ajustamento a esta sociedade normal dá a medida da sua doença mental. Estes milhões de pessoas anormalmente normais que vivem sem ruído numa sociedade a que, se fossem seres plenamente humanos, não deveriam estar adaptados, ainda acariciam a «ilusão da individualidade», mas de facto foram em larga medida desinvidualizados. A sua conformidade está a evoluir para algo como a uniformidade. Mas, «uniformidade e liberdade são incompatíveis… O homem não está feito para ser um autómato, e se se transforma em autómato, a base da sua saúde mental está destruída.»”

In ALDOUS HUXLEY
Regresso ao admirável Mundo Novo
Trad. Rogério Fernandes

(págs. 50/51/52)

5.07.2015

PEARL S. BUCK




“Para mim, os seres humanos são pessoas a quem não pergunto qual o país de origem, nação, raça ou credo religioso. Todos nós somos o mesmo em toda a parte: criaturas nascidas neste mundo para nele estanciarmos por pouco tempo, vindos que somos do desconhecido a caminho do desconhecido.”

In PEARL S. BUCK
Para as Minhas Filhas Com Amor
Trad. Virgínia Motta
(pág. 15)

5.02.2015

RELÓGIO DE AREIA



O RELÓGIO DE AREIA

Está bem que se meça com a dura
sombra que uma coluna pelo estio
arroja ou com a água desse rio
em que Heráclito viu nossa loucura.

O tempo, já que ao tempo e que ao destino
se assemelham os dois: a imponderável
sombra diurna e o curso irrevogável
da água que prossegue o seu caminho.

Está bem, mas o tempo nos desertos
outra substância achou, branda e pesada,
ou parece ter sido imaginada
para medir o tempo dos defuntos.

Surge assim o alegórico instrumento
das gravuras de muitos dicionários,
a peça que os pardos antiquários
relegarão ao mundo pardacento.

JORGE LUIS BORGES


4.19.2015

OS MALAQUIAS, de Andréa del Fuego





“– Contei tudo, ele quer ver teu olho.
Maria falou de Nico para Dário, o pai. Ele adiantou os passos, vendo que a menina era peixe na rede. Com mais quatro filhas, era observador dos intervalos. Se houvesse ternura no olhar às seis da tarde, se o horizonte ultrapassasse a cerca do sítio, ele ia procurar a razão do feitiço. Maria contou de Nico num tom cerimonioso, não encontrou outro, e falando se ouviu entregue a uma união que nem mesmo havia nascido.”

In ANDRÉA DEL FUEGO
Os Malaquias
(pág. 39)

A COLÓNIA PENAL, de Franz Kafka


“– (…) O sistema deve poder funcionar doze horas seguidas; se surgirem algumas perturbações, serão mínimas e poderemos remediá-las imediatamente.
(pág. 11)
(…)
(…)
– Esta máquina, disse, segurando uma manivela à qual se encostou, esta máquina é uma invenção do nosso antigo comandante. Colaborei com ele logo desde os primeiros ensaios e participei em todos os seus trabalhos até ao fim. Mas o mérito da invenção só a ele pertence. Já ouviu falar do nosso antigo comandante? Não? Decerto que não exagero afirmando que toda a organização desta colónia é sua obra pessoal. Quando ele morreu, nós, os seus amigos, sabíamos já que era tão perfeita que o seu sucessor, mesmo que tivesse mil novos planos na cabeça, não poderia modificar-lhe nada, pelo menos nos tempos mais próximos. As nossas previsões verificaram-se, aliás; o novo comandante teve que inclinar-se perante os factos. É uma pena que não tenha conhecido o seu predecessor… mas, interrompeu-se, falo, falo, e a sua máquina está perante nós. Compõe-se, como vê, de três partes. Com o correr dos tempos elas receberam denominações, por assim dizer, populares; a parte de baixo, é a cama, a de cima, a desenhadora e a do meio, a que fica no ar, a grade de esterroar.
– A grade de esterroar? perguntou o viajante.
(pág. 11/12)
(…)
– (…) É à grade que cabe a verdadeira execução da sentença. “    
(pág. 15)

In FRANZ KAFKA
A Colónia Penal
Trad. Jorge de Lima Alves

apartado 44, 1982

4.15.2015

Perguntaram-me o que penso acerca das eleições? Ah! Então cá vai!



O LENHADOR E A MATA
Por JUSTINIANO JOSÉ DA ROCHA
(Imitadas de Esopo e La Fontaine)


Descuidando-se um dia, um lenhador quebrou o seu machado, e assim desarmado, deixou em sossego as árvores. Por fim, muito humilde e choroso, foi pedir-lhes que lhe emprestassem um galho, com que pudesse fazer um cabo para o seu machado, declarando que era o único recurso com que ganhava, suando e lidando, o parco alimento de sua numerosa família; dessem-lhe o precioso cabo e prometia não trabalhar mais nessa mata, e respeitar todas as suas árvores e arbustos; não lhe faltaria em que ocupar-se. Movidas de tanta dor e tanta súplica, confiadas em tão positiva promessa, até as árvores deram o pedido galho. E logo o lenhador pôs ao machado um cabo, novo e forte, e logo viçosos galhos, troncos robustos caíram ao afiado gume do machado, que pouco tempo deixou às árvores para chorarem arrependidas a sua crédula benignidade.


(MORALIDADE: Quantos se servem do benefício em dano imediato do benfeitor! Mas é de louco dar-lhe meios de continuar a fazer mal.)  

2.13.2015

TEM TINO, JUÍZO



TEM TINO, JUÍZO 

Entre o siso e o sizo a ortografia
Está apenas na mona de quem lê,
Que se o erro ao facto enuncia
Só temos que perguntar-nos «PORQUÊ?!»

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪ ƸӜƷ



Riram-se à minha custa
Mas ninguém sabe porquê,
Que onde a razão é à justa
Mingua o sizo, como se vê.

J Maria Castanho
ƸӜƷ ♫♪✿♣♦☀♫♪Ÿ♫♪ ✿♫♪☀♫♣♦♪ ƸӜƷ

2.11.2015

QUE DETALHES E PORMENORES HÁ-OS DESDE OS MAIS PEQUENOS AOS MAIORES

QUE DETALHES E PORMENORES, HÁ-OS PARA TODOS OS GOSTOS, DESDE OS MAIS PEQUENOS AOS MAIORES

«Grandes poderes, trazem grandes responsabilidades», disse o tio Ben a Peter Parker.

In O HOMEM ARANHA I


A única diferença plausível e observável entre cultura e propaganda, é que a primeira admite, integra e inclui a segunda, mas a propaganda exclui, estigmatiza e instrumentaliza a cultura. Sobretudo e por isso mesmo, se é já de si difícil perceber como funciona uma mente, ainda que das mais normais e pacatas, então avizinha-se hercúlea tarefa perceber a dum povo, mesmo que recheado de paz-d ’almas como é nosso, que é o conjunto – somatório e produto – de cada uma delas e o entrosamento de todas elas, formando essa amalgama de diversidade multicultural, que devia também ser integracionista mas prefere ser anárquica, a que chamam povo lusitano ou português. Contudo, não é: é simples: não funciona. Porque se funcionasse não estaríamos como estamos, não devíamos o que devemos, não haveria a corrupção que há; teríamos políticos honestos, frontais e competentes – e não temos. Nem resistiríamos às pequenas mudanças conforme resistimos, esperando ansiosamente uma grande e derradeira que nos salve ou nos atire definitivamente de pantanas, como sucedeu com D. Sebastião, o Encoberto, e Alcácer Quibir. Não nos oporíamos a repensar continuamente as nossas prioridades, nem faríamos orelhas moucas às sugestões e palpites do conhecimento universal acerca das alterações que temos de efetuar para melhorar a acuidade observativa, lucidez técnica e objetiva, disponibilidade mental e sentido prático, espontaneidade e eficácia de conduta. Ou seja, estaríamos dispostos e disponíveis para contribuir eficazmente para o desenvolvimento coletivo, aumento da qualidade de vida, garantir razoável sustentabilidade socioeconómica e máximo bem-estar, e não estamos. O que denota que essa resistência não é apenas resistência, mas incapacidade de nos adaptarmos a uma sociedade moderna e aberta, democrática e emancipada, consciente e responsável, insistindo teimosamente no modus operandi da teimosia infantil e explicitado sentimento de inferioridade caraterísticos da mentalidade provinciana e pacóvia que grassou, e grassa, de norte a sul, desde o tempo dos santacombadões do está tudo bem assim e não podia ser de outra maneira. Emperrou. Está atravancada de monos e trastes como estaria qualquer sótão arrumado por dez milhões de macacos à solta. Coisa que se nota principalmente nas periferias das cidades periféricas (ou do interior), onde a economia paralela floresce e prolifera, de forma escorreita e destemida, à vista de toda a gente, e sob o beneplácito e agradado olhar das autoridades, que se estão literalmente nas tintas prò assunto…

Fiscalização? Nem vê-la. Que estão escalmorrados contra o governo que lhe cortou nas mordomias e horas extraordinárias. E os populares? Bhhhaaa!... “Na terra do bom viver faz-se o que se vê fazer”, justificam-se, atirando o olhar para os exemplos que vêm de cima.

O governo que temos foi o governo que escolhemos (ter), e a esta altura do campeonato não vale a pena rabiar, uma vez que ele entrou na descida que antecede a reta da meta, e não é agora que se vai conseguir aquilo que não se conseguiu no apogeu do mandato, que é deitá-lo a baixo, ou fazer com que melhore o seu programa e a execução dele, pelo que falar contra a ação governativa e sua composição só lhe dará força, motivação e renovação de ideias, dando subscrição plena à sentença de que aquilo que não tem remédio, remediado está. Até porque se lhe esgotou a criatividade e imaginação, coisa que também tem limites mesmo para quem é perverso e maléfico, quer o reconheço, quer não, inclusive por se lhe haver secado a fonte de inspiração típica dos navegadores à vista da costa, que é a oposição, que entrou igualmente em crise de gestação e se encontra prestes a sentir as dores de parto, pela ameaça dos movimentos e novos alinhamentos políticos que se aprestam a abalroar o establishment ocidental (e ocidentalizado). Tanto por influências históricas judaico-cristãs, como pelas anglo-saxónicas do novo-mundo: via UEA, UE, China, India, Brasil, Canadá ou Austrália. E até da Islândia, que deu um pontapé no seu desregrado estado para rumar em direção à sustentabilidade, ao desenvolvimento e ao são convívio com a natureza, por mais vulcânica, ameaçadora, fria, agreste e exigente que ela seja.

Vai daí, contentamo-nos em prolongar o carnaval para além dos cinco dias que dita o entrudo, e assobiamos prò lado, alegrando-nos por saber que há ainda quem esteja pior do que nós, indo buscar felicidade à infelicidade alheia. Vemos no que deu o CHARLIE e não arriscamos. Vemos uns filmes. Assistimos em direto à entrega dos óscares. Desabafamos no futebol. Temos um fado sempre na grafonola digital. E um de cante alentejano próximo da máquina, que nos pode apetecer uma sesta. Fazemos zapping amiúde, e guardamos a genuína apreensão sobre o futuro para os analistas da meteorologia, que o pintam com avisos de curto prazo, desde o vermelho ao verde com amarelo das rosas repolhudas e amistosas. Podíamos tomar as rédeas ao destino, mas não tomamos, que isso dava-nos um grande poder. E um grande poder é um grande encargo, uma enorme responsabilidade, como dita o herói da pequenada a quem a teia teceu a segurança, o voo mas também o medo e o criancismo. A superstição. A vida tramada. E acomodamo-nos amuados.  

Bom… Mas AINDA temos a liberdade de expressão, se dirá. Não, não temos. Usufruímo-la, executamo-la porque veio/vem de fora, com a Internet. Senão andaríamos todos e todas a comer o pão por conta, ganho com a boca pequena, que é como reza quem se ajoelha por necessidade. E será que ela, a necessidade, depois de nos aguçar o engenho, começou também a burilar-nos o gosto? É caso para começar a ficar preocupados… É que para quem teme a mínima alteração ou mudança nos detalhes, com uma inversão tão radical, dava-lhe alguma coisa ruim. Oh, se dava!        


Joaquim Castanho

2.08.2015

EXIGIR FATURA É COMBATER A CRISE E AJUDAR A PAGAR A DÍVIDA

O que os alemães sabem acerca de nós e a troika não desconhece, é que se os portugueses quiserem saldar a dívida e cumprir com as suas obrigações podem fazê-lo, sem recorrer a austeridade excessiva nem aos atos sobre-humanos de que falou o Luís Vaz (de Camões), mais do que permite a força humana: basta que não contornem o fisco, se abstenham do mercado paralelo e instituam a honestidade e o civismo como normas de conduta diária. Que implementem a cultura da cidadania e da responsabilidade cívica. É pedir muito? Sobretudo depois de ter passado duas ou três décadas a fazer asneiras com o dinheiro “nacional”, a esbanjar por motivos eleitoralistas, a ser refém dum economicismo atávico e obreiro de inutilidades megalómanas? Penso que não. E todos e todas reconhecerão facilmente como de fato assim é. Ou, para evitar mal-entendidos gerados pelo acordo ortográfico, a que insistem resistir como se dum teste à próstata se tratasse, reiterarei que «todos e todas facilmente reconhecerão que de facto assim é.»

E as nossas “faturinhas” têm que entrar para o nosso processo fiscal, logo identificadas com o nosso número de contribuinte, e estar registadas no site e-fatura do Portal das Finanças, que deve ser atualizado continuamente, tendo cada qual a obrigação de verificar lá a sua presença e de chamar a atenção da autoridade tributária, num prazo razoável, coisa de dois ou três mezinhos, de que a empresa X ou Y, a quem nós comprámos isto ou aquilo, “ainda” não lhes enviou as ditas. Custa muito ajudar para que o nosso país nos ajude a melhorar de vida e estabelecer um crescimento sustentável? Melhore a sua performance fiscal e tributária? Custa muito não só fazer meninos e meninas mas também preparar-lhes um mundo coeso, seguro, honesto e saudável em que se possam também reproduzir? Claro que não custa, nem para os mais vadios, “subeficientes” e adoentados. Portanto… Acabem lá com as modas, que ser humano, participativo, democrático, simultaneamente europeu e português, exercer uma cidadania ativa e envolvida, não é nenhuma excentricidade nem handicap.

Gostar ou não dos partidos que estão no governo, não é desculpa para nada, principalmente para prejudicar os demais que, como nós mesmos e os nossos vizinhos e vizinhas, todos os dias dão no duro para garantir a sua independência e sustento. A responsabilidade cívica não é um dever só para os outros e outras. E a liberdade sem ela, sem a responsabilidade cívica, não é nenhuma modernice intelectualóide nem um radicalismo esquerdista ou acrático: é uma sacanagem simiesca. Além do que as despesas gerais familiares, de saúde, na educação, os encargos com imóveis e despesas com lares de 3.ª idade, bem como as faturas relativas às aquisições nos setores de atividade de alojamento e restauração, cabeleireiros e reparação automóvel e de motociclos e da habilitação ao sorteio Fatura da Sorte, são benefícios consagrados pela recentemente entrada em vigor informatização da fiscalidade e atividade económica.

E o fato de recebermos pouco, idem. Quem aufere um rendimento inferior, não significa que deve ficar à margem da ética e do civismo, mas antes demonstrar que está preparado para receber mais, e que se o recebesse cumpriria as suas obrigações fiscais com aprumo e galhardia, no respeito pelos demais e as regras da sociedade. As pessoas não se medem pelo que têm mas pelas atitudes que tomam. Nem pela aparência física, mas sim pelo comportamento e prática quotidiana na consideração e empatia de que são capazes pelos seus semelhantes. Estamos todos no mesmo barco, e todos podem fazer a sua parte para continuar a navegação. Quem tem muito contribui com muito, e quem tem pouco contribui com pouco ou mesmo com nada. E, como diz o povo, quem dá o que tem, a mais não é obrigado.

Estamos a mudar de era, e a do chicoespertismo trapaceiro do biscate e manhosice egoísta já se foi.


Joaquim Castanho          

2.06.2015


A CULTURA NUNCA PODE SER SECUNDÁRIA

Na Grécia do Tsipras (Alex, pròs amigos!), o organograma governamental apresenta quatro superministérios: A Educação, A Saúde, A Economia e A Cultura. Quatro aaaa como o óleo da Pima (já crescidinho). Essencialmente porque no entendimento grosseiro da coisa pública, o que ninguém conseguirá ignorar, uma economia de sucesso nunca poderá prescindir duma educação vigorosa e dinâmica, duma saúde musculada e flexível, nem duma cultura apta e abrangente, inovadora e ativa. Imaginativa e observativa. Sem o olhar crítico e envolvido desta última quaisquer outras valências ministeriais baterão com os burrinhos na lama, afundar-se-ão no tédio, no marasmo, na hipocrisia e na insustentabilidade, uma vez que foi sempre e em todo o lado – desde os impérios persa, egípcio, grego e romano (pelo menos) que recorreram à receita pra vingar e pereceram mal a abandonaram –, a única estratégia política plausível ante as contrariedades forjadas pela ausência de estabilidade orçamental, crescimento económico, oscilação dos mercados e capitais, fragilidade social. Mas sobretudo, se queremos que a economia não desperdice oportunidades de rendimento, a saúde não contraia agastes novos, a educação não se transforme num sorvedouro de talentos e mais-valias, mas sim, e antes, se implante como um veículo de excelência para conteúdos atuais e atualizados, interessantes e atraentes, ou capazes de se transformarem em agentes de progresso e desenvolvimento. E sustentabilidade.

Mas os gregos são antigos, muito mais antigos (coisa de três ou quatro mil anos) do que nós, que só nascemos há 900 anos e uns trocos. Somos uns gaiatos face a eles, e, por isso mesmo, não pensamos e metemos a cultura num desvão, com secretaria lá para os fundos do organograma governamental. E quem lucrou e lucra com isso? Os ingleses, os norte-americanos, os alemães, os franceses, os nórdicos e o mercado paralelo em geral. Porque não havendo cultura ninguém precisa de educação nem sabe prò que serve, pode haver saúde física mas a mental fica pelas ruas da amargura, e a economia é um calvário que todos e todas temos que subir com a Autoridade Tributária às costas.

Porque quando o processo de evolução de uma sociedade conservadora e gerontocrática, como a nossa, e também a europeia, principalmente na parte mais desenvolvida dela, é notoriamente lento, a mínima centelha de motivação, a mais pequena mudança nele, torna-se, evidentemente radical. Num lago parado a queda duma larada de passarinho provoca uma cadeia de pequenas ondas que se assemelha a um movimento tempestivo. Alterar as rotinas, como pedir fatura com número de contribuinte em todas as compras (e vendas), pode ser tão doloroso na atitude cultural dum povo, como a extração de um dente cariado num indivíduo: sabemos que não presta para nada, só nos causa dissabores e fealdade, é duma inutilidade inegável, podemos arrancá-lo sem a mínima dor, porém, deixará sempre um buraco no maxilar de onde o tirámos. E sentir-lhe-emos a falta durante algum tempo. Todavia, nenhum povo, nenhuma nação digna desse título, perde 45 mil milhões de euros em impostos num ano por acaso… E Portugal perdeu-os. Perdeu-os para a economia paralela, quando essa maquia, esse buraco, essa falta, era suficiente para saldarmos a nossa dívida à troika, e assim deixarmos de andar com uma das mãos à frente e outra atrás para tapar as misérias sociais que nos caraterizam. E porquê? Por falta de cultura. De cultura democrática. De cultura tributária. De cultura política. De cultura sanitária. De cultura social. De cultura educativa. De cultura económica e empresarial. De cultura financeira. De cultura cosmopolita. De cultura literária. E a saúde orçamental do próximo ano dar-nos-á notícia dela. E de como uma simples enfermidade se transformou num quisto cancerígeno para o qual ainda não foi inventada qualquer cura, antídoto ou vacina…

Portanto deixemos de cegarregas e de atirar areia pròs olhos do Zé-Povinho, que os gregos, não obstante terem uma dívida infindavelmente maior que a nossa, o que os obriga a pagar mais de 10 mil milhões de euros de juros anuais, e que monta a 315 mil milhões de euros ou 175 % do PIB, estão atualmente em melhores condições para saírem do aperto do que nós, a quem falta além das culturas enunciadas a do bom senso político e honestidade, que é coisa rara por cá, pelo menos desde os hermínios viriatos, tão apreciados pelos santacombadões do nosso contentamento e do tudo está bem assim. Mas tão bem, que até achamos normal ter uma cultura que mal chega a secretaria de Estado… Pudera!  

Joaquim Castanho     

La vida es un tango y el que no baila es un tonto

La vida es un tango y el que no baila es un tonto
Dos calhaus da memória ao empedernido dos tempos

Onde a liquidez da água livre

Onde a liquidez da água livre
Também pode alcançar o céu

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